Sunday, January 15, 2006

O Inacreditável

(Publicado no Artiletra nº 75, de Janeiro de 2006)

1. Uma Aventura nos Comboios

Saí de casa à pressa.
Apesar de ter escolhido um horário conveniente (à tarde, para não ter que acordar cedo), acabei me atrasando. Como sempre…
Cheguei à paragem de autocarros dois minutos depois. Enquanto esperava pelo 7 ou 24T (rezando para não ter confundido os números), pensei para com os meus botões, porque é que as minhas viagens são sempre à pressa. Deve ser um carma…ou então inconscientemente faço por isso…
Apareceu o 24T na esquina, o meu coração deu um salto.

E agora, será que devo apanhar este (tinha a sensação que me tinham dito que este era mais lento a chegar no destino), ou espero pelo 7?
Pergunto ao motorista se este para na estação dos comboios, e ele confirma; eu, pensando: “que seja, vou apanhar este, e se o 7 demorar?”
Paguei o título e sentei-me com dificuldade devido à mochila que carregava. O autocarro começou a andar, e eu olhei para o relógio: 3h35… tinha que estar na estação às 3h50… “Ah, 15 minutos, dá tempo”, pensei eu, mais para me acalmar que outra coisa.
3h40 - o autocarro ainda não chegou à Praça da República… será que dá? começo a ficar preocupado…
3h42 - ah, finalmente, a paragem da Praça da República… já estamos perto… faltam 8 minutos…
3h45 - Oh, não, já só faltam 5 minutos e ainda não reconheço as proximidades da estação…
3h46 - Começo a convencer-me que não apanho o comboio. Então, não é o fim do mundo, apanhas o próximo, digo para mim mesmo. Ah, pois, e espero uma ou duas horas a mais, não?, respondo.
3h48 - Oh! Lá está a estação! será que afinal vai dar?
3h49 - então, vá lá, a paragem é logo ali à frente, estou a perder tempo…
3h50 - chegámos!! desço logo e ando em passos largos para a entrada da estação. a hora já deu, será que o comboio está aí ainda?
Entro na estação e vou directamente para as linhas… o bilhete compro-o ao revisor. Atravesso a porta…
(…)
Lentamente, as carruagens se vão afastando da linha… fico parado a ver o comboio a ir embora, acelerando progressivamente, os faróis apagados a fitar-me, como que a reprimir-me pelo meu atraso.
Enfim. Compro o bilhete para o próximo comboio que só sai daí a uma hora, e sento-me a ler o Codex 632. Uma hora depois, apanho o comboio para o Porto. Mais tarde, chego no porto e vou ver os horários… a perda do outro comboio desregulara-me os planos, tinha que ver agora qual é que apanhava para ir para Viana. Hum, meia hora mais tarde…tudo bem, não me custa a espera, até porque tenho a companhia do livro… mas pesa-me no bolso o dinheiro extra que gastei por não estar a seguir no percurso que meticulosamente calculara como sendo o mais económico… na vida de estudante, cada cêntimo é poupado, heheh. Pronto, leio mais um bocado do livro enquanto espero pela hora. vou olhando para o relógio constantemente para não correr riscos… hum, já estou quase no fim do livro, cheguei ao último capítulo, e ainda faltam 8 minutos… há, acho que vou conseguir terminar ainda aqui na estação… leio umas páginas, 5 minutos… leio mais outras tantas, agora já sinto nos dedos o fim do livro a aproximar-se, a menos de dez páginas de distância… 3 minutos… uma página… já está! fecho o livro, olho para o relógio: está em cima da hora! levanto os olhos para a linha à minha frente. HÃ?!? onde está o comboio? estava aqui ainda agora!! Sigo com os olhos a linha, mesmo a tempo de presenciar um tenebroso dejá-vu: o possante aparelho avançando pachorrentamente pela linha, o letreiro luminoso piscando: “Valença”, a sua última paragem, antes da qual ficava a de Viana do Castelo…

Roo-me de remorsos e de culpa, e agora começo a ficar verdadeiramente preocupado… e se não houver mais comboios hoje para Viana? já estava a ficar tarde, e começo a andar para a linha 11, de onde costumam sair os comboios para Viana (da Regional, meu espertalhão!, digo para mim mesmo, este era da Inter-cidades…daah); olho antes para o ecrã das partidas e não vejo nada, e a esperança que alimentei esvaiu-se juntamente com a determinação dos meus passos… mas continuei a avançar n direcção da linha 11, quem sabe encontro alguma coisa, tenho alguma sorte… já não tenho nada a perder! Além disso vem lá à frente um daqueles gajos da CP, a conversar com outro senhor, ou perguntar-lhes.
Aproximo-me deles e digo que perdi o comboio para Viana, se havia mais algum. O seu ar de dúvida desanimou-me, mas fiz por manter-me sereno e impassível. Eu já estava a pensar, apreensivo, como é que ia encontrar alguém conhecido no Porto, se ia dormir na estação, quando para minha surpresa eles, esquecendo a animada conversa que vinham tendo, me dizem para os acompanhar à bilheteira para procurarmos nos horários por mais comboios. Espantado pela solicitude, segui-os em silêncio, enquanto eles iam discutindo os caminhos possíveis, caso houvesse comboios ainda. Procuraram ambos nos vários (e confusos) horários, e para minha surpresa encontraram ainda uma combinação: eu podia, segundo eles, apanhar o comboio que saia daí a meia hora para Braga, descer antes, em Nine, e daí ir para Viana num outro comboio que sairia mais tarde daí.
Extremamente grato, comecei a fazer contas de quanto dinheiro iria precisar, e preparei-me para agradecer efusivamente, quando o segundo senhor me conduziu à bilheteira e explicou ao bilheteiro a situação, tendo este verificado e respondido que inclusivamente eu poderia usar o mesmo bilhete que já tinha, com destino a Viana.
Mal consegui acreditar na minha sorte… agradeci vigorosamente ao senhor que me ajudara (o outro já tinha ido embora), após ter escutado as suas recomendações com atenção, e dirigi-me à linha para esperar o comboio para braga que saia daí a 20 minutos. A partir daí vim sem problemas, apenas tendo que esperar uma hora e meia em Nine pelo comboio para Viana.
E no caminho vim pensando se aquele homem fazia noção do quanto a sua ajuda significou para mim… nem foi o facto de não ter que passar a noite em local incerto no Porto, mas principalmente pela sua prestabilidade e disponibilidade, só me tendo abandonado quando teve a certeza que o meu problema estava resolvido… a sua atitude impressionou-me, pois geralmente não estamos à espera que as pessoas se empenhem tanto a ajudar um desconhecido… Nunca me esquecerei desse homem e de como me ajudou, tal como nunca me esquecerei de chegar a horas nas estações de comboios!

2. As Valkírias
Este interessante livro de Paulo Coelho (PC, doravante) foca a sua narrativa na temática dos anjos, seres que vigiam e cuidam de cada um de nós, um conceito semelhante ao que ele desenvolvera n’O Diário de um Mago no tocante a mensageiros, mas de uma forma mais nobre, pois estes últimos são (segundo PC) apenas espíritos que se encontram ligados às nossas almas, podendo ser invocados para exercer influências boas ou más - enquanto os anjos d’As Valkírias são seres superiores cuja missão é proteger e guiar-nos nas nossas vidas.
Ora, uma ideia interessante que PC transmitiu no seu livro é que os nossos anjos actuam nas nossas vidas através de outras pessoas… Tal como aconteceu comigo, no episódio dos comboios, a ideia é que as pessoas (conhecidas ou desconhecidas) que nos ajudam em ocasiões difíceis das nossas vidas (muitas vezes sem se dar conta do quanto nos ajudaram), são manifestações do nosso anjo (da guarda?), que sendo etéreo não pode manipular o mundo físico.

Outro texto interessante que fala desse conceito está uma das apresentações de slides que circulam na Internet por email, da autoria de Ria Ellwanger (riaellw@globo.com) que diz o seguinte:

Pessoas entram na sua vida por uma razão, por uma estação ou por uma vida inteira.

Quando perceber qual motivo é, você vai saber o que fazer com cada pessoa.



Quando alguém está na sua vida por uma razão

… É, geralmente, para suprir uma necessidade que você demonstrou.

Elas vêm para auxiliar numa dificuldade, fornecer apoio e orientação, ajudar física, emocional ou espiritualmente.

Elas poderão parecer dádiva de Deus, e são!!!

Elas estão lá pela razão que você precisa que estejam lá.

Então, sem nenhuma atitude errada da sua parte ou numa hora inconveniente, esta pessoa vai dizer ou fazer alguma coisa para levar essa relação a um fim.

Às vezes, essas pessoas morrem.

Às vezes, elas simplesmente se vão.

Às vezes, elas agem e te forçam a tomar uma posição.

O que devemos entender é que as nossas necessidades foram atendidas, nossos desejos preenchidos e os trabalhos delas feitos.

As suas orações foram atendidas.

E agora, é tempo de ir.



Quando pessoas entram nas nossas vidas por uma estação

… É porque chegou a sua vez de dividir, crescer e aprender.

Elas trazem para você a experiência da paz, ou fazem você rir.

Elas poderão ensinar algo que você nunca fez.

Elas, geralmente, dão uma quantidade enorme de prazer.

Acredite!!!

É real!!!

Mas, somente por uma estação.



Relacionamentos de uma vida inteira

… Ensinam lições para a vida inteira. Coisas que você deve construir para ter uma formação emocional sólida.

A sua tarefa é aceitar a lição, amar a pessoa e colocar o que você aprendeu em uso, em todos os outros relacionamentos e áreas da sua vida.

