Friday, April 15, 2005

As Palavras

(Publicado no Artiletra nº 67, de Abril de 2005)

Hoje em dia, antes de uma criança aprender a ler, já vê televisão. Isso cria um problema, pois a cultura continua a depender da escrita. Porque será assim? Porque é que as imagens não podem ser igualmente transmissoras de conhecimento e cultura? O que tem a escrita de tão especial?

O que acontece é que a comunicação oral e visual é muito mais rica, envolvendo não só palavras como imagens, sons, criando todo um contexto envolvente que apesar de poder ser mais facilmente apreendido, não pode ser relatado da mesma forma. Isso verifica-se quando alguém conta uma situação engraçada que presenciou a um grupo de pessoas: muitas vezes a situação não parece ter tanta piada aos ouvintes, que ou ficam a olhar uns para os outros sem saber o que dizer, porque não conseguem ver onde está a graça, ou esboçam sorrisos inseguros, precisamente porque as palavras do narrador são insuficientes para criar o contexto, para simular os sons e imagens (como reza o ditado, uma imagem vale mais que mil palavras) que em conjunto tornaram toda a situação original tão engraçada.

É por isso que a linguagem escrita é tão importante na transmissão do conhecimento: é que ela é composta apenas por palavras, quer orais quer escritas, mas libertas totalmente do contexto, pelo que podem ser transmitidas e relatadas sem perder o conteúdo.

Tudo isso não seria relevante se dispuséssemos de um método directo de transmissão de pensamentos no seu estado puro (telepatia). Mas a linguagem é o único modo que dispomos de transmitir de forma concreta pensamentos, ideias e emoções entre os membros da nossa espécie de modo a partilhar informação; Por outro lado, a linguagem acaba por fornecer um método para a própria reflexão interior, ajudando a ordenar algum do caos difuso de sensações, imagens, pensamentos que a cada segundo nos atravessam o cérebro.

Um razoável domínio da linguagem torna-se assim imprescindível para uma boa comunicação (aquisição e transmissão de dados), permitindo deste modo um desenvolvimento mental baseado nos dados externos (informações recebidas), dados internos (pensamentos próprios) e processamento dos mesmos (reflexão).

Obviamente, para este efeito a linguagem deve adquirir alguma complexidade que lhe permita transmitir com alguma fiabilidade o pensamento que representa; consequentemente, quem estiver desabituado do uso da linguagem tem clara desvantagem no intercâmbio de conceitos mais complexos.

É facto público que uma minoria da população adquire o gosto pela leitura (que é o método mais eficiente de ganhar maleabilidade no uso da linguagem). Isso deve-se ao que mencionámos no primeiro capítulo: a popularidade da televisão e outros meios multimédia de comunicação; como dissemos, tais meios podem usar de menos complexidade linguística pois dispõem de elementos extra que conferem uma fácil interpretação e assimilação do que transmitem. No entanto, essa prática torna as mentes preguiçosas, e, acostumadas a “informação fácil”, acabam por sucumbir rapidamente a qualquer tentativa de uma leitura superior a alguns parágrafos (poder-se-ia até dizer algumas palavras).

Por causa disso, ao chegar à escola as crianças estão destreinadas para o método mais fiável de transmissão de conhecimentos, a leitura, obtendo resultados fracos em exames escritos mesmo que compreendam bem os conceitos. Esse facto, em vez de conduzir a um maior incentivo da leitura e escrita, conduziu ao uso de métodos cada vez mais claros e completos (multimédia) para o ensino dessas crianças. Ainda menos destreinados na escrita, embora compreendendo melhor a matéria, as notas continuaram a baixar, estando hoje a média escolar a tender para o “suficiente”, ou seja, o mínimo necessário para passar.

Devido a esta prática, as crianças que lêem desde pequenas se resumem às cujos aglomerados familiares consideram tal prática indispensável para a formação mental, e limitam o uso da televisão, incentivando o desenvolvimento da imaginação própria em livros de histórias (em vez da imaginação “pronto-a-comer” da televisão), e fomentam a satisfação nos livros da curiosidade natural da idade das perguntas, só liberando totalmente a televisão quando a prática da leitura perder qualquer esforço e se realizar pelo prazer de ler.

Crianças que ganham desde pequenas o gosto pela leitura crescem com hábitos de leitura, passam a vida a absorver vastos conhecimentos e informações novas, e, familiarizados com a linguagem, conseguem melhor dar estrutura aos seus pensamentos e absorver conceitos mais complexos; A familiaridade com a linguagem confere também um conhecimento intuitivo da própria gramática e semântica da mesma, o que se reflecte num melhor uso do discurso oral e escrito (embora nem sempre em melhores notas nas disciplinas de línguas na escola – talvez porque nessas se dá mais importância à memorização de conceitos e definições que numa aquisição de à-vontade na fala, escrita e leitura?).

