Wednesday, December 15, 2004

A Última Pergunta

(Publicado no Artiletra nº 63/64, de Dezembro de 2004)

I
(prólogo)

E se tudo o que pensamos que existe for apenas uma simulação de computador? A saga Matrix provoca a ideia, com a ajuda de surpreendentes efeitos visuais - criados justamente por computadores -, que parecem incrivelmente reais.

Grande parte da filosofia e ciência tem sido dedicada aos limites do que podemos conhecer. Platão afirmou que o eu pensamos ser a realidade não é mais que uma mera sombra da “verdadeira” realidade. Einstein destronou a crença secular iniciada por Newton e sucessivos deterministas do tempo e espaço fixos, universais e infinitos, demostrando que tudo é relativo, e que o tempo e o espaço são afectados pelas forças da física, ou seja, que a realidade é diferente de pessoa para pessoa. Mas foi Descartes quem foi mais longe, afirmando que a única coisa que se pode ter certeza é de que nós próprios existimos, mas tudo o resto pode ser apenas um sonho ou uma ilusão criada por um génio maligno… ou, segundo os irmãos Wachowski (os realizadores da trilogia Matrix), por um gigantesco sistema informático.


II
(autómatos celulares)

Mas o que a maior parte das pessoas não sabe é que existem actualmente propostas científicas sérias de que todo o Universo, incluindo nós mesmos, seja em essência o resultado de um grande computador. Já em fins dos anos 60, o alemão Konrad Zuse sugeria que todo o Universo estaria tendo lugar nas entranhas lógicas de um computador. Zuse não era um maluco qualquer: ele construiu os primeiros computadores electromecânicos programáveis do mundo, desenvolveu a primeira linguagem de computador de alto-nível, e, entre tantas outras coisas, criou o primeiro programa de xadrez em um computador.

A sugestão de Zuse fazia referência ao tipo de computador em particular que estaria ‘envolvendo’ o nosso Universo, denominado autómato celular. O conceito deste tipo de computador foi criado por outro grande pioneiro, o matemático húngaro John von Neumann, nos anos 40 - a propósito, como uma base da ideia de sistemas lógicos que fossem auto-reprodutores e que imitassem assim a própria vida.

Para entender basicamente o que são autómatos celulares, e eles são um tanto diferentes do computador a que estamos acostumados, começamos com um tabuleiro de xadrez. Deite fora as peças, e fique apenas com o tabuleiro. Cada casa do tabuleiro é uma célula, e cada uma destas células pode ser branca ou preta. Agora, a cor destas células não depende mais do padrão monótono e fixo do xadrez, mas pode mudar de acordo com regras simples implementadas dentro de cada uma delas. Estas regras são executadas em todas as células simultaneamente, sempre que um relógio bate. O tabuleiro é agora um autómato celular.

Cada célula deste autómato pode, por exemplo, ter o seguinte conjunto de regras:

- se houver exactamente três células imediatamente vizinhas brancas, ela deve ficar ou continuar branca.
- Se houver duas células vizinhas brancas, a sua cor não deve mudar. 
- Se houver menos de duas ou mais de três vizinhas brancas, deve ficar ou continuar preta.

E isso é tudo. Você deve ter percebido que elas são muito simples. Mas a partir delas, executadas em cada célula do nosso autómato, uma ordem incrível de complexidade pode surgir.

Isso foi demonstrado de forma bela por um programa de computador que se tornou uma febre nos anos 70: o Game of Life de John Conway. Usando exactamente as regras descritas acima, cada célula branca estava ‘viva’, e as pretas, ‘mortas’. Em uma época que hoje já parece remota, onde o tempo dos computadores era caríssimo, horas e horas foram gastas por pesquisadores fascinados observando como uma ordem inesperada surgia: quadrados piscando, triângulos andando e flechas zunindo, tudo em padrões complexos mudando, a cada batida do relógio.

E resulta que mesmo um autómato celular de regras simples como o Game of Life de Conway pode funcionar como um computador universal: isto é, representando informação como células brancas ou pretas, e dispondo diversas outras células de forma determinada, este simples jogo de computador pode em tese simular qualquer computador imaginável, dando seus resultados como um determinado padrão de células.

III
(onde entra o universo)

A capacidade de computação universal de autómatos celulares simples nos leva de volta às especulações de que o Universo seja um computador. Essa especulação fantástica deriva essencialmente de um: a de que o Universo seja discreto, em outras palavras, que seja em essência digital.