3. Questões:
1. Muitas coincidências misteriosas, chamadas sorte, ou destino, são por vezes apontados como prova da existência de um desígnio para acontecimentos que se dizem ser aleatórios. Ora, há quem discorde da teoria das coincidências, dizendo que a sua ocorrência não é mais frequente que a não ocorrência - de facto, o contrário, em larga escala, é verdade.
Sobre o assunto, Richard Dawkins afirma que as coincidências são produto da nossa mente, exemplificando: pensamos numa pessoa pela primeira vez em muitos anos, e logo a seguir o telefone toca, e NÃO é essa pessoa. Nesse caso esqueceríamos o facto rapidamente; enquanto que se fosse essa pessoa, o evento ficaria guardado na nossa memória por bastante tempo. Ou seja, a probabilidade de ser essa pessoa era a mesma de ser qualquer outra pessoa. Acontece muitas vezes o telefone tocar depois de pensarmos em alguém. Mas nunca memorizamos esses eventos, preferindo memorizar quando o evento tem algum significado para nós. O que não significa que tenha sido um milagre ou coincidência, mas apenas a expressão natural de uma probabilidade. Ao atirar dois dados, seria estranho se nunca saíssem dois 6, pois a probabilidade é a mesma que qualquer outra cominação (1/36). Mas quando sai, consideramos o evento mais afortunado que as restantes combinações, apesar de ser perfeitamente previsível que mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer. Isso mostra que a nossa memória é selectiva, e ao não guardarmos os eventos triviais juntamente com os que consideramos excepcionais, estamos a criar uma proporção irealista, pelo que estaremos tentados a buscar causas sobrenaturais para tantas coincidências, quando a proporção real é bem menor.
Será, então, que imaginar entidades conscientes e benignas por trás de acontecimentos excepcionais do nosso dia a dia é, tal como faziam os nossos antepassados, a busca de explicações sobrenaturais para eventos que não compreendemos? Repare-se que a própria palavra sobrenatural não faz sentido, pois se a natureza comporta tudo o que existe, todo o universo, (Obs.: confronte-se os conceitos Natureza vs Biosfera), como poderá haver algo “sobre-natural”? Fora da natureza? Que significado isso pode ter? Tal como defendeu Richard Feynman, o sobrenatural não existe, o que existem são partes da natureza que ainda não compreendemos. Será tal crença então um comportamento fantasioso sobre algo que realmente os homens são capazes? Será que negamo-nos a acreditar que o ser humano tenha na sua natureza o altruísmo e a sensibilidade (ainda que inconsciente) para detectar a nossa necessidade de ajuda e a prática desinteressada de acções altruístas?

2. Mas, por outro lado, se realmente existirem tais seres superiores, qualquer que seja a sua natureza (há quem defenda que espécies super-avançadas, após ter atingido o equilíbrio e o desenvolvimento social e científico máximos, se dedicam a ajudar outras espécies menos avançadas no caminho da evolução – Note-se que, como disse Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. neste caso, de entidades sobrenaturais), se existirem tais seres, dizia eu, o cepticismo a respeito da sua existência pode traduzir-se em ser mal-agradecido para com esses seres, atribuindo a acções conscientes e bem-intencionadas uma causa aleatória. Caso este cenário se verificar, tal atitude pode-se traduzir em menos intervenções positivas, ou pior, em intervenções negativas, porém, defendo, só no caso de esses tais seres não serem suficientemente avançados para não compreenderem as nossas limitações, e ainda para possuírem comportamentos vingativos (É por isso que acho um pouco duvidoso o Deus da Bíblia, que mostra facetas demasiado humanas para um ser infinitamente bom e justo, nomeadamente a raiva e a vingança… ou os autores, inspirados por Deus, da Bíblia, ouviram mal as Suas palavras, ou então o Deus - se é que há um, se é que há um só - verdadeiro não é esse. apenas uma opinião…).

4. Uma Decisão Difícil
Decidir-se por uma abordagem ao tema (céptica ou crente) é difícil visto haverem tantos e tão fortes argumentos a favor e contra. Atrevo-me a dizer que, a não ser que haja um milagre (aparição), não se pode ter certeza de nenhum dos pontos de vista acima apresentados.
No entanto, é preciso tomar-se uma decisão. Tem-se que tomar uma posição, tal como se faz nos outros aspectos da vida em que temos que decidir sem ter certezas – quase tudo, na verdade. Vejam-se alguns exemplos:

  • Matrix – O tema central da trilogia é o conceito de que o mundo não passa de uma simulação informática de dados introduzidos directamente nos nossos cérebros para simular as sensações físicas (visão, audição, tacto, etc.). A verdade é que se se estimular electricamente o cérebro da mesma forma que os órgãos sensoriais o fazem, é impossível distinguir a virtualidade dessa sensação… ou seja, podemos realmente estar inseridos numa Matrix, e se o sistema não falhar, nunca saberemos.
  • Esquizofrenia – Doenças mentais em que se criam realidades alternativas não permitem ao doente perceber que essas realidades são criadas pela própria mente. Nesse caso, o estímulo do cérebro para simular sensações não provém de uma entidade externa, como no exemplo acima, mas sim do próprio cérebro. Seria assustador pensar que tudo o que existe, as pessoas que conhecemos, a vida que temos, os objectos com que interagimos, e o nosso próprio corpo, podem ser produto da nossa imaginação… qualquer um de nós pode ser um doente internado num manicómio, imaginando toda uma vida, mas completamente fechada na nossa mente.
  • Sonhos – Exemplos menos fantasiosos (?) mas perfeitamente adequados ao tema são os estágios de actividade “não consciente” do cérebro, como o sonho, a hipnose ou o coma. Tal como nos exemplos anteriores, o cérebro é induzido a processar realidades que no fundo não existem, ou por serem produto da imaginação ou por se tratarem de memórias… quantas vezes já não pensámos que um sonho era real, de tão intenso? Quantas vezes acontecimentos extraordinários na nossa vida nos levaram a belicar-nos para nos certificarmos que não estamos a sonhar? O facto é que a nossa vida também pode ser toda um sonho…

Mas apesar destas terríveis possibilidades, não deixamos de viver a nossa vida só porque não podemos ter certeza de que ela é real… assumimos a solução que mais nos convém, e é isso que deverá ser feito a respeito dessa temática dos anjos: devemos analisar os prós e os contras, e assumir o lado que mais nos identificamos, ou que achamos mais conveniente.

5. A Resposta
Quanto à resposta definitiva, provavelmente, como em qualquer Grande Questão que se preze, nunca viremos a saber ao certo…
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Tuesday, December 20, 2005

The Gift

(Publicado no Artiletra nº 74, de Dezembro de 2005)

Nesta época festiva em que nos encontramos, imagino que este título tenha remetido a dedução do leitor para um tema do presente artigo relacionado com presentes, e o Natal… mas não. Pelo menos não directamente. Na verdade, até é, em parte, um apelo à generosidade e fraternidade entre os homens, o que acaba por não estar tão longe do discurso característico da época. Mas paremos de enrolação, como dizem os brasileiros.

Este artigo trata de um tema bastante interessante: a Economia de Doação (do inglês gift economy – daí o título). Esse nome pode não soar familiar ao leitor comum, mas alguns exemplos mostrarão que convivemos com estruturas similares a toda a hora, no nosso quotidiano.

A informação é um bem particularmente bem adaptado para economias de oferta. Por um lado, a informação pode ser transmitida e copiada a praticamente custo zero; por outro, a informação tem uma característica excepcional, como refere um ditado chinês: “Se dois homens vêm por uma estrada carregando um pão cada um, e ao se encontrarem trocaremos pães, cada um fica com um pão; mas se em vez de pães eles estiverem carregando ideias, e as trocarem ao se encontrarem, ambos ficam com duas ideias”. Ou seja quando se dá informação, não se perde o todo nem parte da informação que se tem (embora se possam perder certos benefícios que poderiam ser ganhos na economia de mercado a partir dos direitos de propriedade intelectual).

Mas outros bens e serviços podem e são usados frequentemente em economias de doação. Vejam-se alguns exemplos:

  • Internet – A Internet é provavelmente o exemplo mais bem sucedido de uma economia de oferta aplicada à informação. A grande maioria dos milhões de páginas existentes está disponível para consulta gratuita, sem que os autores recebam qualquer pagamento derivado dessa consulta. A Wikipedia é um óptimo exemplo desse conceito: a enciclopédia on-line é gratuita e foi construída inteiramente por contribuições de milhares de voluntários, estando disponível a sua edição a qualquer internauta que queira contribuir com informação que ainda não exista na mesma.
  • Doação de órgãos – a doação de órgãos e de sangue é activamente encorajada; no entanto, a venda de órgãos é considerada quase universalmente um crime grave. A maior parte dos sistemas de doação de órgãos não dão nenhum tipo de compensação ao dador ou à sua família; O sistema de bancos de sangue prevalente em vários países não dá nenhuma recompensa significante por doações de sangue. Pagamentos nesta área são frequentemente considerados suspeitos, se não até criminosos.
  • Famílias – Economias de oferta em pequena escala existem também na maior parte das famílias, com ofertas de tempo, dinheiro, alimento, protecção, e conhecimento empírico sendo dados sem qualquer negociação prévia de retribuição. Na grande maioria das sociedades, os pais sustentam os filhos pelo menos durante a infância (e, nalgumas sociedades, até após a adolescência e a maioridade) sem o estabelecimento explícito de uma obrigação de retorno, mas sim um dever implícito de fazer o mesmo à geração seguinte.

Alguns autores têm sugerido que modalidades de economias de oferta possam ser a chave para quebrar o ciclo da pobreza. O círculo vicioso, expresso no sucesso já fora de moda “Xi Bom Bom Bom”, do grupo brasileiro As Meninas: “(…)o rico fica cada vez mais rico, e o pobre fica cada vez mais pobre”, “(…)o de cima sobe e o de baixo desce”, segue um padrão que se reconhece em várias áreas da sociedade: veja-se o problema do desemprego: um desempregado não consegue arranjar emprego, porque lhe é exigida experiência profissional que só é conseguida se conseguir arranjar emprego, o que não consegue porque não tem experiência…e o ciclo repete-se.

Na questão da pobreza (na qual o desemprego também faz parte), outro aspecto frequentemente referido é a educação: crianças pobres são muitas vezes obrigadas a trabalhar para ajudar em casa ou na rua para ganhar dinheiro, ficando sem meios para obter uma educação decente, mesmo que esta seja gratuita; sem educação, os seus horizontes ficam limitados e não têm nem meios materiais nem os conceitos que lhes permitiriam furar o ciclo da pobreza por si sós, como defendem os advogados do capitalismo, que muitas vezes responsabilizam os pobres pela sua pobreza. Sem falar na inércia cultural criada por sucessivas tentativas falhadas de mudar de vida. Já outros defendem que o estado deve tomar a iniciativa para quebrar o fosso entre ricos e pobres e equilibrar a sociedade.

