Wednesday, December 31, 2003

Afinal?!?

(Publicado no Artiletra nº 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Mudando um pouco o assunto dos últimos artigos (ou melhor, das 5 partes do enorme artigo que foi o Non Siamo Soli, regresso agora às “origens”, divagando outra vez sobre o ensino.

O título não diz muito do tema, mas exprime bem a sensação que muitos educadores e educandos sentiram aquando do anúncio das novas medidas tomadas pelo Ministério da Educarão (… e Valorização dos Recursos Humanos, adiante VRH).

Diga-se de passagem, “novo” já é um lugar-comum no léxico do referido Ministério (o que é óptimo. Pois ousar mudar, ousar perfurar a inércia pública para o bem de todos, é a melhor qualidade que um ser humano pode ter). Mas, e apesar de a sua mais recente “bomba” ser, como já é costume, um conjunto de medidas maioritariamente acertadas, há que considerar uma minoria de factores negativos provenientes da mesma. esses factores reflectem uma linha de pensamento que remonta aos primórdios do sistema educativo (a nível da humanidade), factores esses que têm vindo incessantemente a ser combatidos pelos pedagogos (os verdadeiros!), mas no global sem sucesso.

Estou a falar dos métodos de avaliação. Mas antes de começar a falar especificamente das medidas do Ministério que falei, permitam-me uma breve exposição sobre o tema (é só o parágrafo seguinte).

Há, como sabem todos os que estão ligados ao sistema educativo, dois métodos de avaliação: a avaliação contínua e a avaliação formativa. Tal como diz o nome, a avaliação contínua diz respeito à análise que o professor faz do desempenho do aluno durante o ano escolar, incluindo como factores determinantes a participação, o interesse, o empenho, bem como os trabalhos de casa e de grupo (embora estes últimos se enquadrem mais, a meu ver, na segunda categoria de avaliação - ou pelo menos numa categoria intermédia. visto que o professor só dispõe das resultados, não podendo determinar com segurança o processo trabalho, que seria o mais importante), e também o comportamento.

Já a avaliação sumativa diz respeito, nomeadamente, às provas escritas que os alunos realizam ao longo do ano. Ora, com um pouco de raciocínio se chegará à conclusão que o primeiro método é muito mais fiável que o segundo, pois nas provas escritas há diversos factores que podem distorcer a informação real que o professor precisa para atribuir a nota merecida ao aluno.

Em primeiro lugar, há as cábulas, das quais derivam inúmeras situações inadequadas (se o aluno tem sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer fixa a matéria, quanto mais aprendê-la; se a estratégia falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, quando podia tirar mais se confiasse nas suas capacidades e se esforçasse um pouco);

Depois, temos a cópia, um parente próximo da cábula cujas consequências são similares, dispensando assim a sua apresentação; temos ainda o facto de muitos alunos ficarem nervosos com as provas e/ou não serem capazes de se exprimir convenientemente por escrito, o que pode colocar a sua nota abaixo da merecida, só por dificuldades de comunicação – para evitar isso, que tal regressar às boas e velhas provas orais? Em conjunto com as escritas, forneceriam dados muito mais fidedignos sobre as capacidades do aluno, por tornarem impossíveis muitas das “estratégias baixas” acima referidas, e por permitirem uma comunicação muito mais eficiente entre professor e aluno (todos sabemos o quão mais fácil é dizer uma coisa que escrevê-la).

Por último, mas não menos importante (pelo contrário!), há o grande mal das provas: elas exigem apenas uma memorização temporária da matéria, após o que quase tudo é esquecido (mas não influenciando esse esquecimento em nada a nota do aluno). Ou seja. as provas fazem dos alunos meros papagaios. Palram, palram, mas não sabem do que falam. Não entendem nada.

Veja-se: que sentido faz, na disciplina de Filosofia, elogiar a revolução educativa de Sócrates, que quebrou o reinado “papagaial” dos Sofistas, quando até nessa disciplina temos que fazer provas para provar que fixámos toda a matéria?? Não há dúvidas; por mais que não se queira admitir, as provas reprimem o aprendizado, favorecendo a memorização.