O mundo pode parecer contínuo, analógico em muitos aspectos: basta olhar para o arco-íris que parece variar suas cores continuamente. Mas apenas parece: a luz é composta de partículas discretas chamadas fotões. No mundo do infinitamente pequeno, regido pelas leis da física quântica, o infinitamente pequeno simplesmente não existe: as acções se dão em “pacotes” (quanta), de forma discreta. Até mesmo o tempo e o espaço não são contínuos: existe uma quantidade mínima de tempo e espaço passível de ser medida, chamados tempo e espaço de Planck (as outras quantidades mínimas são também apelidadas de Planck). E um Universo em que tempo e espaço ocorrem aos pulsos é justamente o universo dos autómatos celulares.

A ideia é de que algum modelo de autómato celular pode, com efeito, ser programado para funcionar como a Física do Universo. Aliás, os recentes desenvolvimentos da Física moderna levam cada vez mais os cientistas apensar que todas as leis da física são equacionáveis numa única expressão, a chamada Teoria de Tudo, ou Teoria M.

Várias teorias já comprovaram inclusivamente a unificação de três das quatro grandes forças da natureza (electromagnetismo, força nuclear “forte” e força nuclear “fraca”) numa só, quando as condições se aproximam das do big bang; só a gravidade ainda não pôde ser juntada a estas, e na tentativa dessa unificação há diferentes correntes que vão especulando enquanto os resultados dos aceleradores de partículas vão “pingando”.

De referir que dos dois grandes pilares da física moderna (a teoria da relatividade de Einstein e a teoria quântica de Maxwell, uma terá que desabar: as duas teorias dão resultados totalmente corretos nas suas àreas de acção (uma no infinitamente grande e outra no infinitamente pequeno), mas entram em colapso quando são conjugadas. ou seja: uma delas está errada, e mais cedo ou mais tarde irá cair, pois não podem haver conjuntos diferentes de leis para um mesmo universo. Em suma, o universo poderia ser um autómato celular que, de acordo com as condições iniciais, daria resultados que dependeriam dum conjunto de regras bastante simples (as leis da física).

IV
(grandes questões )

O que é mais intrigante no meio de tudo isto é que de entre os vários modelos de universo possíveis (curvo fechado: esferérico, curvo aberto: hiperbólico, ou plano), a curvatura do nosso é exactamente a mais adequada para que durasse o suficiente para tornar viável a probabilidade de surgir vida, inteligência: uma ínfima variação em qualquer das constantes da física (as condições iniciais), como a carga de um electrão, daria resultados catastróficos, ou seja, o universo se fecharia em poucos milhões de anos por força da gravidade (que se sobreporia à aceleração da velocidade de expansão provocada pelo Big Bang, anulando-a depois de um certo tempo e depois retardando-a, o que levaria ao que os cientistas denominram de Big Crunch, ou seja: o universo colapsaria num único ponto originando um super-buraco negro), ou então expandir-se-ia cada vez mais rapidamente, tornando a matéria tão dispersa que tudo se dissiparia num vácuo frio e escuro, para todo o sempre.

Ora, não obstante termos escapado de destinos tão trágicos (pois ambos os casos teriam acontecido pouco depois do Big Bang, antes da formação das próprias estrelas), temos outro problema: é a Entropia, a grande vilã enunciada na 2ª Lei da Termodinâmica, que prevê a irreversibilidade dos processos físicos: a desordem (energia não utilizável) aumenta sempre, pelo que o nosso universo durará muito mais que o provável (se as condições iniciais forem aleatórias, é quase impossível que este universo tenha surgido, pois encontra-se num equilíbrio precaríssimo, tal como descrito no parágrafo anterior ), mas acabará por se tornar numa massa homogénea e sem vida (tal como um copo em que misturamos água quente com água fria: a água acaba por ficar morna, e nunca poderemos voltar às condições iniciais – a não ser gastando quantidades enormes de energia).

