O Inacreditável
Saí de casa à pressa.
Apesar de ter escolhido um horário conveniente (à tarde, para não ter que acordar cedo), acabei me atrasando. Como sempre…
Cheguei à paragem de autocarros dois minutos depois. Enquanto esperava pelo 7 ou 24T (rezando para não ter confundido os números), pensei para com os meus botões, porque é que as minhas viagens são sempre à pressa. Deve ser um carma…ou então inconscientemente faço por isso…
Apareceu o 24T na esquina, o meu coração deu um salto.
Pergunto ao motorista se este para na estação dos comboios, e ele confirma; eu, pensando: “que seja, vou apanhar este, e se o 7 demorar?”
Paguei o título e sentei-me com dificuldade devido à mochila que carregava. O autocarro começou a andar, e eu olhei para o relógio: 3h35… tinha que estar na estação às 3h50… “Ah, 15 minutos, dá tempo”, pensei eu, mais para me acalmar que outra coisa.
3h40 - o autocarro ainda não chegou à Praça da República… será que dá? começo a ficar preocupado…
3h42 - ah, finalmente, a paragem da Praça da República… já estamos perto… faltam 8 minutos…
3h45 - Oh, não, já só faltam 5 minutos e ainda não reconheço as proximidades da estação…
3h46 - Começo a convencer-me que não apanho o comboio. Então, não é o fim do mundo, apanhas o próximo, digo para mim mesmo. Ah, pois, e espero uma ou duas horas a mais, não?, respondo.
3h48 - Oh! Lá está a estação! será que afinal vai dar?
3h49 - então, vá lá, a paragem é logo ali à frente, estou a perder tempo…
3h50 - chegámos!! desço logo e ando em passos largos para a entrada da estação. a hora já deu, será que o comboio está aí ainda?
Entro na estação e vou directamente para as linhas… o bilhete compro-o ao revisor. Atravesso a porta…
(…)
Lentamente, as carruagens se vão afastando da linha… fico parado a ver o comboio a ir embora, acelerando progressivamente, os faróis apagados a fitar-me, como que a reprimir-me pelo meu atraso.
Enfim. Compro o bilhete para o próximo comboio que só sai daí a uma hora, e sento-me a ler o Codex 632. Uma hora depois, apanho o comboio para o Porto. Mais tarde, chego no porto e vou ver os horários… a perda do outro comboio desregulara-me os planos, tinha que ver agora qual é que apanhava para ir para Viana. Hum, meia hora mais tarde…tudo bem, não me custa a espera, até porque tenho a companhia do livro… mas pesa-me no bolso o dinheiro extra que gastei por não estar a seguir no percurso que meticulosamente calculara como sendo o mais económico… na vida de estudante, cada cêntimo é poupado, heheh. Pronto, leio mais um bocado do livro enquanto espero pela hora. vou olhando para o relógio constantemente para não correr riscos… hum, já estou quase no fim do livro, cheguei ao último capítulo, e ainda faltam 8 minutos… há, acho que vou conseguir terminar ainda aqui na estação… leio umas páginas, 5 minutos… leio mais outras tantas, agora já sinto nos dedos o fim do livro a aproximar-se, a menos de dez páginas de distância… 3 minutos… uma página… já está! fecho o livro, olho para o relógio: está em cima da hora! levanto os olhos para a linha à minha frente. HÃ?!? onde está o comboio? estava aqui ainda agora!! Sigo com os olhos a linha, mesmo a tempo de presenciar um tenebroso dejá-vu: o possante aparelho avançando pachorrentamente pela linha, o letreiro luminoso piscando: “Valença”, a sua última paragem, antes da qual ficava a de Viana do Castelo…
Roo-me de remorsos e de culpa, e agora começo a ficar verdadeiramente preocupado… e se não houver mais comboios hoje para Viana? já estava a ficar tarde, e começo a andar para a linha 11, de onde costumam sair os comboios para Viana (da Regional, meu espertalhão!, digo para mim mesmo, este era da Inter-cidades…daah); olho antes para o ecrã das partidas e não vejo nada, e a esperança que alimentei esvaiu-se juntamente com a determinação dos meus passos… mas continuei a avançar n direcção da linha 11, quem sabe encontro alguma coisa, tenho alguma sorte… já não tenho nada a perder! Além disso vem lá à frente um daqueles gajos da CP, a conversar com outro senhor, ou perguntar-lhes.
Aproximo-me deles e digo que perdi o comboio para Viana, se havia mais algum. O seu ar de dúvida desanimou-me, mas fiz por manter-me sereno e impassível. Eu já estava a pensar, apreensivo, como é que ia encontrar alguém conhecido no Porto, se ia dormir na estação, quando para minha surpresa eles, esquecendo a animada conversa que vinham tendo, me dizem para os acompanhar à bilheteira para procurarmos nos horários por mais comboios. Espantado pela solicitude, segui-os em silêncio, enquanto eles iam discutindo os caminhos possíveis, caso houvesse comboios ainda. Procuraram ambos nos vários (e confusos) horários, e para minha surpresa encontraram ainda uma combinação: eu podia, segundo eles, apanhar o comboio que saia daí a meia hora para Braga, descer antes, em Nine, e daí ir para Viana num outro comboio que sairia mais tarde daí.
