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Tuesday, June 3, 2008

Bem-vindos!

Olá, caro visitante! este é um blog que criei para alojar na web os artigos que publiquei na coluna Reflexões de um Estudante do jornal cabo-verdiano Artiletra. Colocarei aqui online os artigos publicados até a edição imediatamente anterior à mais recente.

A última edição do artiletra nas bancas foi a nº 85, na qual publiquei o artigo RAP. Aqui no blog, portanto, estão disponíveis os artigos publicados nas edições 84 e anteriores.

Obrigado pela visita, e boa leitura!

Waldir

Anúncio (2008-06-03): Acabo de completar o processo de arquivamento de todos os meus artigos já publicados nesta coluna, desde o primeiro, em 2002. Levou algum tempo porque tive que re-digitar os artigos que por uma razão ou outra eu só tinha as versões em papel. É com prazer portanto que anuncio que o arquivo está agora COMPLETO e pode ser consultado para qualquer artigo já publicado por mim no Artiletra. Enjoy!

Posted by Waldir Pimenta in 18:21:23 | Permalink | Comments (2)

Friday, November 30, 2007

RAP

(Publicado no Artiletra nº 85, de Novembro/Dezembro de 2007)

Quando primeiramente me sugeriram escrever sobre poesia, a minha primeira reacção foi de retracção. Fiquei extremamente apreensivo e quase desconsiderei a ideia. Afinal, que sei eu de poesia? Eu que praticamente não leio poesia, e que apesar de ter feito uma ou duas incursões na escrita nesse campo, nada de jeito produzi…

Mas depois de uns dias a pensar esporadicamente no assunto, acabei por decidir tomar em mãos tal desafio, ao dar-me conta que afinal sei mais do que eu próprio pensava sobre poesia.

Ora, RAP porquê?, perguntam vocês. E com razão. Já devem andar fartos de – ou divertidos com – os meus títulos obscuros. Mas desta vez, decidi satisfazer a vossa curiosidade mais cedo. RAP (adiante rap, por questões de legibilidade) é para quem não sabe (poucos, presumo) um estilo musical de origem americana. E essa sigla significa, para quem não sabe (menos poucos, presumo) rythm and poetry. Ou seja, ritmo e poesia (por este prisma, poder-se-ia dizer que a tradução da expressão para português seria r.e.p., o que até estaria mais perto da pronúncia original da palavra inglesa…).

Mas o rap tem uma péssima conotação em termos de qualidade musical, principalmente quando nos movemos para esferas mais eruditas. E o facto é que os críticos do rap têm razão: a maior parte do rap que é produzido é de péssima qualidade, tanto em termos de melodia como em termos de letras. Mas atenção, o género em si não é susceptível dessas críticas. O verdadeiro problema é que o rap é um estilo cantado quase exclusivamente por gangsters (membros de gangs, ou seja bandos de rua) negros americanos (african-americans, como os americanos gostam de dizer). E esses gangs muitas vezes se envolvem em actividades criminosas envolvendo tráfico de drogas, prostituição e até assassínio. Por menor que seja a percentagem de rappers que realmente sigam esse caminho, marcas como essa mancham a inteira imagem do rap. Mas as críticas de qualidade musical também têm razão de ser: muito do rap que se ouve não tem ritmo/melodia apelativos a não-amantes do género (é por isso que prolíficos produtores de bons beats, como o dantes famoso Dr.Dre, que lançou o Eminem entre muitos outros, fazem tanto sucesso), e em relação à poesia limitam-se muitas vezes a encontrar rimas para todas os versos – por vezes de forma exagerada, o que resulta em canções risíveis.

Entretanto, há rappers que se destacam no meio da multidão de MCs (mic controller, ou seja, quem tem o microfone na mão – já que o rap amador muitas vezes é associado a competições de improvisação, como bem ilustra o filme “8 Mile”), e conseguem realmente produzir rap de boa qualidade musical – e poética. Desses, eu gostaria pessoalmente de destacar, no universo lusófono, Gabriel o Pensador, brasileiro, e Boss AC, cabo-verdiano residente em Portugal.

As suas músicas (não todas, obviamente – ninguém é perfeito…) têm letras não só rimadas mas com métrica que faz com que a própria leitura produza um ritmo (conhecedores de poesia estarão conscientes deste efeito), que é por sua vez acompanhado pelo beat e pela melodia que não são apenas uma sequencia de 4, 6 notas que se repetem pela música toda, mas sim acordes bem conseguidos e harmoniosos (não é à toa que o rap comercial e efémero use quase exclusivamente instrumentos electrónicos para produzir a sua melodia, enquanto muitas canções rap de maior qualidade baseiam-se em instrumentos acústicos como a guitarra). Um bom exemplo é o rapper 2 Pac, morto (como quem diz, assassinado) já há uns anos mas ainda respeitado como um dos maiores rappers de sempre, que, não surpreendentemente, estudou numa escola de música, apesar de pouca gente saber disso.

Mas o mais importante de tudo isto é a mensagem que a canção transmite. Enquanto Gabriel o Pensador, Boss AC e outros falam da condição humana, de política, de deus, do amor e fazem críticas sociais, os bubblegum rap (ou seja, o rap comercial, produzido para gerar hits instantâneos que se desvanecem pouco depois do panorama musica, tal como um balão de “chuinga”) têm como tema dominante dinheiro, mulheres (sexo, a bem, dizer) e violência. Isso se nota facilmente ao escutar alguns dos hits (sucessos) do momento, e mais ainda vendo os seus videoclips, nos quais abundam bundas desnudas (passe a redundância – eu sei, a figura de estilo neste caso é outra mas não me lembro do nome, vai esta para desenrascar que não é completamente descabida, hehe) dentes enfeitados a ouro – e mais recentemente a diamantes – enormes anéis de brilhantes, correntes de ouro ou prata (com medalhões tão grandes que admira não tornarem corcundas os seus donos), carros topo-de-gama, e maços de dinheiro a ser atirado como lixo. É uma cultura já tão intrínseca ao ambiente rap que poucos conseguem escapar dessa espiral.

Mas saindo um pouco do rap, o que eu queria transmitir (além de dar uma visão geral sobre o rap, mesmo não sendo um entendido na matéria) é que no fundo a poesia é musica, é ritmo. A rima é uma parte fundamental da poesia e não é por acaso. A métrica, a contagem das sílabas, a estrutura semi-simétrica de um soneto, todos estes elementos se unem para produzir um texto que não só transmite uma mensagem profunda (ou pelo menos é essa a intenção), mas também fazê-lo de forma a que as próprias palavras formem sons harmoniosos. É inegável que os humanos possuem um estranho fascínio pela música, que remonta aos rituais primitivos em que o ritmo cadenciado e as notas encadeadas (e provavelmente substâncias alucinogéneas) produziam um transe que, agradável por si só, era também útil para rituais de adivinhação, cura, reprodução. A poesia torna-se numa extensão natural dessa intrínseca receptividade ao ritmo e à música, e a poesia cantada é simplesmente uma forma ainda mais natural de a exprimir.

Posso assim concluir com a afirmação que, assumindo como universal o gosto pela música, existe em cada ser humano um amante da poesia.

Bom, o título rap também era abreviatura de artigo rápido e por isso revelei cedo o outro significado; mas pelo visto mais uma vez embalei-me nas palavras e acabei por escrever outra das minhas dissertações relativamente longas… diz-se que a perfeição se atinge não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada a retirar. Um dia chego lá. Ou perto…

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta in 02:02:20 | Permalink | Comments Off

Tuesday, July 31, 2007

Abaixo a esmola!

(Publicado no Artiletra nº 84, de Julho/Agosto de 2007)


Sim, título polémico, já sei. Mas como também já sabe quem me é fiel, eu já me explico.

Ora bem, o que quero realmente dizer com essa frase? Sim, sou contra a esmola (apesar de dar quando ma pedem – afinal não tenho um coração de ferro…), mas porquê a abomino?

Já ouviram certamente falar no ditado chinês que diz “Dá a um homem um peixe e alimentá-lo-ás por um dia. Ensina-lhe a pescar e alimentá-lo-ás pelo resto da vida.” Por esta altura presumo que a maioria dos leitores tenha percebido onde quero chegar. De facto, considero (e penso que isso é evidente) que esmolas têm um papel nocivo, já que apenas viciam as pessoas que delas precisam, sem nunca ter o potencial de lhes ajudar a sair do fundo do poço em que se encontram.

Tenho andado a ler (à velocidade lenta que os estudos me permitem) um livro do internacionalmente aclamado economista Jeffrey Sachs, chamado “O fim da pobreza”. No livro, ele desenvolve um conceito interessante sobre a pobreza crónica: a metáfora da escada do desenvolvimento. Segundo Sachs, que já trabalhou com inúmeros governos, dos quais muitos de países pobres, um país consegue escalar por si só a escada do desenvolvimento (considerando uma liderança incorrupta e estabilidade política mínima), a partir do momento em que coloca o “pé” no primeiro degrau da escada. Ora, acontece que para muitos países esse primeiro degrau está demasiado alto acima das suas cabeças para que o consigam alcançar. E muita da ajuda que recebem é remetida para a solução de problemas mais imediatos como guerra, fome ou doenças, pelo que não conseguem reunir capital suficiente para dar o salto e agarrar-se à escada.