Ora, voltando como prometido à medida do Ministério, tem-se que: a avaliação sumativa passa a contar 80% para a nota do trimestre, enquanto que a avaliação formativa só conta com 20%. Com uma conta simples, facilmente obteremos as percentagens dos componentes da avaliação formativa: cada um valeria, em média, 4% para a nota!!! QUATRO POR CENTO!!!!!!

Quem se preocupará com a participação, o interesse, o empenho, o comportamento… 4%?? Que se lixe! Vamos mas é fixar a matéria para a prova, que assim temos a nota garantida. Ou melhor, a matéria é falível: vamos fazer cábula, isso sim! Obrigado, Ministério da Educação! Assim, a nossa vida esta mesmo facilitada!

Será que os responsáveis não vêm que estão fomentando o não-aprendizado? Não vêm que desmotivam os alunos a serem, efectivamente, bons alunos? Não vêm que assim, mesmo os raros professores de boa vontade que tentam fazer uma avaliação justa ficam de mãos amarradas? Não vêm que assim, ACABAM COM AS MÍSERAS PROBABILIDADES DE SE TER ENSINO A SÉRIO EM CABO VERDE??? Ou será uma estratégia para ter menos bons alunos a disputar as bolsas de mérito?…

Caro pessoal do Ministério: vocês acostumaram-nos com medidas acertadas; agora paguem as consequências: nada de retroceder. Não avançar é aceitável (sois humanos). Mas retroceder já não vos é permitido. Bzot sabê manera k’kriol ê…

*   *   *

See you soon, my friends!

Posted by Waldir Pimenta at 18:37:51 | Permalink | No Comments »

Wednesday, December 10, 2003

Non Siamo Soli - Parte V

<< Parte I, II e III | < Parte IV

(Publicado no Artiletra nºs 54, de Novembro de 2003,
55, de Dezembro de 2003,
e 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Parte V – Mensagens Interestelares

1. O Início

É, certamente, muito difícil determinar uma data concreta para o início do SETI (área da ciência que trata da busca de inteligência extraterrestre, normalmente feita por rádio). Tal como disse na primeira parte deste artigo, a fascinação por outros mundos remonta à antiguidade. Mesmo a procura por sinais de rádio já era levada a cabo pelos pioneiros da rádio. Mas a procura moderna e científica por inteligência extraterrestre tem uma data clara de início: um pequeno artigo de duas páginas, publicado por Philip Morrison e Giuseppe Cocconi na revista Nature em 19 de Setembro de 1959. Intitulado “Searching for Interstellar Communications” (em busca de comunicações interestelares), é considerado o documento fundador da moderna SETI.

 

Segundo Morrison e Cocconi, as frequências mais racionais para comunicações interestelares situar-se-iam entre 1 e 10.000 MHz. São essas as frequências nas quais a atmosfera planetária interfere menos com os sinais electromagnéticos, e onde o ruído galáctico (ondas de rádio emitidas pelas estrelas) atinge o mínimo. Anos mais tarde foi descoberto que essas são também as frequências nas quais há menor radiação cósmica de fundo (CBR – Cosmic Background Radiation), mas esta não era conhecida na altura.

Mas uma margem de frequências de 10.000 MHz continua sendo de longe demasiado extensa para ser usada numa busca sistemática. Morrison e Cocconi fizeram então uma proposta que determinou o curso da SETI até hoje: os extraterrestres, argumentaram, usam em princípio a frequência de 1420 MHz (comprimento de onda de 21 cm). Esta é a frequência de emissão do átomo do elemento mais abundante no universo – o hidrogénio. Seria uma frequência aconselhável, pois qualquer observador do universo a conheceria. Qualquer busca sistemática deveria começar aqui, até porque o hidrogénio é um dos componentes da água, composto cujo estado líquido é indispensável a qualquer forma de vida conhecida. Os autores terminam o artigo com um desafio optimista aos cépticos: “A probabilidade de sucesso é difícil de calcular; mas se nunca chegarmos a procurar, a probabilidade é zero.”