Extremamente grato, comecei a fazer contas de quanto dinheiro iria precisar, e preparei-me para agradecer efusivamente, quando o segundo senhor me conduziu à bilheteira e explicou ao bilheteiro a situação, tendo este verificado e respondido que inclusivamente eu poderia usar o mesmo bilhete que já tinha, com destino a Viana.
Mal consegui acreditar na minha sorte… agradeci vigorosamente ao senhor que me ajudara (o outro já tinha ido embora), após ter escutado as suas recomendações com atenção, e dirigi-me à linha para esperar o comboio para braga que saia daí a 20 minutos. A partir daí vim sem problemas, apenas tendo que esperar uma hora e meia em Nine pelo comboio para Viana.
E no caminho vim pensando se aquele homem fazia noção do quanto a sua ajuda significou para mim… nem foi o facto de não ter que passar a noite em local incerto no Porto, mas principalmente pela sua prestabilidade e disponibilidade, só me tendo abandonado quando teve a certeza que o meu problema estava resolvido… a sua atitude impressionou-me, pois geralmente não estamos à espera que as pessoas se empenhem tanto a ajudar um desconhecido… Nunca me esquecerei desse homem e de como me ajudou, tal como nunca me esquecerei de chegar a horas nas estações de comboios!
Ora, uma ideia interessante que PC transmitiu no seu livro é que os nossos anjos actuam nas nossas vidas através de outras pessoas… Tal como aconteceu comigo, no episódio dos comboios, a ideia é que as pessoas (conhecidas ou desconhecidas) que nos ajudam em ocasiões difíceis das nossas vidas (muitas vezes sem se dar conta do quanto nos ajudaram), são manifestações do nosso anjo (da guarda?), que sendo etéreo não pode manipular o mundo físico.
Outro texto interessante que fala desse conceito está uma das apresentações de slides que circulam na Internet por email, da autoria de Ria Ellwanger (riaellw@globo.com) que diz o seguinte:
Quando perceber qual motivo é, você vai saber o que fazer com cada pessoa.
Quando alguém está na sua vida por uma razão…
… É, geralmente, para suprir uma necessidade que você demonstrou.
Elas vêm para auxiliar numa dificuldade, fornecer apoio e orientação, ajudar física, emocional ou espiritualmente.
Elas poderão parecer dádiva de Deus, e são!!!
Elas estão lá pela razão que você precisa que estejam lá.
Então, sem nenhuma atitude errada da sua parte ou numa hora inconveniente, esta pessoa vai dizer ou fazer alguma coisa para levar essa relação a um fim.
Às vezes, essas pessoas morrem.
Às vezes, elas simplesmente se vão.
Às vezes, elas agem e te forçam a tomar uma posição.
O que devemos entender é que as nossas necessidades foram atendidas, nossos desejos preenchidos e os trabalhos delas feitos.
As suas orações foram atendidas.
E agora, é tempo de ir.
Quando pessoas entram nas nossas vidas por uma estação…
… É porque chegou a sua vez de dividir, crescer e aprender.
Elas trazem para você a experiência da paz, ou fazem você rir.
Elas poderão ensinar algo que você nunca fez.
Elas, geralmente, dão uma quantidade enorme de prazer.
Acredite!!!
É real!!!
Mas, somente por uma estação.
Relacionamentos de uma vida inteira…
… Ensinam lições para a vida inteira. Coisas que você deve construir para ter uma formação emocional sólida.
A sua tarefa é aceitar a lição, amar a pessoa e colocar o que você aprendeu em uso, em todos os outros relacionamentos e áreas da sua vida.
Sobre o assunto, Richard Dawkins afirma que as coincidências são produto da nossa mente, exemplificando: pensamos numa pessoa pela primeira vez em muitos anos, e logo a seguir o telefone toca, e NÃO é essa pessoa. Nesse caso esqueceríamos o facto rapidamente; enquanto que se fosse essa pessoa, o evento ficaria guardado na nossa memória por bastante tempo. Ou seja, a probabilidade de ser essa pessoa era a mesma de ser qualquer outra pessoa. Acontece muitas vezes o telefone tocar depois de pensarmos em alguém. Mas nunca memorizamos esses eventos, preferindo memorizar quando o evento tem algum significado para nós. O que não significa que tenha sido um milagre ou coincidência, mas apenas a expressão natural de uma probabilidade. Ao atirar dois dados, seria estranho se nunca saíssem dois 6, pois a probabilidade é a mesma que qualquer outra cominação (1/36). Mas quando sai, consideramos o evento mais afortunado que as restantes combinações, apesar de ser perfeitamente previsível que mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer. Isso mostra que a nossa memória é selectiva, e ao não guardarmos os eventos triviais juntamente com os que consideramos excepcionais, estamos a criar uma proporção irealista, pelo que estaremos tentados a buscar causas sobrenaturais para tantas coincidências, quando a proporção real é bem menor.
