Thursday, May 30, 2002

2 a 5 vs 0 a 20 – Reformar a Reforma?

(Publicado no Artiletra nº 45, de Maio/Junho de 2002)

Eu gostaria de, neste artigo, reflectir um pouco acerca da Reforma do Ensino, mais precisamente sobre o novo sistema de avaliação de 2 a 5.

Ora bem, para começar, vamos ver como esse sistema funciona:

É um sistema baseado na percentagem, e é aplicado nas provas escritas e na avaliação semestral. As notas atribuem-se por escalões, quatro, para ser mais exacto:

  • 0% a 49% correspondem a uma nota negativa, ou seja, 2 (não há nota 1 porque o aluno não entra na escola totalmente “ignorante”, sempre traz algum conhecimento, que a princípio se considera equivalente a 1, nessa escala, mas que depois pode subir para 2, 3, 4 ou até 5, conforme os dados recolhidos na avaliação desse mesmo aluno ao longo do processo de aprendizagem. Portanto, ao fim do ano escolar parte-se do princípio que é impossível que o aluno não tenha aprendido nada durante um ano escolar inteiro – nem que seja 1 + 1 = 2 – e atribui-se-lhe, no mínimo, 2, que corresponde ao mínimo que possa ter aprendido durante esse ano. Seguindo este raciocínio, é impensável dar 0 a um aluno, o que seria uma forte ofensa à sua condição de ser humano geneticamente predisposto à aprendizagem);
  • 50% a 74% correspondem a uma nota suficiente, ou seja, 3;
  • 75% a 90% correspondem a uma nota de Bom, ou seja, 4, e, por fim,
  • 91% a 100% correspondem a uma nota de Muito Bom, ou excelente (5).

À primeira vista parece ser um sistema bem elaborado e eficiente. E é, na teoria. Mas sê-lo-á na prática? Vejamos.

Foi realizado recentemente um inquérito, encomendado pelo jornal Artiletra e realizado pela comissão de inquéritos da Associação de Estudantes do Liceu José Augusto Pinto (AEJAP), comissão essa que tem como responsável a aluna do 10º ano Cláudia Coutinho, abrangendo alunos (de todos os escalões) e professores da Escola Secundária José Augusto Pinto, que forneceu os seguintes dados:

  • À pergunta “Concorda com a mudança do sistema de 0 a 20 para o de 2 a 5?”, 100% dos inquiridos respondeu negativamente;
  • Acerca das desvantagens desse aspecto da reforma, obtiveram-se as seguintes respostas: “É injusto porque alunos com notas diferentes [em percentagem] podem ficar no mesmo nível na pauta” (92%); “Avalia-se melhor no sistema de 0 a 20” (8%);
  • Quando inquiridos acerca das vantagens dessa mudança, as respostas foram: “Não há” (75%); “Só se for para o aluno [com uma nota de valor] mais baixo, que pode ficar ao mesmo nível que outro aluno cuja nota se situe no outro extremo do escalão” (17%); “É moderno” (8%);
  • A maioria (92%) achou que se devia voltar ao sistema de 0 a 20, ou então de 0 a 10, quando se lhes foi perguntado acerca das mudanças que gostariam de ver feitas a esse respeito. 8% se lembrou de dizer que “deviam fazer uma reunião com professores, alunos e representantes do governo para escolher um sistema de avaliação mais eficiente”.

Pois é. Muitos professores já me tinham dito antes que achavam que deviam ter sido ouvidos aquando da Reforma – afinal, são eles quem lida mais directamente com a avaliação dos alunos. E nem é preciso falar dos próprios alunos.

Para dizer a verdade, até hoje não encontrei ninguém que preferisse o sistema actual ao antigo – aliás, sempre me disseram o contrário – embora muitos não achem o sistema de 2 a 5 de todo um mau sistema (eu incluído).

Mas quais são as conclusões que podemos tirar deste inquérito e principalmente do nosso dia-a-dia a conviver com esse tipo de avaliação? Pessoalmente, acho que é um sistema bastante bem elaborado e concebido, mas só funciona na teoria. Porque já experimentei na pele as consequências da sua utilização na prática.

O que realmente acho que se devia fazer é mudar de novo o sistema (já se fez uma Reforma, porque não fazer outra, se a primeira tem algumas falhas? A virtude do ser humano como ser racional está no reconhecer os erros e corrigi-los, aproveitando-os para experiências futuras.), e aqui, eu ousaria propor o sistema de 0 a 10. E porquê 0 a 10 em vez de 0 a 20?

Primeiro, porque, se nos basearmos na percentagem, fica muito mais fácil o câmbio (aliás, isso nem é preciso, basta mover a vírgula uma unidade para a esquerda). E depois, porquê acrescentar mas um à lista dos sistemas de contagem não decimais (como a base sexagesimal/duodecimal do sistema horário), se a base matemática universal, aquela que aprendemos e assimilamos desde a infância (dando-nos uma maior “maleabilidade” e autonomia no seu uso que qualquer outra) é a de dez? o próprio sistema de 0 a 20 é baseado no de 0 a 10. Logo, não vejo inconveniente em usar o sistema decimal, que aliás vem sendo usado noutros países com sucesso.

Resta agora saber que apreciação será feita do inquérito e que medidas serão tomadas a esse respeito. E esperar que as mesmas estejam para breve.

Posted by Waldir Pimenta at 14:01:07 | Permalink | No Comments »