Friday, October 15, 2004

FPS e Cidadania

(Publicado no Artiletra nº 59/60, de Outubro de 2004)

A Disciplina de FPS, não obstante ter-se originado por uma certamente bem-intencionada iniciativa, não chegou a passar de uma mera tentativa de, de acordo com um dos objectivos básicos da Educação Escolar (objectivo esse que, diga-se de passagem, não vinha sendo cumprido), fornecer aos alunos uma formação sólida a nível pessoal, e ao mesmo tempo prepará-los para integrar uma sociedade complexa de relacionamentos e interacções totalmente interligadas e regida por uma infinidade de regras e normas, como é a nossa.
Isto devido a diversos factores que estão a seguir expostos:

1. A matéria dada é demasiado teórica, não indo de acordo com os problemas e as dificuldades reais que caracterizam a fase da adolescência em que se encontram a maioria dos alunos que recebem essa formação. Verifica-se, apesar da aparente relação dos assuntos tratados no programa da disciplina com o (pressuposto) objectivo da mesma, uma aguda tendência a afastar-se da realidade dos mesmos, tratando-os com teorias e abstractas terminologias, acompanhadas de descrições minuciosas das suas características, ou das das suas variantes, se as houver (um exemplo: o estudo das “relações interpessoais horizontais e verticais”, cujas definições têm que ser necessariamente memorizadas, sem no entanto se saber mais sobre as mesmas do que uns simples exemplos dados, como o da relação professor/aluno, ou entre colegas ou amigos), que os alunos terão de diligentemente memorizar para “colar” nos testes e ter a resposta certa! Além disso, a maioria dos assuntos abordados pelo programa da disciplina de modo algum servem à formação, pessoal ou social dos estudantes. Senão, vejamos: para que servirá na formação pessoal e social de um adolescente as noções de resumo (que, curiosamente, deviam estar no programa da Disciplina de Português) ensinadas no 7º ano, a psicologia pura da janela de Johary, matéria vista no 10º ano, isto sem mencionar outros exemplos?

2. A exigência de uma avaliação escrita faz com que os alunos tenham que memorizar a matéria dada, não por ser necessária à sua vida futura, mas pura e simplesmente para obter uma boa nota nos testes e na pauta, tomando o lugar dos critérios de avaliação a capacidade de expressão escrita dos alunos, e, principalmente, a sua capacidade de memorização, as quais, evidentemente, não são as “capacidades” mais apropriadas para serem avaliadas numa disciplina deste calibre. Sem falar que a avaliação dita “qualitativa” (M. Bom, Bom, etc.), prejudica gravemente a análise do aproveitamento do aluno, pelas mesmas razões que o sistema 2 a 5, que foi recentemente alterado, devido às suas profundas deficiências, para 0 a 20, a chamada “avaliação quantitativa”: na verdade só muda o nome entre a avaliação “qualitativa” e a de 2 a 5, pois os escalões são os mesmos, advindo os mesmos problemas de ter divisões tão vastas: torna-se demasiado subjectivo e alvo de fácil falha a distinção entre os alunos nos extremos dos escalões. E tudo isto sem mencionar a dificuldade da sua integração no seio das notas das outras disciplinas, que usam a escala de 0 a 20, integração essa que é de toda a importância, como se pode verificar pela parte destacada do parágrafo seguinte;

3. Por ultimo, há o facto indecente de a maioria ou pelo menos grande parte dos professores da disciplina não terem formação a nível de pedagogia e principalmente de psicologia e serem permissivos e , e tanto o sistema como (por inerência) os alunos e respectivos professores dão pouca importância à disciplina, que acaba por adquirir a definição de “disciplina fácil”, na qual toda a gente passa, etc., o que é inacreditável, pois a FPS pelo seu objectivo devia ser a disciplina mais importante de todas: afinal, a escola tem como objectivo geral preparar os alunos para a sua inserção na sociedade, tanto a nível de conhecimentos (saber fazer), como a nível de comportamento e interacção social (saber ser), o que é de facto o objectivo específico da disciplina de FPS!