Esta posição — e a reformulação de toda a sociedade para uma economia de oferta — é particularmente característica do Anarco-Comunismo. Os Anarco-comunistas defendem uma economia de oferta pura como ideal, sem dinheiro, nem mercados, nem planeamento central da economia. Tal reformulação seria indubitavelmente uma tarefa gigantesca, pois as bases das sociedades actuais são massivamente:

  • A competição por recursos escassos (a escassez é, de facto, a característica principal das economias de mercado), como dinheiro, lazer, parceiros sexuais, e por aí adiante. Competição, mais que consenso, é característica intrínseca das sociedades contemporâneas.
  • A desigualdade social; as sociedades actuais estão fortemente baseadas em diferentes castas (não vale a pena usar eufemismos), com diferenças de poder e rendimento. A maioria mais favorecida detém o controle de toda a sociedade e impede, conscientemente ou não, que a desigualdade se dissipe.

Ainda assim, a História da civilização nos ensina que as mudanças mais imprevisíveis são possíveis, quer por uma evolução lenta, quer por revoluções. Uma coisa é certa: economias de doação são inatas na espécie humana (como verificámos pelo exemplo da família), e quem sabe, com Natais e outras épocas favorecendo a troca de presentes e a união entre as pessoas, um dia possamos nos ver livres da desigualdade social e possamos beneficiar de uma organização social que, em vez de despertar a nossa face mais negra, egoísta e animalesca, nos ajude, pelo contrário, a desenvolver os nossos instintos mais nobres, abrindo um caminho radioso para a evolução da nossa espécie…

Feliz 2006!

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Saturday, December 10, 2005

Afinal Sempre Eles Tinham Razão?!

(Publicado no Artiletra nº 73, de Dezembro de 2005)

Numa das minhas incursões no mar da minha network do hi5 (amigos dos meus amigos), encontrei uma foto que me chamou a atenção pela sua peculiaridade e decidi abrir o perfil para verificar (Não é o mesmo marketing que se faz com as capas dos livros - que levam o leitor a abri-los, sendo que fica a cargo do conteúdo manter o interesse despertado pela capa? a analogia aplica-se às fotos/perfis no hi5…)

Ora a Natasha (nome fictício) revelou-se realmente uma pessoa bastante interessante; nasceu na Rússia (como eu!), cresceu em Tel Avive, Israel (the best place in the world, segundo ela) e vive em Paris.
Esteve no verão passado em Cabo Verde, durante um mês, em São Vicente, a convite de um amigo que foi colega da escola dela em França.

Após umas duas mensagens trocadas no hi5 começámos a falar no msn. Falámos de livros, de nós, de gostos e desgostos… de livros… e de pessoas. Eu comentei com ela que tinha gostado das citações que ela escolheu para pôr no seu perfil (tanto que as bloguei no meu space), mas que me atraíra especialmente a terceira:

“Most people are other people. Their thoughts are someone else’s opinions, their lives a mimicry, their passions a quotation.”

(A maior parte das pessoas são os outros. Os seus pensamentos são a opinião de alguém, as suas vidas uma mímica, as suas paixões uma citação) – sim, soa muito melhor em inglês mas que se há de fazer? Escrever um artigo em crioulo vá que não vá, mas em inglês, já seria ir um pouco longe demais… hehehe.

Algum tempo depois, após algum debate sobre o mal natural dos humanos e outras divagações afins, ela surpreendeu-me dizendo (em inglês, que ela só sabe dizer “manera man” em crioulo): “és o perfeito oposto da imagem que tenho dos cabo-verdianos”. E eu, completamente espantado pela brusquidão da afirmação (mas já desconfiando da triste origem), perguntei-lhe porquê. Ela disse que durante o quase mês que ela passou em São Vicente, tudo o que o pessoal fazia era “to surf, get super drunk, and have sex…imagine doing that for a month…”

E continuou: “então, entendes a minha surpresa: tu efectivamente tens um cérebro, e pensas! (sem ofensa)”. Bem, chegado a este ponto já eu estava profundamente desiludido com essa imagem que os jovens cabo-verdianos transmitem, e após deixar claro que essa constatação não me ofendia pessoalmente de qualquer modo, avançámos neste tópico da futilidade da nossa sociedade mas principalmente dos jovens.

Nós crescemos ouvindo os mais velhos dizer que “antigamente não era assim”, “os jovens de hoje já não têm moral”, e coisas do tipo. A certa altura da nossa vida começamos também a ouvir que isso acontece em todas as gerações, que os mais velhos sempre falam mal dos jovens mas que na sua juventude também foram igualmente criticados pela geração anterior. Essa percepção das coisas acaba por nos anestesiar em relação ao problema, fazendo com que tiremos o peso da consciência, dizendo para os nossos botões: “sempre foi assim… é o modo como as coisas sempre foram e sempre serão… a nossa geração não é pior que a anterior.”

Mas ouvindo as palavras da Natasha, eu me apercebi que a situação está mais grave do que pensava. A ponto de num mês em Cabo Verde, ela só ter convivido com pessoal que vive nessa rotina de futilidade, sem encontrar ninguém que tenha conseguido escapar às teias dessa inércia social… é preocupante. Eu não imaginava que fossem tão raras essas pessoas.

Esta situação denota-se actualmente, defendi-me eu, em quase toda a parte do globo. Não é só em Cabo Verde que os jovens (e toda a sociedade, para ser exacto) vive nessa letargia do carpe diem exagerado… Mas foi uma defesa inútil, dei-me logo conta: afinal o facto de os outros errarem não nos torna a nós menos pecadores… há quem pense assim, como o Filipe, o amigo da Mafalda de Quino: “Se todos são tão maus como nós, então está bem… ao menos não somos piores que ninguém.”

Raciocínios tais só nos desviam do verdadeiro problema. Na verdade acredito que a sociedade actual se deteriora progressivamente no que toca à individualidade e diversidade dos seus elementos. Cada vez mais se denota uma globalização comportamental, que hoje mais que nunca torna as pessoas em robots que repetem dia-a-dia as rotinas aprovadas pelos outros. O estado da juventude só reflecte esse mal maior da sociedade.

A criatividade comportamental é completamente desencorajada. A importância do conhecimento, cultura geral e desenvolvimento moral das pessoas se desvaloriza inexoravelmente. Um retrato pessimista? Nem por isso. É preciso encarar a realidade para tomar consciência, pôr o dedo na ferida e mudar o que é preciso. Veja-se:
• As crianças já não lêem livros de aventuras, já não criam os seus brinquedos. Subdesenvolvem-se mentalmente ao adquirir sonhos e imaginários produzidos em massa: os cartoons da TV, os brinquedos… as barbies já vêm com a casa completa…os legos já não são um puzzle 3D que se adapta à criação de cada um, vêm com peças específicas para montar um determinado cenário… a própria oficina artesanal do Pai Natal se tornou numa fábrica automatizada nas publicidades…
• Na escola não se valorizam os professores que realmente ensinam os alunos. A mentalidade do “passar de ano” infesta todos os níveis do ensino e faz com que o aprendizado seja substituído por uma memorização temporária dos conteúdos curriculares. Esses próprios são enfadonhos e não se tenta traduzi-los de forma a estimular a curiosidade natural dos alunos;
• Os filmes, novelas, séries, transmitem um perfil do adolescente, jovem e adulto cool, que fuma e bebe, tem muito sexo, e despreza qualquer vestígio de reflexão. Quando muito, alguma citação para dar show entre os amigos. As personagens que demonstram algum uso das suas capacidades intelectuais são ridicularizadas como nerds, CDF’s, marrões, professores malucos, alienados da realidade, de preferência com uns óculos redondos enormes e grossos (o cliché tem vindo a ser evitado ultimamente na procura de alguma originalidade, mas a personalidade de fundo mantém-se). Há excepções, claro…mas podia-se escrever um artigo inteiro sobre isto.

O que acontece é que com toda essa pressão social de ser cool, as pessoas não têm coragem de mostrar as suas facetas diferentes, o que as distingue dos outros. Não há falta de individualidade na nossa sociedade. O que faz falta é a coragem que quebrar padrões e ser o que se é, e não o que as pessoas querem que sejamos. Bem, visto, nem 8 nem 80, há que ser sociável e não isolarmo-nos da sociedade por conta das nossas diferenças. Mas que seria do arco-íris se as cores não fossem diferentes?

É por isso que certas pessoas se tornam populares. É que elas fazem o que todos gostaríamos de ter coragem: ser diferentes. É esse tipo de pessoas que lança modas, porque todos as imitam. Imitar é bom, pois é assim que se aprende. O problema é quando em vez de imitar a causa, se imita o efeito… em vez de se mostrarem a si próprias, as pessoas acabam por adquirir os gostos, hábitos, maneirismos, fala, vestimenta, etc., de quem pretendem imitar (ainda que inconscientemente, na maior parte das vezes…).

Mas então os mais velhos sempre têm razão quando dizem que a juventude está cada vez pior? Penso que não se trata da juventude, mas de toda a sociedade. Com os meios que dispomos hoje, poderíamos ser uma civilização esplendorosa… um mar fervilhante e colorido de artistas, pensadores, escritores, professores, estudantes, filósofos. De seres humanos em pleno. É isso mesmo: o que precisamos é de uma nova Renascença. Antes que regressemos a uma obscuridade mental de uma idade média, em versão huxleyana…
Pessimismo? Distopia?

Espero bem que sim.

Posted by Waldir Pimenta at 13:16:57 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, November 15, 2005

A Legalização

(Publicado no Artiletra nº 72, de Novembro de 2005)

Saudações, caríssimo leitor! Volto a encontrar-me contigo desta feita para retomarmos um assunto que prometi dar continuidade. Se tens seguido regularmente as nossas conversas deverás porventura lembrar que num artigo intitulado “O Grande Problema das Associações de Estudantes“, referi algumas das dificuldades que assolam os activistas do associativismo juvenil/estudantil, prometendo mais tarde debruçar-me sobre o assunto em mais pormenor.
E aqui estou eu a cumprir a promessa! E a análise mais detalhada decairá sobre uma das partes fulcrais da criação/funcionamento de associações: a aquisição de personalidade jurídica – vulgo legalização.

