Friday, June 15, 2007

O Paradoxo da Perfeição

(Publicado no Artiletra nº 83, de Junho de 2007)

O ser humano é um insatisfeito incorrigível. Só Deus mesmo, com a sua infinita paciência, para tentar nos agradar. Ou talvez, precisamente por nunca estarmos satisfeitos, ele não tente nos agradar de todo. Daí se dissipa o paradoxo da infinita bondade divina em coexistência com os males do mundo. Sem desígnios ocultos. Simplesmente, se não houvesse guerras, nem fome, nem morte, nós simplesmente iríamos reclamar das maçãs serem muito doces, ou de viver eternamente ser tão enfadonho.

A perfeição existe? Segundo a nossa própria natureza, somos forçados a admitir que não. E no entanto, perseguimo-la esperançosamente, como crianças atrás do fim do arco-íris. É como dizem: a felicidade não é um destino, é um caminho. Ao perseguir a felicidade, tornamo-nos infelizes por nunca a obter. Mas se pelo contrário, deixarmos de estar obcecados com essa ideia, ela muito provavelmente virá ter connosco. E não adianta tentar segurar, que ela foge como areia por entre os dedos! Outro ditado famoso diz que se realmente amamos uma pessoa, devemos deixá-la solta. Se ela voltar para nós, é porque nos ama em retorno. Se não, é porque nunca nos amou. Ok, não é bem assim na realidade (deixar solto, mas não muito, toda a gente gosta de se sentir desejada, e ciúmes moderados até são saudáveis nesse sentido), mas a frase ilustra o ponto em que eu queria chegar:

A felicidade não é um estado de êxtase puro, um lago estagnado, um nirvana cheirando a incenso. Na verdade, ser feliz não faz muito sentido: o ser humano tipicamente está feliz. Está-se feliz nalguns momentos, noutros não. Caso contrário, como poderíamos definir esse estado como felicidade? Nunca tendo que parar de respirar, como seria possível sentirmos o prazer do ar a entrar e a sair dos nossos pulmões? Fazemos isso o dia todo, a noite toda – incessantemente. No entanto, como descrever a sensação de sair de um longo mergulho e deixar o ar entrar nos pulmões? É como a saúde: só se sente a sua falta quando se perde. Isso se aplica a tudo, na verdade: Não damos valor ao que temos até o perdermos, e por outro lado, também não sabemos o que andámos a perder até o termos, reza um dizer anónimo.

A felicidade acaba sendo na verdade resultado de transições. Só sentimos frio por o calor ser sugado do nosso corpo (e por isso parece menos fria a toalha que a barra metálica, depois de um banho quente, já que a primeira absorve o nosso calor mais lentamente, embora esteja à mesmíssima temperatura que a barra de ferro ou os azulejos). Da mesma forma, só nos sentimos felizes ao passar de um estado menos agradável para outro mais agradável. Menos, agradável, mais agradável, dá a impressão que podemos subir a escada até chegarmos na perfeição, e aí este artigo é destronado. Desistam. Qualquer pessoa que já desfrutou de um banho de sol sabe que após certo tempo, entrar na água fresca é um prazer insubstituível. Tal como o é sair dela após algum tempo para regressar ao sol.

Nós abandonamos a estabilidade no momento em que saímos do ventre materno. A partir desse primeiro contraste, nos viciamos nessa droga e só conseguimos estar felizes com doses constantes de mudança, de contraste. Revolução. Tentativas já foram feitas de atingir sociedades perfeitas. Pfff, inútil. Além do facto de sermos todos diferentes impedir que se contente toda a gente, basta notar que somos inconformados de primeira para chegar à conclusão que mais tarde ou mais cedo alguém se rebelaria. A estabilidade conduz ao tédio e o tédio à procura de ruptura. De mudança. De contraste.

Paixão. Desejo. Amor. Porque é que há tantos desgostos amorosos? A verdade é que a grande maioria destes são desgostos passionais. A paixão é completamente diferente do amor. Existe amor recíproco, mas paixão recíproca é impossível por definição. Porquê? Porque a paixão nasce do desejo. Apaixonamo-nos pelo que desejamos. E só desejamos o que não temos. Quem nos ama, já é nosso, não podemos desejá-lo. Paixão e amor só coexistem em amores proibidos. Caso contrário, o fogo do desejo esbate-se no lume brando do afecto carinhoso, incondicional, confiante, cego às vezes. Claro, o desejo sexual ainda existe, mas esse não é um desejo no verdadeiro sentido do termo, é um instinto. Não o podemos negar, é a nossa natureza básica, e nos acompanha enquanto formos seres vivos sexualmente activos. Tal como comer. Tal como respirar. Mas somos mais que uma máquina, somos mais que os nossos instintos. Satisfazer os instintos é sobreviver. O que nos faz humanos é desejar mais. E desejar mesmo, só desejamos o que não temos.

Desejo. A palavra-chave. Ao obter o que desejamos, ficamos felizes. Tendo-o, não o desejamos mais. Podemos apreciá-lo, mas não o desejamos. E a placidez da contemplação, da apreciação esbate. Ter essa coisa nos dá prazer, mas não nos faz feliz. Não faz o nosso coração bater mais forte. Rever filmes de terror que nos faziam pular da cadeira há anos atrás, hoje mal nos sobressalta. Fomos nos habituando a doses maiores. Para atingir a felicidade, passamos então a desejar outra coisa. Para que a possamos perseguir sem a ter, e mergulhar em êxtase quando a conseguimos. Mesmo que não saibamos o que desejamos, desejamos a mudança. O anjo caído do paraíso não poderia ser mais humano: a perfeição, paradoxalmente, não era suficiente boa para ele.

O príncipe quer trocar de vida com o pobre, e vice-versa. Não há topo e fundo, não há bem e mal, apenas opostos. Yin e Yang. Talvez seja por isso que os males do mundo existem. Para nos dar a chance de sermos felizes, ao mudar as coisas, ao sermos mudados pelas coisas. Ou talvez, afinal, apenas sejam desígnios divinos ocultos. Quem sabe?…

 

Posted by Waldir Pimenta at 02:28:43 | Permalink | Comments (1) »