Saturday, July 31, 2004

Revolução!

(Publicado no Artiletra nº 58, de Julho/Agosto de 2004)

A cada geração, a sociedade revive o mesmo filme: os jovens, impacientes, sempre rebeldes, não aceitando as regras que a sociedade tenta lhes impor; os adultos ignorando-os, rotulando-os de irresponsáveis e inconsequentes e recusando qualquer diálogo sério sobre as suas reivindicações, controlando a vida social com um mínimo de alterações possíveis, para não perturbar o “conforto” da rotina; e por fim os idosos, observando tudo isto da prateleira social em que os adultos os colocaram, aguardando com a paciência que lhes é característica o seu retorno à vida social activa, na qual sempre detiveram a posição de conselheiros que sabem que cedo ou tarde lhes será devolvida.

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A revolução da juventude de hoje confunde muita gente: será ela realmente nova e diferente? Será a mesma atitude juvenil de idealismo e protesto comum a todas as gerações? Será apenas um refúgio para a decadência social que atinge os jovens mais que ninguém?

Ora, nada mais fácil que perguntar-lhes! Porque é que os adultos têm receio de discutir abertamente questões importantes com os jovens? Quando os jovens percebem que alguém está genuinamente interessado em ouvir as suas ideias, eles não só falam – escutam também. Porque é que assim que um jovem interpela um adulto sobre algo que está errado na sociedade, este reage imediatamente na defensiva? Será que os adultos se sentem culpados por não terem sido capazes de quebrar as correntes na sua geração, e terem-se resignado, e têm vergonha disso?

Se não for por isso, então porque é que os adultos se fecham na concha do “os jovens são crianças irresponsáveis e inconsequentes que pensam que já são maduras”, e quando uma ou outra dessas “crianças” consegue nadar contra a corrente de inculturação a que são submetidos e emerge na superfície respirando o ar da análise e do raciocínio e critica o que acha errado, os adultos o tratam como uma espécie de prodígio, uma atracção, algo incomum, sem ligar no entanto ao que realmente diz, sem dar importância ao conteúdo do seu discurso.

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Apesar do ensino actual ser uma série de anos de memorização maioritariamente fútil e antiquada, é principalmente entre associações de estudantes que se encontram as mentes jovens mais preocupadas com a sociedade e dispostas a agir; mas esta minoria só o é porque a juventude desde cedo é mesmo pressionada para ser como os adultos reclamam que é: irreverente, “parodienta”, fugindo de tudo o que é sério ou convencional, procurando riscos e desprezando a escola. Digo pressionada, pois apesar de a sociedade sustentar (hipocritamente) valores que finge tentar incutir nos jovens, por outro lado publicita de todas as formas possíveis e imagináveis a imagem contrária: é aquele tio dizendo “oh, deixa-o, é da juventude, ele tem mesmo é que se divertir”, são as revistas, os filmes, dando destaque aos adolescentes rebeldes e desinteressados e ridicularizando os que não cedem a certos comportamentos considerados populares, são as miríades de expressões depreciativas para designar estes (“betinho”, “mauricinho”, c.d.f., etc), são os pais que não se preocupam em dar o exemplo de honestidade e carácter, ficando-se pelo “faz o que eu digo e não o que eu faço”…

Mas há jovens (e não são poucos) que estão realmente interessados em assuntos que são considerados “fora” da sua área de acção. Por exemplo, no tópico religião: as pessoas tendem a classificar a classe jovem como a mais desligada dos valores religiosos, mas veja-se o que diz uma jovem a esse respeito: “Há uma genuína renascença religiosa em andamento, mas a igreja está por fora”. Outro adolescente afirma: “A igreja poderia preencher uma grande necessidade da nossa sociedade – se se preocupasse menos com o divino e mais com a aplicação dos ensinamentos da Bíblia ao mundo de hoje”. Isso mostra que os jovens realmente se preocupam com a moral social, e são os únicos que têm a tenacidade de denunciar a hipocrisia que envolve este e outros aspectos da sociedade.

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O problema é que a classe adulta nos últimos séculos tomou posse das rédeas sociais, destruindo o saudável equilíbrio que existia entre a energia da juventude e a experiência da velhice. Ao contrário do se podia fazer crer, a idade adulta não reúne ambas as condições, mas sim possui uma mistura fraca das duas. É mais uma fase de transição, a nível mental – mas considera-se um escalão etário legítimo, por ser, a nível físico, bem delimitada e a mais importante na vida de um ser humano; Mas cada um desses três escalões etários precisa da influência das outras para que a comunidade beneficie dos melhores aspectos de cada um. Os adultos, não tendo a iniciativa da juventude, e não sendo ainda totalmente experientes e emocionalmente maduros (como gostariam que fossem), acabam por refugiar-se nas regras e rotinas sociais que criaram, o que leva a que os jovens e os velhos sintam-se, naturalmente, postos de parte: os mais novos são remetidos desde pequenos para uma maratona de estudos, da qual em princípio, se fizerem tudo “como deve ser”, deverão sair escassos anos antes de entrarem na idade mágica (30 anos) a partir da qual devem resignam-se dizendo “Não há nada que eu possa fazer”; os mais velhos, assim que fazem 40, começam a ser excluídos do clube, o que se torna mais evidente a partir dos 50 anos, e em alguns casos abomináveis, os próprios filhos os enviam para asilos.

O poder governante (não falo a nível de liderança política, mas das massas) da sociedade reside portanto numa elite que engloba pouco mais que uma década da vida das pessoas, uma elite composta por pessoas que não se interessam minimamente por melhorar o sistema, mas sim pensam cada um por si com o objectivo egoísta de adquirir uma posição e estabilidade socio-económica, conforto e segurança para si e os seus, insistindo no entanto em defender valores completamente contrários, só para garantir a sua imagem social. É claro que deste modo não se evoluirá lá a grande velocidade, mas felizmente há excepções — pessoas que não se deixam abater pelo que a sociedade espera delas, e que mantêm a iniciativa, criatividade e vivacidade da juventude, ousando experimentar novas coisas, que, eventualmente, poderão resultar melhor que o já existente; apesar da forte repressão a esse admirável tipo de pessoas, é graças a elas que a sociedade evolui e melhora aos poucos.

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É claro que não podemos ignorar os elementos perturbadores da revolução dos jovens: drogas, abandono ou mau aproveitamento escolar, delinquência, enfim. Mas é importante recordar que cabe aos pais darem à criança amor, atenção e disciplina justa, desempenhando assim um papel importante (não exclusivo, veja-se) na estabilidade da criança e na firmeza dos seus valores. Aliás, como todos sabem, as crianças aprendem muito mais com o que os pais fazem do que com o que eles dizem.

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Portanto, em vez de procurar maneiras de afogar a revolução da juventude, a sociedade devia procurar meios de utilizar a energia e o idealismo dos jovens. O importante é levar a sério as suas críticas e considerar a possibilidade de rever algumas das premissas básicas nas quais a sociedade se baseia.
Temos a cada geração a oportunidade de combinar a idade e experiência dos adultos (e incluo a terceira idade neste escalão, pois falo de idade mental) com a energia e vitalidade dos jovens. Trabalhando com eles, quase tudo será possível.

Posted by Waldir Pimenta at 20:57:30 | Permalink | No Comments »