Thursday, November 30, 2006

O Trabalho Desdignifica o Homem (?)

(Publicado no Artiletra nº 79, de Novembro/Dezembro de 2006)

Uma das perguntas mais difíceis de se responder é o quanto vale o trabalho de uma pessoa. O senso comum diz-nos que alguém que estuda muitos anos para aprender o seu ofício merece ganhar mais que outro que esteve esse tempo a trabalhar, ganhando dinheiro e experiência. No entanto médicos e professores são muitas vezes mal pagos, enquanto empresários autodidactas montam um negócio e fazem sucesso financeiro. Por outro lado também percebemos que um mineiro ou bombeiro têm trabalhos fisicamente esgotantes e perigosos, e que também deveriam ser recompensados pelos riscos que correm. E no entanto, mais uma vez, na escala de salários aparecem abaixo de empregos chamados “de colarinho”, em que pessoas de fato e gravata ganham dinheiro “sentadas” como por vezes se diz. Há ainda o caso dos operadores de fábrica, varredores de rua, etc., cujo trabalho é desgastante por ser repetitivo, e ainda assim recebem salários míseros. Isto tudo não parece fazer muito sentido. Estará o nosso senso comum viciado de alguma forma? Será o sistema de mercado capitalista injusto? De qualquer das formas, haverá sempre trabalhos mais bem pagos que outros, portanto uma análise mais aprofundada é necessária para uma visão mais concreta do sistema.

Assim, tentemos categorizar os trabalhos em dois eixos principais.

Para começar, há o eixo da criatividade. Os trabalhos podem variar de extremamente rotineiros, que exigindo ou não do físico do trabalhador, acabam por causar extremo dano psicológico, causando desmotivação e de certa forma “enferrujando” o cérebro (O cérebro humano é como um músculo, precisa ser constantemente trabalhado para se manter em forma. É assim até certo ponto correcto dizer que trabalhos monótonos e repetitivos como que adormecem o cérebro das pessoas, por falta de uso) a extremamente criativos, como os artísticos: escritores, pintores, realizadores, actores, todos eles conseguem de facto gostar do seu trabalho por aplicarem nele a própria característica que faz de nós humanos: a imaginação e criatividade. Trabalhos desse tipo são frequentemente chamados trabalhos vocacionais, e havendo essa recompensa psicológica de se satisfazer com o próprio acto de trabalhar, torna-se mais aceitável que recebam menos. No entanto, acontece o contrário: músicos, actores, ou mesmo empresários (cujo trabalho de gestão não é tão criativo mas exige inovação e estratégia, pelo que se enquadra nesta categoria) de sucesso ganham milhares e milhões. É certo que apenas uma minoria destes perfaz estas somas. Mas já se ouviu falar de alguém que ficou milionário sendo pedreiro?

Em segundo lugar, temos o eixo da utilidade. Ninguém pode negar que uma enfermeira ou um polícia tem um trabalho muito mais útil à sociedade do que, digamos um perfumista ou um vendedor de carros em segunda mão! No entanto, mais uma vez se verifica uma discrepância nos salários, por vezes alarmante… obviamente, uma padronização deste eixo para uma classificação dos trabalhos segundo a sua utilidade social implicaria a definição prévia de uma tábua de valores, por exemplo vida > saúde > conhecimento > conforto > diversão. Isso no entanto é bastante subjectivo e pode promover discussões acesas. É óbvio que todas as profissões têm a sua utilidade; trata-se apenas de evitar desequilíbrios indubitáveis.

Há outros factores influenciariam o valor das profissões, mas poderíamos associá-los a um dos eixos. Por exemplo, o perigo que alguns trabalhos comporta para o trabalhador é contraposto pela responsabilidade dos trabalhos de colarinho que não têm a sua própria vida/integridade/estabilidade social em mãos, mas a de outros (geralmente, muitos). Também a vantagem das actividades empíricas em relação às académicas referida no primeiro parágrafo poderia ser contraposta no outro sentido, já que através de uma formação académica se pode obter uma visão mais geral das potencialidades da área, permitindo um crescimento além dos horizontes de quem não estudou aprofundadamente a especialidade em questão). Estes semi-eixos apresentados se enquadram no eixo da criatividade, não sendo desnecessário referir quais das respectivas pontas se ajustariam aos terminais “repetitivo” e “criativo” desse eixo.

Devo a este ponto confessar que após alguma investigação, quase desisti de escrever este artigo a meio, tendo-me deparado com tanto material já desenvolvido por economistas a respeito da teoria do valor-trabalho (Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx… que querem, não estudei economia no liceu!). Inteirar-me de todos no mínimo não me deixaria terminar o artigo… mas prometo que volto a pegar no tema com mais background (E além disso uma visão leiga muitas vezes pode vislumbrar detalhes que escapam a entendidos).

Continuando: a minha convicção é que, no entanto, o constante desenvolvimento da tecnologia e a resultante diminuição dos seus custos de produção, no futuro robots tomariam conta dos trabalhos repetitivos, que podem ser facilmente programados sem a necessidade de inteligência artificial elaborada. A esse ponto, todos os trabalhos restantes para humanos acabariam por ser criativos, e assim o homem poderia realmente trabalhar no que lhe faz usar o que lhe faz ser homem: a inteligência, a criatividade, as emoções. Quem disse que o trabalho dignifica o homem? Realizar rotinas “cérebro-degradantes” como apertar parafusos ou varrer o chão é negar a sua natureza humana. Trabalhos repetitivos desdignificam o homem, sim.

À laia de conclusão: quem sabe, com as pessoas tendo prazer no que fazem, tendo trabalhos e não apenas empregos, possamos deixar de cobrar à sociedade o trabalho que lhes prestamos? Afinal, estamos a ser indemnizados por quê, se gostamos do que fazemos? Se ninguém cobrasse o seu trabalho, nem sequer precisávamos de dinheiro para nada, já que os serviços nos seriam oferecidos de graça; e os produtos, os recursos, a matéria-prima, esses existem na Terra mais que suficientes para satisfazer toda a nossa espécie… não havendo a pressão de um mercado em que temos que fazer dinheiro para sobreviver, a exploração desenfreada (e consequentes desperdício e má distribuição, causa da pobreza) cessaria… e viveríamos felizes para sempre!!!

Ok, ok, eu estava a brincar… fui um pouco utópico neste ultimo parágrafo, mas sonhar um pouco de vez em quando não faz mal… pensem nisso. Até à próxima, meus caros!

Posted by Waldir Pimenta at 08:12:54 | Permalink | No Comments »