Acontece que essa metáfora se aplica também a nível individual. Uma pessoa que pede esmola consegue arranjar uns trocos, mas vai sobrevivendo à base disso, não consegue extrair daí uma mais-valia que lhe permita sair do ciclo vicioso.

Nessa perspectiva, dar esmola é, mesmo sendo disfarçada de caridade e altruísmo, um acto de colaboração (ainda que inconsciente) com esse ciclo odioso. Tal como Cabo Verde tem que se livrar da dependência da ajuda externa para passar eficientemente ao grupo dos países de desenvolvimento médio, e para tal precisa do empurrãozinho que o grupo de transição tem apelado à comunidade internacional, também os pobres crónicos precisam dessa ajuda suplementar, essa mão que lhes ajude a subir para o primeiro degrau.

Mas como fazer isso? Cada um tenta ajudar dando a esmola que pode, afinal nós também precisamos do dinheiro para sobreviver, certo? Então, cabe ao governo dar essa tal ajuda especial aos pobres crónicos para os retirar do ciclo, certo? Bem, sim e não. Cito agora um exemplo de um homem cuja iniciativa lhe rendeu recentemente o Prémio Nobel da Paz: Muhammad Yunus, conhecido como “O banqueiro dos pobres” (cognome que também serve de título ao livro sobre o economista, o qual tenciono adquirir – assim que terminar de ler “O fim da pobreza” e “A pobreza das nações”… dois calhamaços, diga-se de passagem!).

Então o que fez Yunus? O economista, natural de uma zona pobre, decidiu fundar um banco especializado em micro-crédito, financiando iniciativas com empréstimos a uma escala que nenhum banco convencional se disporia a fazer. O sucesso da sua empreitada foi tanto que o banco Gramen lhe proporcionou o galardão que lhe deu reconhecimento internacional. Yunus tem efectivamente ajudado as pessoas pobres a sair do ciclo, dando-lhes o puxão que precisavam para atingir o primeiro degrau da escada. Prova do seu sucesso é o facto da taxa de retorno dos empréstimos ser superior a 98%!

Mas e nós, mortais comuns, que não temos o tempo, dinheiro ou conhecimentos para levar adiante iniciativas dessas? O que podemos fazer? Aqui vai uma ideia simples e eficiente: doem os vossos objectos usados. Roupa que já não serve, brinquedos, livros, mobília, coisas que de outro modo iriam para o lixo… doem-nas a instituições de caridade que tratarão de as distribuir por quem delas mais precisa (e que dessa forma poderá investir os seus ganhos em necessidades menos básicas, e mais a médio prazo). Três benefícios resultam desse tipo de acção: O benefício ambiental, por se reduzir a produção de lixo; O benefício económico, pela ajuda que se fornece às classes desfavorecidas; e, last but not least, o benefício emocional de se fazer o bem (aquele mesmo que nos move a dar esmolas).

Longe vai o tempo em que ter diferentes classes sociais era necessário à sobrevivência da sociedade. Cada vez mais, a tecnologia permite nos desfazermos dos trabalhos menos desejáveis, e assim em breve não haverá trabalhos que as pessoas farão por pura necessidade e falta de opção (varrer ruas, por exemplo, actividade inegavelmente ligada às classes pobres). Mortais comuns preocupados com os outros podem assim fazer a sua parte ao evitar dar esmolas (para não perpetrar o ciclo) e contribuindo de formas mais úteis: não só participando na actividade de instituições de caridade já estabelecidas, mas organizando, caso não as haja, campanhas de recolha de objectos usados – na sua cidade, no seu bairro, ou mesmo na sua casa;

É claro que não proponho uma mudança brusca: tal como a Cabo Verde foi cedida uma fase de transição ao PDM, (as ajudas orçamentais não são simplesmente cortadas sem mais nem menos), também não faria sentido que todos parássemos de dar esmolas de um dia para o outro. Todos nós, se já tentámos fazer uma mudança dos nossos hábitos, sabemos o quanto isso é easier said than done. Seria portanto injusto exigir que as vítimas do ciclo da pobreza dela saíssem de forma repentina. Mas uma mudança consciente dos nossos hábitos seria a longo prazo a maior ajuda que podíamos dar aos com que nos preocupamos. Cada pequeno gesto desses vale muito mais que uma moeda atirada ao chapéu de um mendigo.

Deixo-vos com um pensamento final, cuja autoria me é desconhecida, mas que transmite de forma elegantemente sucinta o espírito deste artigo:

“De nada vale tentar ajudar aqueles que não ajudam a si mesmos.”

Pensem nisso.

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Friday, June 15, 2007

O Paradoxo da Perfeição

(Publicado no Artiletra nº 83, de Junho de 2007)

O ser humano é um insatisfeito incorrigível. Só Deus mesmo, com a sua infinita paciência, para tentar nos agradar. Ou talvez, precisamente por nunca estarmos satisfeitos, ele não tente nos agradar de todo. Daí se dissipa o paradoxo da infinita bondade divina em coexistência com os males do mundo. Sem desígnios ocultos. Simplesmente, se não houvesse guerras, nem fome, nem morte, nós simplesmente iríamos reclamar das maçãs serem muito doces, ou de viver eternamente ser tão enfadonho.

A perfeição existe? Segundo a nossa própria natureza, somos forçados a admitir que não. E no entanto, perseguimo-la esperançosamente, como crianças atrás do fim do arco-íris. É como dizem: a felicidade não é um destino, é um caminho. Ao perseguir a felicidade, tornamo-nos infelizes por nunca a obter. Mas se pelo contrário, deixarmos de estar obcecados com essa ideia, ela muito provavelmente virá ter connosco. E não adianta tentar segurar, que ela foge como areia por entre os dedos! Outro ditado famoso diz que se realmente amamos uma pessoa, devemos deixá-la solta. Se ela voltar para nós, é porque nos ama em retorno. Se não, é porque nunca nos amou. Ok, não é bem assim na realidade (deixar solto, mas não muito, toda a gente gosta de se sentir desejada, e ciúmes moderados até são saudáveis nesse sentido), mas a frase ilustra o ponto em que eu queria chegar:

A felicidade não é um estado de êxtase puro, um lago estagnado, um nirvana cheirando a incenso. Na verdade, ser feliz não faz muito sentido: o ser humano tipicamente está feliz. Está-se feliz nalguns momentos, noutros não. Caso contrário, como poderíamos definir esse estado como felicidade? Nunca tendo que parar de respirar, como seria possível sentirmos o prazer do ar a entrar e a sair dos nossos pulmões? Fazemos isso o dia todo, a noite toda – incessantemente. No entanto, como descrever a sensação de sair de um longo mergulho e deixar o ar entrar nos pulmões? É como a saúde: só se sente a sua falta quando se perde. Isso se aplica a tudo, na verdade: Não damos valor ao que temos até o perdermos, e por outro lado, também não sabemos o que andámos a perder até o termos, reza um dizer anónimo.

A felicidade acaba sendo na verdade resultado de transições. Só sentimos frio por o calor ser sugado do nosso corpo (e por isso parece menos fria a toalha que a barra metálica, depois de um banho quente, já que a primeira absorve o nosso calor mais lentamente, embora esteja à mesmíssima temperatura que a barra de ferro ou os azulejos). Da mesma forma, só nos sentimos felizes ao passar de um estado menos agradável para outro mais agradável. Menos, agradável, mais agradável, dá a impressão que podemos subir a escada até chegarmos na perfeição, e aí este artigo é destronado. Desistam. Qualquer pessoa que já desfrutou de um banho de sol sabe que após certo tempo, entrar na água fresca é um prazer insubstituível. Tal como o é sair dela após algum tempo para regressar ao sol.

Nós abandonamos a estabilidade no momento em que saímos do ventre materno. A partir desse primeiro contraste, nos viciamos nessa droga e só conseguimos estar felizes com doses constantes de mudança, de contraste. Revolução. Tentativas já foram feitas de atingir sociedades perfeitas. Pfff, inútil. Além do facto de sermos todos diferentes impedir que se contente toda a gente, basta notar que somos inconformados de primeira para chegar à conclusão que mais tarde ou mais cedo alguém se rebelaria. A estabilidade conduz ao tédio e o tédio à procura de ruptura. De mudança. De contraste.