I
Fazendo uma pequena introdução ao tema, devo referir antes de mais nada que me encontro desde o ano lectivo passado a estudar em Viana do Castelo, Portugal, e que a Associação de Estudantes Cabo-Verdianos local se constituiu precisamente no ano passado pelo que possuo alguns dados referentes a esse processo de legalização em Portugal que seria interessante comparar com o homólogo cabo-verdiano.

Ora, tenho em minha posse um documento que é distribuído pelo IPJ (Instituto Português da Juventude) a todos os que aí vão solicitar orientação na criação de uma associação juvenil, para tal dirigindo-se ao gabinete criado expressamente para o efeito.
Tal documento além de explicar claramente todos os passos necessários para se criar uma associação com personalidade jurídica (portanto, existência legal), fornece modelos para os estatutos e as actas, de forma a que o burocrático processo se torne simples e fácil.

Por outro lado, o IPJ oferece meios que facilitam esse processo, evitando passos que muitas vezes são os responsáveis pelo abandono a meio dessa legalização. Falo, obviamente, dos passos que requerem mais tempo e dinheiro: a Escritura Pública de Constituição e Publicação/Registos Definitivos.
Usualmente caros e demorados, o IPJ entra como mediador através do Ministério Público facilitando esses dois passos que ficam assim resumidos à entrega na delegação do IPJ mais próxima dos documentos da associação (estatutos aprovados, acta, etc), evitando a marcação de uma escritura em cartório notarial (que seria paga pela associação) e a publicação do extracto dos estatutos no Diário da República (homólogo do Boletim Oficial), também a expensas da associação.

Assim, o IPJ, através da Lei 6/2002 de 23 de Janeiro edo RNAJ (Registo Nacional de Associações Juvenis, subdivisão do RNPC, Registo Nacional de Pessoas Colectivas) torna esses passos totalmente gratuitos e automáticos, fazendo com que o processo de legalização se encurte tanto em tempo como em etapas. Após a aquisição de personalidade jurídica, a angariação de apoios torna-se consideravelmente mais frutuosa, sendo que o próprio IPJ disponibiliza apoios nesse sentido para as associações que por seu meio tenham sido criadas no âmbito do RNAJ.

II
Voltando à nossa (triste) realidade cabo-verdiana, o que é que verificamos? Um total desinteresse na criação de associações juvenis por parte das autoridades; com tanta burocracia poder-se-ia até dizer que existe, mais que uma inércia, um atrito, uma força qualquer que teima em dificultar o já de si difícil, longo e burocrático sistema de legalização das associações. Aliados a uma exasperante falta de informações tanto impressas como dos próprios funcionários públicos da área a respeito, é legítimo afirmar que é extremamente difícil que alguma associação (principalmente de estudantes) consiga levar a bom termo essa jornada.

Como ex-líder estudantil e participante em actividades associativas a nível nacional, posso sem erro afirmar que a grande maioria das associações de estudantes de Cabo Verde não possuem qualquer existência legal, sendo que grande parte destas nem sequer deu início a esse processo de aquisição de personalidade jurídica, quase sempre por falta de informações.

O nível do associativismo estudantil em Cabo Verde é portanto extremamente baixo, e as associações acabam como consequência disto tudo tendo enormes dificuldades na realização das actividades a que se propõem e na defesa dos interesses dos estudantes.

III
Ora bem, que ilações se podem tirar então desta comparação?
Primeiramente, tendo em vista a enorme quantidade de centros de juventude (que, diga-se de passagem, pouco ou nada fazem em prol das reais necessidades dos jovens), CIAJ, CAAJ, etc. etc., verifica-se que existe em potencial um suporte óptimo para um sistema semelhante em Cabo Verde. Trata-se basicamente de criar as bases legais que permitam que as associações possam, por meio desses centros, adquirir a personalidade jurídica que tanta falta faz na (sobre)vivência dessas associações juvenis.

Falando das associações estudantis em particular, seria óptimo que as próprias delegações do Ministério da Educação (e VRH) permitissem que as associações se legalizassem por seu meio. Aliás, provavelmente uma ideia ainda melhor seria que o ministério levasse a cabo uma operação a nível nacional, oficializando de uma assentada as associações de estudantes do país que ainda não estão legalizadas (ou seja, todas – ou quase). Pois que os liceus não florescem a uma velocidade que exija a existência de um sistema permanente de apoio à legalização das respectivas associações, da parte do Ministério e respectivas delegações.

Mas esse sistema é necessário na abrangência da totalidade das associações juvenis; porquanto a cidadania se cria na assumpção de responsabilidades pelos cidadãos, e sendo que “de pequenino é que se torce o pepino”, como diz o outro, seria do maior interesse, não só do Ministério da Juventude mas do próprio Governo, que se facilitasse o processo de surgimento de novas associações juvenis de carácter social, desportivo, recreativo, educativo, etc.

Por último, tratando-se inclusivamente de uma medida que pode ser tomada rapidamente sem custos de maior, seria de desejar que existisse um folheto informativo, contendo todas as informações necessárias aos que desejam criar uma associação juvenil, de forma simples e clara, e que esse folheto estivesse disponível em todos os centros de juventude, em sites da Internet, nas repartições públicas tais como cartórios e registos, etc.

Tratando-se do nosso pachorrento Cabo-Verde em que as coisas mudam a passo de tartaruga, respeitando o tradicional atraso da hora d’kriol, esperemos que o também tradicional hábito de copy-paste de Portugal seja mais forte e abra uma das suas raras excepções em que se copiam as coisas boas, pois de tal iniciativa beneficiaria acima de tudo o nosso povo, vendo aumentada a sua autonomia e capacidade de acção, cidadania e participação na gestão da “coisa pública” – que, como diz o nome devia ser de todos…

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Saturday, October 15, 2005

Um Artig Na Kriol

(Publicado no Artiletra nº 71, de Outubro de 2005)

Amig leitor:
I

Á tem tont temp k no ka fala hem? dess, vez, moda a bo repara, nos konversa ta bem ser em kriol prop… afinal, k’tema de oficialização em voga, um ta otxa k ta vale pena no debruça um gzinha sobr ess assunt, k de rest tem um grand importancia na nos vida. Ninguem ta nega, k kriol oficializod, txeu kosa tava muda…
Nos tud sabe de polemika k ta rodá á volta diss tud; principalment kel etern rivalidad entr badiu e sampadjud… kole dês variante k ta ser oficializod, etc, etc. ê um konfusão enorme, k infelizmente ê provokod principalment pa desinformação e mal-entendidos. Aliás, um kria já d’agora pdi kês pessoal d’Alupek deskulpa pa ka estod ta usa sês alfabet, ma, bzot sabe, as tantas um gaj ta kustma k’ess “kriol de msn” moda um ta txmal, e ta fka dificil muda.

II

Ma ja kam fala na MSN, um ta proveita pa lança na ess tema: sera k kriol pode da tont traboi assim s’el for oficializod? Ultimamente, k’ês kresciment de uz de internet por kabverdians, eskrita de kriol txa de pertence a uns raskunh informal e a literatura, e passa ta faze parte de vida kotidian de um bom numr d’pessoas. Apesar diss, ka tem tid nenhum problema de komunikação na internet; inclusive ta izisti ’sites’ eskrit totalment em kriol. badiu, sampadjud, fog, brava, sintantom, tud es misturod… nenhum bairrismo, tud bem harmonizod e sem problemas de kompreensão. (Bom ma tambe ka podia ser d’ot manetra, na um espaço moda internet k’e profundament demokratiko)

III

Sobre ess kestão, Baltazar Lopes djga dze um vez ke um lingua ka ta ser kriod; el ta kria el mes. Opiniao de um dakês maior estudiôz de kriol, moda tud gent sabe. Linguas ê kosas k ta estod em permanent evolução. Eventualmente, k kada vez melhors meis de transport e telekomunikação, e más kontakt entr ês ilhas, kriol ta bem unifika na um unik “variante”. Ma iss ka kre dzê k gent tem ke bem espera ate el atingi ess pont pa oficializal, rekonhecendo finalmente k’el ê um lingua legitima. Ma tambe, n’ê pa bem tenta defini um versão artificial, forçod, baseod na um dakês variante, ô (pior) ta faze um síntese dês tud, e dekretal kriol oficial. Nem tanto a mar nem tanto a terra. nem oit nem oitenta. Ess processo tem ke ser natural, claro; ma, moda Manuel Veiga dzê (e dret, na nha opinião), no ka pode fka de broç marrod ta espera kosas kontce por si so; ao oficializa kriol, gent ti ta estimula se uso, e assim acelera ess processo de unifikação natural.

IV

Falond em estimula uso, um tema ta bem á tona: ensino de kriol. Um dakês area k tem gerod mas polemilka, tambe. ê k realmente, nivel de português de nos estudants e de sociedad em geral e mut box; ainda por cima k’êss influencia de brasiler: mnins ta prende fala brasiler ainda ants de fala português… ess situação e bem conxid, e el ta traze txeu problemas na aprendizagem korrekt d’português. Mi, por um lod, um ta otxa k ensino de kriol ca ta ser assim tão prejudicod por ess deficiencia na portugues. Iss purkê influencia de portugues na kriol e basikament na nivel de vokabulár. Gramátika ê essencialment afrikan. O k não só ê diferent, com ê bastant más simpls. Agora, uke k pode ser mas prejudikod na mei diss tud e precisament português. Mod se gent repara, principal kausa de erros mas komuns ke pessoas ta da na portuguÊs ê kel tendéncia de aportuguesa kriol. Iss ê ainda mas acentuod na mnins k ta ainda em process de aprendizagem, purkê intuitivament es ta tende a generalizá regras lingístik kas sabe pa situações semelhantes - o k ate tem se lógica ma k ka ta kombina k natureza altament irregular de gramatika português…

V

Tem um fenómn mut kurios k ta kontece ma kriol, e txeu gent ja notal. Tem um area ke, mas ke kualker ot, ta uni kês diversas variantês de kriol dum forma harmonios e natural. Um ti ta fala de musika. Desde temp de mornas de Eugenio Tavares, ate kês zouk / kizomba / passada ô lá uke kês txmal, kês variantês de kriol tem estod ta ser ‘mixod’ d’um forma kompletament solt e natural; mi pessoalmente, um ta otxa kê na musika k kriol tem mas terreno pa perkorre na meta de unifikação. Ainda por sima pa um pov musikal moda nos (ka podia nem txa de ser, ja ke nos raizês afrikanas - apesar de tem kem ta kre rekusas - ta manifesta naturalmente), ess influéncia ê inegável

VI

Ma alem de musika, tem ot área k pode kontribui bastante pa ês processo, por kausa de se flexibilidad: moda um tinha dzid mas pra cima, ê internet. Actividad e interactividad k internet ta permiti, podê bem jda txeu na prátika de kriol eskrit. Ainda el ti ta nasce; se influencia ainda ê box; ma sês potencialidades ke ta permiti a kalker pessoa ser jornalista e eskritor (blogs, paginas pessoais, etc), e principalmente k xat moda MSN, um tem certeza ke na proximos ons internet ta tem um palavra importante a da acerka de kriol komo lingua legítim e unifikod.

