Thursday, July 31, 2003

Non Siamo Soli - Partes I, II e II

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(Publicado no Artiletra nº 52, de Julho/Agosto de 2003)

Parte I – Considerações Gerais

O fascínio por outros mundos e pelos seus habitantes remonta à Pré-História. A astronomia desde muito cedo interessou a espécie humana, sendo uma das mais antigas ciências desenvolvidas pela humanidade. Isto sem esquecer as incontáveis pinturas rupestres já descobertas (muitas mais ainda por descobrir, e ainda mais perdidas para sempre no tempo, devido à erosão natural e humana), cujas figuras estranhas (humanóides “deformados”, formas esquisitas às quais não se pôde atribuir nenhuma formação natural ou humana, seres e objectos voadores, etc.) continuam a intrigar os especialistas e investigadores, mantendo-se inexplicáveis até hoje.

Antes apenas mitos acerca de criaturas além do mundo a que temos acesso, com a descoberta, já mais tarde, dos planetas como corpos celestes semelhantes à Terra, os seres alienígenas ganharam subitamente uma base física. Mas apenas a partir do século XIX se começou a debruçar com mais seriedade no assunto.

Apesar das numerosas descrições de visitas de OVNI (Objectos Voadores Não Identificados – em inglês UFO, Unidentifyed Flying Objects, que originou a palavra ufologia — A ufologia surgiu em 1947, quando o piloto civil Kenneth Arnold, durante a busca de um avião desaparecido, foi ultrapassado por nove “pires voadores” que voavam juntos. Muitos jornais da época divulgaram o facto. Os objectos passaram a ser chamados de flying saucers (pires voadores), que em português são conhecidos como discos voadores), não há provas claras da existência de vida extraterrestre. No entanto, os cientistas consideram essa hipótese, avançando meios para a procura de inteligência alienígena, até porque a seria improvável que de dezenas de milhares de casos relatados, nem um fosse verdadeiro ou pelo menos fundamentado. A história da busca moderna de outros seres inteligentes começa em meados do séc. XIX.

Em 1877, o astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli desenhou a superfície de Marte em mapa. A existência de longos e característicos veios que se podiam ver nos mapas convenceu-o que estavam cheios de água, e chamou-os canali, que quer dizer leito de rio. Mas quando a palavra foi traduzida para o inglês, chamaram-lhes canals, em vez de chanels - confundindo a primeira expressão, que se refere a obras artificiais, com a segunda, que se refere a estruturas naturais – pelo que as pessoas começaram a pensar que eram construídos pelos marcianos.

Baseando-se na descoberta de Schaparelli, o astrónomo americano Percival Lowell desenhou um mapa detalhado de Marte onde se vêm o entrecruzamento das linhas de água. Esse trabalho convenceu muita gente, inclusive ele próprio, de que Marte era habitado.

Com a ajuda de alguns romances de ficção científica, como “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, generalizou-se a crença na existência dos marcianos, imaginados como homenzinhos verdes (em inglês, Little Green Men, origem da sigla LGM, que designou o primeiro pulsar, por pensarem que os sinais fortemente regulares de rádio emitidos por esse astro – e todos os do seu tipo - se tratavam de uma tentativa de comunicação extraterrestre). Marte tornou-se assim o primeiro foco de atenção da comunidade científica na área da exobiologia (ou astrobiologia, ou ainda xenobiologia - uma das ciências mais recentes, que estuda a vida no espaço). No entanto, as sondas espaciais que passaram por Marte desde os anos 60 não detectaram nenhum sinal de vida. Mas a esperança não morreu, e investigações recentes levantaram outras hipóteses que, a posteriori, poderão vir – ou não – ser confirmadas. Veremos.

Parte II – Vida no Sistema Solar

Estudos recentes mostram que no Sistema Solar é extremamente improvável a existência de vida inteligente (e isto inclui a Terra, hem!) embora se considerem alguns planetas que podem conter formas ainda primitivas de vida:

A Lua já foi objecto de especulações acerca da existência de extraterrestres, mas a hipótese foi descartada após as primeiras explorações nos inícios da Era Espacial. No entanto, a recente descoberta de água no satélite levantou de novo a polémica. Isso é no entanto um assunto que merece ser investigado com mais pormenor.

