Sunday, June 30, 2002

O Aborto

(Publicado no Artiletra nº 46, de Junho/Julho de 2002)

Desenvolvi este texto à base de percentagens, como depressa se reparará. Achei que seria um método que me ajudaria a exprimir melhor as minhas ideias acerca deste tema tão controverso e polémico. Espero que, por tal, o leitor possa, como pretendido, entender melhor o cerne da questão que coloco.

Eu diria que sou 90% contra o aborto. Os 90% são pelo facto de quase nenhuma razão justificar a morte de um ser vivo, o que não está nas nossas mãos, mas sim nas da Natureza e do “destino”. Os restantes 10% são exactamente essas razões excepcionais.

Depois de muito pensar, concluí que apenas em casos de vida ou morte se deve considerar a questão do aborto. Esses casos dividem-se, segundo o meu raciocínio, em três tipos, em cuja explicação, para uma melhor compreensão, usarei os conceitos “sobreviverá” como a probabilidade superior a 50% disso vir a acontecer, e “morrerá” como o contrário, ou seja, uma probabilidade inferior a 50% de a pessoa vir a sobreviver.

  • O primeiro tipo abrange situações em que, se a mãe tiver o filho, morrerá no parto, embora este sobreviva. Nesse caso, visto que morre ou a mãe ou o filho (se ela abortar, neste último caso), acho que 100% da decisão deverão ser divididos pelo casal (desde que tanto o pai como a mãe sejam adultos, responsáveis, mentalmente saudáveis, enfim, retenham o mínimo de condições para a tomada de uma decisão como essa), obviamente em acordo, embora possam e devam ser aconselhados por outras pessoas.
  • No segundo escalão, que retém os casos em que o feto morrerá no parto e a mãe sobreviverá, acho que o aborto tomaria 40-45% da decisão (pois de qualquer maneira o feto morreria), para diminuir o sofrimento tanto psicológico como físico.
  • O terceiro e último tipo de situações refere-se aos casos em que tanto a mãe como o feto morreriam se fosse realizado o parto. Neste caso, defendo que 49% (ou seja, o máximo possível dentro dos limites necessários à existência de opções – se for 50%, no caso de os pais chegarem a um acordo no sentido contrário ficar-se-á num impasse de 50-50) da decisão final deverão recair sobre o aborto, isso porque, se é para levar a gravidez até o findar dos 9 meses e no fim ambos morrerem, antes interrompê-la a meio; porque sempre é preferível morrer um do que dois (e depois, se perder um ente querido já é doloroso, imagine-se o que seria perder dois, e ainda por cima de uma vez só).

Em todas estas situações, as restantes percentagens deverão ser divididas pelos pais da criança, tendo a mãe dois terços da mesmas nas situações que lhe dizem respeito directamente. Por exemplo, se, no 2º caso, os pais não chegarem a um acordo, a decisão final será o aborto, visto que os predefinidos 40% adicionados aos 30% (neste caso as restantes percentagens são divididas igualmente pois a decisão não influenciará directamente a mãe) daquele que estiver a defender o aborto darão 70%, o que constitui a maioria.

Há que ter em conta que todas estas reflexões foram desenvolvidas com o intuito de poupar o máximo de vidas possível, como se pode verificar com mais intensidade no terceiro escalão.

No entanto, não se pode obrigar uma pessoa a fazer um aborto, mesmo se o feto estiver em grande perigo de vida, pois mesmo que a probabilidade de este vir a morrer seja de 99%, ainda existe aquele 1% de esperança, que por milagre pode se concretizar (já isso não se aplicaria se fossem 100%).

Quanto aos outros casos, como malformações no feto ou gravidez por consequência de uma violação, apenas digo: como se sentiria uma mãe se, um mês após ter feito um aborto porque o feto tinha uma malformação num estado avançado, para a qual não havia cura possível, como se sentiria, se um mês depois soubesse que já tinham descoberto a cura? E quanto à violação ou outros casos, como a falta de meios (monetários ou não) para garantir a sua sobrevivência (!), ou, por exemplo, no caso de uma gravidez precoce, o medo de ser expulsa da escola ou de os pais descobrirem (!!!), digam lá, não seria no mínimo extremamente imoral assassinar um ser vivo que ainda nem teve tempo de ver a luz do sol, por razões tão pouco importantes como essas? Não seria infinitamente melhor dar o filho para adopção, ou algo parecido?

Eu acho que para casos que não sejam de vida ou morte sempre se pode arranjar uma solução. E depois, a depressão, as repercussões sociais e mesmo pessoais, e mesmo problemas físicos, enfim, tantas consequências podem advir de um aborto!

Mesmo que se viva mal, no fim ter-se-á a certeza que não se deixou passar a oportunidade de viver, essa dádiva nunca suficientemente louvada, pois o direito de viver é um dom inviolável, e arrancá-lo brutalmente a uma criatura indefesa seria, não desumano, mas sim cruelmente demoníaco.


um link interessante, a respeito do tema: a bíblia nao menciona o aborto (em inglês)

 

Posted by Waldir Pimenta at 23:11:05 | Permalink | No Comments »