Mais tarde, outro pioneiro da SETI, o vice-presidente da Hewlett-Packard Bernard Oliver, adicionou outra frequência “mágica”, 1662 KHz, a frequência de emissão de outra molécula muito comum – OH, ou hidróxido. O hidrogénio e o hidróxido combinam-se para formar H2O – água. Sendo que 1662 KHz partilha as vantagens de 1420MHz, por estar situada numa zona relativamente “calma” do espectro electromagnético, Oliver sugeriu que a banda entre estas duas frequências continha características únicas, promissoras de detecção de um sinal extraterrestre: “Certamente que a banda situada entre as ressonâncias dos produtos da dissociação da água está idealmente situada e é um local inigualavelmente poético para a vida baseada na água procurar o seu género – onde o encontraremos? No water-hole, é claro!” Desde então, o “water-hole” (buraco da água) tem sido usado como referência para as buscas de sinais de inteligência extreterrestre.

Cocconi contactou Sir Bernard Lovell, do rádio-observatório Jodrell Bank, o maior radiotelescópio do mundo, na altura, e sugeriu o uso de algum do tempo de observação do telescópio para procura de um sinal extraterrestre. Sir Bernard era, porém, um céptico, e nada veio a ser feito. A primeira busca científica de sinais rádio extraterrestre foi deixada para outros.

2. O Projecto Ozma

Mais ou menos pela mesma altura que Morrison e Cocconi especulavam acerca de sinais extraterrestres, um jovem astrónomo chamado Frank Drake estava levando a cabo as suas próprias investigações sobre comunicações interestelares. Drake era um membro do pessoal no Observatório Nacional de Radioastronomia, em Green Bank, na Virgínia.

Como membro júnior do pessoal em Green Bank, Drake participava na maioria dos projectos de radioastronomia no NRAO (abreviatura de National Radio Astronomy Observatory). O seu fascínio era, contudo, a busca de civilizações extraterrestres. Ele teve a sorte de se encontrar, num dos almoços do pessoal, com Lloyd Berckner, director de acção do NRAO, que lhe deu a possibilidade de por os seus projectos em prática. Drake nomeou a aventura “Projecto Ozma”, inspirado na Princesa Ozma, do clássico de Frank L. Baum, “O Feiticeiro de Oz”.

Dois eventos combinaram-se para dar impulso ao projecto Ozma. Um foi a eleição de Otto Struve como o primeiro director permanente do NRAO. Struve ficara famoso pelo seu trabalho de análise da rotação estelar, a qual ele defendeu que poderia indicar a presença de planetas orbitando essas estrelas. Na mente de Struve, era só um pequeno passo de planetas extrasolares para inteligência extraterrestre: ele apoiou o projecto Ozma de todo o coração. Enquanto que Drake e os seus colegas, receando pela sua respeitabilidade académica e pela sua paz de espírito, escolheram manter secreto o projecto, Struve imediatamente divulgou o projecto no MIT. A medida que a onda de publicidade avançava, também o faziam o apoio e o suporte públicos, bem como valiosas doações em dinheiro e equipamento.

O outro evento foi a publicarão do artigo de Morrison e Cocconi na Nature em Setembro de 59. Drake ficou felicíssimo por tão proeminentes pesquisadores estarem a trabalhar numa linha próxima da sua. Especificamente, Morrison e Cocconi forneceram o suporte teórico para a busca na mesmíssima frequência que Drake escolhera meramente por razoes económicas — 1420 MHz, a frequência a que a maioria dos telescópios vinha programada da fabrica, pelo que trabalhar nessa frequência não requereria dinheiro em alterações do equipamento.

Para 0 seu tempo, Ozma possuía tecnologia de ponta. Os investigadores usavam um amplificador paramétrico experimental, doado pela Microwave Associates, bem como a nova tecnologia maser. Combinando estes com os 85 pés de diâmetro do radiotelescópio, Drake e a sua equipa atingiam um grau de sensibilidade mil vezes superior que qualquer outro até então conseguida. Os restantes equipamentos eram convencionais: um comum gravador de cassetes e um traçador de gráficos. No último momento, a equipa do Ozma comprou também um altifa1ante, pelo sim, pelo não…

Ozma iniciou as operações a 8 de Abril de 1960, com o objectivo de procurar por sinais vindos das duas mais próximas estrelas do tipo do Sol – Tau Ceti e Epsilon Eridani.

