Tuesday, May 30, 2006

Teoria da Popularidade

(Publicado no Artiletra nº 77, de Maio/Junho de 2006)

Tenho reparado ao longo da minha vida que a sociedade tende a reprimir diferenças entre os seus indivíduos. Reflectindo a insegurança e egoísmo naturalmente humanos, é esperado que as pessoas sejam todas do mesmo nível. Ok, isto foi um eufemismo: na verdade o que as pessoas querem é que todos os outros sejam iguais ou inferiores a elas próprias. De preferência inferiores.

Ora como isto não é obviamente possível, pois cada desigualdade tem dois lados, o de cima e o de baixo, a solução de compromisso para uma convivência pacífica entre os elementos de uma comunidade é serem todos iguais. Daí o sucesso dos fenómenos das massas, das modas, etc.

Estes fenómenos são interessantes, pois é precisamente o desejo de se destacar que faz com que as pessoas adiram à iniciativa de um indivíduo ou grupo que ousou quebrar a rotina. E é precisamente essa aderência em massa que faz com que as modas se espalhem, fazendo com que a iniciativa em questão se torne tão comum que quem se destaca muitas vezes são os que não aderem à moda, em vez do contrário.

Posto isto, e entrando no tema específico deste artigo, podemos dar um exemplo simples de como essa inércia social para a igualdade funciona: é inegável que a inteligência e a cultura geral são características consideradas positivas pela sociedade. No entanto, verifica-se que as pessoas que se destacam nesses campos acabam sempre por ser um pouco postas de lado, discriminadas, na prática. Portanto, uma reacção negativa.

Paradoxo?

Claro que não: basta notar que as outras modas são de aquisição mais ou menos fácil. Ou requerem dinheiro (o que cria as classes sociais, sendo no entanto algo homogéneas internamente), ou então, prática, treino. Coisa que muitas vezes é executada de forma divertida ou prazerosa. Vejamos alguns exemplos de características consideradas positivas e com adesão em massa:
- Desporto: um desportista exímio é sempre admirado (nem que seja pela sua forma física…)
- Música e Dança: a música exerce uma influência por vezes quase hipnótica no espírito humano, e regra geral agrada a todos.
- Moda: vestir-se bem (ou pouco…) reflecte bom gosto, e faz uso da atracção (inconsciente ou não) dos humanos por acessórios e enfeites.
- Sexo: mais instintos: é visível que as pessoas que emanam sexualidade atraem as outras (mesmo que isso implique serem playboys – ou “playgirls”)
- Dinheiro: o sucesso do capitalismo baseia-se na premissa que qualquer pobre diabo se pode tornar multi-milionário.

Todas estas áreas são algo acessíveis. Com pouco esforço e de forma geralmente agradável, pode-se aderir a uma ou mais delas. E é o que acontece, muitas vezes: inconscientemente admiramos pessoas que dominem esses campos. Melhor dizendo: invejamos. Queremos ser como elas, e ser também admirados (invejados?) pelos outros. É a natureza humana. E, com base nisso, imitamo-las, pura e simplesmente.

Mas então, se a inteligência/cultura é uma qualidade também admirada nas pessoas, porque é que pessoas que as possuam não se tornam populares e a moda não se espalha? A resposta é simples: Não há pessoas que possuam estas características, tal como a frase acima possa erradamente induzir. Elas não são inatas. São adquiridas, tal como todas as outras. Sim, há o factor genético, os talentos, os dons. Mas, tal como um músculo, uma potencialidade latente não se manifesta (pelo menos, não na sua totalidade) se não for estimulada.

Mas a ideia que vigora é que a capacidade cerebral de uma pessoa é determinada à nascença e pronto, não há mais nada a fazer. Ou se é esperto ou não.
Dois mitos têm, portanto, que ser desfeitos:

  1. Cultura geral não é inteligência
    Uma coisa tem que ficar clara: só porque uma pessoa lê muitos livros, sabe de que país Kuala Lumpur é capital, ou quem é Siddharta Gautama, ou que foi Miguel Ângelo que pintou o tecto da Capela Sistina… ISSO NÃO FAZ DELA UMA PESSOA INTELIGENTE!!! Quando muito, prova que ela tem boa memória… isto não quer dizer, obviamente, que a inteligência, nomeadamente a inteligência verbal, não se desenvolva a ler livros - e um ciclo se forma, já que a inteligencia verbal favorece por seu lado a facilidade absorção de cultura geral - que quase sempre é transmitida de forma escrita. A leitura, em específico, contribui para a criação desse ciclo que se auto-alimenta, especialmente se iniciada na tenra idade da curiosidade infantil. Essa actividade pode ser tão (mais, na verdade) emocionante como ver um filme, e no entanto a cultura popular diz o contrário… e sendo algo supostamente “difícil”, ou “chato”, as pessoas que não adquiriram esse hábito por gosto não estão dispostas a esse esforço para obter essa característica.
  2. A inteligência não é inata e imutável
    O treino do raciocínio, ao contrário do que se pensa, é muito fácil e divertido, com jogos diversos, e nem estou a falar de xadrez e damas. Cartas, o jogo do galo (fitch-fatch), palavras cruzadas e sudoku, ou mesmo jogos electrónicos, desde os solitários aos jogos de consola, todos (ou quase) desenvolvem algum tipo de capacidade mental. Só que as pessoas não concebem isso. Está tão entranhada a ideia que há pessoas burras e pessoas espertas, que a maior parte contenta-se em passar por médio e investir noutras áreas como mais-valia para a sua cotação social.

Como consequência destes mitos, o que acontece é que as pessoas tendem a olhar para quem demonstra ter desenvolvido capacidades mentais superiores à média como se fossem seres estranhos, diferentes; e automaticamente atribuem-lhes deficiências nas outras áreas: CDF’s, nerds, o professor/cientista maluco (mad scientist), todos esses são estereótipos algo depreciativos criados pela sociedade. Basicamente, considera-se que pessoas notavelmente inteligentes não têm jeito em desporto, dança, sexo, moda, etc., que vivem num mundo paralelo, o chamado “mundo da lua”, tendo poucas capacidades sociais.

Essa imagem é permanentemente reforçada pelos media, o que torna ainda mais difícil a sua reversão. A pressão social é constante, e desencoraja mais pessoas a seguirem essa moda, apesar da sua apelatividade, precisamente por alegar inapetência nas outras áreas apelativas. Eu próprio já presenciei o efeito desse desencorajamento: no liceu tive vários colegas que eram bastante inteligentes, mas que, para meu espanto, continuamente fingiam ser burros só para manter a sua imagem social! Lembro-me especialmente de um colega meu que chegou ao ponto de simular erros de leitura em voz alta, para parecer convenientemente iletrado e manter a sua reputação de yo (iou)!!!

O espantoso é que estudos estatísticos demonstram precisamente o contrário. Que pessoas consideradas “mais inteligentes” têm um sucesso superior à média na vida social, no desporto. Mas isso não se tornará do conhecimento público generalizado antes que o mito da dificuldade da aquisição da inteligência como elemento apelativo seja abandonado. Enquanto isso não acontece, as pessoas continuarão a subvalorizar esses indivíduos, como mecanismo inconsciente de manutenção do equilíbrio e da igualdade/homogeneidade social.

Uma excepção curiosa a essa teoria das capacidades mentais tem a ver com a arte. Antigamente os artistas eram uma classe da sociedade, não era qualquer um que criava uma obra de arte.
Acontece que a arte se “democratizou”. Hoje os meios estão disponíveis para quem quiser, e os diversos estilos se multiplicam a cada ano. É por isso que hoje qualquer um pode ser “artista” e compor musica, fazer graffiti, escrever um blog ou página web. Sendo possível uma aquisição dessa característica apelativa (o epíteto de artista, músico, etc) sem muito esforço, é natural que a arte tenha também entrado para o círculo das modas…

Resta esperar que uma revolução semelhante se possa dar no campo da inteligência, e ela possa entrar no mercado de atractivos sociais sem sofrer discriminações. E que o homem que não sabe que sabe evolua finalmente para o homem que sabe que sabe (homo sapiens sapiens).

ACTUALIZAÇÃO: encontrei ontem um texto excelente (em inglês) da autoria de Paul Graham sobre a psicologia da exclusão dos “nerds” nas high schools americanas, quem se interessar por uma análise mais profunda do tema pode lê-lo aqui.

ACTUALIZAÇÃO II: O artigo Como não falar com seu filho publicado na revista Época, aponta estudos que mostram que o elogio do esforço das crianças produz melhores resultados que o elogio da inteligência, já que este, principalmente quando não sincero, tende a dar a impressão de que a pessoa que elogia considera que o elogiado atingiu o limite das suas capacidades inatas, e faz o elogio apenas para aumentar a sua auto-estima, enquanto que quem elogia o esforço e faz críticas, internamente demonstra acreditar nas capacidades da criança de fazer melhor.

Posted by Waldir Pimenta at 03:52:06
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