Paixão. Desejo. Amor. Porque é que há tantos desgostos amorosos? A verdade é que a grande maioria destes são desgostos passionais. A paixão é completamente diferente do amor. Existe amor recíproco, mas paixão recíproca é impossível por definição. Porquê? Porque a paixão nasce do desejo. Apaixonamo-nos pelo que desejamos. E só desejamos o que não temos. Quem nos ama, já é nosso, não podemos desejá-lo. Paixão e amor só coexistem em amores proibidos. Caso contrário, o fogo do desejo esbate-se no lume brando do afecto carinhoso, incondicional, confiante, cego às vezes. Claro, o desejo sexual ainda existe, mas esse não é um desejo no verdadeiro sentido do termo, é um instinto. Não o podemos negar, é a nossa natureza básica, e nos acompanha enquanto formos seres vivos sexualmente activos. Tal como comer. Tal como respirar. Mas somos mais que uma máquina, somos mais que os nossos instintos. Satisfazer os instintos é sobreviver. O que nos faz humanos é desejar mais. E desejar mesmo, só desejamos o que não temos.

Desejo. A palavra-chave. Ao obter o que desejamos, ficamos felizes. Tendo-o, não o desejamos mais. Podemos apreciá-lo, mas não o desejamos. E a placidez da contemplação, da apreciação esbate. Ter essa coisa nos dá prazer, mas não nos faz feliz. Não faz o nosso coração bater mais forte. Rever filmes de terror que nos faziam pular da cadeira há anos atrás, hoje mal nos sobressalta. Fomos nos habituando a doses maiores. Para atingir a felicidade, passamos então a desejar outra coisa. Para que a possamos perseguir sem a ter, e mergulhar em êxtase quando a conseguimos. Mesmo que não saibamos o que desejamos, desejamos a mudança. O anjo caído do paraíso não poderia ser mais humano: a perfeição, paradoxalmente, não era suficiente boa para ele.

O príncipe quer trocar de vida com o pobre, e vice-versa. Não há topo e fundo, não há bem e mal, apenas opostos. Yin e Yang. Talvez seja por isso que os males do mundo existem. Para nos dar a chance de sermos felizes, ao mudar as coisas, ao sermos mudados pelas coisas. Ou talvez, afinal, apenas sejam desígnios divinos ocultos. Quem sabe?…

 

Posted by Waldir Pimenta in 02:28:43 | Permalink | Comments (1) »

Friday, March 30, 2007

Um Declive Desajustado

(Publicado no Artiletra nº 82, de Março/Abril de 2007)

Olá, amigos, é um prazer estar de novo na vossa companhia!

Decerto devem estar curiosos sobre o tema que iremos abordar hoje, quanto mais não seja pela falta de clareza habitual (e propositada, heheh) dos títulos com que encabeço as nossas conversas…

Ora bem, fazendo jus ao nome da coluna, resolvi descer um pouco das divagações fantasiosas do costume e regressar, como aliás faço (ou tento fazer) periodicamente, ao tema do ensino.

Desta feita, gostava de partilhar convosco um diálogo que desenvolvi com um colega meu, cá na universidade. Estava eu a inquiri-lo sobre os seus progressos e eventuais dificuldades, ao que ele me responde que são maiores que no 12º. Eu replico logo que não obstante, o estudo em níveis mais avançados acaba por ser mais agradável, pois supostamente o estreitamento das áreas de estudo condiz com os interesses do estudante, que se sentiria potencialmente mais motivado para aprender.

Mas o meu colega discordou, dizendo que, pelo contrário, a cada ano que se avança a escola se torna menos prazerosa, e exemplifica com as recordações que todos temos dos anos anteriores aos que andamos a estudar, o que (mesmo tendo uma ponta do conhecido desvio cognitivo da psicologia humana de considerar melhor o que ainda (ou já) não se tem, em relação ao que se tem no momento) acaba por ter um fundo de verdade, pois por exemplo na primária recordamos com nostalgia os anos do jardim de infância, e no liceu acontece o mesmo em relação aos anos da primária. A esta altura, já eu começara a desvendar alguma diferença no conceito de “prazer de estudar” a que ambos nos referíamos. Na verdade, acabei por notar que ele se referia à maior quantidade de tempo livre que temos de início, ocupando as actividades extra-curriculares (brincadeiras com os colegas, a interacção social em geral) uma grande parte do nosso tempo na escola, o que de ano para ano diminui, acompanhado do crescimento gradual da dificuldade das matérias leccionadas, e consequentemente do esforço necessário para as adquirir. Por outro lado, eu me referia ao prazer específico do aprendizado, do estudo, do trabalho que se faz com gosto.

Pessoalmente, considerei sim cada ano lectivo mais difícil que o anterior, o que aliás é perfeitamente normal e esperado até, mas achei simultaneamente cada vez mais agradável o dever de me aplicar no estudo das disciplinas, pois a certa altura (a partir do 10º ano, mas significativamente quando se entra no 3º ciclo) se começa a escolher opções, o que nos permite aplicar em áreas do nosso interesse pessoal. Mas — e este é um grande mas — será que o aumento de dificuldade a que tanto eu como o meu colega nos referimos é suposto ser sentido com tal intensidade? É que se levarmos em conta que o nosso cérebro ao longo dos anos também se vai desenvolvendo e solidificando capacidades inatas e adquiridas de raciocínio e aquisição de conhecimentos, não deveria o aumento de dificuldade previsto a cada ano lectivo ser imperceptível, por se anular com este efeito? Ou seja: porque é que se sente com tanta clareza a cada vez maior dificuldade do estudo?

Um dos factores importantes a considerar é o facto de na tenra infância dispormos de um cérebro altamente maleável, que absorve conhecimento do mundo exterior como uma esponja. Apesar das fantásticas capacidades da nossa massa encefálica, não poderíamos por razões práticas continuar com o mesmo ritmo de aquisição de conhecimento pela vida afora. Isso se traduz numa maior dificuldade no aprendizado à medida que envelhecemos (o famoso caso do burro velho [que] não aprende línguas).

Outro factor a levar em consideração é que a tal especialização das áreas de estudo só é possível a partir, aproximadamente, do 10º ano de escolaridade. Ora, isso significa exactamente 10 anos a estudar um programa padrão e não adaptável aos interesses pessoais de cada um, que ainda por cima aumenta de dificuldade de ano para ano. Há, obviamente o argumento da não formação completa da personalidade até certa idade, o que faria com que o início da especialização não pudesse ser feito muito cedo, da mesma forma que se argumenta contra as tatuagens permanetes: podemos nos arrepender depois, e voltar atrás é muito mais trabalhoso.

Mas penso que a principal causa desta crescente dificuldade no aprendizado é na verdade um estudo pouco aprofundado da velocidade de evolução do cérebro humano, traduzindo-se num aumento desproporcional da complexidade das matérias de estudo, que até certo ponto na escala do percurso de ensino são fáceis “demais” (veja-se a facilidade com que se tiram vintes na primária — basta se esforçar minimamente), e depois começam a ganhar dificuldade a um ritmo maior que o da evolução média da inteligência humana. Uma transposição deste sistema para o campo geométrico se traduziria num gráfico com duas linhas inclinadas, mas cada uma com um declive diferente. Daí o título do artigo (e finalmente se desvenda o mistério desta edição). O ideal seria que as rectas tivessem o mesmo declive, ou seja, que fossem paralelas.

A situação real, claro, é mais elaborada. O aumento da complexidade do cérebro humano não é linear — aumenta cada vez mais lentamente, formando uma curva suave. O mesmo acontece provavelmente com o aumento da dificuldade do sistema de ensino, embora eu não disponha de dados que confirmem esta hipótese. De qualquer das formas, esbocei um gráfico que poderá ilustrar o que tento transmitir. Como se pode ver pela imagem, o desenvolvimento das capacidades do cérebro (a linha azul) começam a crescer desde o nascimento, e a partir dos 3 anos, aproximadamente o sistema escolar entra no gráfico (a linha vermelha), de início com um grau de complexidade inferior ao do “estudante”, mas crescendo progressivamente exigindo cada vez mais um esforço intelectual mais intenso.

Esta ilustração obviamente não é uma afirmação factual, mas antes uma interpretação pessoal do percurso académico médio, da forma como vivi o meu e pelo feedback dos meus colegas ao longo desse percurso. Mas penso que o senso comum permitirá que se afirme que a situação é real, e que se exige uma reformulação do sistema académico. Naturalmente, não sugiro um decréscimo na complexidade do ensino em níveis mais avançados — afinal de contas, estamos num mundo competitivo, e ao sair da universidade entra-se na selva do trabalho. Proponho, sim, um maior grau de exigência nos níveis iniciais, de modo a preparar os alunos para os desafios que se seguem adiante.

Mais ainda, proponho que o estudo se torne mais interactivo e personalizado, de forma a que cada aluno possa seguir ao seu próprio ritmo. Na era dos computadores, da internet, da wikipédia, é cada vez mais claro que o auto-didactismo se revela numa alternativa tentadora em relação ao padrão tradicional de aulas compassadas ao ritmo de um programa — somos todos iguais, mas todos diferentes também.