O Projecto Ozma operou por um mes, parou por outro, e por fim retornou para um (último) mes de observações. Ao todo, devotou 200 horas de observação a estes dois alvos, Tau Ceti e Epsilon Eridani. Scanneou 7200 canais divididos igualmente entre as duas estrelas, coda um com uma largura de banda de 100 Hz. Toda a busca foi conduzida a volta da frequência de 1420MHz, com desvios para os dois lados para procurar pelas chamadas variações de Doppler na frequência de transmissão, devido aos movimentos relativos da Terra e do suposto planeta de origem – efeito previsto pelo artigo de Morrison e Cocconi. Apesar de o Ozma não ter encontrado um sinal de uma sociedade extraterrestre, a busca tornou-se no modelo para todos os futuros projectos da SETI.

3. A Ordem dos Golfinhos

Em Novembro de 1960, um grupo altamente seleccionado de físicos e engenheiros encontrou-se na Virgínia para uma pequena conferência informal. O encontro realizou-se em Green Bank sob os auspícios da Academia Nacional de Ciências, para discutir uma questão que estava ainda a ganhar respeitabilidade científica: Quais as perspectivas de estabelecer contacto com outros mundos? Pode ter-se uma ideia do quão arriscado era considerado o tópico, pelo facto de ter sido decidido não anunciar a conferência, e não publicar nada acerca dela, após a mesma.

A conferência foi organizada por J.P.T. Pearman, do Quadro de Ciência da Academia Nacional de Ciência. Os outros dez convidados incluíam Dana Atcheley, presidente da Microwave Associates, (que doara o amplificador paramétrico ao Projecto Ozma); Melvin Calvin, um bioquímico de renome mundial, que estudou as origens da vida; Bernard Oliver, vice- presidente para a Pesquisa e Desenvolvimento da Hewlett-Packard; Carl Sagan, então um jovem astrónomo na conceituada Universidade de Cornell; Phillip Morrison e Giuseppe Cocconi, autores do artigo da Nature que lancou as bases da SETI moderna; Frank Drake, do famoso Projecto Ozma; Su Shu Huang, astrónomo e especialista em planetas extrasolares, e o seu professor de formação, Otto Struve, director do observatório de Green Bank e anfitrião da conferencia; e John Lilly, que publicara recentemente o seu controverso “Man and Dolphin”, argumentando que os golfinhos são uma espécie inteligente. Foi num tributo amigável ao celebrado trabalho de Lilly que os conferencistas autodenominaram-se “A Ordem dos Golfinhos” (The Order of the Dolphins). Para o desenvolvimento da SETI, o encontro foi um evento decisivo. Pela primeira vez, a possibilidade de comunicação com extraterrestres estava sendo seriamente discutida por alguns dos mais proeminentes cientistas do mundo. Tão proeminentes, de facto, que um deles, Melvin Calvin, foi premiado com o Prémio Nobel de Química no decurso da conferência.

4. A Equação de Drake

O encontro de Green Bank foi também notório por ter protagonizado a primeira utilização da famosa fórmula que veio a ser conhecida como a “Equação de Drake”. Quando Drake formulou esta equação, ele não fazia a mínima ideia de como ela seria a base das teorias da SETI décadas depois.
De facto, ele pensou nela como uma ferramenta de organização — um modo de organizar os diferentes assuntos a ser discutidos na conferência de Green Bank, e levá-los a ser a questão central da problemática da vida inteligente no universo.

A grande questão do número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia podia, na visão de Drake, ser reduzida a sete tópicos menores:

  • A taxa de formação de estrelas na nossa galáxia na altura em que o nosso Sistema Solar se formou (R*);
  • A fracção de estrelas que tem planetas orbitando a sua volta (fp);
  • O número de planetas por estrela capazes de sustentar vida (ne);
  • A fracção desses planetas na qual a vida efectivamente se desenvolve (fl),
  • A fracção dos planetas com vida na qual a inteligência se desenvolve (fi);
  • A fracção de fi cuja(s) espécie(s) inteligentes têm meios para estabelecer comunicação interestelar (fc);
  • O tempo de vida dessas civilizações (L);

Representando o número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia por N, e multiplicando os diferentes factores, obtemos a famosa Equação de Drake:

N=R*.fp.ne.fl.fi.fe.L

A equação serviu bem o seu propósito na conferência de Green Bank. Forneceu um método de trabalho que possibilitou a todos os investigadores presentes, que tinham diferentes especialidades, a oportunidade de contribuir com o seu conhecimento específico para o equacionamento do problema, e ao mesmo tempo ajudar na questão geral do encontro.

