Wednesday, February 15, 2006

Dividir Para Avaliar

(Publicado no Artiletra nº 76, de Fevereiro de 2006)

Bem-vindo, caros leitores, a mais um trecho da nossa jornada reflexiva, a qual aqui partilho convosco de bom grado, sempre aberto a novas ideias*. Resolvi regressar mais uma vez ao troço do caminho que passa pelas grandes questões do ensino, que, como estudante que sou, desperta um interesse especial em mim.

Desta feita gostava de aqui exprimir uma opinião que tenho vindo a defender, no tocante à avaliação. Vários métodos têm sido implementados, nenhum com eficiência perfeita, certamente, mas alguns têm prevalecido, nomeadamente os testes escritos. Ora, devido a vários factores que adiante exporei, penso que existe alguma inexactidão potencial numa avaliação em que esses testes tenham um grande peso na nota final. Na verdade, direi mesmo que qualquer avaliação em que um método tenha um peso substancialmente superior aos outros tem uma maior probabilidade de ser injusta (errónea).

Isto deriva do facto de todos os métodos de avaliação terem as suas fraquezas. Para começar, qualquer processo de avaliação tem a desvantagem de induzir algum nervosismo (e possível mau desempenho daí derivado) nos avaliados; há também que levar em conta possíveis erros de comunicação (interpretação errónea das questões ou respostas).

Dividir em Qualidade

Mas falando de métodos específicos, podemos listar desvantagens inerentes a cada um, devido à sua própria natureza:

  • testes escritos: as conhecidíssimas cábulas e cópias são métodos especialmente eficientes em testes escritos, pois o avaliador não tem como saber a fonte do que está escrito no texto, caso a fraude não seja detectada. Isso traz alguma injustiça, pois se o aluno em sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer memoriza a matéria (a não ser se for involuntariamente, pois, como é sabido, escrever algo ajuda a memorizá-lo), quanto mais aprendê-la; se, por outro lado, a “estratégia” falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, o que também não corresponde à sua nota real.
  • testes orais: poderão induzir um nervosismo acrescentado por se estar perante o avaliador, mas seriam vantajosos em avaliações em que, caso fossem por escrito, seria necessário escrever muito. Note-se que um dos motivos que fizeram dos testes orais uma minoria foi o facto de não serem facilmente arquiváveis; pois agora o são.
  • testes práticos: requerem mais tempo se acompanhados; se não acompanhados podem ser forjados/plagiados, embora uma apresentação permita detectar isso, apesar de aumentar o nervosismo pelo mesmo motivo que os testes orais. Testes práticos incluiriam trabalhos individuais e de grupo, abrangendo a componente prática da disciplina leccionada, o que tem um enorme impacto na assimilação do conhecimento, favorecendo até as outras avaliações com uma diminuição das tentativas de fraude. Tendo em conta a importância do saber fazer, é aconselhável ter em conta essa componente quando se avalia o aprendizado (coisa que já é conhecida há vários séculos, como demonstra o este famoso ditado chinês: “Diz-me, mostra-me, deixa-me fazer e aprenderei”)

Dividir em Quantidade

Tendo em vista os factores acima listados, torna-se evidente que é vantajoso aplicar vários tipos de avaliação, de modo a minimizar eventuais falhas. Mas outro factor a ter em conta é a periodicidade das avaliações. Testes periódicos (formativos) são preferíveis a testes finais (sumativos), por várias razões:

  • Induzem menos à fraude pois, tendo o aluno mais chances de realmente ter sucesso por conhecer a matéria, ele ganha confiança e é mais provável que decida estudar em vez de se arriscar em cábulas e afins;
  • Exigem menos tempo de preparação e correcção da parte dos professores, por serem menos abrangentes;
  • Permitem ao professor avaliar melhor um determinado tópico da matéria, pois aprofundam-se mais;
  • Em disciplinas com vários módulos paralelos (não sequenciais), o aluno tem que, no fim do período de estudo, relembrar e reter na mente conhecimentos de áreas diferentes e mantê-los todos na memória de trabalho ao mesmo tempo, o que é contraproducente;
  • Várias avaliações (práticas ou teóricas) dão mais fiabilidade na avaliação pois a probabilidade de o avaliado ter azar é inversamente proporcional ao numero de avaliações.

Por último, devo salientar que por mais que sejam avaliações feitas, o facto de serem pontuais sempre faz com que seja concentrado algum stress e ansiedade no seu decorrer. Por isso torna-se importante também não esquecer a avaliação contínua, que apesar de ser algo subjectiva, é o melhor método para o professor avaliar o aluno num ambiente realista, sem preparação prévia.

Unindo as Divisões

Posto isto, podemos resumir o exposto acima no conceito de que devem ser feitos tantos tipos de avaliação (escrita, oral e prática) quanto os permitidos pela natureza da disciplina, de preferência os três; e por outro lado, essas avaliações devem ser divididas por cada módulo autónomo de matéria da disciplina. A tabela seguinte faz uma tentativa de apanhado geral do tipo de avaliações possíveis de cada método, de acordo com o tipo de disciplina:

Disciplina

Exemplos

Teste Escrito

Teste Oral

Teste Prático

Línguas

Português, Inglês, Francês, Latim

Composições (fluência escrita)

Diálogo com o avaliador (Fluência oral)

Encenações (aplicação em situações reais)

Ciências

Humanas

Filosofia, História, Psicologia, Direito

Dissertações sobre os temas estudados

Diálogo sobre os temas abordados

Debates, pesquisa e compilação de um assunto específico

Aplicadas

Informática, Biologia, Geografia, Economia

Análise verbal de conceitos e procedimentos

Execução de uma actividade típica de aplicação da ciência

Exactas

Física, Química, Matemática

Problemas realistas resolvidos com cálculos

Resolução lógica de problemas propostos (raciocínio)

Problemas práticos, resolvidos por escrito após medições em laboratório

Artes

Desenho, Música

Dissertações sobre os temas abordados

Explicar conceitos e procedimentos

Composição de uma obra aplicando os métodos e conceitos estudados

Em jeito de conclusão, afirmo aqui a importância de incentivos, associados a essas avaliações, que tornam mais interessante e divertida a aprendizagem, o que se traduz em um maior aproveitamento, tanto quantitativo como qualitativo. Actividades como entregas de prémios, distinções, dispensas de testes sumativos (finais), concursos (melhor trabalho, pergunta-resposta individuais e em grupo), apresentações dos trabalhos à escola, exposições dos melhores trabalhos, quadro de honra, debates de turma e da escola, enfim, actividades diferentes do habitual, associadas aos métodos de avaliação permitem que o esforço a eles dedicado seja valorizado, e ainda acrescentam excitação e quebram a monotonia, a rotina da sala de aula.

O que se pode extrair disto tudo, em resumo, é que uma boa avaliação se caracteriza tanto por métodos adequados à especificidade de cada disciplina, como pela aposta na multiplicidade de avaliações permitindo ter uma média, resultando numa avaliação mais fiável. Aliando isso a um ensino pedagógico e interessante, poderemos vir a ter um melhor sistema de ensino, mais eficiente, mas principalmente, que preserve e incentive a curiosidade natural dos alunos e a sua ânsia de aprender.

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta at 15:54:07 | Permalink | No Comments »