Não pensem que proponho o abandono da escola e a implantação do e-learning à distância exclusivo. Nego-o veementemente, por três razões: a primeira é a mais-valia imprescindível do mestre-professor, que não só serve de guia no caminho de aprendizado, como tem a função de transmitir valores de respeito, civismo, disciplina. A segunda razão, é a importância extrema do espaço físico da escola como catalisador de relações sociais, sem as quais o ser humano não completa a sua formação. Por último, temos que ter em conta a exigência de certos padrões (standards) que são inevitavelmente necessários a todas (ou quase) as profissões — como exemplos flagrantes, a matemática, o português. Portanto, não, não proponho uma anarquia educacional em que cada um aprende por si ao seu ritmo e nas áreas que lhe interessam. Defendo sim, uma fusão, ou melhor, uma evolução, do actual sistema educativo, por forma a abarcar formas mais maleáveis, interactivas e interessantes de aprendizado, resgatando assim o prazer de aprender e a curiosidade natural do ser humano, que infelizmente hoje acabam sendo hibernados, para não dizer mortos, face ao actual sistema educativo/conjuntura cultural.

Aliada essa transformação a um reajuste do acréscimo de dificuldade do percurso académico que torne a passagem dos anos mais natural e suave, é garantido que o êxito se venha a mostrar. E lembrando que uma sociedade instruída é o primeiro passo para a evolução geral da nossa condição, teremos nas mãos uma excelente oportunidade de darmos mais um passo na inexorável marcha do progresso.

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta in 13:07:02 | Permalink | Comments Off

Saturday, December 30, 2006

O Regresso dos que Nunca Foram

(Publicado no Artiletra, nºs 80, de Dezembro de 2006, e 81, de Janeiro de 2007)

Saudações natalícias, caríssimo leitor! Título estranho, não achas? Também eu, mas desconfio que se continuarmos lendo, mais abaixo havemos de compreender o porquê de tão insólita denominação para o presente artigo. Alinhas? Então adiante!

— o —

Antes de começar, devo referir que estive em Abril deste ano num encontro de estudantes africanos em Portugal, que se realizou no Porto, graças à iniciativa das associações de estudantes africanos do Porto e da fundação Portugal-África, encontro esse que não só foi excelente em organização, mas que acima de tudo produziu frutos notáveis, graças à divisão dos participantes em grupos de trabalho, que depois das palestras e debates, se reuniram para produzir vários documentos de recomendações, por forma a fornecer uma ponte que permitisse que as conclusões atingidas dentro do encontro possam “transbordar” para diversas entidades, e assim dar um maior sentido de utilidade e de rendimento ao encontro que de outro modo seria quase estanque (como aliás são muitos dos encontros, workshops — ou lá o que queiram chamá-los — que constantemente se realizam).

Dessas conclusões e recomendações daí provenientes, duas me chamaram particularmente a atenção, e com base nelas (v. referências em rodapé) dissertarei um pouco neste artigo acerca da epidémica Fuga de Cérebros que tem atingido o nosso amado arquipélago.

— o —

1. O que temos?

Ora bem, é do conhecimento de todos que a formação superior dos cabo-verdianos tem sido feita em grande parte no estrangeiro, devido à falta de recursos físicos, humanos e financeiros no país.

Impõe-se, obviamente, que a este ponto eu faça um aparte felicitando o fim dessa era e o início de uma nova, com a recente abertura da primeira universidade pública de Cabo Verde (Uni-CV), à qual desejo profundamente os meus mais sinceros votos de sucesso e de um longo futuro servindo à formação dos cabo-verdianos. Bem-haja!

Após a independência, os apoios de vários países amigos permitiram que fossem cedidas vagas aos estudantes cabo-verdianos finalistas do ensino secundário para que possam continuar os estudos e contribuir como indivíduos formados e capacitados, no desenvolvimento das mais diversas áreas da sociedade.

Esse foi um mal necessário, uma espécie de emigração temporária, visto que o desenvolvimento sustentado de qualquer sociedade pressupõe a existência de recursos humanos qualificados e em número suficiente – recursos esses que eram escassos, tanto diminuindo o ritmo potencial de crescimento, como contribuindo para elevados índices de desemprego, o que directa e indirectamente impedia as possibilidades de grande parte dos cidadãos nacionais terem uma vida digna;

No entanto, aconteceu frequentemente – e ainda acontece – que muitos desses casos de “emigração temporária” acabaram por se tornar em emigração permanente, fenómeno usualmente conhecido por fuga de cérebros – indivíduos que depois de formados num país que não o da origem, ao concluir a formação não retornam à terra natal, o que é um facto bastante grave, já que se traduz na perda de um investimento (e dos mais valiosos, que é o investimento em recursos humanos) por parte do país, como no enriquecimento da força de trabalho e do núcleo intelectual do país hospedeiro, que supostamente não tem tanta necessidade tanto como o país de origem, quanto mais não seja por oferecer melhores condições de formação (ou de trabalho, considerando os casos em que depois de concluída a formação o formando desloca-se para um terceiro país).

Tal fenómeno, terrível na sua natureza, pode entretanto ser explicado recorrendo a alguns argumentos, que têm um peso inegável:

  • A insuficiência de condições básicas (desde energia, saneamento, infra-estruturas) – o que tem diminuído, aos poucos, ao longo dos anos, tal como é esperado, aliás, de um país em desenvolvimento;
  • A fraca massificação das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC);
  • A frágil economia devido a um mercado não só pouco populoso como com fraco poder de compra na sua maioria.

Tais condições, entre várias outras, fazem com que se apresente pouco atractiva, dir-se-ia mesmo dissuasora, a perspectiva de regresso dos quadros, que procuram certamente uma boa qualidade de vida e oportunidades de desenvolvimento;

Além dessa situação que infelizmente é recorrente (e de certo modo devido a ela), temos ainda o caso dos profissionais estrangeiros, que são recrutados pelo país no âmbito de programas de cooperação internacionais com os seus parceiros de desenvolvimento, no sentido de se prover de quadros capacitados em áreas diversas, (por exemplo, médicos cubanos ou professores portugueses), por insuficiência de quadros cabo-verdianos nessas áreas em território nacional;

2. O que fazer?

Vamos antes sumariar o que já está a ser feito.

Uma medida que já foi posta em prática pelo Estado foi o desenvolvimento e aplicação de políticas de incentivo à iniciativa privada e o investimento no país pelos cidadãos nacionais residentes no estrangeiro, como a redução/eliminação de impostos aduaneiros no âmbito dessas iniciativas;

Já existentes, e sendo reforçadas com a recém-criada Universidade, temos as politicas de empregabilidade, nomeadamente, formação profissional intensiva.

Várias empresas já apostam na formação contínua dos seus funcionários (embora tal aconteça em casos pontuais e não de forma generalizada).

Há mais medidas já aplicadas neste âmbito, como é óbvio, mas não se pretende aqui elaborar uma lista extensiva. Passemos assim à enumeração do que pode ser feito:

  1. Que seja exercida uma forte acção sensibilizadora de todos os cidadãos e intervenientes no desenvolvimento de cada Estado com vista ao incremento da produção nacional, dos recursos internos e, consequentemente, dos salários;
  2. Que a sociedade civil participe activamente no desenvolvimento político, social e económica do país. Esse conceito foi aliás expresso num artigo recente desta coluna, “Wikificar a Sociedade”, o qual exorta o Estado a facilitar a criação e actividade de associações comunitárias;
  3. Ao Estado e aos empregadores privados que promovam a “reciclagem” e a progressão dos seus funcionários a nível da qualificação, exigindo constantes formações profissionais e académicas complementares, de modo a capacitá-los para melhor responderem às exigências de competitividade e da globalização; que sejam criadas e asseguradas regras de progressão na carreira, valorizando-se o mérito pessoal de cada quadro;
  4. Que sejam incentivados hábitos de rigor e disciplina nos vários sectores de trabalho, sobretudo ao nível dos serviços públicos, designadamente no que toca à supervisão do trabalho, às faltas e ao cumprimento dos horários, de modo a transmitir aos quadros confiança e incentivo à produtividade.
  5. Que seja fortemente incentivada e sensibilizada a comunidade intelectual cabo-verdiana para a necessidade da integração de quadros formados na comunidade docente da Uni-CV, já havendo nela programas de capacitação para ensino – mestrados, doutoramentos, formação pedagógica, entre outros.

Postas firmemente em prática, estas medidas certamente incentivariam a comunidade de quadros no exterior a mais frequentemente regressar – e recordando que o mornamente saudoso cabo-verdiano guarda sempre esse pequeno arquipélago no coração, esse regresso seria, efectivamente, o regresso dos que nunca foram – pelo menos, em mente…

3. Por outro lado…

Por outro lado, temos que olhar para o reverso da moeda. Será que a fuga de cérebros é um fenómeno exclusivamente negativo?

