Monday, October 30, 2006

Wikificar a Sociedade

(Publicado no Artiletra nº 78, de Outubro/Novembro de 2006)

Caríssimo leitor:

1. Introdução à Wikificação

É com imenso prazer que retorno à tua companhia, para conversarmos mais um pouco vagueando pelas nuances reflexivas nas quais a mente humana se debruça…

O título deste artigo pode parecer estranho, para os que nunca ouviram falar em wikis (coisa que aos poucos se vai tornando raro acontecer…). Farei um pequeno resumo dessa filosofia.

“Wiki” deriva de uma palavra havaiana que significa “rápido”. Foi usada pelo programador Ward Cunningham para cunhar um software que desenvolveu que permite aos visitantes de um site na internet o alterarem em tempo real, criando assim uma intensa interactividade antes desconhecida na internet.

Essa forma de geração de conteúdos em breve viria a tornar-se extremamente popular, ultrapassando vários sites tradicionais de conteúdo gerido por webmasters e editores.

O exemplo mais famoso, o Wikipédia, é nada mais nada menos que uma enciclopédia online cujos artigos são criados, editados, corrigidos e aumentados pelos seus próprios leitores. Qualquer visitante do site pode, a qualquer momento, acrescentar informação que disponha e que não esteja já na página, ou refrasear/reestruturar a informação já existente para a tornar mais legível e compreensível.

Tal parece ser uma forma muito estranha de se trabalhar. E o vandalismo? E se alguém maliciosamente apagar texto que foi laboriosamente elaborado e introduzido por outros leitores bem-intencionados? Ou pior, e se alguém deturpar essa informação para fornecer dados incorrectos?

O sucesso do Wikipédia seria o suficiente para dissipar qualquer dúvida sobre a eficiência do modelo wiki. Mas uma explicação simples é que a existência de um histórico de cada página permite a fácil reversão de vandalismos por qualquer leitor que detecte a anomalia. Centenas de administradores, todos voluntários, monitoram as inúmeras edições feitas constantemente, e em caso de vandalismo repetido, o artigo em questão é bloqueado para edições por anónimos ou utilizadores recém-criados durante algum tempo. O facto é que para a grande maioria dos temas, o gozo do vandalismo facilmente desiste contra a persistência dos editores bem-intencionados.

(Eu sugeria que tu, leitor, visitasses a Wikipédia e procurasses artigos referentes a Cabo Verde - estará aí alguma informação sobre a tua cidade, a tua vila, a tua povoação? o artigo respectivo não diz quase nada? experimenta acrescentar alguma informação…)

O Wikipédia ganhou terreno às outras enciclopédias online (muitas de grande prestígio, como a Brittannica), e análises aprofundadas de várias entidades (como a revista científica Nature) provaram que o seu grau de precisão científica e factual pouco deixa a desejar em relação a estas enciclopédias tradicionais.

A filosofia wiki - que representa a transição de um modelo conteúdo editorial (de um editor/especialista para o público) para um conteúdo auto-construído (dos utilizadores para os utilizadores) tem-se alastrado a várias áreas da sociedade moderna, e não só no mundo virtual da internet e dos computadores (onde, aliás, proliferam exemplos bem-sucedidos como o YouTube, o RottenTomatoes, o del.icio.us, o freeware/open-source, etc.).

Também no mundo “real”, onde temos, por exemplo, a expansão do jornalismo amador através da blogosfera, sendo que os próprios jornais tradicionais têm vindo a integrar colunas ou mesmo páginas inteiras dedicadas a blogs (espécie de diário online) populares ou onde publicam textos que os seus leitores escrevem no blog do próprio jornal.

Temos ainda o florescente wikimanagement, um sistema de gestão de empresas que usa o formato wiki para comunicação entre os seus elementos, evitando a distribuição de emails, relatórios para trás e para a frente, reduzindo assim drasticamente o tempo de comunicação na empresa, aumentando a performance e democratizando a estrutura, motivando os subordinados ao realçar a relevância da participação de todos e cada um dos funcionários.

