Sunday, July 31, 2005

O Quarto Poder

(Publicado no Artiletra nº 69/70, de Julho/Agosto de 2005)

Saudações, caríssimo leitor!

Gostaria de sugerir que continuássemos a nossa jornada, desta vez abordando um tema bastante pertinente: a liberdade de acesso à informação…

Há uns dias atrás, vim-me com esta frase, que achei interessante:

“metade dos problemas do mundo deve-se à falta de informação (pelos que dela precisariam para os resolver), e a outra metade deve-se ao excesso de informação (pelos que dela se servem para os causar)”

Realmente, isso descreve bastante bem o problema da informação: é uma coisa muito importante e está ligada a todos os momentos da nossa vida. nós só somos uma sociedade, porque o nosso cérebro computa tanto dados internos como os que recebe do exterior, como input através dos sentidos.

Diz-se que o verdadeiro poder está na informação: quem controla a informação que chega às massas, controla as massas. É por isso que existe tanta manipulação e censura nos média, como a televisão, a imprensa, a rádio.

O Boom das telecomunicações, trouxe muito à causa da liberdade de acesso à informação. Com a informação a atingir cada vez mais pessoas, o povo se torna mais esclarecido e mais dificilmente se deixa enganar por tiranos. Com pessoas mais bem informadas, melhor poderão se desenvolver na sua vida, fazendo coisas que realmente gostam. Com a facilidade das comunicações, há mais contacto entre as pessoas; as distâncias encurtaram.

Mas a informação continuou a ser bastante controlada pelos mais poderosos; os que detinham menos poder só sabiam o que se queria que soubessem. Houve outro Boom. A Internet. Antes, era praticamente impossível que um mortal comum tornasse um texto público; A edição de um livro, ou a publicação num jornal, televisão ou rádio eram processos morosos e que raramente se cediam a qualquer um. Com a net, toda e qualquer pessoa com acesso à rede ganhou a chance de tornar as suas ideias públicas, sem qualquer esforço, acabando com barreiras sociais, culturais, raciais, geográficas. Houve uma verdadeira democratização da informação.

Mas a informação continua cara. As melhores enciclopédias continuam sendo disponíveis apenas sob pagamento. Felizmente há a regra de ouro da internet: oferecer SEMPRE algo de graça. FREE é a palavra mágica da internet. Mas por outro lado o que se dá de graça raramente é de boa qualidade. Todo o conhecimento humano, tudo o que elementos da nossa espécie já descobriram ao longo da História, devia estar disponível para todos, gratuitamente. Mas não: temos que pagar para obter livros; temos que pagar para ter a televisão; temos que pagar para ter rádio, jornal, internet! No fundo a informação (poder) continua sempre nãs mãos dos que já detêm algum poder social (dinheiro); isso impede que os mais desfavorecidos não tenham a chance de se desenvolver plenamente como seres humanos, desperdiçando a sua vida e o potencial intelecto em trabalhos maquinais, que lhes empurra cada vez mais para uma existência vegetal, apesar de nada deixar transparecer isso.

Mas há excepções! um exemplo é o Google, que gratuitamnente oferece o seu serviço de pesquisa na internet, tendo assumido a missão de organizar o caos da internet, tornando acessível a informação verdadeiramente relevante. Outro exemplo são as aplicações P2P (peer-to-peer), como Kazaa, o Emule, o BitTorrent, entre tantos outros, que são programas que permitem a troca de ficheiros entre utilizadores da rede, tornando possível obter qualquer informação, quer em texto, som, vídeo ou outro formato qualquer. Mas o melhor de todos os exemplos é o Wikipédia (www.wikipedia.org). Um projecto que começou já há alguns anos, consiste numa enciclopédia online completamente gratuita, e que pode ser editada por qualquer pessoa! Esse conceito é muito importante: significa que, qualquer internauta que visite o site pode acrescentar informação que disponha a um determinado artigo que esteja incompleto, sem precisar de se inscrever em nada, e muito menos pagar, podendo inclusivamente iniciar um novo artigo sobre um assunto que ainda não esteja abrangido pela enciclopédia.

Esse exemplo mostra claramente o que devia ser feito com o Conhecimento Humano: o ideal era que houvesse uma base de dados universal, com todo o conhecimento produzido por humanos, disponível gratuitamente para todos, e passível de ser incrementado livremente com novas informações. Uma ideia similar foi desenvolvida por Theodore Nelson, o inventor do hipertexto, e chamou a essa biblioteca universal Xanadu. William Gibsons imaginou algo parecido no seu romance Neuromancer, que descrevia o Ciberespaço, um emaranhado de ligações que conectavam cada simples pedaço de informação, formando uma gigantesca rede que englobava todo o conhecimento…

(preparem-se que agora começam as ideias loucas)

Se a telepatia fosse uma realidade (e quem garante que não seja?), quem sabe seria possível criar uma consciência comum a toda a humanidade, uma espécie de internet mental, à qual todos os humanos (ou atá abrangendo todos os seres pensantes, se considerarmos que os pensamentos têm a mesma essência para todos os seres - digamos que se os pensamentos se transmitem por ondas, então se pode fazer uma analogia com o electromagnetismo e abranger todos os seres cujas “ondas mentais” se encontrem na mesma faixa do espectro, ou seja, tenham a mesma frequencia que as ondas mentais humanas - isto é pura especulação), como eu ia dizendo, à qual todos os humanos teriam acesso. Tal coisa foi descrita no conto A Última Pergunta, de Isaac Asimov, no qual num futuro longínquo toda a humanidade estaria conectada com uma única consciência comum, tendo-se libertado até dos corpos físicos dos elementos da espécie.

Veja-se que existindo tal coisa, finalmente se explicaria a injustiça da morte (melhor dizendo, a morte deixaria de ser injusta), pois todo o conhecimento e sabedoria que uma pessoa acumulou durante toda a sua vida não ficaria perdido, sendo absorvido pela consciência global. Assim justificaria-se também a existência da matéria: se a alma fosse independente do corpo, e ela sobrevivesse à morte física, então para quê existir o corpo físico? qual a sua finalidade? nesta visão, a alma não seria realmente independente do corpo; tal como o software dos computadores não se executa sozinho, no ar - é o resultado da passagem da corrente eléctrica pelos milhões de circuitos e interruptores dos chips (hardware), também a alma, a consciência, a memória seria o resultado das interacções entre os neurónios do cérebro. Assim, tal como computadores em rede que em conjunto parecem formar uma única entidade (como é óptimo exemplo a internet), também seria o mesmo connosco (obviamente de um modo muito mais elaborado e complexo).

Assim, cada ser pensante seria individual enquanto existisse o seu corpo físico, sendo absorvido em comunhão com o conjunto aquando da sua morte física; o seu “software” ficaria armazenado distribuidamente em outros “computadores” da rede. Toda essa estrutura seria continuamente reciclada com a morte de algumas almas e o nascimento de outras cada uma com o seu potencial derivado da unicidade dos seus “circuitos” físicos. Com algo do tipo, a evolução mental da espécie se daria de modo muito mais contínuo, homogéneo, e, principalmente, rápido. Com essa comunhão com o todo, os instintos egocentristas (que falei alguns artigos atrás) deixariam de fazer efeito, pois cada ser teria o seu ego pessoal, e o ego comum - sentir-se-ia realmente parte da sociedade, e poderia realmente amar o próximo como a si mesmo…

Posted by Waldir Pimenta at 21:04:21 | Permalink | Comments (2)