Saturday, December 10, 2005

Afinal Sempre Eles Tinham Razão?!

(Publicado no Artiletra nº 73, de Dezembro de 2005)

Numa das minhas incursões no mar da minha network do hi5 (amigos dos meus amigos), encontrei uma foto que me chamou a atenção pela sua peculiaridade e decidi abrir o perfil para verificar (Não é o mesmo marketing que se faz com as capas dos livros - que levam o leitor a abri-los, sendo que fica a cargo do conteúdo manter o interesse despertado pela capa? a analogia aplica-se às fotos/perfis no hi5…)

Ora a Natasha (nome fictício) revelou-se realmente uma pessoa bastante interessante; nasceu na Rússia (como eu!), cresceu em Tel Avive, Israel (the best place in the world, segundo ela) e vive em Paris.
Esteve no verão passado em Cabo Verde, durante um mês, em São Vicente, a convite de um amigo que foi colega da escola dela em França.

Após umas duas mensagens trocadas no hi5 começámos a falar no msn. Falámos de livros, de nós, de gostos e desgostos… de livros… e de pessoas. Eu comentei com ela que tinha gostado das citações que ela escolheu para pôr no seu perfil (tanto que as bloguei no meu space), mas que me atraíra especialmente a terceira:

“Most people are other people. Their thoughts are someone else’s opinions, their lives a mimicry, their passions a quotation.”

(A maior parte das pessoas são os outros. Os seus pensamentos são a opinião de alguém, as suas vidas uma mímica, as suas paixões uma citação) – sim, soa muito melhor em inglês mas que se há de fazer? Escrever um artigo em crioulo vá que não vá, mas em inglês, já seria ir um pouco longe demais… hehehe.

Algum tempo depois, após algum debate sobre o mal natural dos humanos e outras divagações afins, ela surpreendeu-me dizendo (em inglês, que ela só sabe dizer “manera man” em crioulo): “és o perfeito oposto da imagem que tenho dos cabo-verdianos”. E eu, completamente espantado pela brusquidão da afirmação (mas já desconfiando da triste origem), perguntei-lhe porquê. Ela disse que durante o quase mês que ela passou em São Vicente, tudo o que o pessoal fazia era “to surf, get super drunk, and have sex…imagine doing that for a month…”

E continuou: “então, entendes a minha surpresa: tu efectivamente tens um cérebro, e pensas! (sem ofensa)”. Bem, chegado a este ponto já eu estava profundamente desiludido com essa imagem que os jovens cabo-verdianos transmitem, e após deixar claro que essa constatação não me ofendia pessoalmente de qualquer modo, avançámos neste tópico da futilidade da nossa sociedade mas principalmente dos jovens.

Nós crescemos ouvindo os mais velhos dizer que “antigamente não era assim”, “os jovens de hoje já não têm moral”, e coisas do tipo. A certa altura da nossa vida começamos também a ouvir que isso acontece em todas as gerações, que os mais velhos sempre falam mal dos jovens mas que na sua juventude também foram igualmente criticados pela geração anterior. Essa percepção das coisas acaba por nos anestesiar em relação ao problema, fazendo com que tiremos o peso da consciência, dizendo para os nossos botões: “sempre foi assim… é o modo como as coisas sempre foram e sempre serão… a nossa geração não é pior que a anterior.”

Mas ouvindo as palavras da Natasha, eu me apercebi que a situação está mais grave do que pensava. A ponto de num mês em Cabo Verde, ela só ter convivido com pessoal que vive nessa rotina de futilidade, sem encontrar ninguém que tenha conseguido escapar às teias dessa inércia social… é preocupante. Eu não imaginava que fossem tão raras essas pessoas.

Esta situação denota-se actualmente, defendi-me eu, em quase toda a parte do globo. Não é só em Cabo Verde que os jovens (e toda a sociedade, para ser exacto) vive nessa letargia do carpe diem exagerado… Mas foi uma defesa inútil, dei-me logo conta: afinal o facto de os outros errarem não nos torna a nós menos pecadores… há quem pense assim, como o Filipe, o amigo da Mafalda de Quino: “Se todos são tão maus como nós, então está bem… ao menos não somos piores que ninguém.”

Raciocínios tais só nos desviam do verdadeiro problema. Na verdade acredito que a sociedade actual se deteriora progressivamente no que toca à individualidade e diversidade dos seus elementos. Cada vez mais se denota uma globalização comportamental, que hoje mais que nunca torna as pessoas em robots que repetem dia-a-dia as rotinas aprovadas pelos outros. O estado da juventude só reflecte esse mal maior da sociedade.