Isto leva-nos a pensar,  pela extrema improbalilidade de o nosso universo ter surgido por acaso, em 3 possibilidades:

1. Existem diversos universos, e se são expontâneos possivelmente são criados no “lado branco” de buracos negros (incluindo big crunchs), havendo uma rede infinita (ou não) de universos-fénix, nascendo das cinzas dos precedentes;

2. Existem diversos universos, mas foram criados, ou seja, há um “laboratório” onde são testados aleatoriamente condições inicias, estando nós dentro de um dos (ou do!..) testes bem sucedidos, isto é, ganhámos a “lotaria cósmica”;

3. Existe apenas um único universo, que foi criado cuidadosamente para ser como é, e isto nos levaria à ideia não só de um Criador, como também de um Programador, que teria criado e programado um autómato celular (o universo) com as condições iniciais (as leis da física) para dar resultados concretos (nós?…)

A este propósito, em um de seus melhores contos, o famoso cientista e escritor de ficção científica Isaac Asimov (autor do romance que serviu de argumento ao filme I, Robot) escreveu sobre “A Última Pergunta”: como evitar o destino do nosso Universo em expansão, a morte térmica. O ano é 2061, e como não poderia deixar de ser, a pergunta é feita a um computador. Depois de um breve silêncio, o computador informa: “Dados insuficientes para uma resposta”. E ao longo de centenas bilhões de anos, a humanidade expande-se pelo Universo e funde-se com seus computadores - sempre para descobrir que a última pergunta ainda não pode ser respondida. Ao fim, quando todo o Universo é englobado pelo Computador, quando o caos já reina, ele finalmente chega a uma resposta. Mas já não há ninguém para conhecê-la excepto ele mesmo. A resposta deve ser dada então por demonstração, e a entropia do Universo será revertida. E o Computador diz: “Que se faça a luz!”. E houve luz.

V (epílogo)

Em ‘O Mochileiro das Galáxias’, Douglas Adams conta que fomos criados para computar a resposta da Grande Questão da Vida, do Universo e Tudo.
A resposta? 42

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Tuesday, November 30, 2004

A Propósito

Publicado no Artiletra nº 61/62, de Novembro/Dezembro de 2004)

Certos acontecimentos recentes, do conhecimento de nós todos, deram azo a uma série de divagações que pretendo neste artigo partilhar convosco.

Falo do triste evento que foi a morte do nosso grande poeta, cantor, homem de cultura e tantas outras coisas que se torna impossível listá-las todas aqui.

E é pena, realmente, que se extingam tão grandes representantes da grandiosidade que o ser humano pode atingir, e apesar de não terem verdadeiro sentido lógico, o enterro e o luto têm o seu sentido emocional, pois nós por natureza não compreendemos nem aceitamos facilmente a perda de um querido, de pessoas que amamos e admiramos. Não nos parece natural que a complexa personalidade de mesmo quem não se tenha destacado  na sociedade, personalidade que foi criada por um processo longo e intrincado de interacções e influências diversas, se esfume de um momento para o outro no nada, qual névoa vaporizando-se.

I

Mas e se tal não for o que na verdade acontece? E se realmente existir vida após a morte?

É de notar que este tema não é nem esotérico nem paranormal, pois é abordado das mais diversas frentes, desde a religiosa à científica, passando pela filosófica.

O desejo de vencer a morte e o fascínio por essa possibilidade sempre fez parte do espírito humano, e esse sentimento encontra-se espllendidamente retratado no seguinte poema de Patrick Overton:

“When we walk to the edge of all light we have,
and take a step into the darkness of the unknown,
we must believe one of two things will happen,
there will be something solid for us to stand on
or we will be taught to fly.”

(Quando caminhamos para a margem de toda a luz que temos,
E damos um passo na direcção da escuridão do desconhecido,
Devemos acreditar que uma de duas coisas acontecerá,
Ou haverá algo sólido para nos sustentar
Ou seremos ensinados a voar.)

Os egípcios com o seu culto da vida pós-morte (que originou a construção das fabulosas Pirâmides, por exemplo)A alquimia, com a sua procura pelo elixir da vida eterna; o cristianismo com a sua promessa de ascensão aos céus das almas puras; a filosofia com o questionamento da verdadeira natureza da nossa essência; a ciência com a constante busca para passar factos do campo do “sobrenatural” para o natural; tudo isso são reflexos de diversos modos de encontrar consolo ao inconformismo com que encaramos o tema.