Considerando que precisamente o potencial que podem desenvolver os quadros cabo-verdianos integrados em mercados de trabalho estrangeiros pode lhes permitir desempenhar um papel importante no apoio ao desenvolvimento dos seus países de origem, pode-se começar a olhar com outros olhos para esta questão. Vejamos alguns factos:

É significativo o número de quadros cabo-verdianos integrados em diversos países, muitas vezes vivendo na mesma comunidade, e consequentemente mais unidos; tendo em conta o compromisso moral destes para com o seu país, tanto porque as suas formações foram sustentadas/possibilitadas pelo Estado, como pelo forte laço de união e identidade cabo-verdiana que caracteriza a nossa diáspora, podemos dizer que a assim chamada décima ilha habitada de Cabo Verde é efectivamente uma comunidade de pessoas que emigraram dos seus países, mas que na alma nunca saíram de Cabo Verde.

Devido às facilidades e maior potencial de desenvolvimento já acima mencionados, estas comunidades terão assim férteis bases para se organizarem e executarem as mais variadas iniciativas, congregando apoios tanto de instituições nos países de acolhimento, como de organismos internacionais;

Por outro lado, o cabo-verdiano, frequentemente conhecido no estrangeiro pela sua excelência e espírito trabalhador, poderá ter um importante papel e influência no seio das instituições e empresas onde estão integrados nos países de acolhimento.

Tendo ainda em conta a responsabilidade do governo cabo-verdiano de não desperdiçar esse potencial dos quadros integrados no estrangeiro para o apoio ao desenvolvimento do seu país, é mais que oportuno ressaltar a importância de iniciativas que vêm sendo tomadas (ou devem ser tomadas) de modo a prover os quadros no exterior de meios de saldar a sua dívida emocional com a pátria:

  1. A disseminação e massificação da criação de associações (estruturas legais organizadas, apartidárias e sem fins lucrativos) pelas comunidades emigradas, com o objectivo de:
    1. Reflectir sobre os problemas dos seus países de origem e estratégias de resoluções destes em cooperação com o governo, e obviamente, aplicá-las (por exemplo parcerias com entidades locais ou a execução de campanhas sazonais na respectiva comunidade, para apoio de associações comunitárias, escolas, fundações e instituições sociais em Cabo Verde).
    2. Orientar e integrar os emigrantes promovendo o seu sucesso e assim possibilitando o seu contributo para o desenvolvimento do país, em forma de investimento pessoal ou colectivo nas suas áreas de formação em Cabo Verde; apoiar a criação de projectos de investimento.
    3. Promover a mentalidade de, individualmente, os quadros incentivarem as suas empresas ou instituições de trabalho, de forma a investirem em Cabo Verde, empenhando-se na demonstração das potencialidades do país, e/ou sensibilizarem das suas instituições de trabalho a estabelecer parcerias com as instituições congéneres cabo-verdianas.
    4. Realizar encontros ou jornadas de alteração de consciência nos seus países sobre varias matérias, como a democracia, saúde, educação, e outras, através de ciclos de palestras e debates, programas de rádio e televisão, etc.
  2. O estabelecimento, pelo Estado cabo-verdiano, de políticas claras de cooperação com a diáspora, através de:
    1. Criação de um gabinete próprio para a questão dos quadros integrados na diáspora, promovendo levantamentos estatísticos, destacando as suas localizações, situações sócio-económica e profissional, para melhor entendimento e sensibilização e aproveitamento das suas potencialidades.
    2. Estímulo a participação dos quadros integrados na busca de soluções para os vários problemas que afligem o país, através de estreitamento de relações entre as suas entidades representativas nos países de emigração (embaixadas, consulados) e todo o tipo de associações, e estas com os quadros integrados. Isso poderia ser feito, por exemplo, com a promoção de reuniões periódicas de concertação. E em caso de não existirem essas organizações formadas, apoiar a criação das mesmas.
    3. Estabelecimento de parcerias ou diálogos com os governos e instituições dos países de acolhimento, no sentido destes facilitarem tanto o surgimento/crescimento de iniciativas locais, como a mobilidade dos quadros integrados para execução/extensão das mais diversas iniciativas em Cabo Verde.
  3. A receptividade dos governos e empresas dos países acolhedores de quadros cabo-verdianos às iniciativas dos mesmos, para o apoio ao desenvolvimento de Cabo Verde, tendo em conta eventuais laços históricos e de proximidade sócio-cultural.

Tal como afirmei acima, é certo que muitas ou se calhar todas estas iniciativas já estão a ser levadas a cabo; mas a meu ver a conjuntura actual carece de uma estratégia global mais sólida que una as pontas todas do novelo (isto é, englobe todas as entidades e individualidades envolvidas, para não unilateralizar demasiado as iniciativas) e forme um feixe que, esse sim, será mais forte que a soma dos seus elementos. Em tempos festivos, de espírito de união e fraternidade, nada mais oportuno que a sugestão de congregação e cooperação, quanto mais não seja para condizer com o ambiente da época!

Feliz Natal e Bom Ano Novo a todos!

Referências:

1) Formas de incentivo ao regresso dos quadros
2) Contributo dos Quadros Africanos Integrados nos Países de Acolhimento Para o Desenvolvimento de África

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Thursday, November 30, 2006

O Trabalho Desdignifica o Homem (?)

(Publicado no Artiletra nº 79, de Novembro/Dezembro de 2006)

Uma das perguntas mais difíceis de se responder é o quanto vale o trabalho de uma pessoa. O senso comum diz-nos que alguém que estuda muitos anos para aprender o seu ofício merece ganhar mais que outro que esteve esse tempo a trabalhar, ganhando dinheiro e experiência. No entanto médicos e professores são muitas vezes mal pagos, enquanto empresários autodidactas montam um negócio e fazem sucesso financeiro. Por outro lado também percebemos que um mineiro ou bombeiro têm trabalhos fisicamente esgotantes e perigosos, e que também deveriam ser recompensados pelos riscos que correm. E no entanto, mais uma vez, na escala de salários aparecem abaixo de empregos chamados “de colarinho”, em que pessoas de fato e gravata ganham dinheiro “sentadas” como por vezes se diz. Há ainda o caso dos operadores de fábrica, varredores de rua, etc., cujo trabalho é desgastante por ser repetitivo, e ainda assim recebem salários míseros. Isto tudo não parece fazer muito sentido. Estará o nosso senso comum viciado de alguma forma? Será o sistema de mercado capitalista injusto? De qualquer das formas, haverá sempre trabalhos mais bem pagos que outros, portanto uma análise mais aprofundada é necessária para uma visão mais concreta do sistema.

Assim, tentemos categorizar os trabalhos em dois eixos principais.

Para começar, há o eixo da criatividade. Os trabalhos podem variar de extremamente rotineiros, que exigindo ou não do físico do trabalhador, acabam por causar extremo dano psicológico, causando desmotivação e de certa forma “enferrujando” o cérebro (O cérebro humano é como um músculo, precisa ser constantemente trabalhado para se manter em forma. É assim até certo ponto correcto dizer que trabalhos monótonos e repetitivos como que adormecem o cérebro das pessoas, por falta de uso) a extremamente criativos, como os artísticos: escritores, pintores, realizadores, actores, todos eles conseguem de facto gostar do seu trabalho por aplicarem nele a própria característica que faz de nós humanos: a imaginação e criatividade. Trabalhos desse tipo são frequentemente chamados trabalhos vocacionais, e havendo essa recompensa psicológica de se satisfazer com o próprio acto de trabalhar, torna-se mais aceitável que recebam menos. No entanto, acontece o contrário: músicos, actores, ou mesmo empresários (cujo trabalho de gestão não é tão criativo mas exige inovação e estratégia, pelo que se enquadra nesta categoria) de sucesso ganham milhares e milhões. É certo que apenas uma minoria destes perfaz estas somas. Mas já se ouviu falar de alguém que ficou milionário sendo pedreiro?

Em segundo lugar, temos o eixo da utilidade. Ninguém pode negar que uma enfermeira ou um polícia tem um trabalho muito mais útil à sociedade do que, digamos um perfumista ou um vendedor de carros em segunda mão! No entanto, mais uma vez se verifica uma discrepância nos salários, por vezes alarmante… obviamente, uma padronização deste eixo para uma classificação dos trabalhos segundo a sua utilidade social implicaria a definição prévia de uma tábua de valores, por exemplo vida > saúde > conhecimento > conforto > diversão. Isso no entanto é bastante subjectivo e pode promover discussões acesas. É óbvio que todas as profissões têm a sua utilidade; trata-se apenas de evitar desequilíbrios indubitáveis.

Há outros factores influenciariam o valor das profissões, mas poderíamos associá-los a um dos eixos. Por exemplo, o perigo que alguns trabalhos comporta para o trabalhador é contraposto pela responsabilidade dos trabalhos de colarinho que não têm a sua própria vida/integridade/estabilidade social em mãos, mas a de outros (geralmente, muitos). Também a vantagem das actividades empíricas em relação às académicas referida no primeiro parágrafo poderia ser contraposta no outro sentido, já que através de uma formação académica se pode obter uma visão mais geral das potencialidades da área, permitindo um crescimento além dos horizontes de quem não estudou aprofundadamente a especialidade em questão). Estes semi-eixos apresentados se enquadram no eixo da criatividade, não sendo desnecessário referir quais das respectivas pontas se ajustariam aos terminais “repetitivo” e “criativo” desse eixo.

