Tuesday, December 20, 2005

The Gift

(Publicado no Artiletra nº 74, de Dezembro de 2005)

Nesta época festiva em que nos encontramos, imagino que este título tenha remetido a dedução do leitor para um tema do presente artigo relacionado com presentes, e o Natal… mas não. Pelo menos não directamente. Na verdade, até é, em parte, um apelo à generosidade e fraternidade entre os homens, o que acaba por não estar tão longe do discurso característico da época. Mas paremos de enrolação, como dizem os brasileiros.

Este artigo trata de um tema bastante interessante: a Economia de Doação (do inglês gift economy – daí o título). Esse nome pode não soar familiar ao leitor comum, mas alguns exemplos mostrarão que convivemos com estruturas similares a toda a hora, no nosso quotidiano.

A informação é um bem particularmente bem adaptado para economias de oferta. Por um lado, a informação pode ser transmitida e copiada a praticamente custo zero; por outro, a informação tem uma característica excepcional, como refere um ditado chinês: “Se dois homens vêm por uma estrada carregando um pão cada um, e ao se encontrarem trocaremos pães, cada um fica com um pão; mas se em vez de pães eles estiverem carregando ideias, e as trocarem ao se encontrarem, ambos ficam com duas ideias”. Ou seja quando se dá informação, não se perde o todo nem parte da informação que se tem (embora se possam perder certos benefícios que poderiam ser ganhos na economia de mercado a partir dos direitos de propriedade intelectual).

Mas outros bens e serviços podem e são usados frequentemente em economias de doação. Vejam-se alguns exemplos:

  • Internet – A Internet é provavelmente o exemplo mais bem sucedido de uma economia de oferta aplicada à informação. A grande maioria dos milhões de páginas existentes está disponível para consulta gratuita, sem que os autores recebam qualquer pagamento derivado dessa consulta. A Wikipedia é um óptimo exemplo desse conceito: a enciclopédia on-line é gratuita e foi construída inteiramente por contribuições de milhares de voluntários, estando disponível a sua edição a qualquer internauta que queira contribuir com informação que ainda não exista na mesma.
  • Doação de órgãos – a doação de órgãos e de sangue é activamente encorajada; no entanto, a venda de órgãos é considerada quase universalmente um crime grave. A maior parte dos sistemas de doação de órgãos não dão nenhum tipo de compensação ao dador ou à sua família; O sistema de bancos de sangue prevalente em vários países não dá nenhuma recompensa significante por doações de sangue. Pagamentos nesta área são frequentemente considerados suspeitos, se não até criminosos.
  • Famílias – Economias de oferta em pequena escala existem também na maior parte das famílias, com ofertas de tempo, dinheiro, alimento, protecção, e conhecimento empírico sendo dados sem qualquer negociação prévia de retribuição. Na grande maioria das sociedades, os pais sustentam os filhos pelo menos durante a infância (e, nalgumas sociedades, até após a adolescência e a maioridade) sem o estabelecimento explícito de uma obrigação de retorno, mas sim um dever implícito de fazer o mesmo à geração seguinte.

Alguns autores têm sugerido que modalidades de economias de oferta possam ser a chave para quebrar o ciclo da pobreza. O círculo vicioso, expresso no sucesso já fora de moda “Xi Bom Bom Bom”, do grupo brasileiro As Meninas: “(…)o rico fica cada vez mais rico, e o pobre fica cada vez mais pobre”, “(…)o de cima sobe e o de baixo desce”, segue um padrão que se reconhece em várias áreas da sociedade: veja-se o problema do desemprego: um desempregado não consegue arranjar emprego, porque lhe é exigida experiência profissional que só é conseguida se conseguir arranjar emprego, o que não consegue porque não tem experiência…e o ciclo repete-se.

Na questão da pobreza (na qual o desemprego também faz parte), outro aspecto frequentemente referido é a educação: crianças pobres são muitas vezes obrigadas a trabalhar para ajudar em casa ou na rua para ganhar dinheiro, ficando sem meios para obter uma educação decente, mesmo que esta seja gratuita; sem educação, os seus horizontes ficam limitados e não têm nem meios materiais nem os conceitos que lhes permitiriam furar o ciclo da pobreza por si sós, como defendem os advogados do capitalismo, que muitas vezes responsabilizam os pobres pela sua pobreza. Sem falar na inércia cultural criada por sucessivas tentativas falhadas de mudar de vida. Já outros defendem que o estado deve tomar a iniciativa para quebrar o fosso entre ricos e pobres e equilibrar a sociedade.