Em breve, porém, para a surpresa de Drake, a equação tornou-se muito mais do que isso. A curta fórmula matemática mostrou-se irresistível para os promotores da SETI: reduzia uma enorme e quase inimaginável questão especulativa a uma série de questões específicas. Enquanto que a questão geral parecia demasiado ampla e especulativa, os sete componentes da fórmula pareciam emprestar-se a análise científica. Posta como uma fórmula, a questão adquiria um aspecto matemático e quantitativo. Que melhor maneira de ganhar respeitabilidade científica que formular uma equação matemática?

Os conferencistas de Green Bank completaram a equação com os conhecimentos das diversas áreas dos participantes. Apenas sobre a taxa de formação de estrelas havia informações existentes, pelo que a conferência acordou em fixá-la em cerca de uma estrela por ano. Otto Struve, o especialista em planetas extrasolares, deu uma opinião optimista sobre o número de planetas orbitando outras estrelas. Su-Shu Huang assentiu positivamente sobre o número de planetas com capacidade de desenvolver vida ser bastante comum, e Calvin e Sagan sugeriram que nos planetas onde as condições estivessem reunidas, a vida surgiria mais tarde ou mais cedo. Lilly opinou optimisticamente sobre o desenvolvimento de inteligência em planetas que alberguem vida, baseado no seu trabalho com os golfinhos. Os dois últimos elementos da equação estavam nos domínios das ciências sociais: que civilizações estão desenvolvendo esforços de comunicação com outras civilizações, e quanto tempo duram as civilizações sem se autodestruírem. Morrison lamentou a ausência de sociólogos na conferência, mas lembrou que mesmo estes teriam dificuldade em responder a tão grandes questões, e sugeriu que, baseada na experiencia da Terra, as civilizações tem tendência a desenvolver tecnologia, e que a curiosidade e a necessidade de comunicar pareciam ser universais. E, partindo do princípio que uma civilização conseguisse superar a sua autodestruição nuclear, a sua duração seria “infinita”.

Em suma, elaborando e resolvendo a equação, chegaram a conclusão que o número de planetas comunicáveis poderia ir de l000 a mil milhões, só na nessa galáxia. Com essa base, recomendaram a busca por sinais rádio extraterrestres, usando um radio-telescópio de 300 pés, potentes computadores, e paciência para procurar por pele menos 30 anos.

5. Buscas Recentes

É um dos estranhes factos da história da SETI, que, apesar do crescente literatura e interesse público no assunto, uma década inteira passou antes que a recomendação de acção de Green Bank fosse respondida. Enquanto que algumas buscas foram lançadas na União Soviética sob a liderança do radioastrónomo Iosif S. Shklovskii, nenhum sucessor imediato do projecto Ozma emergiu no Ocidente. Foi apenas em 1971 que uma busca foi finalmente lançada. Tratava-se do que veio a ser conhecido como o projecto Ozpa, pelas suas semelhanças com o Ozma. No entanto, e apesar dos meios serem de longe melhores, o tempo de escuta foi substancialmente menor. O próprio promotor da pesquisa, G. L. Verschuur, era um céptico na matéria – por estranho que pareça!

Foi depois lançado outro projecto, denominado Ozma II, que, de 1972 a 1976, pesquisou 674 estrelas por mais de 500 horas.

Nas três décadas seguintes, foram lançados outros projectos de menor envergadura, que duraram pouco. Mas, nesse tempo, importantes acontecimentos se deram.

6. “Wow!”