2. Como wikificar a sociedade

Os olhares mais atentos notarão que se está a dar uma verdadeira revolução no domínio da informação: estamos a passar de um modelo elitista, em que um pequeno grupo de produtores de informação cria conteúdo para ser absorvido por um grande número de consumidores de informação, para um modelo verdadeiramente democrático, no qual todos podem produzir informação, sendo simultaneamente produtores e consumidores.

Mas e o lixo? A informação incorrecta, incompleta ou deturpada?, perguntará o mais céptico. Mas se repararmos, da mesma maneira que, com o boom da internet e da facilidade de criação de páginas, surgiram ferramentas que permitissem seleccionar o trigo do joio e encontrar exactamente o que procuramos - e estou a falar dos motores de busca, como o Google - , também para cada ambiente em que seja aplicada a criação de conteúdo pelos próprios utilizadores, ferramentas apropriadas irão surgir (e, na maior parte dos casos, já surgiram) que permitam o uso eficiente desse universo de criações - não fosse cada ser humano um mundo em si, com capacidades criativas potencialmente imensuráveis.

Seria o tempo agora de os mais visionários começarem a pensar em estender esse modelo de participação colectiva a outras áreas - áreas mais directamente relacionadas com o dia-a-dia das nossas sociedades. Falo da implementação de uma sociedade colaborativa.

Ora bem, o que significaria isso? Seguindo o modelo wiki conforme descrito acima, diríamos que se trata de estabelecer uma forma de gestão das nossas comunidades que fosse menos elitista e mais participativa. Uma análise afiada diria que estou a sugerir a abolição do governo e a implementação da anarquia. No entanto, penso que com uma estratégia de empower the people (dar poderes ao povo) o Governo só teria a ganhar.

Nota-se (e já o referi várias vezes) uma extrema dificuldade e excessiva burocracia na criação e reconhecimento legal de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e Associações de fins não lucrativos. Só os mais persistentes chegam com sucesso ao fim desse processo moroso e desgastante fisica, psicológica e financeiramente. E o que resta das melhores intenções iniciais, acaba por ser quase sempre cortado pela extrema dificuldade de angariação de fundos para a realização das obras propostas. Um enorme potencial colaborativo fica assim reduzido a meia dúzia de associações comunitárias que, andando na corda bamba, lá vão ajudando a melhorar a sua comunidade local, enriquecendo-a material e intelectualmente.

Vi recentemente na televisão uma notícia referente a um projecto do governo português chamado Empresa na Hora, que promete permitir a criação imediata de uma empresa num período tão curto como duas horas, sem passar pelo longo e burocrático processo de obtenção e envio de vários documentos entre as repartições oficiais.

E eu digo: porque não um programa semelhante para as ONGs? É que, havendo interesse por parte das pessoas em colaborar no desenvolvimento da sua comunidade, porque não haveria o Estado de facilitar-lhes a tarefa? Mais não estariam a fazer que facilitar-lhe o próprio trabalho! E agir em pequena escala tem várias vantagens: não são necessários orçamentos exorbitantes (já que uma organização local não seria criticada por se dedicar mais a uma zona que a outras, quando essa zona é a sua própria!); os casos individuais poderiam ser tratados com mais diferenciamento, dependendo da gravidade da situação; uma hierarquia menos imponente favoreceria o contacto e a proximidade com a população, permitindo ter um feedback das acções levadas a cabo e receber sugestões; uma organização mais pequena seria mais fácil de gerir e portanto muito mais ágil.

Com medidas incentivadoras do associativismo e da participação comunitária e do civismo, certamente se massificaria essa prática, o que quiçá poderia levar à criação de uma nova classe, também autónoma (Governo Central > Municípios > Associações Comunitárias) na hierarquia de poder, tornando-a mais democrática e mais próxima do povo.

Uma federação nacional de ONG’s locais, tal como a Associação Nacional de Municípios, poderia agregar essas associações e efectuar a homogenização e o intercâmbio de projectos bem-sucedidos para os multiplicar, bem como a disseminação de conhecimentos empíricos adquiridos por algumas dessas associações de forma a que se evite a comissão dos mesmos erros, o que não seria possível se trabalhassem isoladamente.

Estaríamos assim, sem dúvida, um passo mais à frente no caminho da total e efectiva democratização da sociedade. One small step, one giant leap, on the route of democracy!

Posted by Waldir Pimenta at 22:14:55
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