II

Mas será que temos razão? Será que devemos confiar no nosso inconformismo e deduzir com base nele que deve existir vida após a morte, ou aquela não teria sentido?
Penso que não. Se virmos as coisas por outro prisma, veremos que na verdade é só uma questão de relatividade. Da mesma maneira que um minuto nos parece  uma hora se estivermos enfadados, e uma hora nos parece um minuto se estivermos a divertir-nos, também nos parecerá curta a existência de certas pessoas, se não tivermos apreciado ao máximo os momentos que passámos (ou poderíamos ter passado) com essa pessoa.

Hoje em dia é frequente as pessoas se aproximarem ou até ultrapassarem um século de vida; mas o que muitos não reparam é que meio século já é muito, muito mais do que se imagina! Apesar de um terço desse tempo ter sido passado a dormir [], os dois terços restantes incluem bilhões de segundos nos quais nos é permitido dar azo às nossas aspirações, sonhos, fazer o que gostamos e apreciarmo-nos uns aos outros. Tudo o que uma pessoa vive (ou pode viver) em 50 anos dificilmente caberia em todos os livros do mundo. Mas nós, na nossa rotina do dia-a-dia, muitas vezes não paramos para apreciar que outras pessoas estão a fazer em vez de cumprir a rotina que poderiam ter. Por exemplo, ouvir de vez em quando um CD do saudoso Ildo*.

A este respeito, acho pertinente enfatizar a ideia de valorizar mais os jovens, pois geralmente só se reconhecem os artistas (e outros talentos) quando já estão a meio da carreira (muitas vezes, até, quando já estão no fim), pelo que não admira que essas pessoas pareçam “morrer antes do tempo”. As pessoas de facto geralmente vivem o tempo necessário para exercer as suas talentos e deixar a sua marca no mundo, mas muitas simplismente só são reconhecidas numa fracçao desse tempo de criaçao, de vida que têm, enquanto que outras nem seque se dão ao “trabalho” de viver intensamente a sua própria visa.

Isto agora me lembrou um email que alguém me enviou, um forward que dizia mais ou menos assim:

“Convencemo-nos que a vida será melhor depois… Depois de acabar os estudos, depois de arranjar trabalho, depois de casarmos, depois de termos um filho, depois de termos outro filho.

Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixem de ser crianças, depois desesperamo-nos porque são adolescentes, insuportáveis. Pensamos: «Seremos mais felizes quando passar esta fase!»

Então decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso companheiro ou companheira estiver realizado, quando tivermos um carro melhor, quando pudermos ir de férias, quando conseguirmos uma promoção, quando nos reformarmos.

A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA MESMO!

Se não for agora, então quando?
A vida está cheia de depois, de reptos. É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!

Deixa de esperar até que acabes os estudos, até que te apaixones, até que encontres trabalho, até que te cases, até que tenhas filhos, até que eles saiam de casa, até que te divorcies, até que percas esses 10kg, até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã, até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras, para decidires então que não há melhor momento que justamente ESTE para seres feliz!

A felicidade é um trajecto, não um destino. Trabalha como se precisasses de dinheiro, ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse a ver!”.

*Ildo Lobo, famoso cantor cabo-verdiano, faleceu em 20 de Outubro de 2004

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Friday, October 15, 2004

FPS e Cidadania

(Publicado no Artiletra nº 59/60, de Outubro de 2004)

A Disciplina de FPS, não obstante ter-se originado por uma certamente bem-intencionada iniciativa, não chegou a passar de uma mera tentativa de, de acordo com um dos objectivos básicos da Educação Escolar (objectivo esse que, diga-se de passagem, não vinha sendo cumprido), fornecer aos alunos uma formação sólida a nível pessoal, e ao mesmo tempo prepará-los para integrar uma sociedade complexa de relacionamentos e interacções totalmente interligadas e regida por uma infinidade de regras e normas, como é a nossa.
Isto devido a diversos factores que estão a seguir expostos:

