Wednesday, June 15, 2005

O Poder da Educação

(Publicado no Artiletra nº 68, de Junho de 2005)

Caros leitores, cá estou eu de volta a sugerir uma pequena viagem reflexiva acerca de um tema que, como já devem ter reparado, muito me atrai, que é o ensino.

Ora, muitos de vós hão de se recordar ter ouvido algures que a educação é a melhor arma para mudar o mundo. Ou coisa parecida. Bem, isso é provavelmente verdade. Conturdo, isso é em teoria; na prática a história é outra…

E porquê isso não é verdade? porque é que o mundo não anda melhor nos dias de hoje, com o analfabetismo a diminuir a cada dia?
A resposta a essas perguntas reside sob uma fina camada de reflexão que seguiremos neste texto.

O leitor lembrar-se-à, certamente, de um ou outro professor que marcou o seu percurso académico pela sua excepcional capacidade de transmitir os intrincados aspectos da matéria em conceitos simples, pela sua afabilidade e simpatia e compreensão, enfim, pela sua pedagogia.
Esse (ou esses) professores marcam a diferença na vida das pessoas porque, ao contrário dos outros, que (infelizmente) são a maioria, conseguem fazer com que o aluno tenha prazer em aprender, e que compreenda a matéria, em vez de a memorizar.

Esse factor é fulcral no ensino como factor de mudança de mentalidades; cada vez mais, a vida de uma pessoa se torna mais e mais embebida em tarefas a executar, responsabilidades a cumprir, e isso aumenta quanto mais complexa se for tornando a sociedade. Ou seja, quanto mais “evoluída”, mais “civilizada” ela for. Isso na prática traduz-se em cada vez menos tempo para apreciar os pequenos e grandes prazeres da vida, nos quais se inclui o prazer de aprender coisas novas.

Mas hoje em dia o próprio aprendizado é encarado como um trabalho, como uma obrigação; as pessoas já não aprendem mais por amor ao conhecimento, mas por necessidade. Necessidade de ter o diploma para conseguir trabalho. Necessidade de trabalhar para ganhar o pão de cada dia. Necessidade de ganhar a vida para vivê-la, acabando por passar toda a vida a vivê-la para os outros e só descobrindo que afinal foi tempo perdido quando chega a reforma e já não há tempo nem vitalidade para viver a vida. No fundo, tudo isso podia mudar se as pessoas encarassem o estudo e o trabalho como fontes de prazer; como fins, não como meios.

Mas isso, claro, só será conseguido se os professores incutirem esse espítito nos alundo. Melhor dizendo, se não cortarem pela raiz a curiosidade natural das crianças… O facto é que esses professores excepcionais que ficam na nossa memória, deviam ser precisamente a regra, e não a excepção. Costumo dizer que o bom professor mais que aquele que sabe o que ensina, é o que sabe ensinar. E saber ensinar é saber transmitir o maravilhoso que reside no pormenor mais ínfimo da cultura e ciência humanas, produtos de milhares de anos de evolução e de contribuições dos mais brilhantes cérebros da nossa espécie… é saber transmitir a mesma emoção da descoberta que os que primeiro chegaram a esses conceitos sentiram…

Mas isso não acontece, e a grande maioria dos alunos ao sair do ensino básico já perderam toda a vontade de aprender, pela acção “curiosicida” dos “professores” por cujas mãos passaram… Essas pessoas ao longo do restante percurso académico, vão cimentando a sua aversão ao aprendizado, apenas aprendendo (?) o estritamente necesário para passar de ano ou para conseguir o trabalho que pretendem; e assim continuam a sua vida, cumprindo as suas obrigações e ganhando o dinheiro que usam para o entretenimento, que não passa te tempo ocupado em actividades para esquecer o stress da vida…

Mas quando se diz que o ensino pode mudar o mundo, era disto que se falava? hum, provavelmente não. O que acontece é que quando alguém chega a um certo nível de instrução, sem perder o gosto pelo ensino, acaba por se tornar autodidacta e começa a procurar informações por si só e a desenvolver ideias próprias; Essa auto-reflexão acaba por ajudá-las a tomar consciencia da importância de certas regras sociais que de outro modo se tenderia mais facilmente a infringir; ao compreender o porquê das coisas, respeita-se as regras porque se concorda com elas, e não simplismente proque se é obrigado a tal.

Por si só isto já resultaria num mundo melhor: imaginem como seria um mundo em que as pessoas não roubassem, não deitassem o lixo na rua (nem produzissem tanto lixo), onde os condutores tivessem mais cuidado, onde os contribuintes reclamassem menos dos impostos (e onde os governantes fossem menos corruptos e portanto o dinheiro do estado rendesse mais, sendo necessário menos impostos consequentemente), etc etc etc…

Mas as coisas podem até ser melhores que isto! “Como assim?!”, vocês perguntam, “ainda melhor que isto??”. Sim, meus caros, e não é utopia: todo o sistema organizacional da nossa sociedade actual foi concebido gradualmente, ao longo de vários séculos, com contribuições de vários pensadores; a democracia, o pluralismo partidário, o dinheiro, as regras da “moral e bons costumes”, não foram inventadas de uma só vez como se fossem os dez mandamentos a cair do céu! Foram produto de mentes humanas que analisaram o estado da socidedade no seu tempo e depois de muito reflectir chegaram à conclusão que as coisas podiam estar melhor; e lutaram pelos seus ideais, alguns acabando por ter sucesso (Jesus, Ghandi, Péricles, Mandela, entre milhares), outros não, quer por as suas ideias não serem na verdade melhores que o sistema existente, quer por as terem idealizado “antes do tempo”, quer por falta de determinação, enfim.

Então, como nenhuma ideia é perfeita, no fundo o sistema social acaba por ter sempre margem para melhorias; todos nós, inclusivamente, temos uma palavra a dizer sobre o que achamos que está mal na sociedade e no mudo, apesar de muito poucos realmente terem determinação e força de vontade para ir com as suas ideias avante; a maior parte sequer se digna a analisar mais profundamente esses problemas, em busca de uma solução, precisamente por ter perdido na noite dos tempos (sempre quis dizer isso!) da sua infância, essa excepcional capacidade de nos marvilharmos com coisas novas e de querermos saber sempre mais…

É por isso que o mundo pouco ou nada anda a mudar; apesar de ser uma bola, ele não roda, porque a educação ainda não atingiu o nível ideal; ainda não há professores bons em número suficiente; ainda os fundos governamentais da maioria dos países são desviados para actividade militar e bélica, em vez de canalizados para aumentar o nível de vida e instrução da população; os media, que são o maior motor social já inventado (até chamados de O Quarto Poder), de centros de informação, cultura e instrução tornaram-se a paródia das gaffes ortográficas e repositórios de conteúdos de entretenimento puro; as universidades, de lar do conhecimento, tornaram-se antros de diversão, paródia e anarquia, onde se vivem supostamente os “melhores anos da vida”; a ciência segue interesses económicos e militares…

Isto continuará assim, enquanto não se mudar radicalmente o modo de pensar a educação e o ensino; pois sendo verdade que cresce o número de escolas, livros e professores, também aumenta a população do planeta, pelo que dificilmente a taxa de redução do analfabetismo será significativa;
Mas o que precisa realmente de uma reforma a fundo, é esse velho conceito de aprendizado como obrigação (tanto para os alunos como para os professores!).

Enquanto não se ensinar e aprender por prazer, o nosso mundo continuará o mesmo… até quando?

Posted by Waldir Pimenta at 05:38:47
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