Friday, March 30, 2007

Um Declive Desajustado

(Publicado no Artiletra nº 82, de Março/Abril de 2007)

Olá, amigos, é um prazer estar de novo na vossa companhia!

Decerto devem estar curiosos sobre o tema que iremos abordar hoje, quanto mais não seja pela falta de clareza habitual (e propositada, heheh) dos títulos com que encabeço as nossas conversas…

Ora bem, fazendo jus ao nome da coluna, resolvi descer um pouco das divagações fantasiosas do costume e regressar, como aliás faço (ou tento fazer) periodicamente, ao tema do ensino.

Desta feita, gostava de partilhar convosco um diálogo que desenvolvi com um colega meu, cá na universidade. Estava eu a inquiri-lo sobre os seus progressos e eventuais dificuldades, ao que ele me responde que são maiores que no 12º. Eu replico logo que não obstante, o estudo em níveis mais avançados acaba por ser mais agradável, pois supostamente o estreitamento das áreas de estudo condiz com os interesses do estudante, que se sentiria potencialmente mais motivado para aprender.

Mas o meu colega discordou, dizendo que, pelo contrário, a cada ano que se avança a escola se torna menos prazerosa, e exemplifica com as recordações que todos temos dos anos anteriores aos que andamos a estudar, o que (mesmo tendo uma ponta do conhecido desvio cognitivo da psicologia humana de considerar melhor o que ainda (ou já) não se tem, em relação ao que se tem no momento) acaba por ter um fundo de verdade, pois por exemplo na primária recordamos com nostalgia os anos do jardim de infância, e no liceu acontece o mesmo em relação aos anos da primária. A esta altura, já eu começara a desvendar alguma diferença no conceito de “prazer de estudar” a que ambos nos referíamos. Na verdade, acabei por notar que ele se referia à maior quantidade de tempo livre que temos de início, ocupando as actividades extra-curriculares (brincadeiras com os colegas, a interacção social em geral) uma grande parte do nosso tempo na escola, o que de ano para ano diminui, acompanhado do crescimento gradual da dificuldade das matérias leccionadas, e consequentemente do esforço necessário para as adquirir. Por outro lado, eu me referia ao prazer específico do aprendizado, do estudo, do trabalho que se faz com gosto.

Pessoalmente, considerei sim cada ano lectivo mais difícil que o anterior, o que aliás é perfeitamente normal e esperado até, mas achei simultaneamente cada vez mais agradável o dever de me aplicar no estudo das disciplinas, pois a certa altura (a partir do 10º ano, mas significativamente quando se entra no 3º ciclo) se começa a escolher opções, o que nos permite aplicar em áreas do nosso interesse pessoal. Mas — e este é um grande mas — será que o aumento de dificuldade a que tanto eu como o meu colega nos referimos é suposto ser sentido com tal intensidade? É que se levarmos em conta que o nosso cérebro ao longo dos anos também se vai desenvolvendo e solidificando capacidades inatas e adquiridas de raciocínio e aquisição de conhecimentos, não deveria o aumento de dificuldade previsto a cada ano lectivo ser imperceptível, por se anular com este efeito? Ou seja: porque é que se sente com tanta clareza a cada vez maior dificuldade do estudo?

Um dos factores importantes a considerar é o facto de na tenra infância dispormos de um cérebro altamente maleável, que absorve conhecimento do mundo exterior como uma esponja. Apesar das fantásticas capacidades da nossa massa encefálica, não poderíamos por razões práticas continuar com o mesmo ritmo de aquisição de conhecimento pela vida afora. Isso se traduz numa maior dificuldade no aprendizado à medida que envelhecemos (o famoso caso do burro velho [que] não aprende línguas).

Outro factor a levar em consideração é que a tal especialização das áreas de estudo só é possível a partir, aproximadamente, do 10º ano de escolaridade. Ora, isso significa exactamente 10 anos a estudar um programa padrão e não adaptável aos interesses pessoais de cada um, que ainda por cima aumenta de dificuldade de ano para ano. Há, obviamente o argumento da não formação completa da personalidade até certa idade, o que faria com que o início da especialização não pudesse ser feito muito cedo, da mesma forma que se argumenta contra as tatuagens permanetes: podemos nos arrepender depois, e voltar atrás é muito mais trabalhoso.