1. A matéria dada é demasiado teórica, não indo de acordo com os problemas e as dificuldades reais que caracterizam a fase da adolescência em que se encontram a maioria dos alunos que recebem essa formação. Verifica-se, apesar da aparente relação dos assuntos tratados no programa da disciplina com o (pressuposto) objectivo da mesma, uma aguda tendência a afastar-se da realidade dos mesmos, tratando-os com teorias e abstractas terminologias, acompanhadas de descrições minuciosas das suas características, ou das das suas variantes, se as houver (um exemplo: o estudo das “relações interpessoais horizontais e verticais”, cujas definições têm que ser necessariamente memorizadas, sem no entanto se saber mais sobre as mesmas do que uns simples exemplos dados, como o da relação professor/aluno, ou entre colegas ou amigos), que os alunos terão de diligentemente memorizar para “colar” nos testes e ter a resposta certa! Além disso, a maioria dos assuntos abordados pelo programa da disciplina de modo algum servem à formação, pessoal ou social dos estudantes. Senão, vejamos: para que servirá na formação pessoal e social de um adolescente as noções de resumo (que, curiosamente, deviam estar no programa da Disciplina de Português) ensinadas no 7º ano, a psicologia pura da janela de Johary, matéria vista no 10º ano, isto sem mencionar outros exemplos?

2. A exigência de uma avaliação escrita faz com que os alunos tenham que memorizar a matéria dada, não por ser necessária à sua vida futura, mas pura e simplesmente para obter uma boa nota nos testes e na pauta, tomando o lugar dos critérios de avaliação a capacidade de expressão escrita dos alunos, e, principalmente, a sua capacidade de memorização, as quais, evidentemente, não são as “capacidades” mais apropriadas para serem avaliadas numa disciplina deste calibre. Sem falar que a avaliação dita “qualitativa” (M. Bom, Bom, etc.), prejudica gravemente a análise do aproveitamento do aluno, pelas mesmas razões que o sistema 2 a 5, que foi recentemente alterado, devido às suas profundas deficiências, para 0 a 20, a chamada “avaliação quantitativa”: na verdade só muda o nome entre a avaliação “qualitativa” e a de 2 a 5, pois os escalões são os mesmos, advindo os mesmos problemas de ter divisões tão vastas: torna-se demasiado subjectivo e alvo de fácil falha a distinção entre os alunos nos extremos dos escalões. E tudo isto sem mencionar a dificuldade da sua integração no seio das notas das outras disciplinas, que usam a escala de 0 a 20, integração essa que é de toda a importância, como se pode verificar pela parte destacada do parágrafo seguinte;

3. Por ultimo, há o facto indecente de a maioria ou pelo menos grande parte dos professores da disciplina não terem formação a nível de pedagogia e principalmente de psicologia e serem permissivos e , e tanto o sistema como (por inerência) os alunos e respectivos professores dão pouca importância à disciplina, que acaba por adquirir a definição de “disciplina fácil”, na qual toda a gente passa, etc., o que é inacreditável, pois a FPS pelo seu objectivo devia ser a disciplina mais importante de todas: afinal, a escola tem como objectivo geral preparar os alunos para a sua inserção na sociedade, tanto a nível de conhecimentos (saber fazer), como a nível de comportamento e interacção social (saber ser), o que é de facto o objectivo específico da disciplina de FPS!

Ora, a uma Disciplina com essa importância deve ser evidentemente dispensada toda a atenção, pois trata-se de uma área sobremaneira sensível, atenção essa que não tem vindo a ser concedida, tendo em conta a proliferação de mudanças necessárias no seu seio, das quais passo a enumerar algumas:

- É necessária, antes de mais, uma profunda revisão do currículo da disciplina, revisão que há muito vem sendo aclamada e reivindicada por diversas entidades e personalidades, bastas vezes publicamente e nos media nacionais. Deixo o adiantamento do conteúdo dessa reforma para os entendidos na matéria, até porque seria demasiado maçador referi-los todos aqui;

•- Sente-se agudamente a falta de professores com formação específica para esse tipo de ensino. E não só: para os objectivos dessa disciplina, são necessários professores jovens de espírito, inovadores e criativos, capazes de captar a atenção dos alunos e influenciá-los positivamente, nos âmbitos da disciplina.