VII

Portant, leitor, se gent levá em konta ês konsideração tud, ê perfeitament previsivel k musika e internet - um na parte oral, ot na parte eskrit - ta bem desempenha (e ja tem desempenhod) um papel importantíssim na ess process k, ker no estod dum lod ô d’ot, invariavelmente ta interessá e dzê respeit a tud kabverdian.
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Sunday, July 31, 2005

O Quarto Poder

(Publicado no Artiletra nº 69/70, de Julho/Agosto de 2005)

Saudações, caríssimo leitor!

Gostaria de sugerir que continuássemos a nossa jornada, desta vez abordando um tema bastante pertinente: a liberdade de acesso à informação…

Há uns dias atrás, vim-me com esta frase, que achei interessante:

“metade dos problemas do mundo deve-se à falta de informação (pelos que dela precisariam para os resolver), e a outra metade deve-se ao excesso de informação (pelos que dela se servem para os causar)”

Realmente, isso descreve bastante bem o problema da informação: é uma coisa muito importante e está ligada a todos os momentos da nossa vida. nós só somos uma sociedade, porque o nosso cérebro computa tanto dados internos como os que recebe do exterior, como input através dos sentidos.

Diz-se que o verdadeiro poder está na informação: quem controla a informação que chega às massas, controla as massas. É por isso que existe tanta manipulação e censura nos média, como a televisão, a imprensa, a rádio.

O Boom das telecomunicações, trouxe muito à causa da liberdade de acesso à informação. Com a informação a atingir cada vez mais pessoas, o povo se torna mais esclarecido e mais dificilmente se deixa enganar por tiranos. Com pessoas mais bem informadas, melhor poderão se desenvolver na sua vida, fazendo coisas que realmente gostam. Com a facilidade das comunicações, há mais contacto entre as pessoas; as distâncias encurtaram.

Mas a informação continuou a ser bastante controlada pelos mais poderosos; os que detinham menos poder só sabiam o que se queria que soubessem. Houve outro Boom. A Internet. Antes, era praticamente impossível que um mortal comum tornasse um texto público; A edição de um livro, ou a publicação num jornal, televisão ou rádio eram processos morosos e que raramente se cediam a qualquer um. Com a net, toda e qualquer pessoa com acesso à rede ganhou a chance de tornar as suas ideias públicas, sem qualquer esforço, acabando com barreiras sociais, culturais, raciais, geográficas. Houve uma verdadeira democratização da informação.

Mas a informação continua cara. As melhores enciclopédias continuam sendo disponíveis apenas sob pagamento. Felizmente há a regra de ouro da internet: oferecer SEMPRE algo de graça. FREE é a palavra mágica da internet. Mas por outro lado o que se dá de graça raramente é de boa qualidade. Todo o conhecimento humano, tudo o que elementos da nossa espécie já descobriram ao longo da História, devia estar disponível para todos, gratuitamente. Mas não: temos que pagar para obter livros; temos que pagar para ter a televisão; temos que pagar para ter rádio, jornal, internet! No fundo a informação (poder) continua sempre nãs mãos dos que já detêm algum poder social (dinheiro); isso impede que os mais desfavorecidos não tenham a chance de se desenvolver plenamente como seres humanos, desperdiçando a sua vida e o potencial intelecto em trabalhos maquinais, que lhes empurra cada vez mais para uma existência vegetal, apesar de nada deixar transparecer isso.

Mas há excepções! um exemplo é o Google, que gratuitamnente oferece o seu serviço de pesquisa na internet, tendo assumido a missão de organizar o caos da internet, tornando acessível a informação verdadeiramente relevante. Outro exemplo são as aplicações P2P (peer-to-peer), como Kazaa, o Emule, o BitTorrent, entre tantos outros, que são programas que permitem a troca de ficheiros entre utilizadores da rede, tornando possível obter qualquer informação, quer em texto, som, vídeo ou outro formato qualquer. Mas o melhor de todos os exemplos é o Wikipédia (www.wikipedia.org). Um projecto que começou já há alguns anos, consiste numa enciclopédia online completamente gratuita, e que pode ser editada por qualquer pessoa! Esse conceito é muito importante: significa que, qualquer internauta que visite o site pode acrescentar informação que disponha a um determinado artigo que esteja incompleto, sem precisar de se inscrever em nada, e muito menos pagar, podendo inclusivamente iniciar um novo artigo sobre um assunto que ainda não esteja abrangido pela enciclopédia.

Esse exemplo mostra claramente o que devia ser feito com o Conhecimento Humano: o ideal era que houvesse uma base de dados universal, com todo o conhecimento produzido por humanos, disponível gratuitamente para todos, e passível de ser incrementado livremente com novas informações. Uma ideia similar foi desenvolvida por Theodore Nelson, o inventor do hipertexto, e chamou a essa biblioteca universal Xanadu. William Gibsons imaginou algo parecido no seu romance Neuromancer, que descrevia o Ciberespaço, um emaranhado de ligações que conectavam cada simples pedaço de informação, formando uma gigantesca rede que englobava todo o conhecimento…

(preparem-se que agora começam as ideias loucas)

Se a telepatia fosse uma realidade (e quem garante que não seja?), quem sabe seria possível criar uma consciência comum a toda a humanidade, uma espécie de internet mental, à qual todos os humanos (ou atá abrangendo todos os seres pensantes, se considerarmos que os pensamentos têm a mesma essência para todos os seres - digamos que se os pensamentos se transmitem por ondas, então se pode fazer uma analogia com o electromagnetismo e abranger todos os seres cujas “ondas mentais” se encontrem na mesma faixa do espectro, ou seja, tenham a mesma frequencia que as ondas mentais humanas - isto é pura especulação), como eu ia dizendo, à qual todos os humanos teriam acesso. Tal coisa foi descrita no conto A Última Pergunta, de Isaac Asimov, no qual num futuro longínquo toda a humanidade estaria conectada com uma única consciência comum, tendo-se libertado até dos corpos físicos dos elementos da espécie.

Veja-se que existindo tal coisa, finalmente se explicaria a injustiça da morte (melhor dizendo, a morte deixaria de ser injusta), pois todo o conhecimento e sabedoria que uma pessoa acumulou durante toda a sua vida não ficaria perdido, sendo absorvido pela consciência global. Assim justificaria-se também a existência da matéria: se a alma fosse independente do corpo, e ela sobrevivesse à morte física, então para quê existir o corpo físico? qual a sua finalidade? nesta visão, a alma não seria realmente independente do corpo; tal como o software dos computadores não se executa sozinho, no ar - é o resultado da passagem da corrente eléctrica pelos milhões de circuitos e interruptores dos chips (hardware), também a alma, a consciência, a memória seria o resultado das interacções entre os neurónios do cérebro. Assim, tal como computadores em rede que em conjunto parecem formar uma única entidade (como é óptimo exemplo a internet), também seria o mesmo connosco (obviamente de um modo muito mais elaborado e complexo).

Assim, cada ser pensante seria individual enquanto existisse o seu corpo físico, sendo absorvido em comunhão com o conjunto aquando da sua morte física; o seu “software” ficaria armazenado distribuidamente em outros “computadores” da rede. Toda essa estrutura seria continuamente reciclada com a morte de algumas almas e o nascimento de outras cada uma com o seu potencial derivado da unicidade dos seus “circuitos” físicos. Com algo do tipo, a evolução mental da espécie se daria de modo muito mais contínuo, homogéneo, e, principalmente, rápido. Com essa comunhão com o todo, os instintos egocentristas (que falei alguns artigos atrás) deixariam de fazer efeito, pois cada ser teria o seu ego pessoal, e o ego comum - sentir-se-ia realmente parte da sociedade, e poderia realmente amar o próximo como a si mesmo…

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Wednesday, June 15, 2005

O Poder da Educação

(Publicado no Artiletra nº 68, de Junho de 2005)

Caros leitores, cá estou eu de volta a sugerir uma pequena viagem reflexiva acerca de um tema que, como já devem ter reparado, muito me atrai, que é o ensino.

Ora, muitos de vós hão de se recordar ter ouvido algures que a educação é a melhor arma para mudar o mundo. Ou coisa parecida. Bem, isso é provavelmente verdade. Conturdo, isso é em teoria; na prática a história é outra…

E porquê isso não é verdade? porque é que o mundo não anda melhor nos dias de hoje, com o analfabetismo a diminuir a cada dia?
A resposta a essas perguntas reside sob uma fina camada de reflexão que seguiremos neste texto.

O leitor lembrar-se-à, certamente, de um ou outro professor que marcou o seu percurso académico pela sua excepcional capacidade de transmitir os intrincados aspectos da matéria em conceitos simples, pela sua afabilidade e simpatia e compreensão, enfim, pela sua pedagogia.
Esse (ou esses) professores marcam a diferença na vida das pessoas porque, ao contrário dos outros, que (infelizmente) são a maioria, conseguem fazer com que o aluno tenha prazer em aprender, e que compreenda a matéria, em vez de a memorizar.

Esse factor é fulcral no ensino como factor de mudança de mentalidades; cada vez mais, a vida de uma pessoa se torna mais e mais embebida em tarefas a executar, responsabilidades a cumprir, e isso aumenta quanto mais complexa se for tornando a sociedade. Ou seja, quanto mais “evoluída”, mais “civilizada” ela for. Isso na prática traduz-se em cada vez menos tempo para apreciar os pequenos e grandes prazeres da vida, nos quais se inclui o prazer de aprender coisas novas.