Devo a este ponto confessar que após alguma investigação, quase desisti de escrever este artigo a meio, tendo-me deparado com tanto material já desenvolvido por economistas a respeito da teoria do valor-trabalho (Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx… que querem, não estudei economia no liceu!). Inteirar-me de todos no mínimo não me deixaria terminar o artigo… mas prometo que volto a pegar no tema com mais background (E além disso uma visão leiga muitas vezes pode vislumbrar detalhes que escapam a entendidos).

Continuando: a minha convicção é que, no entanto, o constante desenvolvimento da tecnologia e a resultante diminuição dos seus custos de produção, no futuro robots tomariam conta dos trabalhos repetitivos, que podem ser facilmente programados sem a necessidade de inteligência artificial elaborada. A esse ponto, todos os trabalhos restantes para humanos acabariam por ser criativos, e assim o homem poderia realmente trabalhar no que lhe faz usar o que lhe faz ser homem: a inteligência, a criatividade, as emoções. Quem disse que o trabalho dignifica o homem? Realizar rotinas “cérebro-degradantes” como apertar parafusos ou varrer o chão é negar a sua natureza humana. Trabalhos repetitivos desdignificam o homem, sim.

À laia de conclusão: quem sabe, com as pessoas tendo prazer no que fazem, tendo trabalhos e não apenas empregos, possamos deixar de cobrar à sociedade o trabalho que lhes prestamos? Afinal, estamos a ser indemnizados por quê, se gostamos do que fazemos? Se ninguém cobrasse o seu trabalho, nem sequer precisávamos de dinheiro para nada, já que os serviços nos seriam oferecidos de graça; e os produtos, os recursos, a matéria-prima, esses existem na Terra mais que suficientes para satisfazer toda a nossa espécie… não havendo a pressão de um mercado em que temos que fazer dinheiro para sobreviver, a exploração desenfreada (e consequentes desperdício e má distribuição, causa da pobreza) cessaria… e viveríamos felizes para sempre!!!

Ok, ok, eu estava a brincar… fui um pouco utópico neste ultimo parágrafo, mas sonhar um pouco de vez em quando não faz mal… pensem nisso. Até à próxima, meus caros!

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Monday, October 30, 2006

Wikificar a Sociedade

(Publicado no Artiletra nº 78, de Outubro/Novembro de 2006)

Caríssimo leitor:

1. Introdução à Wikificação

É com imenso prazer que retorno à tua companhia, para conversarmos mais um pouco vagueando pelas nuances reflexivas nas quais a mente humana se debruça…

O título deste artigo pode parecer estranho, para os que nunca ouviram falar em wikis (coisa que aos poucos se vai tornando raro acontecer…). Farei um pequeno resumo dessa filosofia.

“Wiki” deriva de uma palavra havaiana que significa “rápido”. Foi usada pelo programador Ward Cunningham para cunhar um software que desenvolveu que permite aos visitantes de um site na internet o alterarem em tempo real, criando assim uma intensa interactividade antes desconhecida na internet.

Essa forma de geração de conteúdos em breve viria a tornar-se extremamente popular, ultrapassando vários sites tradicionais de conteúdo gerido por webmasters e editores.

O exemplo mais famoso, o Wikipédia, é nada mais nada menos que uma enciclopédia online cujos artigos são criados, editados, corrigidos e aumentados pelos seus próprios leitores. Qualquer visitante do site pode, a qualquer momento, acrescentar informação que disponha e que não esteja já na página, ou refrasear/reestruturar a informação já existente para a tornar mais legível e compreensível.

Tal parece ser uma forma muito estranha de se trabalhar. E o vandalismo? E se alguém maliciosamente apagar texto que foi laboriosamente elaborado e introduzido por outros leitores bem-intencionados? Ou pior, e se alguém deturpar essa informação para fornecer dados incorrectos?

O sucesso do Wikipédia seria o suficiente para dissipar qualquer dúvida sobre a eficiência do modelo wiki. Mas uma explicação simples é que a existência de um histórico de cada página permite a fácil reversão de vandalismos por qualquer leitor que detecte a anomalia. Centenas de administradores, todos voluntários, monitoram as inúmeras edições feitas constantemente, e em caso de vandalismo repetido, o artigo em questão é bloqueado para edições por anónimos ou utilizadores recém-criados durante algum tempo. O facto é que para a grande maioria dos temas, o gozo do vandalismo facilmente desiste contra a persistência dos editores bem-intencionados.

(Eu sugeria que tu, leitor, visitasses a Wikipédia e procurasses artigos referentes a Cabo Verde – estará aí alguma informação sobre a tua cidade, a tua vila, a tua povoação? o artigo respectivo não diz quase nada? experimenta acrescentar alguma informação…)

O Wikipédia ganhou terreno às outras enciclopédias online (muitas de grande prestígio, como a Brittannica), e análises aprofundadas de várias entidades (como a revista científica Nature) provaram que o seu grau de precisão científica e factual pouco deixa a desejar em relação a estas enciclopédias tradicionais.

A filosofia wiki – que representa a transição de um modelo conteúdo editorial (de um editor/especialista para o público) para um conteúdo auto-construído (dos utilizadores para os utilizadores) tem-se alastrado a várias áreas da sociedade moderna, e não só no mundo virtual da internet e dos computadores (onde, aliás, proliferam exemplos bem-sucedidos como o YouTube, o RottenTomatoes, o del.icio.us, o freeware/open-source, etc.).

Também no mundo “real”, onde temos, por exemplo, a expansão do jornalismo amador através da blogosfera, sendo que os próprios jornais tradicionais têm vindo a integrar colunas ou mesmo páginas inteiras dedicadas a blogs (espécie de diário online) populares ou onde publicam textos que os seus leitores escrevem no blog do próprio jornal.

Temos ainda o florescente wikimanagement, um sistema de gestão de empresas que usa o formato wiki para comunicação entre os seus elementos, evitando a distribuição de emails, relatórios para trás e para a frente, reduzindo assim drasticamente o tempo de comunicação na empresa, aumentando a performance e democratizando a estrutura, motivando os subordinados ao realçar a relevância da participação de todos e cada um dos funcionários.

2. Como wikificar a sociedade

Os olhares mais atentos notarão que se está a dar uma verdadeira revolução no domínio da informação: estamos a passar de um modelo elitista, em que um pequeno grupo de produtores de informação cria conteúdo para ser absorvido por um grande número de consumidores de informação, para um modelo verdadeiramente democrático, no qual todos podem produzir informação, sendo simultaneamente produtores e consumidores.

Mas e o lixo? A informação incorrecta, incompleta ou deturpada?, perguntará o mais céptico. Mas se repararmos, da mesma maneira que, com o boom da internet e da facilidade de criação de páginas, surgiram ferramentas que permitissem seleccionar o trigo do joio e encontrar exactamente o que procuramos – e estou a falar dos motores de busca, como o Google – , também para cada ambiente em que seja aplicada a criação de conteúdo pelos próprios utilizadores, ferramentas apropriadas irão surgir (e, na maior parte dos casos, já surgiram) que permitam o uso eficiente desse universo de criações – não fosse cada ser humano um mundo em si, com capacidades criativas potencialmente imensuráveis.

Seria o tempo agora de os mais visionários começarem a pensar em estender esse modelo de participação colectiva a outras áreas – áreas mais directamente relacionadas com o dia-a-dia das nossas sociedades. Falo da implementação de uma sociedade colaborativa.

Ora bem, o que significaria isso? Seguindo o modelo wiki conforme descrito acima, diríamos que se trata de estabelecer uma forma de gestão das nossas comunidades que fosse menos elitista e mais participativa. Uma análise afiada diria que estou a sugerir a abolição do governo e a implementação da anarquia. No entanto, penso que com uma estratégia de empower the people (dar poderes ao povo) o Governo só teria a ganhar.

Nota-se (e já o referi várias vezes) uma extrema dificuldade e excessiva burocracia na criação e reconhecimento legal de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e Associações de fins não lucrativos. Só os mais persistentes chegam com sucesso ao fim desse processo moroso e desgastante fisica, psicológica e financeiramente. E o que resta das melhores intenções iniciais, acaba por ser quase sempre cortado pela extrema dificuldade de angariação de fundos para a realização das obras propostas. Um enorme potencial colaborativo fica assim reduzido a meia dúzia de associações comunitárias que, andando na corda bamba, lá vão ajudando a melhorar a sua comunidade local, enriquecendo-a material e intelectualmente.

Vi recentemente na televisão uma notícia referente a um projecto do governo português chamado Empresa na Hora, que promete permitir a criação imediata de uma empresa num período tão curto como duas horas, sem passar pelo longo e burocrático processo de obtenção e envio de vários documentos entre as repartições oficiais.

