Wednesday, December 31, 2003

Afinal?!?

(Publicado no Artiletra nº 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Mudando um pouco o assunto dos últimos artigos (ou melhor, das 5 partes do enorme artigo que foi o Non Siamo Soli, regresso agora às “origens”, divagando outra vez sobre o ensino.

O título não diz muito do tema, mas exprime bem a sensação que muitos educadores e educandos sentiram aquando do anúncio das novas medidas tomadas pelo Ministério da Educarão (… e Valorização dos Recursos Humanos, adiante VRH).

Diga-se de passagem, “novo” já é um lugar-comum no léxico do referido Ministério (o que é óptimo. Pois ousar mudar, ousar perfurar a inércia pública para o bem de todos, é a melhor qualidade que um ser humano pode ter). Mas, e apesar de a sua mais recente “bomba” ser, como já é costume, um conjunto de medidas maioritariamente acertadas, há que considerar uma minoria de factores negativos provenientes da mesma. esses factores reflectem uma linha de pensamento que remonta aos primórdios do sistema educativo (a nível da humanidade), factores esses que têm vindo incessantemente a ser combatidos pelos pedagogos (os verdadeiros!), mas no global sem sucesso.

Estou a falar dos métodos de avaliação. Mas antes de começar a falar especificamente das medidas do Ministério que falei, permitam-me uma breve exposição sobre o tema (é só o parágrafo seguinte).

Há, como sabem todos os que estão ligados ao sistema educativo, dois métodos de avaliação: a avaliação contínua e a avaliação formativa. Tal como diz o nome, a avaliação contínua diz respeito à análise que o professor faz do desempenho do aluno durante o ano escolar, incluindo como factores determinantes a participação, o interesse, o empenho, bem como os trabalhos de casa e de grupo (embora estes últimos se enquadrem mais, a meu ver, na segunda categoria de avaliação - ou pelo menos numa categoria intermédia. visto que o professor só dispõe das resultados, não podendo determinar com segurança o processo trabalho, que seria o mais importante), e também o comportamento.

Já a avaliação sumativa diz respeito, nomeadamente, às provas escritas que os alunos realizam ao longo do ano. Ora, com um pouco de raciocínio se chegará à conclusão que o primeiro método é muito mais fiável que o segundo, pois nas provas escritas há diversos factores que podem distorcer a informação real que o professor precisa para atribuir a nota merecida ao aluno.

Em primeiro lugar, há as cábulas, das quais derivam inúmeras situações inadequadas (se o aluno tem sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer fixa a matéria, quanto mais aprendê-la; se a estratégia falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, quando podia tirar mais se confiasse nas suas capacidades e se esforçasse um pouco);

Depois, temos a cópia, um parente próximo da cábula cujas consequências são similares, dispensando assim a sua apresentação; temos ainda o facto de muitos alunos ficarem nervosos com as provas e/ou não serem capazes de se exprimir convenientemente por escrito, o que pode colocar a sua nota abaixo da merecida, só por dificuldades de comunicação – para evitar isso, que tal regressar às boas e velhas provas orais? Em conjunto com as escritas, forneceriam dados muito mais fidedignos sobre as capacidades do aluno, por tornarem impossíveis muitas das “estratégias baixas” acima referidas, e por permitirem uma comunicação muito mais eficiente entre professor e aluno (todos sabemos o quão mais fácil é dizer uma coisa que escrevê-la).

Por último, mas não menos importante (pelo contrário!), há o grande mal das provas: elas exigem apenas uma memorização temporária da matéria, após o que quase tudo é esquecido (mas não influenciando esse esquecimento em nada a nota do aluno). Ou seja. as provas fazem dos alunos meros papagaios. Palram, palram, mas não sabem do que falam. Não entendem nada.

Veja-se: que sentido faz, na disciplina de Filosofia, elogiar a revolução educativa de Sócrates, que quebrou o reinado “papagaial” dos Sofistas, quando até nessa disciplina temos que fazer provas para provar que fixámos toda a matéria?? Não há dúvidas; por mais que não se queira admitir, as provas reprimem o aprendizado, favorecendo a memorização.

Ora, voltando como prometido à medida do Ministério, tem-se que: a avaliação sumativa passa a contar 80% para a nota do trimestre, enquanto que a avaliação formativa só conta com 20%. Com uma conta simples, facilmente obteremos as percentagens dos componentes da avaliação formativa: cada um valeria, em média, 4% para a nota!!! QUATRO POR CENTO!!!!!!

Quem se preocupará com a participação, o interesse, o empenho, o comportamento… 4%?? Que se lixe! Vamos mas é fixar a matéria para a prova, que assim temos a nota garantida. Ou melhor, a matéria é falível: vamos fazer cábula, isso sim! Obrigado, Ministério da Educação! Assim, a nossa vida esta mesmo facilitada!

Será que os responsáveis não vêm que estão fomentando o não-aprendizado? Não vêm que desmotivam os alunos a serem, efectivamente, bons alunos? Não vêm que assim, mesmo os raros professores de boa vontade que tentam fazer uma avaliação justa ficam de mãos amarradas? Não vêm que assim, ACABAM COM AS MÍSERAS PROBABILIDADES DE SE TER ENSINO A SÉRIO EM CABO VERDE??? Ou será uma estratégia para ter menos bons alunos a disputar as bolsas de mérito?…

Caro pessoal do Ministério: vocês acostumaram-nos com medidas acertadas; agora paguem as consequências: nada de retroceder. Não avançar é aceitável (sois humanos). Mas retroceder já não vos é permitido. Bzot sabê manera k’kriol ê…

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See you soon, my friends!

Posted by Waldir Pimenta at 18:37:51 | Permalink | No Comments »