Friday, May 30, 2003

O Grande Problema das Associações de Estudantes

(Publicado no Artiletra nº 51, de Maio/Junho de 2003)

Neste artigo discorrerei algumas linhas acerca da formação, legalização e funcionamento das Associações Juvenis.

I. Criação

Se há uma coisa que é fortemente reprimida (embora inconscientemente) nas sociedades humanas, é a inovação. Ao longo da História temos variadíssimos exemplos de povos que se recusaram a aceitar mudanças nas suas rotinas de vida: um dos piores incentivadores disso foi a famosa “Santa” Inquisição. Quantos não foram queimados, torturados, assassinados, simplesmente por quererem dar o seu contributo ao desenvolvimento da humanidade? Copérnico, Galileu, Giordano Bruno… pergunto-me o quanto a ciência, a filosofia, a raça humana em geral, não poderiam hoje estar já desenvolvidas, se não fossem esses “travões” sociais. Tanto as sociedades mais “primitivas” como as mais “civilizadas” mantêm essa tendência natural, esse “instinto de conservação”, pelo que isso é, infelizmente, um dos muitos defeitos da raça humana que só poderão ser erradicados com alguns milhões de anos de evolução – ou com algumas décadas de terapia genética globalizada…

Portanto, criar uma coisa do zero é tão difícil que desencoraja quem não tenha uma forte personalidade, determinação e força de vontade.

O primeiro grande problema é: quem? Ou seja, como encontrar as pessoas cujos interesses englobem as actividades associativas? Isso já limita um bocado o raio de acção, visto que só se conhecem os verdadeiros interesses dos amigos e conhecidos mais ou menos próximos (pois num primeiro contacto ou em contactos superficiais e em situações não específicas, geralmente só se transmite da nossa personalidade ao nosso interlocutor o que coincidir com o modelo da sociedade para as pessoas da nossa idade, sexo, classe social, etc.).

[Quanto a essa questão, o ideal seria haver uma base de dados pública , no mínimo regional (por ilha), com os dados básicos (nome, idade, sexo, ano escolar, morada, foto, contacto (email) e interesses, hobbies, etc) – havendo tópicos que possam ser seleccionados, para facilitar tanto a “inscrição” como a pesquisa), uma espécie de lista telefónica, mas mais pormenorizada, digamos assim. A Internet , por exemplo, seria um meio mais que satisfatório para por em prática esse projecto. Quanto à privacidade: o que acho que poderia suscitar mais divergências seriam talvez os contactos e a morada, mas estes poderiam restringir-se, sem prejuízo aos objectivos iniciais, a, respectivamente, o email/telefone (que já é, inclusive, público) e a zona/localidade. Dados mais pormenorizados poderiam ser cedidos pela própria pessoa procurada, após um primeiro contacto.]

Segundo grande problema: como? Neste aspecto, refiro-me às bases estruturais para a criação de uma associação de estudantes: que estrutura deverá ter a futura associação, como elaborar os estatutos e regulamentos, enfim, uma perspectiva geral da organização e funcionamento da associação.

[A esse respeito, presumo que seria desejável um modelo, disponível a todos os estudantes, de uma associação de estudantes típica. Os Órgãos, os membros de cada Órgão, os tipos de membros, o regulamento eleitoral, etc.]

São esses os principais problemas que afectam a criação de uma associação de estudantes.

II. Legalização

Criada a associação, resta legalizá-la, oficializá-la, para obter personalidade jurídica e reconhecimento oficial, o que ajuda em muitos campos, principalmente na área de angariação de apoios. Quanto a isso há diversos handicaps:

O grande problema: onde?, ou seja, a quem recorrer, a que instituições pedir instruções para a realização do processo de oficialização? Bom, a verdade é que há uma tremenda falta de informação no tocante a esse processo. A maior parte dos casos de associações legalizadas são casos em que um dos membros da associação conhece pessoalmente algum jurista ou advogado, a quem pede ajuda, e que é quem geralmente redige os estatutos e dá as instruções básicas para a realização desse processo. Ora, por causa disso há uma grande taxa de associações não legalizadas, o que deve ser rapidamente invertido.

[Para tal, devia haver:

  1. uma maior divulgação das leis que se enquadram nesse contexto no ambiente escolar:
  2. um modelo dos estatutos típicos, também divulgado e disponível aos alunos;
  3. mais informações sobre o processo de legalização.

Essas informações deveriam ser distribuídas a todas as escolas, que por sua vez as faziam chegar aos alunos.]

III. Funcionamento

Eis o big problem. Tem-se reparado que:

  1. As associações tendem a ter um período de grande dinamismo com um grupo que está na Direcção, diminuindo ou, por vezes, parando essa actividade assim que esse grupo (quase sempre formado por alunos do mesmo ano ou de anos próximos) termina o ensino secundário, “saindo” da escola;
  2. O Presidente é geralmente o membro mais activo e dinamizador, e o grupo restante tende a “perder o ânimo” quando este, que é na maior parte das vezes estudante do 3 ciclo, termina o 12º;
  3. Há alguns membros do grupo central (a direcção) que trabalham mais, enquanto que outros elementos ficam, por assim dizer, à “sombra da bananeira”, colhendo os louros de ser membro da associação sem no entanto contribuir para a realização das actividades (excepto festas, convívios, para quais estão sempre prontos), e por vezes mesmo atrasando ou dificultando o trabalho dos outros, mas que, por dificuldades estatuárias e funcionais (a necessidade da realização de uma Assembleia Geral cada vez que se quiser demitir um membro da Direcção), ficam ate o fim do mandato, que é muitas vezes de dois anos.

[Esse é um problema interno que deve ser resolvido pelos membros da associação. Há factores que podiam facilitar (por exemplo, a base de dados de interesses que referi acima) o agrupamento de pessoas verdadeiramente competentes e responsáveis. Mas a gestão interna do pessoal conta também, e muito: por exemplo, nós da Associação dos Estudantes do Liceu José Augusto Pinto, criámos comissões de trabalho, de modo a descentralizar a actividade da Direcção, delegar responsabilidades, aumentar o número de alunos que participam activamente na associação, e isso tem-nos ajudado imenso no funcionamento, até porque, como estudantes, temos que conciliar o horário escolar com o das actividades da associação. Mas, agora que foi criada a Federação Nacional de Estudantes, este problema já poderá ser mais facilmente ultrapassado pelas associações de estudantes, pois uma das principais metas da Federação é ajudar as associações de estudantes a levantar-se e andar com os próprios pés. Mas prometo dar mais tarde informações mais específicas acerca, principalmente, da criação e legalização de associações de estudantes. Aguardem…]

Nota: O artigo que dá sequencia a este é o “A Legalização“, publicado em Novembro de 2005.

Posted by Waldir Pimenta at 18:21:58 | Permalink | Comments (1) »