Saturday, January 1, 2005

Cuidado! A Evolução Passa Ao Lado…

(Publicado no Artiletra nº 65, de Dezembro de 2004/Janeiro de 2005)

Caros leitores: volto a escrever-vos, desta feita para falar um pouco sobre um aspecto de um tema que várias vezes venho abordando de diversos lados, que é a Educação, nomeadamente a educação em Cabo Verde. O aspecto a que me refiro, o qual obviamente ainda não tinha sido abordado nesta coluna, é a importância do uso dos recursos postos à nossa disposição para um melhor desempenho das funções a que nos propomos. Passo a explicar:

O que se entende por evolução, e falo a nível de civilização e sociedade, é a aquisição de mais e melhores formas de fazer o que decidimos ser melhor para nós. Falando especificamente da educação, e traduzindo em miúdos, isso significa que com o desenvolvimento ao longo dos tempos de técnicas e materiais de ensino, evolução seria o uso maximizado desses instrumentos de forma a melhorar os resultados. No fundo é tirar o maior partido possível dos desenvolvimentos da ciência da educação (a pedagogia) e das tecnologias auxiliares do ensino, por exemplo os computadores.

Além disso, vários trabalhos têm sido desenvolvidos e poderiam se aplicar, além de outras, na área da educação. E quando trabalhos refiro-me por exemplo a pesquisas, estudos diversos que são subaproveitados devido principalmente à inexistência de um órgão de uniformização e desenvolvimento da pedagogia a nível mundial. Ou seja, o que se faz nalguns pontos do planeta pode só chegar a outros pontos muito mais tarde, ou pode até não chegar. Isso faz com que importantes desenvolvimentos a nível teórico e material não sejam devidamente partilhados e utilizados por todos os que deles poderiam tirar proveito, ou até contribuir para a sua melhoria.

Eis um exemplo de um trabalho cujos resultados, bem analisados, poderiam trazer enormes benefícios à educação:

Os dados retidos por um ser humano em função da forma como o conteúdo é apresentado se comportam da seguinte maneira:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Leitura

10%

Narração

20%

Vídeo sem som

30%

Vídeo com som

50%

Debate

70%

Debate e prática

90%

Em função do tempo, a capacidade de retenção foi a seguinte:

Dados retidos após três horas:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

70%

Somente visual

72%

Oral e Visual

85%

Dados retidos após três dias:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

10%

Somente visual

22%

Oral e Visual

65%

Ora, com uma análise superficial já se pode tirar algumas conclusões básicas:

1. O melhor meio de assimilar bem uma informação é a prática/debate. Neste sentido, dever-se-ia trabalhar meios de adicionar a componente prática no ensino, de modo a este ocupar a maior parte do tempo de ensino.

2. O uso da imagem animada (vídeos com som), por exemplo modelos tridimensionais gerados em computador, também deveria ser levado em conta, ocupando uma boa parte do tempo de ensino.

3. Obviamente que o tempo dedicado à explanação verbal da matéria teria que diminuir, e para tal várias estratégias podem ser usados: pode ser eliminado o ditado da matéria com a introdução de sebentas; a explicação oral pode (e deve) acompanhar a parte visual (vídeos/animações), pelo que esse tempo não seria perdido e podia até ser maximizado, rendendo mais tal como revelam os resultados apresentados nos segundo e terceiro quadros.

Com estas simples modificações, já o sucesso escolar aumentaria em boa percentagem, pois além de a forma da matéria ser apresentada ir de encontro às capacidades inatas de assimilação do ser humano, por outro lado aquela tornar-se-ia mais interessante e desafiadora aos alunos, que se mostrariam mais interessados e participativos.

Outro método bastante eficiente é a colocação à prova das habilidades adquiridas. Isto porque, segundo se sabe, o ser humano por natureza atinge as suas melhores performances quando em situações de competição. Nesse sentido, seria também boa ideia implementar concursos a nível escolar, insular e até nacional, que premeiem os melhores classificados.

Obviamente, dados mais pormenorizados e análises mais precisas trariam muito mais medidas recomendáveis; mas é preciso que os responsáveis tenham a iniciativa de procurar e aplicar essas ferramentas que existem e não são aproveitadas.
Por este lado, seria óptimo a fundação de espaços de discussão a nível no mínimo nacional (mesmo que esses espaços sejam temporários, como fóruns e afins), bem como a troca de experiências com escolas e sistemas educacionais de outros países para comparar os resultados e analisar possíveis melhorias.

Mas enquanto os responsáveis se preocuparem mais com o mantimento e estabilização das condições actuais que com a inovação e meios de melhorar o sistema educativo em Cabo Verde tendo em conta os objectivos básicos do ensino, a evolução continuará a passar ao lado da nossa civilização, e nós continuaremos a ter pessoas que não se interessam pela qualidade do que sabem e fazem, por nunca terem sido ensinadas a gostar de aprender; e consequentemente o nosso mercado de trabalho nunca será competitivo o suficiente para aguentar o nosso frágil país pelos seus próprios pés.
Let’s hope I’m wrong.

Posted by Waldir Pimenta at 14:44:45 | Permalink | No Comments »