Esta posição — e a reformulação de toda a sociedade para uma economia de oferta — é particularmente característica do Anarco-Comunismo. Os Anarco-comunistas defendem uma economia de oferta pura como ideal, sem dinheiro, nem mercados, nem planeamento central da economia. Tal reformulação seria indubitavelmente uma tarefa gigantesca, pois as bases das sociedades actuais são massivamente:

  • A competição por recursos escassos (a escassez é, de facto, a característica principal das economias de mercado), como dinheiro, lazer, parceiros sexuais, e por aí adiante. Competição, mais que consenso, é característica intrínseca das sociedades contemporâneas.
  • A desigualdade social; as sociedades actuais estão fortemente baseadas em diferentes castas (não vale a pena usar eufemismos), com diferenças de poder e rendimento. A maioria mais favorecida detém o controle de toda a sociedade e impede, conscientemente ou não, que a desigualdade se dissipe.

Ainda assim, a História da civilização nos ensina que as mudanças mais imprevisíveis são possíveis, quer por uma evolução lenta, quer por revoluções. Uma coisa é certa: economias de doação são inatas na espécie humana (como verificámos pelo exemplo da família), e quem sabe, com Natais e outras épocas favorecendo a troca de presentes e a união entre as pessoas, um dia possamos nos ver livres da desigualdade social e possamos beneficiar de uma organização social que, em vez de despertar a nossa face mais negra, egoísta e animalesca, nos ajude, pelo contrário, a desenvolver os nossos instintos mais nobres, abrindo um caminho radioso para a evolução da nossa espécie…

Feliz 2006!

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Saturday, December 10, 2005

Afinal Sempre Eles Tinham Razão?!

(Publicado no Artiletra nº 73, de Dezembro de 2005)

Numa das minhas incursões no mar da minha network do hi5 (amigos dos meus amigos), encontrei uma foto que me chamou a atenção pela sua peculiaridade e decidi abrir o perfil para verificar (Não é o mesmo marketing que se faz com as capas dos livros - que levam o leitor a abri-los, sendo que fica a cargo do conteúdo manter o interesse despertado pela capa? a analogia aplica-se às fotos/perfis no hi5…)

Ora a Natasha (nome fictício) revelou-se realmente uma pessoa bastante interessante; nasceu na Rússia (como eu!), cresceu em Tel Avive, Israel (the best place in the world, segundo ela) e vive em Paris.
Esteve no verão passado em Cabo Verde, durante um mês, em São Vicente, a convite de um amigo que foi colega da escola dela em França.

Após umas duas mensagens trocadas no hi5 começámos a falar no msn. Falámos de livros, de nós, de gostos e desgostos… de livros… e de pessoas. Eu comentei com ela que tinha gostado das citações que ela escolheu para pôr no seu perfil (tanto que as bloguei no meu space), mas que me atraíra especialmente a terceira:

“Most people are other people. Their thoughts are someone else’s opinions, their lives a mimicry, their passions a quotation.”

(A maior parte das pessoas são os outros. Os seus pensamentos são a opinião de alguém, as suas vidas uma mímica, as suas paixões uma citação) – sim, soa muito melhor em inglês mas que se há de fazer? Escrever um artigo em crioulo vá que não vá, mas em inglês, já seria ir um pouco longe demais… hehehe.

Algum tempo depois, após algum debate sobre o mal natural dos humanos e outras divagações afins, ela surpreendeu-me dizendo (em inglês, que ela só sabe dizer “manera man” em crioulo): “és o perfeito oposto da imagem que tenho dos cabo-verdianos”. E eu, completamente espantado pela brusquidão da afirmação (mas já desconfiando da triste origem), perguntei-lhe porquê. Ela disse que durante o quase mês que ela passou em São Vicente, tudo o que o pessoal fazia era “to surf, get super drunk, and have sex…imagine doing that for a month…”

E continuou: “então, entendes a minha surpresa: tu efectivamente tens um cérebro, e pensas! (sem ofensa)”. Bem, chegado a este ponto já eu estava profundamente desiludido com essa imagem que os jovens cabo-verdianos transmitem, e após deixar claro que essa constatação não me ofendia pessoalmente de qualquer modo, avançámos neste tópico da futilidade da nossa sociedade mas principalmente dos jovens.

Nós crescemos ouvindo os mais velhos dizer que “antigamente não era assim”, “os jovens de hoje já não têm moral”, e coisas do tipo. A certa altura da nossa vida começamos também a ouvir que isso acontece em todas as gerações, que os mais velhos sempre falam mal dos jovens mas que na sua juventude também foram igualmente criticados pela geração anterior. Essa percepção das coisas acaba por nos anestesiar em relação ao problema, fazendo com que tiremos o peso da consciência, dizendo para os nossos botões: “sempre foi assim… é o modo como as coisas sempre foram e sempre serão… a nossa geração não é pior que a anterior.”