Mas penso que a principal causa desta crescente dificuldade no aprendizado é na verdade um estudo pouco aprofundado da velocidade de evolução do cérebro humano, traduzindo-se num aumento desproporcional da complexidade das matérias de estudo, que até certo ponto na escala do percurso de ensino são fáceis “demais” (veja-se a facilidade com que se tiram vintes na primária — basta se esforçar minimamente), e depois começam a ganhar dificuldade a um ritmo maior que o da evolução média da inteligência humana. Uma transposição deste sistema para o campo geométrico se traduziria num gráfico com duas linhas inclinadas, mas cada uma com um declive diferente. Daí o título do artigo (e finalmente se desvenda o mistério desta edição). O ideal seria que as rectas tivessem o mesmo declive, ou seja, que fossem paralelas.

A situação real, claro, é mais elaborada. O aumento da complexidade do cérebro humano não é linear — aumenta cada vez mais lentamente, formando uma curva suave. O mesmo acontece provavelmente com o aumento da dificuldade do sistema de ensino, embora eu não disponha de dados que confirmem esta hipótese. De qualquer das formas, esbocei um gráfico que poderá ilustrar o que tento transmitir. Como se pode ver pela imagem, o desenvolvimento das capacidades do cérebro (a linha azul) começam a crescer desde o nascimento, e a partir dos 3 anos, aproximadamente o sistema escolar entra no gráfico (a linha vermelha), de início com um grau de complexidade inferior ao do “estudante”, mas crescendo progressivamente exigindo cada vez mais um esforço intelectual mais intenso.

Esta ilustração obviamente não é uma afirmação factual, mas antes uma interpretação pessoal do percurso académico médio, da forma como vivi o meu e pelo feedback dos meus colegas ao longo desse percurso. Mas penso que o senso comum permitirá que se afirme que a situação é real, e que se exige uma reformulação do sistema académico. Naturalmente, não sugiro um decréscimo na complexidade do ensino em níveis mais avançados — afinal de contas, estamos num mundo competitivo, e ao sair da universidade entra-se na selva do trabalho. Proponho, sim, um maior grau de exigência nos níveis iniciais, de modo a preparar os alunos para os desafios que se seguem adiante.

Mais ainda, proponho que o estudo se torne mais interactivo e personalizado, de forma a que cada aluno possa seguir ao seu próprio ritmo. Na era dos computadores, da internet, da wikipédia, é cada vez mais claro que o auto-didactismo se revela numa alternativa tentadora em relação ao padrão tradicional de aulas compassadas ao ritmo de um programa — somos todos iguais, mas todos diferentes também.

Não pensem que proponho o abandono da escola e a implantação do e-learning à distância exclusivo. Nego-o veementemente, por três razões: a primeira é a mais-valia imprescindível do mestre-professor, que não só serve de guia no caminho de aprendizado, como tem a função de transmitir valores de respeito, civismo, disciplina. A segunda razão, é a importância extrema do espaço físico da escola como catalisador de relações sociais, sem as quais o ser humano não completa a sua formação. Por último, temos que ter em conta a exigência de certos padrões (standards) que são inevitavelmente necessários a todas (ou quase) as profissões — como exemplos flagrantes, a matemática, o português. Portanto, não, não proponho uma anarquia educacional em que cada um aprende por si ao seu ritmo e nas áreas que lhe interessam. Defendo sim, uma fusão, ou melhor, uma evolução, do actual sistema educativo, por forma a abarcar formas mais maleáveis, interactivas e interessantes de aprendizado, resgatando assim o prazer de aprender e a curiosidade natural do ser humano, que infelizmente hoje acabam sendo hibernados, para não dizer mortos, face ao actual sistema educativo/conjuntura cultural.

Aliada essa transformação a um reajuste do acréscimo de dificuldade do percurso académico que torne a passagem dos anos mais natural e suave, é garantido que o êxito se venha a mostrar. E lembrando que uma sociedade instruída é o primeiro passo para a evolução geral da nossa condição, teremos nas mãos uma excelente oportunidade de darmos mais um passo na inexorável marcha do progresso.

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta at 13:07:02 | Permalink | No Comments »