Sofistas Modernos
(Publicado no Artiletra nº 57, de Abril/Maio de 2004)
Saudações, caro leitor! Volto a escrever-te para desta vez falarmos um pouco da contradição que reina no actual sistema educativo, a nível praticamente global.
Penso que o leitor facilmente concordará que o actual sistema de educação, não só podia melhorar (como tudo nesta vida, o que é perfeitamente natural, visto que nada é perfeito), como também poderia estar em muito melhor estado pelas condições que temos hoje reunidas (o que já não é tão desculpável assim, visto basear-se na teimosa resistência humana em mudar.
Como refere Paulo Coelho em Brida, foi um erro que pôs o mundo em andamento: quando, nos primórdios da história planetária, depois de surgir a vida, os mares rapidamente ficaram “infestados” de células a reproduzir-se continuamente. E foi um erro de funcionamento numa das células que fez com que algo a diferenciasse das outras. Foi o início do que chamamos “evolução”. Desde então, após incontáveis “erros”, a vida chegou ao que é hoje. No entanto, nós na nossa típica presunção humana, insistimos na ideia que os mutantes são aberrações, apesar de tentativas de mudar essa ideia, por exemplo da saga X-Men.
É claro que nem todas as mudanças são positivas, mas é tropeçando que se aprende a andar. Se ficarmos parados, morreremos de inanição!
É por isso que defendo que o homem actual não deve ter medo de errar, de mudar. Até porque as mudanças que possamos operar na nossa espécie (estou a falar a nível organizacional, não genético) serão mudanças pensadas, racionais, enquanto que as mutações evolutivas são aleatórias, portanto, com muito mais chances de resultar erradamente. E no entanto veja-se aonde a Natureza nos trouxe com esse processo: temos uma biosfera variadíssima, e um eco-equilíbrio espantoso!
Assim, e entrando especificamente no tema acima intitulado, eu diria que umas mudanças na própria essência do processo educativo poderia ter resultados bastante bons. Falo concretamente do que se aprende quando se começa a aprender filosofia: a oposição que Sócrates fez ao regime de ensino dos Sofistas, que faziam os seus discípulos recitar de cor as obras dos mestres anteriores.
Mas, apesar de se enaltecer a posição de Sócrates, a verdade é que continua-se a ensinar exactamente (bem, quase) do mesmo modo: em português, em vez de se ensinar a ler, a interpretar e a escrever, fazem com que os alunos fixem nomes de classes de palavras, recitem regras gramaticais, etc. (não é à toa que se aprende muito melhor e mais rapidamente o francês se passarmos umas férias na França do que se passarmos cinco anos a estudá-lo na escola); em física, faz-se com que os alunos memorizem as várias fórmulas (nem um físico profissional tem-nas todas na ponta da língua, afinal os livros servem é para isso mesmo), em vez de favorecer o raciocínio lógico; em filosofia, passamos dois anos a fixar o que pensavam os filósofos ocidentais dos últimos milénios, e no fim, quantos dos alunos realmente se interessam por filosofar? Um, dois por turma, quando muito. O que se quer ensinar, afinal? Parece que querem formar professores dessas disciplinas, e não executantes dessas técnicas. E FPS, então? O que é feito da cidadania, do altruísmo, dos valores sociais que em princípio deviam ser desenvolvidos por essa disciplina?
De facto, não defendo uma reviravolta total – nem oito nem oitenta; mas a situação actual tende demasiado para o lado sofista; os testes escritos e a respectiva correcção só incentivam a memorização da matéria; o tempo que se perde a passar a matéria para o caderno não permite que os professores a expliquem convenientemente (os currículos são demasiado extensos); há todo um processo cíclico que desencoraja a colocação de dúvidas e certos professores comportam-se como se fossem infalíveis, metem medo aos alunos, pois têm a faca e o queijo na mão…
A consequência de tudo isto é que os alunos simplesmente perdem o gosto por estudar, perdem a curiosidade que tinham na infância, e estudam pela obrigação de apanhar boas notas (isto é, notas que lhes permitam passar), e não pelo prazer de aprender, característico dos seres humanos.
Isto é grave, pois a sociedade vai-se aos poucos deteriorando, cada vez menos pessoas desempenham a sua função com prazer, o desemprego aumenta por as habilitações exigidas excederem o que a maioria atinge… e, pior que tudo, o trabalho torna-se uma obrigação que se tem que cumprir para poder ganhar o pão de cada dia (interesse egoísta), em vez de ser o contributo do indivíduo para a sociedade (interesse altruísta). Isto sem falar no aumento da criminalidade…
Tudo isto é para dizer que mudanças urgentes são necessárias no sistema educativo; nós, aqui no nosso pequeno país, não precisamos esperar que os mais desenvolvidos tomem a iniciativa para depois os seguirmos. Dêmos o exemplo! Tenhamos a coragem de inovar, pois é esse espírito que leva o mundo para a frente… e para cima!