E eu digo: porque não um programa semelhante para as ONGs? É que, havendo interesse por parte das pessoas em colaborar no desenvolvimento da sua comunidade, porque não haveria o Estado de facilitar-lhes a tarefa? Mais não estariam a fazer que facilitar-lhe o próprio trabalho! E agir em pequena escala tem várias vantagens: não são necessários orçamentos exorbitantes (já que uma organização local não seria criticada por se dedicar mais a uma zona que a outras, quando essa zona é a sua própria!); os casos individuais poderiam ser tratados com mais diferenciamento, dependendo da gravidade da situação; uma hierarquia menos imponente favoreceria o contacto e a proximidade com a população, permitindo ter um feedback das acções levadas a cabo e receber sugestões; uma organização mais pequena seria mais fácil de gerir e portanto muito mais ágil.

Com medidas incentivadoras do associativismo e da participação comunitária e do civismo, certamente se massificaria essa prática, o que quiçá poderia levar à criação de uma nova classe, também autónoma (Governo Central > Municípios > Associações Comunitárias) na hierarquia de poder, tornando-a mais democrática e mais próxima do povo.

Uma federação nacional de ONG’s locais, tal como a Associação Nacional de Municípios, poderia agregar essas associações e efectuar a homogenização e o intercâmbio de projectos bem-sucedidos para os multiplicar, bem como a disseminação de conhecimentos empíricos adquiridos por algumas dessas associações de forma a que se evite a comissão dos mesmos erros, o que não seria possível se trabalhassem isoladamente.

Estaríamos assim, sem dúvida, um passo mais à frente no caminho da total e efectiva democratização da sociedade. One small step, one giant leap, on the route of democracy!

Posted by Waldir Pimenta in 22:14:55 | Permalink | Comments Off

Tuesday, May 30, 2006

Teoria da Popularidade

(Publicado no Artiletra nº 77, de Maio/Junho de 2006)

Tenho reparado ao longo da minha vida que a sociedade tende a reprimir diferenças entre os seus indivíduos. Reflectindo a insegurança e egoísmo naturalmente humanos, é esperado que as pessoas sejam todas do mesmo nível. Ok, isto foi um eufemismo: na verdade o que as pessoas querem é que todos os outros sejam iguais ou inferiores a elas próprias. De preferência inferiores.

Ora como isto não é obviamente possível, pois cada desigualdade tem dois lados, o de cima e o de baixo, a solução de compromisso para uma convivência pacífica entre os elementos de uma comunidade é serem todos iguais. Daí o sucesso dos fenómenos das massas, das modas, etc.

Estes fenómenos são interessantes, pois é precisamente o desejo de se destacar que faz com que as pessoas adiram à iniciativa de um indivíduo ou grupo que ousou quebrar a rotina. E é precisamente essa aderência em massa que faz com que as modas se espalhem, fazendo com que a iniciativa em questão se torne tão comum que quem se destaca muitas vezes são os que não aderem à moda, em vez do contrário.

Posto isto, e entrando no tema específico deste artigo, podemos dar um exemplo simples de como essa inércia social para a igualdade funciona: é inegável que a inteligência e a cultura geral são características consideradas positivas pela sociedade. No entanto, verifica-se que as pessoas que se destacam nesses campos acabam sempre por ser um pouco postas de lado, discriminadas, na prática. Portanto, uma reacção negativa.

Paradoxo?

Claro que não: basta notar que as outras modas são de aquisição mais ou menos fácil. Ou requerem dinheiro (o que cria as classes sociais, sendo no entanto algo homogéneas internamente), ou então, prática, treino. Coisa que muitas vezes é executada de forma divertida ou prazerosa. Vejamos alguns exemplos de características consideradas positivas e com adesão em massa:
- Desporto: um desportista exímio é sempre admirado (nem que seja pela sua forma física…)
- Música e Dança: a música exerce uma influência por vezes quase hipnótica no espírito humano, e regra geral agrada a todos.
- Moda: vestir-se bem (ou pouco…) reflecte bom gosto, e faz uso da atracção (inconsciente ou não) dos humanos por acessórios e enfeites.
- Sexo: mais instintos: é visível que as pessoas que emanam sexualidade atraem as outras (mesmo que isso implique serem playboys – ou “playgirls”)
- Dinheiro: o sucesso do capitalismo baseia-se na premissa que qualquer pobre diabo se pode tornar multi-milionário.

Todas estas áreas são algo acessíveis. Com pouco esforço e de forma geralmente agradável, pode-se aderir a uma ou mais delas. E é o que acontece, muitas vezes: inconscientemente admiramos pessoas que dominem esses campos. Melhor dizendo: invejamos. Queremos ser como elas, e ser também admirados (invejados?) pelos outros. É a natureza humana. E, com base nisso, imitamo-las, pura e simplesmente.

Mas então, se a inteligência/cultura é uma qualidade também admirada nas pessoas, porque é que pessoas que as possuam não se tornam populares e a moda não se espalha? A resposta é simples: Não há pessoas que possuam estas características, tal como a frase acima possa erradamente induzir. Elas não são inatas. São adquiridas, tal como todas as outras. Sim, há o factor genético, os talentos, os dons. Mas, tal como um músculo, uma potencialidade latente não se manifesta (pelo menos, não na sua totalidade) se não for estimulada.

Mas a ideia que vigora é que a capacidade cerebral de uma pessoa é determinada à nascença e pronto, não há mais nada a fazer. Ou se é esperto ou não.
Dois mitos têm, portanto, que ser desfeitos:

  1. Cultura geral não é inteligência
    Uma coisa tem que ficar clara: só porque uma pessoa lê muitos livros, sabe de que país Kuala Lumpur é capital, ou quem é Siddharta Gautama, ou que foi Miguel Ângelo que pintou o tecto da Capela Sistina… ISSO NÃO FAZ DELA UMA PESSOA INTELIGENTE!!! Quando muito, prova que ela tem boa memória… isto não quer dizer, obviamente, que a inteligência, nomeadamente a inteligência verbal, não se desenvolva a ler livros – e um ciclo se forma, já que a inteligencia verbal favorece por seu lado a facilidade absorção de cultura geral – que quase sempre é transmitida de forma escrita. A leitura, em específico, contribui para a criação desse ciclo que se auto-alimenta, especialmente se iniciada na tenra idade da curiosidade infantil. Essa actividade pode ser tão (mais, na verdade) emocionante como ver um filme, e no entanto a cultura popular diz o contrário… e sendo algo supostamente “difícil”, ou “chato”, as pessoas que não adquiriram esse hábito por gosto não estão dispostas a esse esforço para obter essa característica.
  2. A inteligência não é inata e imutável
    O treino do raciocínio, ao contrário do que se pensa, é muito fácil e divertido, com jogos diversos, e nem estou a falar de xadrez e damas. Cartas, o jogo do galo (fitch-fatch), palavras cruzadas e sudoku, ou mesmo jogos electrónicos, desde os solitários aos jogos de consola, todos (ou quase) desenvolvem algum tipo de capacidade mental. Só que as pessoas não concebem isso. Está tão entranhada a ideia que há pessoas burras e pessoas espertas, que a maior parte contenta-se em passar por médio e investir noutras áreas como mais-valia para a sua cotação social.

Como consequência destes mitos, o que acontece é que as pessoas tendem a olhar para quem demonstra ter desenvolvido capacidades mentais superiores à média como se fossem seres estranhos, diferentes; e automaticamente atribuem-lhes deficiências nas outras áreas: CDF’s, nerds, o professor/cientista maluco (mad scientist), todos esses são estereótipos algo depreciativos criados pela sociedade. Basicamente, considera-se que pessoas notavelmente inteligentes não têm jeito em desporto, dança, sexo, moda, etc., que vivem num mundo paralelo, o chamado “mundo da lua”, tendo poucas capacidades sociais.

Essa imagem é permanentemente reforçada pelos media, o que torna ainda mais difícil a sua reversão. A pressão social é constante, e desencoraja mais pessoas a seguirem essa moda, apesar da sua apelatividade, precisamente por alegar inapetência nas outras áreas apelativas. Eu próprio já presenciei o efeito desse desencorajamento: no liceu tive vários colegas que eram bastante inteligentes, mas que, para meu espanto, continuamente fingiam ser burros só para manter a sua imagem social! Lembro-me especialmente de um colega meu que chegou ao ponto de simular erros de leitura em voz alta, para parecer convenientemente iletrado e manter a sua reputação de yo (iou)!!!

O espantoso é que estudos estatísticos demonstram precisamente o contrário. Que pessoas consideradas “mais inteligentes” têm um sucesso superior à média na vida social, no desporto. Mas isso não se tornará do conhecimento público generalizado antes que o mito da dificuldade da aquisição da inteligência como elemento apelativo seja abandonado. Enquanto isso não acontece, as pessoas continuarão a subvalorizar esses indivíduos, como mecanismo inconsciente de manutenção do equilíbrio e da igualdade/homogeneidade social.

