Thursday, October 31, 2002

Plantas, Vampiros e Abutres

(Publicado no Artiletra nº 47/48, de Outubro/Novembro de 2002)

Eu nunca cheguei a entender porque é que nós, os humanos, nos consideramos seres assim tão superiores aos vegetais. Também nunca consegui descortinar a razão que nos leva a ter tanto medo dos vampiros, entre outras coisas. Isto pode estar a parecer um bocado esquisito, mas já explico:

Estou a falar de comida, alimentação, sobrevivência. Pois: a verdade é que a nossa querida Terra não é um paraíso, neste aspecto pelo menos, e o conhecimento disso muitas vezes comove os sensíveis corações das mulheres (curiosamente - ou talvez não - as mais susceptíveis são as mais famosas, que fazem declarações às revistas, perdoem-me a expressão, coscuvilheiras e bisbilhoteiras, dessas que só sabem falar das vidas dos outros - quer dizer, dos famosos), que dizem estar chocadas com certos hábitos alimentares de alguns países - escusado será dizer, cuja cultura não segue o padrão Euro-Americano, que, diga-se de passagem, é (claro…) o mais civilizado -, como o costume de comer cães, gatos, ou, “pior”, insectos. Mas e nós? não assassinamos vacas aos montes - mas que estou eu para aqui a dizer?! Montes? Toneladas! Resmas, como diria o nosso caro Herman José, ou qualquer outro português, visto que agora a moda já pegou por lá, daqui a pouco ainda a palavra aparece no dicionário, se é que ainda não está lá, não entendo esse vício dos Humanos para seguir modas, mesmo que sejam completamente disparatadas ou até prejudiciais, como é o caso do cigarro e outras drogas, mas estou a divagar, a fugir do assunto, isto fica para outro artigo. Voltando ao que íamos: não assassinamos vacas aos montes para comer?, sendo estes queridos ruminantes animais sagrados, isto na cultura de alguns países do Oriente, como a Índia. É só para mostrar o quão bilateral, ou melhor, multilateral, o mundo pode ser. Porque nós achamos horrível comer cães, mas comemos vacas sem problemas. E “eles” defendem o contrário. Quem afinal tem razão? Quem é o vilão, o primitivo? A resposta é simples: somos todos nós.
 
 Neste momento vocês devem estar a perguntar-se onde é que entram os vampiros e tudo o mais nesta trapalhada toda, e, para vosso gáudio, é mesmo aqui. Pois bem; considerando tudo o que eu disse acima (o que abrangeu apenas o aspecto humano da questão, que de longe é o que menos interessa), teremos que admitir que nós, os animais (e certas plantas denominadas carnívoras) somos uns serial killers insensíveis e frios, matando-nos uns aos outros para obter energia para que nós possamos sobreviver. O lema: matar para viver - a lei do mais forte. Nós, que somos, ou melhor, nos autodenominamos, os donos deste planeta, fazemos pior: damo-nos ao luxo de tirar a vida a milhões de seres vivos, comer o que pudermos (isto se não for por desporto…), para depois deitar as sobras fora; e ainda ficamos a ver filmes de terror com vampiros que se alimentam de sangue, nos quais são-lhes atribuídos carácteres psicopáticos, cruéis e assassinos, e efeitos especiais, que, aliados ao medo culturalmente incrustado que deles temos, tornam os filmes suficientemente assustadores. Mas vejamos o outro lado: os vampiros, esses (se é que realmente existem, não vão se tratar de mais uma criação da mente humana, sempre disposta a desperdiçar neurónios autoaterrorizando-se, com entidades sobrenaturais e não só…), dizia eu, os vampiros, se vissem filmes de terror, com certeza os monstros mais frequentes seríamos nós, os humanos comuns, e nem seriam precisos efeitos especiais: digam lá, o que é mais assustador, repugnante, cruel, etc.: 1 - Morder um ser vivo, chupar um pouco do seu sangue, e deixá-lo recuperar e começar a alimentar-se do mesmo modo, ou
2 - caçar outro ser numa armadilha, matá-lo lentamente por asfixia, congelar o corpo, que depois será totalmente esquartejado e depois submetido a altas temperaturas, despedaçá-lo, arrancar-lhe os ossos e por fim esmagá-lo completamente, com o que este fica reduzido a uma massa irreconhecível enquanto ser vivente. “Quem teria coragem de fazer isso com um animal?”, perguntariam vocês. Pois em boa verdade vos digo: nós fazemos isso diariamente com milhões desses animais: os peixes. Sim, era um peixe. Releiam o relato e reconhecerão a pesca, a conservação, o cozinhar e o comer. Já não parece tão cruel assim, não é? Mas não deixa de o ser. Na verdade, os vampiros são uns santinhos em comparação connosco. Porque haveríamos de tirar a vida, muitas vezes dolorosa e brutalmente, a outros seres, só para assegurar a nossa sobrevivência? Estou a falar agora de todos os animais, não somos só nós os vilões, não se preocupem.