Mas ouvindo as palavras da Natasha, eu me apercebi que a situação está mais grave do que pensava. A ponto de num mês em Cabo Verde, ela só ter convivido com pessoal que vive nessa rotina de futilidade, sem encontrar ninguém que tenha conseguido escapar às teias dessa inércia social… é preocupante. Eu não imaginava que fossem tão raras essas pessoas.

Esta situação denota-se actualmente, defendi-me eu, em quase toda a parte do globo. Não é só em Cabo Verde que os jovens (e toda a sociedade, para ser exacto) vive nessa letargia do carpe diem exagerado… Mas foi uma defesa inútil, dei-me logo conta: afinal o facto de os outros errarem não nos torna a nós menos pecadores… há quem pense assim, como o Filipe, o amigo da Mafalda de Quino: “Se todos são tão maus como nós, então está bem… ao menos não somos piores que ninguém.”

Raciocínios tais só nos desviam do verdadeiro problema. Na verdade acredito que a sociedade actual se deteriora progressivamente no que toca à individualidade e diversidade dos seus elementos. Cada vez mais se denota uma globalização comportamental, que hoje mais que nunca torna as pessoas em robots que repetem dia-a-dia as rotinas aprovadas pelos outros. O estado da juventude só reflecte esse mal maior da sociedade.

A criatividade comportamental é completamente desencorajada. A importância do conhecimento, cultura geral e desenvolvimento moral das pessoas se desvaloriza inexoravelmente. Um retrato pessimista? Nem por isso. É preciso encarar a realidade para tomar consciência, pôr o dedo na ferida e mudar o que é preciso. Veja-se:
• As crianças já não lêem livros de aventuras, já não criam os seus brinquedos. Subdesenvolvem-se mentalmente ao adquirir sonhos e imaginários produzidos em massa: os cartoons da TV, os brinquedos… as barbies já vêm com a casa completa…os legos já não são um puzzle 3D que se adapta à criação de cada um, vêm com peças específicas para montar um determinado cenário… a própria oficina artesanal do Pai Natal se tornou numa fábrica automatizada nas publicidades…
• Na escola não se valorizam os professores que realmente ensinam os alunos. A mentalidade do “passar de ano” infesta todos os níveis do ensino e faz com que o aprendizado seja substituído por uma memorização temporária dos conteúdos curriculares. Esses próprios são enfadonhos e não se tenta traduzi-los de forma a estimular a curiosidade natural dos alunos;
• Os filmes, novelas, séries, transmitem um perfil do adolescente, jovem e adulto cool, que fuma e bebe, tem muito sexo, e despreza qualquer vestígio de reflexão. Quando muito, alguma citação para dar show entre os amigos. As personagens que demonstram algum uso das suas capacidades intelectuais são ridicularizadas como nerds, CDF’s, marrões, professores malucos, alienados da realidade, de preferência com uns óculos redondos enormes e grossos (o cliché tem vindo a ser evitado ultimamente na procura de alguma originalidade, mas a personalidade de fundo mantém-se). Há excepções, claro…mas podia-se escrever um artigo inteiro sobre isto.

O que acontece é que com toda essa pressão social de ser cool, as pessoas não têm coragem de mostrar as suas facetas diferentes, o que as distingue dos outros. Não há falta de individualidade na nossa sociedade. O que faz falta é a coragem que quebrar padrões e ser o que se é, e não o que as pessoas querem que sejamos. Bem, visto, nem 8 nem 80, há que ser sociável e não isolarmo-nos da sociedade por conta das nossas diferenças. Mas que seria do arco-íris se as cores não fossem diferentes?

É por isso que certas pessoas se tornam populares. É que elas fazem o que todos gostaríamos de ter coragem: ser diferentes. É esse tipo de pessoas que lança modas, porque todos as imitam. Imitar é bom, pois é assim que se aprende. O problema é quando em vez de imitar a causa, se imita o efeito… em vez de se mostrarem a si próprias, as pessoas acabam por adquirir os gostos, hábitos, maneirismos, fala, vestimenta, etc., de quem pretendem imitar (ainda que inconscientemente, na maior parte das vezes…).

Mas então os mais velhos sempre têm razão quando dizem que a juventude está cada vez pior? Penso que não se trata da juventude, mas de toda a sociedade. Com os meios que dispomos hoje, poderíamos ser uma civilização esplendorosa… um mar fervilhante e colorido de artistas, pensadores, escritores, professores, estudantes, filósofos. De seres humanos em pleno. É isso mesmo: o que precisamos é de uma nova Renascença. Antes que regressemos a uma obscuridade mental de uma idade média, em versão huxleyana…
Pessimismo? Distopia?

Espero bem que sim.

Posted by Waldir Pimenta at 13:16:57 | Permalink | Comments (4)