A mais longa e também uma das mais famosas buscas foi levada a cabo com o uso do gigantesco radiotelescópio “Big Ear”, no Ohio State University. O “Big Ear” não era um telescópio comum: em vez do familiar “prato”, ele era composto por uma superfície plana de alumínio do tamanho de três campos de futebol, com um reflector gigante de cada lado – um plano e um parabólico. A sua sensibilidade era equivalente ao de um disco de 172 pés. De 1973 até a sua demolição em 1998 (para dar lugar a um campo de golfe), a sua função mais importante foi uma contínua e dedicada busca SETI na linha de hidrogénio.

O mais famoso momento na história do Big Ear, o qual ganhou um lugar de honra nos anais da SETI, aconteceu na noite de 15 de Agosto de 1977. Tal como nas outras noites, enquanto o Big Ear ia pesquisando os céus em busca de um sinal extraterrestre, as suas observações iam sendo imprimidas: uma longa lista de letras e numeres estava continuamente imprimida, uma lista para cada um dos cinquenta canais pesquisados pele telescópio. Uma lista de caracteres apareceu, gravando uma transmissão incomum, na frequência de canal 2: “6EQUJ5″. Isto chamou a atenção de Jerry Ehman, um voluntário do Big Ear e professor na Franklin University, em Columbus, que estava monitorizando as leituras nessa noite.

Ele circulou e código para referência posterior, e juntou um simples comentário nas margens: “Wow!” A série “6EQUJ5″ descrevia a intensidade do sinal recebido por um curto lapso de tempo. No sistema usado na altura no Big Ear, cada número de l a 9 representava a intensidade do sinal em relação ao ruído de fundo. Para estender a escala, o pessoal adicionara letras, representando cada uma, de A a Z, um incremento no nível do sinal. 6EQUJ5 representava um sinal que crescera em intensidade até o nível U, e depois gradualmente decrescera. Ou seja, o sinal subira de o a 30 “sigmas” sobre o ruído de fundo, decrescendo outra vez ate zero, tudo num intervalo de 37 segundos.

Dois aspectos desse sinal imediatamente chamaram a atenção de Ehman e do director do projecto, John Kraus, que viu os resultados na manhã seguinte. Em primeiro lugar, 37 segundos era precisamente o tempo quo o Big Ear levava a pesquisar um ponto determinado no céu, devido à rotação da Terra. Por isso, qualquer sinal do espaço deveria seguir o padrão do sinal Wow: aumentando e decrescendo em 37 segundos. Isto praticamente eliminou a possibilidade de o sinal se tratar de interferência rádio de origem terrena. Em segundo lugar, o sinal não era contínuo, mas intermitente. Kraus e Ehman sabiam que, por o Big Ear ter dois reflectores cm ângulos diferentes, um sinal do céu deveria aparecer num, depois desaparecer, e depois aparecer no outro, quando tivesse atingido o seu raio de acção. Mas o sinal apenas apareceu num dos reflectores e não no outro, como se tivesse sido “desligado” durante o intervalo entre as duas observações.

Um sinal forte, focado e intermitente vindo do espaço: poderia o Big Ear ter detectado um sinal extraterrestre? Desde 1977 varias tentativas foram feitas para voltar a descobrir o sinal Wow. Mas até hoje, ninguém sabe a origem do mais forte e claro sinal alguma vez detectado numa pesquisa SETI. Sendo indubitavelmente artificial, e quase de certeza de origem celestial, Jerry Kraus especula sobre a possibilidade de o sinal ser de uma nave espacial humana, da qual o pessoal do Big Ear não tenha tido conhecimento, isso certamente o tornaria num sinal espacial inteligente, mas não um extraterrestre. E, claro, resta a possibilidade de se tratar de um verdadeiro sinal alienígena.

Mas enquanto o sinal não for novamente detectado, poderemos nunca vir a saber.