Mas hoje em dia o próprio aprendizado é encarado como um trabalho, como uma obrigação; as pessoas já não aprendem mais por amor ao conhecimento, mas por necessidade. Necessidade de ter o diploma para conseguir trabalho. Necessidade de trabalhar para ganhar o pão de cada dia. Necessidade de ganhar a vida para vivê-la, acabando por passar toda a vida a vivê-la para os outros e só descobrindo que afinal foi tempo perdido quando chega a reforma e já não há tempo nem vitalidade para viver a vida. No fundo, tudo isso podia mudar se as pessoas encarassem o estudo e o trabalho como fontes de prazer; como fins, não como meios.

Mas isso, claro, só será conseguido se os professores incutirem esse espítito nos alundo. Melhor dizendo, se não cortarem pela raiz a curiosidade natural das crianças… O facto é que esses professores excepcionais que ficam na nossa memória, deviam ser precisamente a regra, e não a excepção. Costumo dizer que o bom professor mais que aquele que sabe o que ensina, é o que sabe ensinar. E saber ensinar é saber transmitir o maravilhoso que reside no pormenor mais ínfimo da cultura e ciência humanas, produtos de milhares de anos de evolução e de contribuições dos mais brilhantes cérebros da nossa espécie… é saber transmitir a mesma emoção da descoberta que os que primeiro chegaram a esses conceitos sentiram…

Mas isso não acontece, e a grande maioria dos alunos ao sair do ensino básico já perderam toda a vontade de aprender, pela acção “curiosicida” dos “professores” por cujas mãos passaram… Essas pessoas ao longo do restante percurso académico, vão cimentando a sua aversão ao aprendizado, apenas aprendendo (?) o estritamente necesário para passar de ano ou para conseguir o trabalho que pretendem; e assim continuam a sua vida, cumprindo as suas obrigações e ganhando o dinheiro que usam para o entretenimento, que não passa te tempo ocupado em actividades para esquecer o stress da vida…

Mas quando se diz que o ensino pode mudar o mundo, era disto que se falava? hum, provavelmente não. O que acontece é que quando alguém chega a um certo nível de instrução, sem perder o gosto pelo ensino, acaba por se tornar autodidacta e começa a procurar informações por si só e a desenvolver ideias próprias; Essa auto-reflexão acaba por ajudá-las a tomar consciencia da importância de certas regras sociais que de outro modo se tenderia mais facilmente a infringir; ao compreender o porquê das coisas, respeita-se as regras porque se concorda com elas, e não simplismente proque se é obrigado a tal.

Por si só isto já resultaria num mundo melhor: imaginem como seria um mundo em que as pessoas não roubassem, não deitassem o lixo na rua (nem produzissem tanto lixo), onde os condutores tivessem mais cuidado, onde os contribuintes reclamassem menos dos impostos (e onde os governantes fossem menos corruptos e portanto o dinheiro do estado rendesse mais, sendo necessário menos impostos consequentemente), etc etc etc…

Mas as coisas podem até ser melhores que isto! “Como assim?!”, vocês perguntam, “ainda melhor que isto??”. Sim, meus caros, e não é utopia: todo o sistema organizacional da nossa sociedade actual foi concebido gradualmente, ao longo de vários séculos, com contribuições de vários pensadores; a democracia, o pluralismo partidário, o dinheiro, as regras da “moral e bons costumes”, não foram inventadas de uma só vez como se fossem os dez mandamentos a cair do céu! Foram produto de mentes humanas que analisaram o estado da socidedade no seu tempo e depois de muito reflectir chegaram à conclusão que as coisas podiam estar melhor; e lutaram pelos seus ideais, alguns acabando por ter sucesso (Jesus, Ghandi, Péricles, Mandela, entre milhares), outros não, quer por as suas ideias não serem na verdade melhores que o sistema existente, quer por as terem idealizado “antes do tempo”, quer por falta de determinação, enfim.

Então, como nenhuma ideia é perfeita, no fundo o sistema social acaba por ter sempre margem para melhorias; todos nós, inclusivamente, temos uma palavra a dizer sobre o que achamos que está mal na sociedade e no mudo, apesar de muito poucos realmente terem determinação e força de vontade para ir com as suas ideias avante; a maior parte sequer se digna a analisar mais profundamente esses problemas, em busca de uma solução, precisamente por ter perdido na noite dos tempos (sempre quis dizer isso!) da sua infância, essa excepcional capacidade de nos marvilharmos com coisas novas e de querermos saber sempre mais…

É por isso que o mundo pouco ou nada anda a mudar; apesar de ser uma bola, ele não roda, porque a educação ainda não atingiu o nível ideal; ainda não há professores bons em número suficiente; ainda os fundos governamentais da maioria dos países são desviados para actividade militar e bélica, em vez de canalizados para aumentar o nível de vida e instrução da população; os media, que são o maior motor social já inventado (até chamados de O Quarto Poder), de centros de informação, cultura e instrução tornaram-se a paródia das gaffes ortográficas e repositórios de conteúdos de entretenimento puro; as universidades, de lar do conhecimento, tornaram-se antros de diversão, paródia e anarquia, onde se vivem supostamente os “melhores anos da vida”; a ciência segue interesses económicos e militares…

Isto continuará assim, enquanto não se mudar radicalmente o modo de pensar a educação e o ensino; pois sendo verdade que cresce o número de escolas, livros e professores, também aumenta a população do planeta, pelo que dificilmente a taxa de redução do analfabetismo será significativa;
Mas o que precisa realmente de uma reforma a fundo, é esse velho conceito de aprendizado como obrigação (tanto para os alunos como para os professores!).

Enquanto não se ensinar e aprender por prazer, o nosso mundo continuará o mesmo… até quando?

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Friday, April 15, 2005

As Palavras

(Publicado no Artiletra nº 67, de Abril de 2005)

Hoje em dia, antes de uma criança aprender a ler, já vê televisão. Isso cria um problema, pois a cultura continua a depender da escrita. Porque será assim? Porque é que as imagens não podem ser igualmente transmissoras de conhecimento e cultura? O que tem a escrita de tão especial?

O que acontece é que a comunicação oral e visual é muito mais rica, envolvendo não só palavras como imagens, sons, criando todo um contexto envolvente que apesar de poder ser mais facilmente apreendido, não pode ser relatado da mesma forma. Isso verifica-se quando alguém conta uma situação engraçada que presenciou a um grupo de pessoas: muitas vezes a situação não parece ter tanta piada aos ouvintes, que ou ficam a olhar uns para os outros sem saber o que dizer, porque não conseguem ver onde está a graça, ou esboçam sorrisos inseguros, precisamente porque as palavras do narrador são insuficientes para criar o contexto, para simular os sons e imagens (como reza o ditado, uma imagem vale mais que mil palavras) que em conjunto tornaram toda a situação original tão engraçada.

É por isso que a linguagem escrita é tão importante na transmissão do conhecimento: é que ela é composta apenas por palavras, quer orais quer escritas, mas libertas totalmente do contexto, pelo que podem ser transmitidas e relatadas sem perder o conteúdo.

Tudo isso não seria relevante se dispuséssemos de um método directo de transmissão de pensamentos no seu estado puro (telepatia). Mas a linguagem é o único modo que dispomos de transmitir de forma concreta pensamentos, ideias e emoções entre os membros da nossa espécie de modo a partilhar informação; Por outro lado, a linguagem acaba por fornecer um método para a própria reflexão interior, ajudando a ordenar algum do caos difuso de sensações, imagens, pensamentos que a cada segundo nos atravessam o cérebro.

Um razoável domínio da linguagem torna-se assim imprescindível para uma boa comunicação (aquisição e transmissão de dados), permitindo deste modo um desenvolvimento mental baseado nos dados externos (informações recebidas), dados internos (pensamentos próprios) e processamento dos mesmos (reflexão).

Obviamente, para este efeito a linguagem deve adquirir alguma complexidade que lhe permita transmitir com alguma fiabilidade o pensamento que representa; consequentemente, quem estiver desabituado do uso da linguagem tem clara desvantagem no intercâmbio de conceitos mais complexos.

É facto público que uma minoria da população adquire o gosto pela leitura (que é o método mais eficiente de ganhar maleabilidade no uso da linguagem). Isso deve-se ao que mencionámos no primeiro capítulo: a popularidade da televisão e outros meios multimédia de comunicação; como dissemos, tais meios podem usar de menos complexidade linguística pois dispõem de elementos extra que conferem uma fácil interpretação e assimilação do que transmitem. No entanto, essa prática torna as mentes preguiçosas, e, acostumadas a “informação fácil”, acabam por sucumbir rapidamente a qualquer tentativa de uma leitura superior a alguns parágrafos (poder-se-ia até dizer algumas palavras).

Por causa disso, ao chegar à escola as crianças estão destreinadas para o método mais fiável de transmissão de conhecimentos, a leitura, obtendo resultados fracos em exames escritos mesmo que compreendam bem os conceitos. Esse facto, em vez de conduzir a um maior incentivo da leitura e escrita, conduziu ao uso de métodos cada vez mais claros e completos (multimédia) para o ensino dessas crianças. Ainda menos destreinados na escrita, embora compreendendo melhor a matéria, as notas continuaram a baixar, estando hoje a média escolar a tender para o “suficiente”, ou seja, o mínimo necessário para passar.

Devido a esta prática, as crianças que lêem desde pequenas se resumem às cujos aglomerados familiares consideram tal prática indispensável para a formação mental, e limitam o uso da televisão, incentivando o desenvolvimento da imaginação própria em livros de histórias (em vez da imaginação “pronto-a-comer” da televisão), e fomentam a satisfação nos livros da curiosidade natural da idade das perguntas, só liberando totalmente a televisão quando a prática da leitura perder qualquer esforço e se realizar pelo prazer de ler.

Crianças que ganham desde pequenas o gosto pela leitura crescem com hábitos de leitura, passam a vida a absorver vastos conhecimentos e informações novas, e, familiarizados com a linguagem, conseguem melhor dar estrutura aos seus pensamentos e absorver conceitos mais complexos; A familiaridade com a linguagem confere também um conhecimento intuitivo da própria gramática e semântica da mesma, o que se reflecte num melhor uso do discurso oral e escrito (embora nem sempre em melhores notas nas disciplinas de línguas na escola – talvez porque nessas se dá mais importância à memorização de conceitos e definições que numa aquisição de à-vontade na fala, escrita e leitura?).