• - A avaliação do comportamento do aluno (assiduidade, pontualidade, respeito pelos colegas, professores e edifício da escola, etc.) deveria fazer parte integrante da nota da disciplina (por motivos óbvios), em vez de ser simplesmente anexada à pauta das notas; Nem é preciso dizer que estas não contam na avaliação das outras disciplinas, que deve depender não do comportamento do aluno mas sim da sua assimilação da matéria. Por outro lado, Não seria necessário haver faltas de disciplina, se fossem dadas punições (trabalhos úteis à escola), que certamente se revelariam mais eficientes, visto terem repercussões mais “palpáveis” para os alunos (pois um aluno indisciplinado, violento ou rebelde, não daria muita importância por ter no livro de ponto e na pauta uma falta de disciplina, ou por ver a sua nota diminuída pela indisciplina que cometeu, e muito menos por um ou mais “dias de casa” (o que, pelo contrário, até o agradaria, não ter que suportar por um(ns) dia(s) a “chatice” da escola), desde que consiga passar no fim do ano; enquanto que com certeza pensaria duas vezes antes de riscar a parede da escola, por exemplo, se tiver que limpar ou até pintar o que riscou, mesmo que não seja a suas expensas), e seria nesse sentido útil aos objectivos da disciplina ser o professor da mesma a gerir tais “punições”. Seria, portanto, uma questão de penalizar a violência física ou moral, perturbação das aulas, desrespeito aos colegas ou professores, danificação da escola, etc., como parte activa da formação ministrada pela disciplina de FPS.

•- Os métodos de ensino deveriam incluir promoção da discussão e debate de assuntos diversos de importância social ou emocional (homossexualidade, aborto, problemas pessoais, problemas políticos e internacionais, etc.), conversas com pessoas relacionadas com a matéria que vai sendo dada, entre outros, de modo a desenvolver a capacidade argumentativa dos alunos e a formação da sua opinião pessoal, bem como tornar a disciplina mais desafiante e interessante

•- Deveria ser reservada uma boa parte do tempo lectivo para orientação vocacional/profissional, se não como parte integrante da sua formação pessoal, pelo menos como preparação para a posterior escolha das áreas, no 3º ciclo.

•- É incontornável que a cidadania, a criação de consciência social, através do incentivo dos alunos a ser activos na escola, na sociedade, e consequente formação da responsabilidade social dos alunos, seja um dos elementos centrais da disciplina, sendo para isso um método bastante eficiente e simbiótico, a colaboração com a Associação de Estudantes da escola, nas suas diversas actividades.

Muito mais, sem dúvida, há que dizer acerca deste tão vasto assunto; mas certamente que se estas pequenas premissas fossem postas em prática, teríamos uma FPS realmente eficiente, formando jovens que no futuro tomariam as rédeas das famílias, da economia, do governo, em suma, do país em si, gerindo-o com competência e responsabilidade, lançando a nossa nação numa fase de desenvolvimento humano sem precedentes.

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Saturday, July 31, 2004

Revolução!

(Publicado no Artiletra nº 58, de Julho/Agosto de 2004)

A cada geração, a sociedade revive o mesmo filme: os jovens, impacientes, sempre rebeldes, não aceitando as regras que a sociedade tenta lhes impor; os adultos ignorando-os, rotulando-os de irresponsáveis e inconsequentes e recusando qualquer diálogo sério sobre as suas reivindicações, controlando a vida social com um mínimo de alterações possíveis, para não perturbar o “conforto” da rotina; e por fim os idosos, observando tudo isto da prateleira social em que os adultos os colocaram, aguardando com a paciência que lhes é característica o seu retorno à vida social activa, na qual sempre detiveram a posição de conselheiros que sabem que cedo ou tarde lhes será devolvida.

***

A revolução da juventude de hoje confunde muita gente: será ela realmente nova e diferente? Será a mesma atitude juvenil de idealismo e protesto comum a todas as gerações? Será apenas um refúgio para a decadência social que atinge os jovens mais que ninguém?

Ora, nada mais fácil que perguntar-lhes! Porque é que os adultos têm receio de discutir abertamente questões importantes com os jovens? Quando os jovens percebem que alguém está genuinamente interessado em ouvir as suas ideias, eles não só falam – escutam também. Porque é que assim que um jovem interpela um adulto sobre algo que está errado na sociedade, este reage imediatamente na defensiva? Será que os adultos se sentem culpados por não terem sido capazes de quebrar as correntes na sua geração, e terem-se resignado, e têm vergonha disso?

Se não for por isso, então porque é que os adultos se fecham na concha do “os jovens são crianças irresponsáveis e inconsequentes que pensam que já são maduras”, e quando uma ou outra dessas “crianças” consegue nadar contra a corrente de inculturação a que são submetidos e emerge na superfície respirando o ar da análise e do raciocínio e critica o que acha errado, os adultos o tratam como uma espécie de prodígio, uma atracção, algo incomum, sem ligar no entanto ao que realmente diz, sem dar importância ao conteúdo do seu discurso.