7. NASA

Enquanto que a maioria das buscas SETI era modesta, este não era sempre o caso. Os mais ambiciosos projectos SETI foram levados a cabo pela NASA, que tinha acesso a fundos e recursos numa escala completamente diferente de quaisquer outras buscas. Apesar de a NASA ter levado a SETI a escalas totalmente inimagináveis pelos pioneiros do Ozma, ao mesmo tempo, mostrou os riscos da dependência em fundos do governo: durante os tempos de cortes de orçamento em Washington, o projecto SETI mostrou-se extremamente vulnerável à mudança de ventos políticos. Os dois maiores projectos da NASA na área foram cancelados passado menos de um ano após o seu implemento, em movimentos liderados pelo senador Richard Bryan, que encabeçou a carga contra os gastos do governo em pesquisas SETI. Apesar dos enormes esforços de Carl Sagan (já um importante cientista de renome mundial, c um dos maiores defensores da SETI) para manter o apoio governamental à SETI, que como frutos obtiveram uma década a mais para esse suporte, a esta altura os cépticos levaram a melhor.

Após um investimento da ordem de 60 milhões de dólares em 23 anos, e menus de um ano de operações concretas, o projecto SETI da NASA estava inesperadamente morto. No entanto, apesar do enorme desapontamento dos pesquisadores e entusiastas, pode-se dizer que todo esse investimento não foi em vão: a maioria dos recursos adquiridos durante esses 23 anos, e que de outro modo seria impossível obter, não foram desperdiçados: passariam para o privado SETI Institute. Este usou-os então para lançar a sua própria busca, o bem nomeado projecto Phoenix.

8. Organizações SETI

Quando o financiamento governamental foi cancelado, os grupos financiadores minoritários do projecto SETI avançaram para salvar o que pudessem e preservar a pesquisa SETI. Duas destas organizações destacaram-se em particular pela sua liderança nas acções de preservação da SETI nesses tempos difíceis: o SETI Institute, sediado em Silicon Valley, na Califórnia, e a Planetary Society, com sede em Pasadena.

O SETI Institute, fundado em 1984 para financiar projectos SETI, e de entre cujos fundadores se encontram Frank Drake, Bernard Oliver, etc., tornou-se no principal financiador da busca localizada de sinais alienígenas.

Os esquisadores do SETI Institute baseiam as suas buscas no método localizado, ou seja, procuram em estrelas específicas previamente seleccionadas, podendo assim cobrir grandes intervalos de frequência, que não apenas a do hidrogénio. Para a sua pesquisa, os cientistas do projecto Phoenix compilaram uma lista de 1000 estrelas que reúnem as melhores condições de abarcar civilizações extraterrestres, a uma distância de até 200 anos-luz, e mais velhas que 3 bilhões de anos. São também adicionadas à lista as estrelas que se descobre possuirem planetas. Cada estrela monitorada pode ser observada em comprimentos de onda entre 1000 e 3000 MHz. Os computadores da Phoenix podem reconhecer um sinal com apenas 0,7 Hz. Isto é muito importante, pois nenhuma radiação natural conhecida tem menos de 300 Hz. Desde 1998, o Projecto Phoenix tem utilizado o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico – o maior do mundo, com 305 metros (1000 pés).

Mas enquanto que o SETI Institute mantém uma política de busca localizada, a Planetary Society apostou na busca de céu inteiro, utilizando apenas frequências próximas de 1420MHz. Desde 1996 a Planetary Society tem suportado o Projecto SERENDIP, uma pesquisa radio de céu inteiro liderada por Dan Werthimer, da Universidade de Berkeley. O SERENDIP também usa o radiotelescópio de Arecibo, mas por mais tempo que o projecto Phoenix, pois enquanto este tem que aguardar seis meses até que o telescópio esteja apontado na direcção das estrelas listadas, o SERENDIP pode aproveitar qualquer direcção em que o Arecibo esteja voltado.

9. Hoje

Novos projectos estão sendo desenvolvidos hoje em dia, criando inovações na pesquisa SETI.

