Tuesday, November 30, 2004

A Propósito

Publicado no Artiletra nº 61/62, de Novembro/Dezembro de 2004)

Certos acontecimentos recentes, do conhecimento de nós todos, deram azo a uma série de divagações que pretendo neste artigo partilhar convosco.

Falo do triste evento que foi a morte do nosso grande poeta, cantor, homem de cultura e tantas outras coisas que se torna impossível listá-las todas aqui.

E é pena, realmente, que se extingam tão grandes representantes da grandiosidade que o ser humano pode atingir, e apesar de não terem verdadeiro sentido lógico, o enterro e o luto têm o seu sentido emocional, pois nós por natureza não compreendemos nem aceitamos facilmente a perda de um querido, de pessoas que amamos e admiramos. Não nos parece natural que a complexa personalidade de mesmo quem não se tenha destacado  na sociedade, personalidade que foi criada por um processo longo e intrincado de interacções e influências diversas, se esfume de um momento para o outro no nada, qual névoa vaporizando-se.

I

Mas e se tal não for o que na verdade acontece? E se realmente existir vida após a morte?

É de notar que este tema não é nem esotérico nem paranormal, pois é abordado das mais diversas frentes, desde a religiosa à científica, passando pela filosófica.

O desejo de vencer a morte e o fascínio por essa possibilidade sempre fez parte do espírito humano, e esse sentimento encontra-se espllendidamente retratado no seguinte poema de Patrick Overton:

“When we walk to the edge of all light we have,
and take a step into the darkness of the unknown,
we must believe one of two things will happen,
there will be something solid for us to stand on
or we will be taught to fly.”

(Quando caminhamos para a margem de toda a luz que temos,
E damos um passo na direcção da escuridão do desconhecido,
Devemos acreditar que uma de duas coisas acontecerá,
Ou haverá algo sólido para nos sustentar
Ou seremos ensinados a voar.)

Os egípcios com o seu culto da vida pós-morte (que originou a construção das fabulosas Pirâmides, por exemplo)A alquimia, com a sua procura pelo elixir da vida eterna; o cristianismo com a sua promessa de ascensão aos céus das almas puras; a filosofia com o questionamento da verdadeira natureza da nossa essência; a ciência com a constante busca para passar factos do campo do “sobrenatural” para o natural; tudo isso são reflexos de diversos modos de encontrar consolo ao inconformismo com que encaramos o tema.

II

Mas será que temos razão? Será que devemos confiar no nosso inconformismo e deduzir com base nele que deve existir vida após a morte, ou aquela não teria sentido?
Penso que não. Se virmos as coisas por outro prisma, veremos que na verdade é só uma questão de relatividade. Da mesma maneira que um minuto nos parece  uma hora se estivermos enfadados, e uma hora nos parece um minuto se estivermos a divertir-nos, também nos parecerá curta a existência de certas pessoas, se não tivermos apreciado ao máximo os momentos que passámos (ou poderíamos ter passado) com essa pessoa.

Hoje em dia é frequente as pessoas se aproximarem ou até ultrapassarem um século de vida; mas o que muitos não reparam é que meio século já é muito, muito mais do que se imagina! Apesar de um terço desse tempo ter sido passado a dormir [], os dois terços restantes incluem bilhões de segundos nos quais nos é permitido dar azo às nossas aspirações, sonhos, fazer o que gostamos e apreciarmo-nos uns aos outros. Tudo o que uma pessoa vive (ou pode viver) em 50 anos dificilmente caberia em todos os livros do mundo. Mas nós, na nossa rotina do dia-a-dia, muitas vezes não paramos para apreciar que outras pessoas estão a fazer em vez de cumprir a rotina que poderiam ter. Por exemplo, ouvir de vez em quando um CD do saudoso Ildo*.

A este respeito, acho pertinente enfatizar a ideia de valorizar mais os jovens, pois geralmente só se reconhecem os artistas (e outros talentos) quando já estão a meio da carreira (muitas vezes, até, quando já estão no fim), pelo que não admira que essas pessoas pareçam “morrer antes do tempo”. As pessoas de facto geralmente vivem o tempo necessário para exercer as suas talentos e deixar a sua marca no mundo, mas muitas simplismente só são reconhecidas numa fracçao desse tempo de criaçao, de vida que têm, enquanto que outras nem seque se dão ao “trabalho” de viver intensamente a sua própria visa.

Isto agora me lembrou um email que alguém me enviou, um forward que dizia mais ou menos assim:

“Convencemo-nos que a vida será melhor depois… Depois de acabar os estudos, depois de arranjar trabalho, depois de casarmos, depois de termos um filho, depois de termos outro filho.

Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixem de ser crianças, depois desesperamo-nos porque são adolescentes, insuportáveis. Pensamos: «Seremos mais felizes quando passar esta fase!»

Então decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso companheiro ou companheira estiver realizado, quando tivermos um carro melhor, quando pudermos ir de férias, quando conseguirmos uma promoção, quando nos reformarmos.

A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA MESMO!

Se não for agora, então quando?
A vida está cheia de depois, de reptos. É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!

Deixa de esperar até que acabes os estudos, até que te apaixones, até que encontres trabalho, até que te cases, até que tenhas filhos, até que eles saiam de casa, até que te divorcies, até que percas esses 10kg, até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã, até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras, para decidires então que não há melhor momento que justamente ESTE para seres feliz!

A felicidade é um trajecto, não um destino. Trabalha como se precisasses de dinheiro, ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse a ver!”.

*Ildo Lobo, famoso cantor cabo-verdiano, faleceu em 20 de Outubro de 2004

Posted by Waldir Pimenta at 14:53:47 | Permalink | No Comments »