***

Apesar do ensino actual ser uma série de anos de memorização maioritariamente fútil e antiquada, é principalmente entre associações de estudantes que se encontram as mentes jovens mais preocupadas com a sociedade e dispostas a agir; mas esta minoria só o é porque a juventude desde cedo é mesmo pressionada para ser como os adultos reclamam que é: irreverente, “parodienta”, fugindo de tudo o que é sério ou convencional, procurando riscos e desprezando a escola. Digo pressionada, pois apesar de a sociedade sustentar (hipocritamente) valores que finge tentar incutir nos jovens, por outro lado publicita de todas as formas possíveis e imagináveis a imagem contrária: é aquele tio dizendo “oh, deixa-o, é da juventude, ele tem mesmo é que se divertir”, são as revistas, os filmes, dando destaque aos adolescentes rebeldes e desinteressados e ridicularizando os que não cedem a certos comportamentos considerados populares, são as miríades de expressões depreciativas para designar estes (“betinho”, “mauricinho”, c.d.f., etc), são os pais que não se preocupam em dar o exemplo de honestidade e carácter, ficando-se pelo “faz o que eu digo e não o que eu faço”…

Mas há jovens (e não são poucos) que estão realmente interessados em assuntos que são considerados “fora” da sua área de acção. Por exemplo, no tópico religião: as pessoas tendem a classificar a classe jovem como a mais desligada dos valores religiosos, mas veja-se o que diz uma jovem a esse respeito: “Há uma genuína renascença religiosa em andamento, mas a igreja está por fora”. Outro adolescente afirma: “A igreja poderia preencher uma grande necessidade da nossa sociedade – se se preocupasse menos com o divino e mais com a aplicação dos ensinamentos da Bíblia ao mundo de hoje”. Isso mostra que os jovens realmente se preocupam com a moral social, e são os únicos que têm a tenacidade de denunciar a hipocrisia que envolve este e outros aspectos da sociedade.

***

O problema é que a classe adulta nos últimos séculos tomou posse das rédeas sociais, destruindo o saudável equilíbrio que existia entre a energia da juventude e a experiência da velhice. Ao contrário do se podia fazer crer, a idade adulta não reúne ambas as condições, mas sim possui uma mistura fraca das duas. É mais uma fase de transição, a nível mental – mas considera-se um escalão etário legítimo, por ser, a nível físico, bem delimitada e a mais importante na vida de um ser humano; Mas cada um desses três escalões etários precisa da influência das outras para que a comunidade beneficie dos melhores aspectos de cada um. Os adultos, não tendo a iniciativa da juventude, e não sendo ainda totalmente experientes e emocionalmente maduros (como gostariam que fossem), acabam por refugiar-se nas regras e rotinas sociais que criaram, o que leva a que os jovens e os velhos sintam-se, naturalmente, postos de parte: os mais novos são remetidos desde pequenos para uma maratona de estudos, da qual em princípio, se fizerem tudo “como deve ser”, deverão sair escassos anos antes de entrarem na idade mágica (30 anos) a partir da qual devem resignam-se dizendo “Não há nada que eu possa fazer”; os mais velhos, assim que fazem 40, começam a ser excluídos do clube, o que se torna mais evidente a partir dos 50 anos, e em alguns casos abomináveis, os próprios filhos os enviam para asilos.

O poder governante (não falo a nível de liderança política, mas das massas) da sociedade reside portanto numa elite que engloba pouco mais que uma década da vida das pessoas, uma elite composta por pessoas que não se interessam minimamente por melhorar o sistema, mas sim pensam cada um por si com o objectivo egoísta de adquirir uma posição e estabilidade socio-económica, conforto e segurança para si e os seus, insistindo no entanto em defender valores completamente contrários, só para garantir a sua imagem social. É claro que deste modo não se evoluirá lá a grande velocidade, mas felizmente há excepções — pessoas que não se deixam abater pelo que a sociedade espera delas, e que mantêm a iniciativa, criatividade e vivacidade da juventude, ousando experimentar novas coisas, que, eventualmente, poderão resultar melhor que o já existente; apesar da forte repressão a esse admirável tipo de pessoas, é graças a elas que a sociedade evolui e melhora aos poucos.