Uma excepção curiosa a essa teoria das capacidades mentais tem a ver com a arte. Antigamente os artistas eram uma classe da sociedade, não era qualquer um que criava uma obra de arte.
Acontece que a arte se “democratizou”. Hoje os meios estão disponíveis para quem quiser, e os diversos estilos se multiplicam a cada ano. É por isso que hoje qualquer um pode ser “artista” e compor musica, fazer graffiti, escrever um blog ou página web. Sendo possível uma aquisição dessa característica apelativa (o epíteto de artista, músico, etc) sem muito esforço, é natural que a arte tenha também entrado para o círculo das modas…

Resta esperar que uma revolução semelhante se possa dar no campo da inteligência, e ela possa entrar no mercado de atractivos sociais sem sofrer discriminações. E que o homem que não sabe que sabe evolua finalmente para o homem que sabe que sabe (homo sapiens sapiens).

ACTUALIZAÇÃO: encontrei ontem um texto excelente (em inglês) da autoria de Paul Graham sobre a psicologia da exclusão dos “nerds” nas high schools americanas, quem se interessar por uma análise mais profunda do tema pode lê-lo aqui.

ACTUALIZAÇÃO II: O artigo Como não falar com seu filho publicado na revista Época, aponta estudos que mostram que o elogio do esforço das crianças produz melhores resultados que o elogio da inteligência, já que este, principalmente quando não sincero, tende a dar a impressão de que a pessoa que elogia considera que o elogiado atingiu o limite das suas capacidades inatas, e faz o elogio apenas para aumentar a sua auto-estima, enquanto que quem elogia o esforço e faz críticas, internamente demonstra acreditar nas capacidades da criança de fazer melhor.

Posted by Waldir Pimenta in 03:52:06 | Permalink | Comments Off

Wednesday, February 15, 2006

Dividir Para Avaliar

(Publicado no Artiletra nº 76, de Fevereiro de 2006)

Bem-vindo, caros leitores, a mais um trecho da nossa jornada reflexiva, a qual aqui partilho convosco de bom grado, sempre aberto a novas ideias*. Resolvi regressar mais uma vez ao troço do caminho que passa pelas grandes questões do ensino, que, como estudante que sou, desperta um interesse especial em mim.

Desta feita gostava de aqui exprimir uma opinião que tenho vindo a defender, no tocante à avaliação. Vários métodos têm sido implementados, nenhum com eficiência perfeita, certamente, mas alguns têm prevalecido, nomeadamente os testes escritos. Ora, devido a vários factores que adiante exporei, penso que existe alguma inexactidão potencial numa avaliação em que esses testes tenham um grande peso na nota final. Na verdade, direi mesmo que qualquer avaliação em que um método tenha um peso substancialmente superior aos outros tem uma maior probabilidade de ser injusta (errónea).

Isto deriva do facto de todos os métodos de avaliação terem as suas fraquezas. Para começar, qualquer processo de avaliação tem a desvantagem de induzir algum nervosismo (e possível mau desempenho daí derivado) nos avaliados; há também que levar em conta possíveis erros de comunicação (interpretação errónea das questões ou respostas).

Dividir em Qualidade

Mas falando de métodos específicos, podemos listar desvantagens inerentes a cada um, devido à sua própria natureza:

  • testes escritos: as conhecidíssimas cábulas e cópias são métodos especialmente eficientes em testes escritos, pois o avaliador não tem como saber a fonte do que está escrito no texto, caso a fraude não seja detectada. Isso traz alguma injustiça, pois se o aluno em sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer memoriza a matéria (a não ser se for involuntariamente, pois, como é sabido, escrever algo ajuda a memorizá-lo), quanto mais aprendê-la; se, por outro lado, a “estratégia” falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, o que também não corresponde à sua nota real.
  • testes orais: poderão induzir um nervosismo acrescentado por se estar perante o avaliador, mas seriam vantajosos em avaliações em que, caso fossem por escrito, seria necessário escrever muito. Note-se que um dos motivos que fizeram dos testes orais uma minoria foi o facto de não serem facilmente arquiváveis; pois agora o são.
  • testes práticos: requerem mais tempo se acompanhados; se não acompanhados podem ser forjados/plagiados, embora uma apresentação permita detectar isso, apesar de aumentar o nervosismo pelo mesmo motivo que os testes orais. Testes práticos incluiriam trabalhos individuais e de grupo, abrangendo a componente prática da disciplina leccionada, o que tem um enorme impacto na assimilação do conhecimento, favorecendo até as outras avaliações com uma diminuição das tentativas de fraude. Tendo em conta a importância do saber fazer, é aconselhável ter em conta essa componente quando se avalia o aprendizado (coisa que já é conhecida há vários séculos, como demonstra o este famoso ditado chinês: “Diz-me, mostra-me, deixa-me fazer e aprenderei”)

Dividir em Quantidade

Tendo em vista os factores acima listados, torna-se evidente que é vantajoso aplicar vários tipos de avaliação, de modo a minimizar eventuais falhas. Mas outro factor a ter em conta é a periodicidade das avaliações. Testes periódicos (formativos) são preferíveis a testes finais (sumativos), por várias razões:

  • Induzem menos à fraude pois, tendo o aluno mais chances de realmente ter sucesso por conhecer a matéria, ele ganha confiança e é mais provável que decida estudar em vez de se arriscar em cábulas e afins;
  • Exigem menos tempo de preparação e correcção da parte dos professores, por serem menos abrangentes;
  • Permitem ao professor avaliar melhor um determinado tópico da matéria, pois aprofundam-se mais;
  • Em disciplinas com vários módulos paralelos (não sequenciais), o aluno tem que, no fim do período de estudo, relembrar e reter na mente conhecimentos de áreas diferentes e mantê-los todos na memória de trabalho ao mesmo tempo, o que é contraproducente;
  • Várias avaliações (práticas ou teóricas) dão mais fiabilidade na avaliação pois a probabilidade de o avaliado ter azar é inversamente proporcional ao numero de avaliações.

Por último, devo salientar que por mais que sejam avaliações feitas, o facto de serem pontuais sempre faz com que seja concentrado algum stress e ansiedade no seu decorrer. Por isso torna-se importante também não esquecer a avaliação contínua, que apesar de ser algo subjectiva, é o melhor método para o professor avaliar o aluno num ambiente realista, sem preparação prévia.

Unindo as Divisões

Posto isto, podemos resumir o exposto acima no conceito de que devem ser feitos tantos tipos de avaliação (escrita, oral e prática) quanto os permitidos pela natureza da disciplina, de preferência os três; e por outro lado, essas avaliações devem ser divididas por cada módulo autónomo de matéria da disciplina. A tabela seguinte faz uma tentativa de apanhado geral do tipo de avaliações possíveis de cada método, de acordo com o tipo de disciplina:

Disciplina

Exemplos

Teste Escrito

Teste Oral

Teste Prático

Línguas

Português, Inglês, Francês, Latim

Composições (fluência escrita)

Diálogo com o avaliador (Fluência oral)

Encenações (aplicação em situações reais)

Ciências

Humanas

Filosofia, História, Psicologia, Direito

Dissertações sobre os temas estudados

Diálogo sobre os temas abordados

Debates, pesquisa e compilação de um assunto específico

Aplicadas

Informática, Biologia, Geografia, Economia

Análise verbal de conceitos e procedimentos

Execução de uma actividade típica de aplicação da ciência

Exactas

Física, Química, Matemática

Problemas realistas resolvidos com cálculos

Resolução lógica de problemas propostos (raciocínio)

Problemas práticos, resolvidos por escrito após medições em laboratório

Artes

Desenho, Música

Dissertações sobre os temas abordados

Explicar conceitos e procedimentos

Composição de uma obra aplicando os métodos e conceitos estudados

Em jeito de conclusão, afirmo aqui a importância de incentivos, associados a essas avaliações, que tornam mais interessante e divertida a aprendizagem, o que se traduz em um maior aproveitamento, tanto quantitativo como qualitativo. Actividades como entregas de prémios, distinções, dispensas de testes sumativos (finais), concursos (melhor trabalho, pergunta-resposta individuais e em grupo), apresentações dos trabalhos à escola, exposições dos melhores trabalhos, quadro de honra, debates de turma e da escola, enfim, actividades diferentes do habitual, associadas aos métodos de avaliação permitem que o esforço a eles dedicado seja valorizado, e ainda acrescentam excitação e quebram a monotonia, a rotina da sala de aula.

O que se pode extrair disto tudo, em resumo, é que uma boa avaliação se caracteriza tanto por métodos adequados à especificidade de cada disciplina, como pela aposta na multiplicidade de avaliações permitindo ter uma média, resultando numa avaliação mais fiável. Aliando isso a um ensino pedagógico e interessante, poderemos vir a ter um melhor sistema de ensino, mais eficiente, mas principalmente, que preserve e incentive a curiosidade natural dos alunos e a sua ânsia de aprender.

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta in 15:54:07 | Permalink | Comments Off