The Gift
Nesta época festiva em que nos encontramos, imagino que este título tenha remetido a dedução do leitor para um tema do presente artigo relacionado com presentes, e o Natal… mas não. Pelo menos não directamente. Na verdade, até é, em parte, um apelo à generosidade e fraternidade entre os homens, o que acaba por não estar tão longe do discurso característico da época. Mas paremos de enrolação, como dizem os brasileiros.
A informação é um bem particularmente bem adaptado para economias de oferta. Por um lado, a informação pode ser transmitida e copiada a praticamente custo zero; por outro, a informação tem uma característica excepcional, como refere um ditado chinês: “Se dois homens vêm por uma estrada carregando um pão cada um, e ao se encontrarem trocaremos pães, cada um fica com um pão; mas se em vez de pães eles estiverem carregando ideias, e as trocarem ao se encontrarem, ambos ficam com duas ideias”. Ou seja quando se dá informação, não se perde o todo nem parte da informação que se tem (embora se possam perder certos benefícios que poderiam ser ganhos na economia de mercado a partir dos direitos de propriedade intelectual).
Mas outros bens e serviços podem e são usados frequentemente em economias de doação. Vejam-se alguns exemplos:
- Internet – A Internet é provavelmente o exemplo mais bem sucedido de uma economia de oferta aplicada à informação. A grande maioria dos milhões de páginas existentes está disponível para consulta gratuita, sem que os autores recebam qualquer pagamento derivado dessa consulta. A Wikipedia é um óptimo exemplo desse conceito: a enciclopédia on-line é gratuita e foi construída inteiramente por contribuições de milhares de voluntários, estando disponível a sua edição a qualquer internauta que queira contribuir com informação que ainda não exista na mesma.
- Doação de órgãos – a doação de órgãos e de sangue é activamente encorajada; no entanto, a venda de órgãos é considerada quase universalmente um crime grave. A maior parte dos sistemas de doação de órgãos não dão nenhum tipo de compensação ao dador ou à sua família; O sistema de bancos de sangue prevalente em vários países não dá nenhuma recompensa significante por doações de sangue. Pagamentos nesta área são frequentemente considerados suspeitos, se não até criminosos.
- Famílias – Economias de oferta em pequena escala existem também na maior parte das famílias, com ofertas de tempo, dinheiro, alimento, protecção, e conhecimento empírico sendo dados sem qualquer negociação prévia de retribuição. Na grande maioria das sociedades, os pais sustentam os filhos pelo menos durante a infância (e, nalgumas sociedades, até após a adolescência e a maioridade) sem o estabelecimento explícito de uma obrigação de retorno, mas sim um dever implícito de fazer o mesmo à geração seguinte.
Alguns autores têm sugerido que modalidades de economias de oferta possam ser a chave para quebrar o ciclo da pobreza. O círculo vicioso, expresso no sucesso já fora de moda “Xi Bom Bom Bom”, do grupo brasileiro As Meninas: “(…)o rico fica cada vez mais rico, e o pobre fica cada vez mais pobre”, “(…)o de cima sobe e o de baixo desce”, segue um padrão que se reconhece em várias áreas da sociedade: veja-se o problema do desemprego: um desempregado não consegue arranjar emprego, porque lhe é exigida experiência profissional que só é conseguida se conseguir arranjar emprego, o que não consegue porque não tem experiência…e o ciclo repete-se.
Na questão da pobreza (na qual o desemprego também faz parte), outro aspecto frequentemente referido é a educação: crianças pobres são muitas vezes obrigadas a trabalhar para ajudar em casa ou na rua para ganhar dinheiro, ficando sem meios para obter uma educação decente, mesmo que esta seja gratuita; sem educação, os seus horizontes ficam limitados e não têm nem meios materiais nem os conceitos que lhes permitiriam furar o ciclo da pobreza por si sós, como defendem os advogados do capitalismo, que muitas vezes responsabilizam os pobres pela sua pobreza. Sem falar na inércia cultural criada por sucessivas tentativas falhadas de mudar de vida. Já outros defendem que o estado deve tomar a iniciativa para quebrar o fosso entre ricos e pobres e equilibrar a sociedade.
Esta posição — e a reformulação de toda a sociedade para uma economia de oferta — é particularmente característica do Anarco-Comunismo. Os Anarco-comunistas defendem uma economia de oferta pura como ideal, sem dinheiro, nem mercados, nem planeamento central da economia. Tal reformulação seria indubitavelmente uma tarefa gigantesca, pois as bases das sociedades actuais são massivamente:
- A competição por recursos escassos (a escassez é, de facto, a característica principal das economias de mercado), como dinheiro, lazer, parceiros sexuais, e por aí adiante. Competição, mais que consenso, é característica intrínseca das sociedades contemporâneas.
- A desigualdade social; as sociedades actuais estão fortemente baseadas em diferentes castas (não vale a pena usar eufemismos), com diferenças de poder e rendimento. A maioria mais favorecida detém o controle de toda a sociedade e impede, conscientemente ou não, que a desigualdade se dissipe.
Ainda assim, a História da civilização nos ensina que as mudanças mais imprevisíveis são possíveis, quer por uma evolução lenta, quer por revoluções. Uma coisa é certa: economias de doação são inatas na espécie humana (como verificámos pelo exemplo da família), e quem sabe, com Natais e outras épocas favorecendo a troca de presentes e a união entre as pessoas, um dia possamos nos ver livres da desigualdade social e possamos beneficiar de uma organização social que, em vez de despertar a nossa face mais negra, egoísta e animalesca, nos ajude, pelo contrário, a desenvolver os nossos instintos mais nobres, abrindo um caminho radioso para a evolução da nossa espécie…
Feliz 2006!