Contudo, a maioria não segue este padrão; lêem apenas quando algo os obriga a tanto; nos casos restantes, vêm televisão. Quem assim cresceu, mais tarde não lê mais que o estritamente necessário, e mesmo assim a contra gosto. A leitura permanecerá (regra geral) algo custoso por toda a vida. Qualquer texto que ultrapasse o nível de exclamações da banda desenhada como “bum!” e “splat!” transforma-se numa corrida de obstáculos. Os que integram este grupo encaram os livros como impertinências e no fundo não têm meio de entender gente que leia, acabando por desconfiar deste tipo de gente. Para eles, o mundo dos livros é uma conspiração destinada a tornar-lhes pesada a consciência. Deste modo desenvolvem uma autêntica aversão aos livros, e como também não gostam de ler os livros da própria especialidade, não tardam a ficar desactualizados em termos profissionais. Chegados a este ponto, nem lhes ocorre que a sua abstinência da leitura e a sua hostilidade face aos textos fez com que se degradasse também a sua comunicação oral, e assim não entendem por que motivo as suas experiências não são devidamente apreciadas e compreendidas, acabando imergindo lenta e inexoravelmente no mundo das sombras da cultura da sociedade actual, que é o de um novo analfabetismo.

Quem se incluir no rol dos que não gostam de ler deveria, por isso, reflectir seriamente sobre se não valeria a pena ultrapassar esta falta de vontade. Quem ainda não tiver quaisquer hábitos de leitura talvez deva exercitá-los de forma selectiva, com matérias que de qualquer modo lhe despertem um especial interesse, nem que sejam romances eróticos. Tal como antigamente um jovem era iniciado nos segredos do amor físico mandando-o ao bordel, onde a troco de dinheiro uma cortesã experimentada o levava cuidadosamente a perder a timidez, assim qualquer um deveria ler, por assim dizer para se iniciar, um dos grandes clássicos da literatura, nem que seja por uma espécie de sentido de obrigação a fim de, a seguir, se reger pelos seus próprios impulsos. Nesta altura poderá dizer com alívio “nunca mais” ou então ter-lhe ganho o gosto. Em todo o caso, o conhecimento de um dos grandes romances lhe permite uma base cultural, a partir da qual poderá expandir os seus conhecimentos em conversas com os outros.

De qualquer modo, há que se admitir que o único modo de ter uma panorâmica temporal da História ou da sociedade, é precisamente com a leitura de histórias (romances), que além de retratar toda uma vivência, fornecendo dados importantes para a formação pessoal, social e cultural do indivíduo, acaba por alimentar o desejo de ficção, de dar largas à imaginação, que caracteriza o ser humano.

É evidente que hoje em dia os media (televisão, teatro, cinema) se encarregam de boa parte da tarefa de suprir as necessidades de histórias que a sociedade denota. Mas existe algo que apenas o romance pode mostrar com toda a clareza: o aspecto interior de uma pessoa. Só no romance podemos testemunhar na própria pele como é sermos vítima da exclusão e discriminação social. Embora no filme vejamos o personagem perseguido em todas as respectivas situações, podendo identificar-nos com o seu destino, penas o observamos do exterior. No romance, pelo contrário, sentimos os impactos da mesma forma que o protagonista, isto é vemos o mundo (fictício ou real) pelos seus olhos e partilhamos as suas vivências e experiências, tirando inclusive proveito próprio delas, pois acabamos por cometer os mesmos erros que a personagem, ao a encarnarmos, pelo que na vida real já estamos prevenidos a evitar esses comportamentos. O romance acaba por se tornar um método de educação social bastante eficiente, ao oferecer-nos a possibilidade de cometer erros (em nome da personagem) num universo cujas consequências não passam para o mundo real.

Neste aspecto o romance é único. Torna possível algo que não existe nem em qualquer outro género de arte, nem na própria realidade: vivenciarmos o mundo da perspectiva de outra pessoa, e ao mesmo tempo observarmos essa vivência.

E precisamente pelo facto de ser expresso em palavras, o livro permite que milhões de pessoas vivenciem as mesmas experiências e adquiram os mesmos saberes, acabando por ter um universo comum de personagens, lugares, frases e conhecimentos com os quais se forma grande parte da sua cultura, tudo isso, graças às palavras.

(Com extractos adaptados de Cultura – Tudo o que é preciso saber, por Dietrich Schwanitz, Ed. Dom Quixote, 2004)

Posted by Waldir Pimenta at 14:21:39 | Permalink | No Comments »