 Na verdade, os únicos seres vivos decentes do nosso planeta são os autotróficos (produtores do seu próprio alimento - quase todos plantas), os necrófagos (comedores de cadáveres - como os abutres) e os decompositores (no comments), certos membros de associações animais (simbioses, cooperações…), como algumas das bactérias que vivem no nosso sistema digestivo, os lactófagos (comedores de leite - se é que existe algum animal que se alimente exclusivamente desse líquido, durante toda a sua vida) e, já agora, os onicófagos também (comedores de unhas…). Nem os frutívoros e os hematófagos (aqui, os vampiros, sim, e os mosquitos) escapam (embora sejam bem mais aceitáveis que nós - digamos que se encontram situados num estágio superior da evolução alimentar, numa espécie de prateleira intermédia entre nós, os Carnívoros e Cia., e os edeníacos Autotróficos e Irmãos, Lda. – ou melhor, Primos), pois alimentam-se de partes de seres vivos de que os mesmos precisam, os primeiros da polpa das frutas, que dá água e nutrientes à semente no seu interior, para o início do seu desenvolvimento como nova planta (embora a polpa da fruta para a semente desempenhe uma função equivalente à do leite para os mamíferos, há a diferença de na fruta a reserva ser limitada, e nas tetas não, pois há glândulas que vão produzindo mais leite. Assim, os lactófagos seriam seres decentes, mas já não os frutívoros) e os segundos, os hematófagos, do sangue de outros seres.
 Os restantes herbívoros são ainda piores que os simples frutívoros, pois comem partes ainda mais essenciais para a vida da planta, como é o caso das folhas, do caule, das raízes, etc., e então os carnívoros, desses nem vou falar…
Quanto aos ovófagos (comem ovos), basta dizer que se trata de um aborto puro e simples. Aliás, nem simples é, porque se come o embrião…
Os que dizem ser ecológicos estão fritos: já nem sequer podem ser vegetarianos e falar mal dos outros. Os que dizem ser religiosos também não escapam: Não Matarás…lembram-se?

 Mas, sendo nós animais omnívoros (comemos tudo - ou quase…), bem que podíamos estabelecer uma dieta baseada na alimentação dos seres decentes, assim ao menos dormiríamos de consciência tranquila:
 Como não temos clorofila e os humanos transgénicos ainda demorarão um pouco para chegar (mais por teimosia que por razões técnicas, diga-se de passagem), vamos deixando de lado por agora os autotróficos. Mas podíamos fazer como os necrófagos, em vez de matar para comer, comer o que já está morto. Claro que não estou a dizer para irmos enfiar a cara em corpos em avançado processo de putrefacção; simplesmente podíamos parar com essa matança e criar animais e plantas, sim, mas esperar que morram e depois comê-los, desde que não tenha sido morte por doença, claro (embora esta última hipótese, com a recente inovação dos animais geneticamente manipulados para resistirem às doenças, etc., possa vir a ser razoavelmente rara). Para completar, temos a água, o leite e derivados (que são muitos), e possivelmente alguns frutos (por exemplo, as bananas, apesar de serem frutas, não são utilizadas pelas bananeiras para a reprodução ou de qualquer outra forma – eu cheguei a pensar em depósitos de nutrientes, como as gorduras que os ursos guardam para a hibernação, mas a planta-mãe morre assim que dá um cacho, que por sua vez apodrece, ou seja, é comido por outros seres, se não for colhido e comido por humanos ou outros animais macroscópicos, pelo que a teoria da reserva de nutrientes foi destronada). Ainda não investiguei muito bem, mas ao que parece poder-se-iam incluir cocos, bananas, frutas-pão e outros do tipo (mais os derivados). E, para quem não se importe, haveria os nutrientes “artificiais” (por exemplo, podia haver um comprimido efervescente com complexos de vitaminas e minerais, enfim, a DDR - Dose Diária Recomendada - de tudo o que o nosso organismo necessitar, que se tomaria com a quantidade de água pré-definida que o nosso corpo necessita, podendo até estar disponível em qualquer sabor). Isto pode parecer muito limitativo, mas repare-se que com este método poderíamos continuar a comer bastante do que comemos hoje, tendo em conta que há com certeza muitos mais alimentos que poderíamos tomar sem tirar nada a outros seres, que eles possam necessitar, pois a minha memória e (principalmente) os meus conhecimentos são muito limitados nessa área.

 Começo a pensar, após tudo isto, se o Paraíso não seria habitado por vampiros, abutres, morcegos e bactérias… pode até parecer um bocado sinistro para um paraíso, mas uma coisa é certa: seria muito mais perfeito. 

Posted by Waldir Pimenta at 20:52:54 | Permalink | No Comments »