Ora, a uma Disciplina com essa importância deve ser evidentemente dispensada toda a atenção, pois trata-se de uma área sobremaneira sensível, atenção essa que não tem vindo a ser concedida, tendo em conta a proliferação de mudanças necessárias no seu seio, das quais passo a enumerar algumas:

- É necessária, antes de mais, uma profunda revisão do currículo da disciplina, revisão que há muito vem sendo aclamada e reivindicada por diversas entidades e personalidades, bastas vezes publicamente e nos media nacionais. Deixo o adiantamento do conteúdo dessa reforma para os entendidos na matéria, até porque seria demasiado maçador referi-los todos aqui;

•- Sente-se agudamente a falta de professores com formação específica para esse tipo de ensino. E não só: para os objectivos dessa disciplina, são necessários professores jovens de espírito, inovadores e criativos, capazes de captar a atenção dos alunos e influenciá-los positivamente, nos âmbitos da disciplina.

• - A avaliação do comportamento do aluno (assiduidade, pontualidade, respeito pelos colegas, professores e edifício da escola, etc.) deveria fazer parte integrante da nota da disciplina (por motivos óbvios), em vez de ser simplesmente anexada à pauta das notas; Nem é preciso dizer que estas não contam na avaliação das outras disciplinas, que deve depender não do comportamento do aluno mas sim da sua assimilação da matéria. Por outro lado, Não seria necessário haver faltas de disciplina, se fossem dadas punições (trabalhos úteis à escola), que certamente se revelariam mais eficientes, visto terem repercussões mais “palpáveis” para os alunos (pois um aluno indisciplinado, violento ou rebelde, não daria muita importância por ter no livro de ponto e na pauta uma falta de disciplina, ou por ver a sua nota diminuída pela indisciplina que cometeu, e muito menos por um ou mais “dias de casa” (o que, pelo contrário, até o agradaria, não ter que suportar por um(ns) dia(s) a “chatice” da escola), desde que consiga passar no fim do ano; enquanto que com certeza pensaria duas vezes antes de riscar a parede da escola, por exemplo, se tiver que limpar ou até pintar o que riscou, mesmo que não seja a suas expensas), e seria nesse sentido útil aos objectivos da disciplina ser o professor da mesma a gerir tais “punições”. Seria, portanto, uma questão de penalizar a violência física ou moral, perturbação das aulas, desrespeito aos colegas ou professores, danificação da escola, etc., como parte activa da formação ministrada pela disciplina de FPS.

•- Os métodos de ensino deveriam incluir promoção da discussão e debate de assuntos diversos de importância social ou emocional (homossexualidade, aborto, problemas pessoais, problemas políticos e internacionais, etc.), conversas com pessoas relacionadas com a matéria que vai sendo dada, entre outros, de modo a desenvolver a capacidade argumentativa dos alunos e a formação da sua opinião pessoal, bem como tornar a disciplina mais desafiante e interessante

•- Deveria ser reservada uma boa parte do tempo lectivo para orientação vocacional/profissional, se não como parte integrante da sua formação pessoal, pelo menos como preparação para a posterior escolha das áreas, no 3º ciclo.

•- É incontornável que a cidadania, a criação de consciência social, através do incentivo dos alunos a ser activos na escola, na sociedade, e consequente formação da responsabilidade social dos alunos, seja um dos elementos centrais da disciplina, sendo para isso um método bastante eficiente e simbiótico, a colaboração com a Associação de Estudantes da escola, nas suas diversas actividades.

Muito mais, sem dúvida, há que dizer acerca deste tão vasto assunto; mas certamente que se estas pequenas premissas fossem postas em prática, teríamos uma FPS realmente eficiente, formando jovens que no futuro tomariam as rédeas das famílias, da economia, do governo, em suma, do país em si, gerindo-o com competência e responsabilidade, lançando a nossa nação numa fase de desenvolvimento humano sem precedentes.

Posted by Waldir Pimenta at 20:59:25 | Permalink | No Comments »