Abaixo a esmola!
Sim, título polémico, já sei. Mas como também já sabe quem me é fiel, eu já me explico.
Ora bem, o que quero realmente dizer com essa frase? Sim, sou contra a esmola (apesar de dar quando ma pedem – afinal não tenho um coração de ferro…), mas porquê a abomino?
Já ouviram certamente falar no ditado chinês que diz “Dá a um homem um peixe e alimentá-lo-ás por um dia. Ensina-lhe a pescar e alimentá-lo-ás pelo resto da vida.” Por esta altura presumo que a maioria dos leitores tenha percebido onde quero chegar. De facto, considero (e penso que isso é evidente) que esmolas têm um papel nocivo, já que apenas viciam as pessoas que delas precisam, sem nunca ter o potencial de lhes ajudar a sair do fundo do poço em que se encontram.
Acontece que essa metáfora se aplica também a nível individual. Uma pessoa que pede esmola consegue arranjar uns trocos, mas vai sobrevivendo à base disso, não consegue extrair daí uma mais-valia que lhe permita sair do ciclo vicioso.
Nessa perspectiva, dar esmola é, mesmo sendo disfarçada de caridade e altruísmo, um acto de colaboração (ainda que inconsciente) com esse ciclo odioso. Tal como Cabo Verde tem que se livrar da dependência da ajuda externa para passar eficientemente ao grupo dos países de desenvolvimento médio, e para tal precisa do empurrãozinho que o grupo de transição tem apelado à comunidade internacional, também os pobres crónicos precisam dessa ajuda suplementar, essa mão que lhes ajude a subir para o primeiro degrau.
Mas como fazer isso? Cada um tenta ajudar dando a esmola que pode, afinal nós também precisamos do dinheiro para sobreviver, certo? Então, cabe ao governo dar essa tal ajuda especial aos pobres crónicos para os retirar do ciclo, certo? Bem, sim e não. Cito agora um exemplo de um homem cuja iniciativa lhe rendeu recentemente o Prémio Nobel da Paz: Muhammad Yunus, conhecido como “O banqueiro dos pobres” (cognome que também serve de título ao livro sobre o economista, o qual tenciono adquirir – assim que terminar de ler “O fim da pobreza” e “A pobreza das nações”… dois calhamaços, diga-se de passagem!).
Então o que fez Yunus? O economista, natural de uma zona pobre, decidiu fundar um banco especializado em micro-crédito, financiando iniciativas com empréstimos a uma escala que nenhum banco convencional se disporia a fazer. O sucesso da sua empreitada foi tanto que o banco Gramen lhe proporcionou o galardão que lhe deu reconhecimento internacional. Yunus tem efectivamente ajudado as pessoas pobres a sair do ciclo, dando-lhes o puxão que precisavam para atingir o primeiro degrau da escada. Prova do seu sucesso é o facto da taxa de retorno dos empréstimos ser superior a 98%!
Mas e nós, mortais comuns, que não temos o tempo, dinheiro ou conhecimentos para levar adiante iniciativas dessas? O que podemos fazer? Aqui vai uma ideia simples e eficiente: doem os vossos objectos usados. Roupa que já não serve, brinquedos, livros, mobília, coisas que de outro modo iriam para o lixo… doem-nas a instituições de caridade que tratarão de as distribuir por quem delas mais precisa (e que dessa forma poderá investir os seus ganhos em necessidades menos básicas, e mais a médio prazo). Três benefícios resultam desse tipo de acção: O benefício ambiental, por se reduzir a produção de lixo; O benefício económico, pela ajuda que se fornece às classes desfavorecidas; e, last but not least, o benefício emocional de se fazer o bem (aquele mesmo que nos move a dar esmolas).
Longe vai o tempo em que ter diferentes classes sociais era necessário à sobrevivência da sociedade. Cada vez mais, a tecnologia permite nos desfazermos dos trabalhos menos desejáveis, e assim em breve não haverá trabalhos que as pessoas farão por pura necessidade e falta de opção (varrer ruas, por exemplo, actividade inegavelmente ligada às classes pobres). Mortais comuns preocupados com os outros podem assim fazer a sua parte ao evitar dar esmolas (para não perpetrar o ciclo) e contribuindo de formas mais úteis: não só participando na actividade de instituições de caridade já estabelecidas, mas organizando, caso não as haja, campanhas de recolha de objectos usados – na sua cidade, no seu bairro, ou mesmo na sua casa;
É claro que não proponho uma mudança brusca: tal como a Cabo Verde foi cedida uma fase de transição ao PDM, (as ajudas orçamentais não são simplesmente cortadas sem mais nem menos), também não faria sentido que todos parássemos de dar esmolas de um dia para o outro. Todos nós, se já tentámos fazer uma mudança dos nossos hábitos, sabemos o quanto isso é easier said than done. Seria portanto injusto exigir que as vítimas do ciclo da pobreza dela saíssem de forma repentina. Mas uma mudança consciente dos nossos hábitos seria a longo prazo a maior ajuda que podíamos dar aos com que nos preocupamos. Cada pequeno gesto desses vale muito mais que uma moeda atirada ao chapéu de um mendigo.
Deixo-vos com um pensamento final, cuja autoria me é desconhecida, mas que transmite de forma elegantemente sucinta o espírito deste artigo:
“De nada vale tentar ajudar aqueles que não ajudam a si mesmos.”
Pensem nisso.