Contudo, a maioria não segue este padrão; lêem apenas quando algo os obriga a tanto; nos casos restantes, vêm televisão. Quem assim cresceu, mais tarde não lê mais que o estritamente necessário, e mesmo assim a contra gosto. A leitura permanecerá (regra geral) algo custoso por toda a vida. Qualquer texto que ultrapasse o nível de exclamações da banda desenhada como “bum!” e “splat!” transforma-se numa corrida de obstáculos. Os que integram este grupo encaram os livros como impertinências e no fundo não têm meio de entender gente que leia, acabando por desconfiar deste tipo de gente. Para eles, o mundo dos livros é uma conspiração destinada a tornar-lhes pesada a consciência. Deste modo desenvolvem uma autêntica aversão aos livros, e como também não gostam de ler os livros da própria especialidade, não tardam a ficar desactualizados em termos profissionais. Chegados a este ponto, nem lhes ocorre que a sua abstinência da leitura e a sua hostilidade face aos textos fez com que se degradasse também a sua comunicação oral, e assim não entendem por que motivo as suas experiências não são devidamente apreciadas e compreendidas, acabando imergindo lenta e inexoravelmente no mundo das sombras da cultura da sociedade actual, que é o de um novo analfabetismo.

Quem se incluir no rol dos que não gostam de ler deveria, por isso, reflectir seriamente sobre se não valeria a pena ultrapassar esta falta de vontade. Quem ainda não tiver quaisquer hábitos de leitura talvez deva exercitá-los de forma selectiva, com matérias que de qualquer modo lhe despertem um especial interesse, nem que sejam romances eróticos. Tal como antigamente um jovem era iniciado nos segredos do amor físico mandando-o ao bordel, onde a troco de dinheiro uma cortesã experimentada o levava cuidadosamente a perder a timidez, assim qualquer um deveria ler, por assim dizer para se iniciar, um dos grandes clássicos da literatura, nem que seja por uma espécie de sentido de obrigação a fim de, a seguir, se reger pelos seus próprios impulsos. Nesta altura poderá dizer com alívio “nunca mais” ou então ter-lhe ganho o gosto. Em todo o caso, o conhecimento de um dos grandes romances lhe permite uma base cultural, a partir da qual poderá expandir os seus conhecimentos em conversas com os outros.

De qualquer modo, há que se admitir que o único modo de ter uma panorâmica temporal da História ou da sociedade, é precisamente com a leitura de histórias (romances), que além de retratar toda uma vivência, fornecendo dados importantes para a formação pessoal, social e cultural do indivíduo, acaba por alimentar o desejo de ficção, de dar largas à imaginação, que caracteriza o ser humano.

É evidente que hoje em dia os media (televisão, teatro, cinema) se encarregam de boa parte da tarefa de suprir as necessidades de histórias que a sociedade denota. Mas existe algo que apenas o romance pode mostrar com toda a clareza: o aspecto interior de uma pessoa. Só no romance podemos testemunhar na própria pele como é sermos vítima da exclusão e discriminação social. Embora no filme vejamos o personagem perseguido em todas as respectivas situações, podendo identificar-nos com o seu destino, penas o observamos do exterior. No romance, pelo contrário, sentimos os impactos da mesma forma que o protagonista, isto é vemos o mundo (fictício ou real) pelos seus olhos e partilhamos as suas vivências e experiências, tirando inclusive proveito próprio delas, pois acabamos por cometer os mesmos erros que a personagem, ao a encarnarmos, pelo que na vida real já estamos prevenidos a evitar esses comportamentos. O romance acaba por se tornar um método de educação social bastante eficiente, ao oferecer-nos a possibilidade de cometer erros (em nome da personagem) num universo cujas consequências não passam para o mundo real.

Neste aspecto o romance é único. Torna possível algo que não existe nem em qualquer outro género de arte, nem na própria realidade: vivenciarmos o mundo da perspectiva de outra pessoa, e ao mesmo tempo observarmos essa vivência.

E precisamente pelo facto de ser expresso em palavras, o livro permite que milhões de pessoas vivenciem as mesmas experiências e adquiram os mesmos saberes, acabando por ter um universo comum de personagens, lugares, frases e conhecimentos com os quais se forma grande parte da sua cultura, tudo isso, graças às palavras.

(Com extractos adaptados de Cultura – Tudo o que é preciso saber, por Dietrich Schwanitz, Ed. Dom Quixote, 2004)

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Tuesday, February 15, 2005

O Bem e o Mal, Existem Afinal? (Uma Abordagem Científica)

(Publicado no Artiletra nº 66, de Fevereiro de 2005)

De todos os temas de reflexão, poucos têm despertado tanto interesse ao longo da História (tempo) e das sociedades (espaço) como o paradigma do Bem e do  Mal, principalmente o porquê da existencia do mal.

Várias abordagens têm sido aplicadas a esses conceitos, de religiosos a filosóficos, passando por esotéricos e agnósticos.

Mas penso que não foi feita uma análise no foro puramente científico (ou se foi feita não é popular), pelo que gostaria de neste artigo desenvolver uma  hipótese com base na ciência.

Pode parecer um bocado esquisito querer tratar de um tema que sempre pertenceu ao domínio do emocional com bases racionais e experimentais, mas vejamos aonde podemos chegar.

Antes de começar relembremos as definições de Santo Agostinho de Mal: o mal natural, que são os eventos naturais (aleatórios); e o mal moral, que é o mais colhecido por maldade, pois é praticado conscientemente… é esse que vamos aqui analisar.

Façamos portanto uma dedução passo-a-passo:

I - Factos:
1. O comportamento humano em tempos era igual ao dos outros animais, ou seja, baseava-se apenas nos instintos. com o tempo, a racionalidade veio “entrar no  clube”, mas os instintos ainda desempenham um papel importantíssimo no comportamento, pois as emoções não são mais que reacções instintivas (inconscientes)  a estímulos de diversa ordem. É claro que essas reacções (emoções) existem no estado “puro”(instintivo), mas com o tempo acabam por ser moldadas pela cultura a que o indivíduo  pertence e pela educação que recebeu. Por exemplo, uma criança que cresce numa sociedade ocidental típica tem tendencia a ter nojo de insectos, o que nao  acontece com outras sociedades, nas quais desde cedo elas aprendem a conviver com esses animais. No entanto, é sempre incómoda a presença de insectos para  qualquer ser humano, pois por instinto sabem que eles podem ser perigosos. O facto dessas reacções serem “moldáveis” não significa que a emoção tem outra origem que não o instinto, mas sim é um tributo à excepcional capacidade do ser humano (da natureza, de facto) de se adaptar a diversos ambientes.
A propósito: penso que se pode, segundo esta lógica, fazer uma análise do grau de evolução de uma espécie pela relação entre o instinto e a razão no seu comportamento.

2. Há instintos básicos (de sobrevivencia) e “secundários”. Os instintos básicos existem em todas as espécies, enquanto que os secundários agrupam-se em “pacotes” que cada espécie adopta dependendo do tipo de comportamento dos seus elementos. Estes instintos “secundários” podem ser individualistas, socialistas ou comunistas. Estas denominações engraçadas definem o modo como eles funcionam para manter a especie:
Instintos individualistas são os usados pela grande maioria das espécies. funcionam do seguinte modo: cada elemento da espécie cuida de si; assim, a espécie obtém um bom índice de sobrevivência (se os recursos de defesa forem adequados, é claro). A sua definição pode resumir-se ao que conhecemos como egoísmo, ou seja, competição com todos (mesmo os da própria espécie) por alimento, abrigo, água, fêmeas, etc.
Instintos individualistas surgem em espécies que vivem em sociedade, tal como os humanos, os macacos e os golfinhos. São instintos que levam cada elemento a cuidar da sociedade a que pertencem. Uma definição apropriada seria o que consideramos altruismo, ou seja, acções em prol dos outros (da sociedade).
Instintos Comunistas são os que regem as espécies fortemente comunitárias, como as formigas e abelhas. Criam digamos que uma automação quase total nas espécies, quase anulando os instintos primários. Se pudessem ser aplicados a humanos (não são porque são incompatíveis com a consciencia de si próprio), resultariam num mundo parecido com o descrito no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley… todos sem individualidade, fazendo o seu papel, como autómatos.

3. Nos tempos que chamamos “primitivos”, A nossa espécie possuia instintos individuais; só que depois desenvolvemos a linguagem, o que aumentou exponencialmente nossa inteligencia, tornando-nos seres racionais, e, o que é mais importante,  sociais.
Mas nao deixámos de ser animais individualistas para passar a ser “socialistas” de um momento para o outro. houve um periodo de transiçao, no qual se  criaram lentamente instintos sociais. nesse período esses dois “pacotes” de instintos conviveram entre si, até que com o tempo os instintos individualistas acabaram por se anular, pois não eram mais usados

II - Teoria (Origem do Mal e Bem)

Até aqui tudo bem. mas onde entram o bem e o mal nessa história?
A minha teoria é que nós AINDA estamos nesse periodo de transiçao, ou seja, ainda temos os dois tipos de instintos convivendo no nosso DNA, e,  consequentemente, no nosso comportamento.

A questão é: que percentagem de cada um está no nosso ADN? A relação entre os dois tipos de instintos pode dar uma ideia sobre a nossa posição temporal nesse período de transição. É como se ao longo do tempo a percentagem da influencia dos instintos socialistas vá aumentando, ao mesmo tempo que a percentagem dos individualistas diminui, ate que no fim do periodo de transiçao tenhamos uma relação 100%-0%.

Esses instintos individualistas, enquanto existirem, são prejudiciais numa especie social, pois entram em conflito com os instintos sociais (ate pq egoismo é antagónico de altruismo…). Podemos usar a razao para contrariar esses instintos, mas temos a consciencia que sozinhos nao podemos fazer isso, a maior parte das pessoas nao tem força de vontade suficiente. tem que haver uma força impulsionadora.
Essa força é a chamada Cultura.