Será, então, que imaginar entidades conscientes e benignas por trás de acontecimentos excepcionais do nosso dia a dia é, tal como faziam os nossos antepassados, a busca de explicações sobrenaturais para eventos que não compreendemos? Repare-se que a própria palavra sobrenatural não faz sentido, pois se a natureza comporta tudo o que existe, todo o universo, (Obs.: confronte-se os conceitos Natureza vs Biosfera), como poderá haver algo “sobre-natural”? Fora da natureza? Que significado isso pode ter? Tal como defendeu Richard Feynman, o sobrenatural não existe, o que existem são partes da natureza que ainda não compreendemos. Será tal crença então um comportamento fantasioso sobre algo que realmente os homens são capazes? Será que negamo-nos a acreditar que o ser humano tenha na sua natureza o altruísmo e a sensibilidade (ainda que inconsciente) para detectar a nossa necessidade de ajuda e a prática desinteressada de acções altruístas?
2. Mas, por outro lado, se realmente existirem tais seres superiores, qualquer que seja a sua natureza (há quem defenda que espécies super-avançadas, após ter atingido o equilíbrio e o desenvolvimento social e científico máximos, se dedicam a ajudar outras espécies menos avançadas no caminho da evolução – Note-se que, como disse Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. neste caso, de entidades sobrenaturais), se existirem tais seres, dizia eu, o cepticismo a respeito da sua existência pode traduzir-se em ser mal-agradecido para com esses seres, atribuindo a acções conscientes e bem-intencionadas uma causa aleatória. Caso este cenário se verificar, tal atitude pode-se traduzir em menos intervenções positivas, ou pior, em intervenções negativas, porém, defendo, só no caso de esses tais seres não serem suficientemente avançados para não compreenderem as nossas limitações, e ainda para possuírem comportamentos vingativos (É por isso que acho um pouco duvidoso o Deus da Bíblia, que mostra facetas demasiado humanas para um ser infinitamente bom e justo, nomeadamente a raiva e a vingança… ou os autores, inspirados por Deus, da Bíblia, ouviram mal as Suas palavras, ou então o Deus - se é que há um, se é que há um só - verdadeiro não é esse. apenas uma opinião…).
No entanto, é preciso tomar-se uma decisão. Tem-se que tomar uma posição, tal como se faz nos outros aspectos da vida em que temos que decidir sem ter certezas – quase tudo, na verdade. Vejam-se alguns exemplos:
- Matrix – O tema central da trilogia é o conceito de que o mundo não passa de uma simulação informática de dados introduzidos directamente nos nossos cérebros para simular as sensações físicas (visão, audição, tacto, etc.). A verdade é que se se estimular electricamente o cérebro da mesma forma que os órgãos sensoriais o fazem, é impossível distinguir a virtualidade dessa sensação… ou seja, podemos realmente estar inseridos numa Matrix, e se o sistema não falhar, nunca saberemos.
- Esquizofrenia – Doenças mentais em que se criam realidades alternativas não permitem ao doente perceber que essas realidades são criadas pela própria mente. Nesse caso, o estímulo do cérebro para simular sensações não provém de uma entidade externa, como no exemplo acima, mas sim do próprio cérebro. Seria assustador pensar que tudo o que existe, as pessoas que conhecemos, a vida que temos, os objectos com que interagimos, e o nosso próprio corpo, podem ser produto da nossa imaginação… qualquer um de nós pode ser um doente internado num manicómio, imaginando toda uma vida, mas completamente fechada na nossa mente.
- Sonhos – Exemplos menos fantasiosos (?) mas perfeitamente adequados ao tema são os estágios de actividade “não consciente” do cérebro, como o sonho, a hipnose ou o coma. Tal como nos exemplos anteriores, o cérebro é induzido a processar realidades que no fundo não existem, ou por serem produto da imaginação ou por se tratarem de memórias… quantas vezes já não pensámos que um sonho era real, de tão intenso? Quantas vezes acontecimentos extraordinários na nossa vida nos levaram a belicar-nos para nos certificarmos que não estamos a sonhar? O facto é que a nossa vida também pode ser toda um sonho…
Mas apesar destas terríveis possibilidades, não deixamos de viver a nossa vida só porque não podemos ter certeza de que ela é real… assumimos a solução que mais nos convém, e é isso que deverá ser feito a respeito dessa temática dos anjos: devemos analisar os prós e os contras, e assumir o lado que mais nos identificamos, ou que achamos mais conveniente.