Marte, por seu lado, pode conter depósitos de água a grande profundidade, o que favoreceria a possibilidade de existirem formas vivas. No entanto, os dados parecem mostrar que outrora Marte fora um planeta muito parecido com o nosso, com água e uma atmosfera consistente, muito provavelmente contendo formas de vida, mas que com o tempo os gases da atmosfera escassearam, devido à fraca gravidade do planeta (O diâmetro de Marte é cerca de duas vezes menor que o da Terra, o que lhe confere um volume de pouco mais de um quarto do nosso, e uma massa de um décimo da da Terra), e permitiram aos raios solares nocivos tornar árida e desértica a superfície. Possíveis seres vivos de então, ou migraram para outro planeta (o que sustenta a hipótese levantada por alguns cientistas de que a vida na Terra – ou pelo menos a vida humana – foi trazida de Marte, hipótese magnificamente exposta no filme relativamente recente “Missão a Marte”), ou se extinguiram, ou então tiveram de se adaptar, possivelmente passando a viver no subsolo, onda a água pode ter persistido – é também algo que merece ser estudado mais a fundo.

Os outros planetas parecem ser demasiado inóspitos para conter qualquer forma de vida, mesmo as mais primitivas: desde o calor abrasador de Mercúrio e Vénus, às baixíssimas temperaturas dos planetas exteriores. Há, no entanto, certos satélites (luas) que parecem reunir boas condições para o aparecimento de vida: Europa e Calisto, as duas maiores luas de Júpiter – e Titã, a maior lua de Saturno.

Europa é coberta por uma espessa camada de gelo, mas é provável que sob ela exista uma enorme extensão de água líquida, talvez só superada em quantidade no sistema Solar pela que se encontra na Terra. A água no estado líquido, não comum no nosso Sistema, é um elemento que favorece muito o desenvolvimento da vida, e no nosso planeta em todos os lugares em que ela está presente, prospera pelo menos algum microorganismo. Além disso, algumas características do gelo superficial que reveste Europa fazem pensar que os fundos dos seus mares possam ser polvilhados por vulcões, os quais aqueceriam a água circundante: condições talvez muito semelhantes permitiram o aparecimento na Terra dos primeiros organismos vivos. Em 2008 a sonda Europa Orbiter deverá aproximar-se do satélite e enviar-nos valiosas informações que nos permitirão ter uma ideia mais concreta do que podemos esperar da lua jupiteriana.

Também Calisto tem suscitado a curiosidade dos investigadores, porque poderia conter um oceano subterrâneo de água líquida. A sua estrutura interna seria algo como um núcleo rochoso, um “manto” de água salgada e uma crusta de gelo, coberta superficialmente por uma fina camada de detritos resultantes do impacto de meteoritos. Tem a superfície mais antiga do Sistema Solar 4.000.000.000 anos – não houve mais mudanças que as colisões ocasionais de meteoritos. Calisto formou-se logo nos primórdios da história do nosso Sistema. Ser tão antigo é mais um dado que reforça a hipótese da lua ter sido – ou estar sendo - palco de possíveis acontecimentos biológicos. Além disso, o astro é aquecido por actividade radioactiva, e possui uma atmosfera muito ténue de dióxido de carbono. O dióxido de carbono é constituído por carbono e oxigénio, dois elementos básicos para a formação da vida, o primeiro a nível estrutural das moléculas orgânicas, e o segundo pela sua indispensabilidade na formação de água, o mais relevante dos factores condicionantes da existência ou não de vida. A descoberta recente (em 1996) de um lago subterrâneo na Antárctida reforçou ainda mais a hipótese de vida alienígena baseada em depósitos de água desse tipo.
Titã, por sua vez, é um caso extremamente interessante, porque está envolvido por uma espessíssima atmosfera de atmosfera de hidrocarbonetos, e não é claro o que existe à sua superfície. Os hidrocarbonetos são compostos importantíssimos para a vida, e a maior parte dos seres vivos usam esses compostos no seu metabolismo. Se no satélite se encontrassem também extensões de água, como se faz crer, as probabilidades de aí existirem pelo menos organismos simples seriam deveras altas.