MAS, como a cultura é um produto do homem, tambem tem essas duas facetas: a altruista (que chamamos Moral, e que representa o bem) e a egoista (que chamamos o mal), que está oculta, implicita nas  nossas relaçoes, que nao pomos no papel mas que os pais transmitem aos filhos e as pessoas ensinam constantemente umas às outras (é por isso que se diz  que as crianças quando crescem perdem a inocencia). Quando somos cercados por pessoas que nos magoam nas suas tentativas de oter beneficios para si, olhando so para o seu umbigo, acabamos por criar uma crosta de insensibilidade (anulamos os nossos instintos sociais) e passamos a fazer o mesmo, tanto para nos defender como porque por natureza tendemos a imitar os outros da nossa espécie (um dos instintos básicos). O pior é que tudo isso se passa anível inconsciente, quando conscientemente somos aconselhados pela moral a nao ter esses comportamentos; acabamos por criar conflitos que geralmente são chamados de consciencia culpada; a nossa conduta depende intrinsecamente das influencias culturais positivas (explicitas) e negativas (implicitas) que recebemos ao longo da nossa vida.
Ou seja: como o homem por outro lado é também um produto da cultura, ele recebe essas mas influencias culturais e se  essa faceta egoista (oculta) for mais forte que a altruista na sua educaçao (ou se sua mente for mais fraca - se ele tiver um DNA com instintos  predominantemente egoistas), ele acaba por se tornar no que chamamos “pessoa ma”.

No entanto, temos que ter em conta que mesmo as pessoas “neutras” ou as “boas” praticam actos “maus” (egoistas), pois todos sofremos essa influencia  negativa da cultura, por mais fraca que seja.

O GRANDE PROBLEMA é que a nossa especie atingiu esse equilíbrio (homem/cultura; individuo/sociedade) NO MEIO do periodo de transicao de especie individualista para especie socialista; ou seja:  a tecnologia faz com que nossa evoluçao nao seja mais determinada por causas naturais (a chamada Seleçao Natural de Darwin), mas sim nos somos os unicos  com poder pra direcionar nossa evoluçao;
Alem disso, a cultura bipolar (egoista/altruista) encontrou um ponto mais ou menos estavel (em sintonia com a mente humana, isto é, com a mesma percentagem de egoismo/altruísmo), pelo que nao mudara nos proximos tempos por si so.

III - Soluções

O unico modo de se começar a reverter esse processo é seguir o mesmo que a natureza: causar de novo um desequilíbrio, e deixar que a especie por si so  encontre de novo o equilibrio natural, ja no fim do periodo de transiçao.

o que quero dizer com isto: a natureza nos deu capacidades para controlarmos a nossa propria evoluçao. mas as suas leis continuam regendo, ou seja, é como  se tivessemos vindo a cavalgar um cavalo, e a certa altura nos tivessem sido dadas redeas. mas isso so nos dá o poder de direccionar o cavalo, nao de, por  exemplo, o fazer voar.
Ou seja: o estudo da evoluçao nos revelou que a natureza evolui por ciclos de desequilibrio/equilibrio, pelo que temos que seguir esse padrao: causamos o  desequilibrio e a natureza trata do resto.

Tudo isto traduzido em miudos significa que devemos alterar a cultura; lançar novas leis sociais, morais, comportamentais, que aplicadas irao estimular  apenas nossos instintos altruistas; a natureza, com o tempo, tratará de apaga-los, tal como faz com tudo o que e inutil, restaurando assim o equilíbrio homem/cultura, ambos com o mesmo “conteúdo” comportamental.

Outra opçao seria uma terapia genetica globalizada; uma alteraçao em larga escala do DNA humano, apagando esses vestigios de primitividade; Isso seria mais rapido, mas por um lado seria preciso acabar com esse tabu que vem sendo criado sobre a engenharia genetica, e por outro lado a sequente mudança da cultura levaria o seu tempo… se calhar nem seria assim tao mais rapido, mas quem podera dizer?

RESUMINDO E CONFUNDINDO, temos 3 alternativas:

1. Ou alteramos a cultura, e a natureza mudará o nosso ADN para se adaptar a ela, restaurando o equilibrio (homem > produto da cultura)

2. Ou alteramos o DNA, e naturalmente a cultura alterar-se-à para se adaptar a ele, restaurando o equilibrio (cultura > produto do homem)

3. Ou entao fazemos as duas coisas, restaurando por nós mesmos o equilibrio (homem <=> cultura)

De qualquer modo, o que quer que escolhamos, ficará nas nossas mãos a chave para o próximo passo. Tal como Na Matrix o Neo pode escolher a pílula azul, que o mantem no mundo de ilusão, e ele esquece tudo o que descobrira; ou pode tomar a pílula vermelha que lhe revelará toda a verdade (uma analogia com a maçã de eva e adão?).
A nossa espécie está num período crítico: a tecnologia aumenta exponencialmente, crescendo cada vez mais o poder destrutivo de um único indivíduo. Em breve esse poder atingirá o limite, ou seja, um elemento da espécie terá potencialmente poder para destruir toda a espécie… temos uma pílula em cada mão, temos que escolher antes que esse momento chegue, pois podemos não ficar aqui para contar a história, porque admitamos… há entre nós pessoas suficientemente egoístas (“más”) para isso…e lembrando que tomar a pílula vermelha, escolher dar o próximo passo da nossa evolução, poderá muto bem ser o fim do Mal como o conhecemos!

Posted by Waldir Pimenta at 14:39:31 | Permalink | No Comments »

Saturday, January 1, 2005

Cuidado! A Evolução Passa Ao Lado…

(Publicado no Artiletra nº 65, de Dezembro de 2004/Janeiro de 2005)

Caros leitores: volto a escrever-vos, desta feita para falar um pouco sobre um aspecto de um tema que várias vezes venho abordando de diversos lados, que é a Educação, nomeadamente a educação em Cabo Verde. O aspecto a que me refiro, o qual obviamente ainda não tinha sido abordado nesta coluna, é a importância do uso dos recursos postos à nossa disposição para um melhor desempenho das funções a que nos propomos. Passo a explicar:

O que se entende por evolução, e falo a nível de civilização e sociedade, é a aquisição de mais e melhores formas de fazer o que decidimos ser melhor para nós. Falando especificamente da educação, e traduzindo em miúdos, isso significa que com o desenvolvimento ao longo dos tempos de técnicas e materiais de ensino, evolução seria o uso maximizado desses instrumentos de forma a melhorar os resultados. No fundo é tirar o maior partido possível dos desenvolvimentos da ciência da educação (a pedagogia) e das tecnologias auxiliares do ensino, por exemplo os computadores.

Além disso, vários trabalhos têm sido desenvolvidos e poderiam se aplicar, além de outras, na área da educação. E quando trabalhos refiro-me por exemplo a pesquisas, estudos diversos que são subaproveitados devido principalmente à inexistência de um órgão de uniformização e desenvolvimento da pedagogia a nível mundial. Ou seja, o que se faz nalguns pontos do planeta pode só chegar a outros pontos muito mais tarde, ou pode até não chegar. Isso faz com que importantes desenvolvimentos a nível teórico e material não sejam devidamente partilhados e utilizados por todos os que deles poderiam tirar proveito, ou até contribuir para a sua melhoria.

Eis um exemplo de um trabalho cujos resultados, bem analisados, poderiam trazer enormes benefícios à educação:

Os dados retidos por um ser humano em função da forma como o conteúdo é apresentado se comportam da seguinte maneira:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Leitura

10%

Narração

20%

Vídeo sem som

30%

Vídeo com som

50%

Debate

70%

Debate e prática

90%

Em função do tempo, a capacidade de retenção foi a seguinte:

Dados retidos após três horas:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

70%

Somente visual

72%

Oral e Visual

85%

Dados retidos após três dias:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

10%

Somente visual

22%

Oral e Visual

65%

Ora, com uma análise superficial já se pode tirar algumas conclusões básicas:

1. O melhor meio de assimilar bem uma informação é a prática/debate. Neste sentido, dever-se-ia trabalhar meios de adicionar a componente prática no ensino, de modo a este ocupar a maior parte do tempo de ensino.

2. O uso da imagem animada (vídeos com som), por exemplo modelos tridimensionais gerados em computador, também deveria ser levado em conta, ocupando uma boa parte do tempo de ensino.

3. Obviamente que o tempo dedicado à explanação verbal da matéria teria que diminuir, e para tal várias estratégias podem ser usados: pode ser eliminado o ditado da matéria com a introdução de sebentas; a explicação oral pode (e deve) acompanhar a parte visual (vídeos/animações), pelo que esse tempo não seria perdido e podia até ser maximizado, rendendo mais tal como revelam os resultados apresentados nos segundo e terceiro quadros.

Com estas simples modificações, já o sucesso escolar aumentaria em boa percentagem, pois além de a forma da matéria ser apresentada ir de encontro às capacidades inatas de assimilação do ser humano, por outro lado aquela tornar-se-ia mais interessante e desafiadora aos alunos, que se mostrariam mais interessados e participativos.

Outro método bastante eficiente é a colocação à prova das habilidades adquiridas. Isto porque, segundo se sabe, o ser humano por natureza atinge as suas melhores performances quando em situações de competição. Nesse sentido, seria também boa ideia implementar concursos a nível escolar, insular e até nacional, que premeiem os melhores classificados.

Obviamente, dados mais pormenorizados e análises mais precisas trariam muito mais medidas recomendáveis; mas é preciso que os responsáveis tenham a iniciativa de procurar e aplicar essas ferramentas que existem e não são aproveitadas.
Por este lado, seria óptimo a fundação de espaços de discussão a nível no mínimo nacional (mesmo que esses espaços sejam temporários, como fóruns e afins), bem como a troca de experiências com escolas e sistemas educacionais de outros países para comparar os resultados e analisar possíveis melhorias.

Mas enquanto os responsáveis se preocuparem mais com o mantimento e estabilização das condições actuais que com a inovação e meios de melhorar o sistema educativo em Cabo Verde tendo em conta os objectivos básicos do ensino, a evolução continuará a passar ao lado da nossa civilização, e nós continuaremos a ter pessoas que não se interessam pela qualidade do que sabem e fazem, por nunca terem sido ensinadas a gostar de aprender; e consequentemente o nosso mercado de trabalho nunca será competitivo o suficiente para aguentar o nosso frágil país pelos seus próprios pés.
Let’s hope I’m wrong.

Posted by Waldir Pimenta at 14:44:45 | Permalink | No Comments »