Um deles é o famoso Seti@home, um projecto financiado pela Planetary Society que utiliza dados recolhidos no âmbito do SERENDIP de modo a serem tratados por computadores pessoais de pessoas de todo o mundo. O projecto originou-se pela falta de computadores potentes o suficiente para permitir a análise de todos os dados recolhidos pelo SERENDIP. Assim, os que viriam a ser os fundadores da Seti@home, apareceram com esta ideia fantástica: dividir a quantidade monstruosa de dados em pequenos “pacotes”, que, via internet, seriam distribuídos a pessoas – pessoas comuns, como nós – cujos computadores pessoais analisariam-nos e enviariam de volta o resultado por internet. Assim nasceu o Seti@home, um projecto a todos os títulos bem sucedido com mais de 4,5 milhões de utilizadores em todo o mundo, possibilitando a análise de dados a uma escala jamais conseguida mesmo pelos mais potentes computadores do mundo (só para ter uma ideia, todo o trabalho já realizado representa mais de 1,6 MILHÕES DE ANOS de trabalho, se fosse um único computador). Trata-se de um simples programa (grátis) cujo download pode ser feito a partir do site http://setiathome.berkeley.edu, e que funciona como screensaver, ou seja, só trabalha quando o utilizador estiver ausente. [Foi com surpresa que descobri que há mais de 200 utilizadores de Cabo Verde – aos quais apressei-me a juntar (afinal, é a única maneira de o “mortal comum” fazer algo para ajudar na SETI) e com os quais eu gostaria de contactar – quase todos os países têm um net group, menos o nosso. Se algum de vocês, leitores, for ou pretende vir a ser utilizador do programa, contacte-me no email acima escrito]

Outro desses projectos inovadores é o SETI League, composto por cerca de 1300 estusiastas, cada um com o seu próprio radiotelescópio amador, formando uma rede que equivale a um grande radiotelescópio. O Objectivo da League é chegar a 5000 utilizadores por todo o mundo.

Por último, falarei de um inovador projecto da Planetary Society. Esta pretende alargar a busca a outras frequências que não só as do rádio, pelo que criou a Optical SETI, um projecto que desde 1998 procura por possíveis sinais de luz concentrada (laser) vindos do espaço. Desde 2002 que é utilizado um observatório em Harvard, Massachusetts, que começou a ser construído em 2000, especialmente dedicado a esse tipo de pesquisa.

10. Conclusão

A pesquisa SETI sofreu uma severa queda com o cancelamento do programa da NASA em 1993, mas graças à liderança da Planetary Society e do SETI Institute, a empresa recuperou rapidamente. Já livre da dependência política e financeira, a SETI pós-NASA é um empreendimento mais modesto, certamente, mas muito mais diverso, mais aceite pela sociedade e por instituições académicas de todo o mundo, e – como o sucesso fenomenal do seti@home já demonstrou – remarcadamente popular perante o grande público. A SETI é hoje uma empresa mais viável que alguma vez fora. E, apesar de não ter sido detectado nenhum sinal alienígena até agora, a esperança não morre, e a busca continua…

Com informações tiradas e extractos adaptados de:

- Amir Alexander, The Search for Extraterrestrial Intelligence: A Short History
- Brian Jones, Exploração do Espaço, Editorial Estampa/Círculo de Leitores, colecção Biblioteca de Informação Juvenil
- Harry Harrison, Universo Cativo, Editora Caminho, colecção Policial/Ficção Científica (ficção)
- Isaac Asimov, “Ir até Onde Quisermos”, in Ao encontro dos Extraterrestres, Biblioteca do Ano 2000
- Jim Wilson, “Alien World”, in revista Popular Mechanics, vol. 176, nº 7, Julho 1999
- Mariette DiChristina, “Star Travelers”, in revista Popular Science, vol. 254, nº 6, Junho 1999
- Michael Carroll, “Worlds Away”, in revista Popular Science, vol.255, nº 1, Julho 1999
- Paul Davies, Como Construir uma Máquina do Tempo, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Robert Forward, “Não Digas Que é Um Sonho”, in revista Quo, nº 7, Abril 1996
- Roberto Capuzo Dolceta e Barbara Galavoti, O Universo – Origens, Teorias, Perspectivas, Caminho, colecção Bravo
- Carl Sagan, As Ligações Cósmicas, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Poul Anderson, A Hora da Inteligência, Edição Livros do Brasil, colecção Argonauta (ficção)
- Susan Yoder e Major Benton, A Sabedoria dos Golfinhos, editora Sinais de Fogo

Posted by Waldir Pimenta at 19:13:25 | Permalink | No Comments »