Parte III – Outros Mundos

Na Terra todos os seres vivos partilham algumas características de base; em particular, a unidade básica da vida na Terra é a célula. Não é absolutamente certo que eventuais organismos extraterrestres sejam estruturados deste mesmo modo; por exemplo, estruturas moleculares diferentes podiam desempenhar o papel do ADN. De facto, as possibilidades são tão diversas que seria impensável enumerá-las todas. Apesar de as primeiras formas extraterrestres imaginadas pelo homem fossem antropoformes, hoje em dia tem-se em conta que as formas podem na verdade diversificar de tal modo que talvez existam seres que a nossa mente nem se quer nos permite conceber.

Mesmo aqui na Terra, a vida é uma coisa tão difícil de definir, devido às múltiplas formas que pode assumir, que se convencionou definir a vida pelo conjunto de características que todos os seres vivos possuem. E ainda assim, muitos casos têm dado origem a polémicas: os vírus, e, mais recentemente descobertos, os prions, certas proteínas que têm comportamentos que confundem os investigadores sobre a sua natureza – viva ou não. Mas, considerando a quase infinidade de condições que outros planetas podem apresentar, teremos que admitir que talvez nunca possamos vir a definir vida como conceito universal – podem até existir seres que vivam noutras dimensões, e com os quais possamos nunca vir a contactar, ou até a tomar conhecimento, ou seres de antimatéria, (que se aniquilariam ao interagir com o nosso mundo de matéria) – não sabemos! Ainda há muito para descobrir.

Mas no fundo o que procuramos são seres similares a nós, com os quais possamos contactar e trocar conhecimentos. Assim, podemos restringir muito mais a busca, que fica assim bastante facilitada. Ora, falando de seres inteligentes, no Sistema Solar é extremamente improvável a existência de vida inteligente, como já tinha sido acima referido - até porque nunca os vimos, apesar das numerosas missões espaciais…

No entanto, podemos procurar noutros sistemas estelares, nos quais existam planetas similares ao nosso – nos quais possamos encontrar vida inteligente semelhante à nossa (ou seja, compatível com a nossa natureza, isto é, com características básicas similares às nossas)

Assim, no âmbito do projecto SETI (um ramo da astronomia que estuda e procura vida inteligente extraterrena – do inglês Search for Extra-Terrestrial Intelligence), os astrónomos têm vindo a procurar planetas desse tipo, já tendo encontrado mais de uma dúzia de planetas orbitando outras estrelas. Esse numero pode parecer pouco, tendo em conta os milhares de estrelas já catalogadas, mas pode-se ter uma ideia da dificuldade da tarefa se considerarmos que descobrir um planeta orbitando uma estrela longínqua é qualquer coisa como tentar distinguir uma partícula de poeira perto de uma lâmpada de 100W a 1 km de distância, à vista desarmada. Mesmo com os mais poderosos telescópios ópticos isso seria possível. Por isso os cientistas procuram por interferências na órbita da estrela, que seriam causadas pelo efeito de um corpo massivo nas suas proximidades – um planeta. Até agora, descobriram vários planetas (Ursae Maoris, Pegasi, Tau Bootis, 70 Virginis, HD 114762, Cygni B, 55 Cancer, etc.), mas apenas um sistema estelar – ou seja, uma estrela orbitada por mais que um planeta –, correspondente à estrela Upsilon Andromedae, e constituído por três planetas. A estrela é bastante similar ao nosso Sol.
O primeiro tem três quartos da massa de Júpiter, orbitando a estrela a uma distância 8 vezes mais próxima que a que separa Mercúrio do Sol (!). Só para se ter uma ideia, um ano nesse planeta (o tempo que leva a dar uma volta em torno da sua estrela) dura menos de 5 dias!

O segundo planeta é pelo menos duas vezes mais massivo que Júpiter, com um diâmetro 11 vezes superior ao da Terra. E, surpresa das surpresas, com uma órbita de 250 dias, o planeta B orbita a estrela a uma distância quase coincidente com a da Terra! Esse facto deu novo alento às investigações, além de fornecer novos dados sobre a formação de sistemas estelares, visto a sua órbita – bem como as dos seus “irmãos” – não serem circulares, mas elípticas – um pouco como as dos cometas (mas muito menos acentuadas, claro!).

Por fim, há o terceiro planeta, um supergigante com mais do quádruplo da massa de Júpiter. Assim é o primeiro sistema estelar além do Solar descoberto. Mas há certamente muito mais por descobrir – a busca continua.

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Posted by Waldir Pimenta at 22:59:40
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