RAP
Quando primeiramente me sugeriram escrever sobre poesia, a minha primeira reacção foi de retracção. Fiquei extremamente apreensivo e quase desconsiderei a ideia. Afinal, que sei eu de poesia? Eu que praticamente não leio poesia, e que apesar de ter feito uma ou duas incursões na escrita nesse campo, nada de jeito produzi…
Mas depois de uns dias a pensar esporadicamente no assunto, acabei por decidir tomar em mãos tal desafio, ao dar-me conta que afinal sei mais do que eu próprio pensava sobre poesia.
Ora, RAP porquê?, perguntam vocês. E com razão. Já devem andar fartos de – ou divertidos com – os meus títulos obscuros. Mas desta vez, decidi satisfazer a vossa curiosidade mais cedo. RAP (adiante rap, por questões de legibilidade) é para quem não sabe (poucos, presumo) um estilo musical de origem americana. E essa sigla significa, para quem não sabe (menos poucos, presumo) rythm and poetry. Ou seja, ritmo e poesia (por este prisma, poder-se-ia dizer que a tradução da expressão para português seria r.e.p., o que até estaria mais perto da pronúncia original da palavra inglesa…).
Mas o rap tem uma péssima conotação em termos de qualidade musical, principalmente quando nos movemos para esferas mais eruditas. E o facto é que os críticos do rap têm razão: a maior parte do rap que é produzido é de péssima qualidade, tanto em termos de melodia como em termos de letras. Mas atenção, o género em si não é susceptível dessas críticas. O verdadeiro problema é que o rap é um estilo cantado quase exclusivamente por gangsters (membros de gangs, ou seja bandos de rua) negros americanos (african-americans, como os americanos gostam de dizer). E esses gangs muitas vezes se envolvem em actividades criminosas envolvendo tráfico de drogas, prostituição e até assassínio. Por menor que seja a percentagem de rappers que realmente sigam esse caminho, marcas como essa mancham a inteira imagem do rap. Mas as críticas de qualidade musical também têm razão de ser: muito do rap que se ouve não tem ritmo/melodia apelativos a não-amantes do género (é por isso que prolíficos produtores de bons beats, como o dantes famoso Dr.Dre, que lançou o Eminem entre muitos outros, fazem tanto sucesso), e em relação à poesia limitam-se muitas vezes a encontrar rimas para todas os versos – por vezes de forma exagerada, o que resulta em canções risíveis.
Entretanto, há rappers que se destacam no meio da multidão de MCs (mic controller, ou seja, quem tem o microfone na mão – já que o rap amador muitas vezes é associado a competições de improvisação, como bem ilustra o filme “8 Mile”), e conseguem realmente produzir rap de boa qualidade musical – e poética. Desses, eu gostaria pessoalmente de destacar, no universo lusófono, Gabriel o Pensador, brasileiro, e Boss AC, cabo-verdiano residente em Portugal.
As suas músicas (não todas, obviamente – ninguém é perfeito…) têm letras não só rimadas mas com métrica que faz com que a própria leitura produza um ritmo (conhecedores de poesia estarão conscientes deste efeito), que é por sua vez acompanhado pelo beat e pela melodia que não são apenas uma sequencia de 4, 6 notas que se repetem pela música toda, mas sim acordes bem conseguidos e harmoniosos (não é à toa que o rap comercial e efémero use quase exclusivamente instrumentos electrónicos para produzir a sua melodia, enquanto muitas canções rap de maior qualidade baseiam-se em instrumentos acústicos como a guitarra). Um bom exemplo é o rapper 2 Pac, morto (como quem diz, assassinado) já há uns anos mas ainda respeitado como um dos maiores rappers de sempre, que, não surpreendentemente, estudou numa escola de música, apesar de pouca gente saber disso.
Mas o mais importante de tudo isto é a mensagem que a canção transmite. Enquanto Gabriel o Pensador, Boss AC e outros falam da condição humana, de política, de deus, do amor e fazem críticas sociais, os bubblegum rap (ou seja, o rap comercial, produzido para gerar hits instantâneos que se desvanecem pouco depois do panorama musica, tal como um balão de “chuinga”) têm como tema dominante dinheiro, mulheres (sexo, a bem, dizer) e violência. Isso se nota facilmente ao escutar alguns dos hits (sucessos) do momento, e mais ainda vendo os seus videoclips, nos quais abundam bundas desnudas (passe a redundância – eu sei, a figura de estilo neste caso é outra mas não me lembro do nome, vai esta para desenrascar que não é completamente descabida, hehe) dentes enfeitados a ouro – e mais recentemente a diamantes – enormes anéis de brilhantes, correntes de ouro ou prata (com medalhões tão grandes que admira não tornarem corcundas os seus donos), carros topo-de-gama, e maços de dinheiro a ser atirado como lixo. É uma cultura já tão intrínseca ao ambiente rap que poucos conseguem escapar dessa espiral.
Mas saindo um pouco do rap, o que eu queria transmitir (além de dar uma visão geral sobre o rap, mesmo não sendo um entendido na matéria) é que no fundo a poesia é musica, é ritmo. A rima é uma parte fundamental da poesia e não é por acaso. A métrica, a contagem das sílabas, a estrutura semi-simétrica de um soneto, todos estes elementos se unem para produzir um texto que não só transmite uma mensagem profunda (ou pelo menos é essa a intenção), mas também fazê-lo de forma a que as próprias palavras formem sons harmoniosos. É inegável que os humanos possuem um estranho fascínio pela música, que remonta aos rituais primitivos em que o ritmo cadenciado e as notas encadeadas (e provavelmente substâncias alucinogéneas) produziam um transe que, agradável por si só, era também útil para rituais de adivinhação, cura, reprodução. A poesia torna-se numa extensão natural dessa intrínseca receptividade ao ritmo e à música, e a poesia cantada é simplesmente uma forma ainda mais natural de a exprimir.
Posso assim concluir com a afirmação que, assumindo como universal o gosto pela música, existe em cada ser humano um amante da poesia.
Bom, o título rap também era abreviatura de artigo rápido e por isso revelei cedo o outro significado; mas pelo visto mais uma vez embalei-me nas palavras e acabei por escrever outra das minhas dissertações relativamente longas… diz-se que a perfeição se atinge não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada a retirar. Um dia chego lá. Ou perto…
Até a próxima, amigos!