A criatividade comportamental é completamente desencorajada. A importância do conhecimento, cultura geral e desenvolvimento moral das pessoas se desvaloriza inexoravelmente. Um retrato pessimista? Nem por isso. É preciso encarar a realidade para tomar consciência, pôr o dedo na ferida e mudar o que é preciso. Veja-se:
• As crianças já não lêem livros de aventuras, já não criam os seus brinquedos. Subdesenvolvem-se mentalmente ao adquirir sonhos e imaginários produzidos em massa: os cartoons da TV, os brinquedos… as barbies já vêm com a casa completa…os legos já não são um puzzle 3D que se adapta à criação de cada um, vêm com peças específicas para montar um determinado cenário… a própria oficina artesanal do Pai Natal se tornou numa fábrica automatizada nas publicidades…
• Na escola não se valorizam os professores que realmente ensinam os alunos. A mentalidade do “passar de ano” infesta todos os níveis do ensino e faz com que o aprendizado seja substituído por uma memorização temporária dos conteúdos curriculares. Esses próprios são enfadonhos e não se tenta traduzi-los de forma a estimular a curiosidade natural dos alunos;
• Os filmes, novelas, séries, transmitem um perfil do adolescente, jovem e adulto cool, que fuma e bebe, tem muito sexo, e despreza qualquer vestígio de reflexão. Quando muito, alguma citação para dar show entre os amigos. As personagens que demonstram algum uso das suas capacidades intelectuais são ridicularizadas como nerds, CDF’s, marrões, professores malucos, alienados da realidade, de preferência com uns óculos redondos enormes e grossos (o cliché tem vindo a ser evitado ultimamente na procura de alguma originalidade, mas a personalidade de fundo mantém-se). Há excepções, claro…mas podia-se escrever um artigo inteiro sobre isto.

O que acontece é que com toda essa pressão social de ser cool, as pessoas não têm coragem de mostrar as suas facetas diferentes, o que as distingue dos outros. Não há falta de individualidade na nossa sociedade. O que faz falta é a coragem que quebrar padrões e ser o que se é, e não o que as pessoas querem que sejamos. Bem, visto, nem 8 nem 80, há que ser sociável e não isolarmo-nos da sociedade por conta das nossas diferenças. Mas que seria do arco-íris se as cores não fossem diferentes?

É por isso que certas pessoas se tornam populares. É que elas fazem o que todos gostaríamos de ter coragem: ser diferentes. É esse tipo de pessoas que lança modas, porque todos as imitam. Imitar é bom, pois é assim que se aprende. O problema é quando em vez de imitar a causa, se imita o efeito… em vez de se mostrarem a si próprias, as pessoas acabam por adquirir os gostos, hábitos, maneirismos, fala, vestimenta, etc., de quem pretendem imitar (ainda que inconscientemente, na maior parte das vezes…).

Mas então os mais velhos sempre têm razão quando dizem que a juventude está cada vez pior? Penso que não se trata da juventude, mas de toda a sociedade. Com os meios que dispomos hoje, poderíamos ser uma civilização esplendorosa… um mar fervilhante e colorido de artistas, pensadores, escritores, professores, estudantes, filósofos. De seres humanos em pleno. É isso mesmo: o que precisamos é de uma nova Renascença. Antes que regressemos a uma obscuridade mental de uma idade média, em versão huxleyana…
Pessimismo? Distopia?

Espero bem que sim.

Posted by Waldir Pimenta at 13:16:57
Comments

4 Responses to “Afinal Sempre Eles Tinham Razão?!”

  1. cleissi says:

    Te felicito!! Te admiro, pois apesar de teres sido criado em meio a uma sociedade que tao bem conheces, revelas-te ser um milagre… Pois jovens como tu hoje em dia sao raros.
    Quanto aos teus devaneios, faco delas minhas tb. A tua revolta é a minha tb. mas acho que poucos compartilham a mesma opinicao ou como disseste “com toda essa pressão social de ser cool” as pessoas acabam escondendo o melhor que elas tem por dentro… Acabam por deixar transparecer aquilo q na verdade n nos interessa…
    Parabens!!

  2. Bruna says:

    Contigo aprendi, aprendi mesmo de verdade ao ler este artigo!
    Nesta minha profissão que se estende a mim como meu futuro, preciso cuidar de cada um individualmente, e sei que nao somos, nem nunca seremos iguais. Para isso, nao posso julgar com juizos de valor quem de mim necessita. Tenho de ser transparente, verdadeira, humilde e neutra. Contigo dei maus um pulo!! AJudaste-me a consolidar o que tanto quero*
    Obrigada!!!
    Por existires*
    Beijinho especial!

  3. reginaldo says:

    oi cara, gostei muito do seu artigo… acho que fez refletir bastante, gostei muito, desculpa não dizer muita coisa é que não sou muito bom com as palavras

  4. Waldir Pimenta says:

    Hey Reginaldo, obrigado pelo comentário! :D
    Fico contente por teres gostado do artigo. Um abraço

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