***

É claro que não podemos ignorar os elementos perturbadores da revolução dos jovens: drogas, abandono ou mau aproveitamento escolar, delinquência, enfim. Mas é importante recordar que cabe aos pais darem à criança amor, atenção e disciplina justa, desempenhando assim um papel importante (não exclusivo, veja-se) na estabilidade da criança e na firmeza dos seus valores. Aliás, como todos sabem, as crianças aprendem muito mais com o que os pais fazem do que com o que eles dizem.

***

Portanto, em vez de procurar maneiras de afogar a revolução da juventude, a sociedade devia procurar meios de utilizar a energia e o idealismo dos jovens. O importante é levar a sério as suas críticas e considerar a possibilidade de rever algumas das premissas básicas nas quais a sociedade se baseia.
Temos a cada geração a oportunidade de combinar a idade e experiência dos adultos (e incluo a terceira idade neste escalão, pois falo de idade mental) com a energia e vitalidade dos jovens. Trabalhando com eles, quase tudo será possível.

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Friday, April 30, 2004

Sofistas Modernos

(Publicado no Artiletra nº 57, de Abril/Maio de 2004)

Saudações, caro leitor! Volto a escrever-te para desta vez falarmos um pouco da contradição que reina no actual sistema educativo, a nível praticamente global.

Penso que o leitor facilmente concordará que o actual sistema de educação, não só podia melhorar (como tudo nesta vida, o que é perfeitamente natural, visto que nada é perfeito), como também poderia estar em muito melhor estado pelas condições que temos hoje reunidas (o que já não é tão desculpável assim, visto basear-se na teimosa resistência humana em mudar.

Como refere Paulo Coelho em Brida, foi um erro que pôs o mundo em andamento: quando, nos primórdios da história planetária, depois de surgir a vida, os mares rapidamente ficaram “infestados” de células a reproduzir-se continuamente. E foi um erro de funcionamento numa das células que fez com que algo a diferenciasse das outras. Foi o início do que chamamos “evolução”. Desde então, após incontáveis “erros”, a vida chegou ao que é hoje. No entanto, nós na nossa típica presunção humana, insistimos na ideia que os mutantes são aberrações, apesar de tentativas de mudar essa ideia, por exemplo da saga X-Men.

É claro que nem todas as mudanças são positivas, mas é tropeçando que se aprende a andar. Se ficarmos parados, morreremos de inanição!

É por isso que defendo que o homem actual não deve ter medo de errar, de mudar. Até porque as mudanças que possamos operar na nossa espécie (estou a falar a nível organizacional, não genético) serão mudanças pensadas, racionais, enquanto que as mutações evolutivas são aleatórias, portanto, com muito mais chances de resultar erradamente. E no entanto veja-se aonde a Natureza nos trouxe com esse processo: temos uma biosfera variadíssima, e um eco-equilíbrio espantoso!

Assim, e entrando especificamente no tema acima intitulado, eu diria que umas mudanças na própria essência do processo educativo poderia ter resultados bastante bons. Falo concretamente do que se aprende quando se começa a aprender filosofia: a oposição que Sócrates fez ao regime de ensino dos Sofistas, que faziam os seus discípulos recitar de cor as obras dos mestres anteriores.

Mas, apesar de se enaltecer a posição de Sócrates, a verdade é que continua-se a ensinar exactamente (bem, quase) do mesmo modo: em português, em vez de se ensinar a ler, a interpretar e a escrever, fazem com que os alunos fixem nomes de classes de palavras, recitem regras gramaticais, etc. (não é à toa que se aprende muito melhor e mais rapidamente o francês se passarmos umas férias na França do que se passarmos cinco anos a estudá-lo na escola); em física, faz-se com que os alunos memorizem as várias fórmulas (nem um físico profissional tem-nas todas na ponta da língua, afinal os livros servem é para isso mesmo), em vez de favorecer o raciocínio lógico; em filosofia, passamos dois anos a fixar o que pensavam os filósofos ocidentais dos últimos milénios, e no fim, quantos dos alunos realmente se interessam por filosofar? Um, dois por turma, quando muito. O que se quer ensinar, afinal? Parece que querem formar professores dessas disciplinas, e não executantes dessas técnicas. E FPS, então? O que é feito da cidadania, do altruísmo, dos valores sociais que em princípio deviam ser desenvolvidos por essa disciplina?

De facto, não defendo uma reviravolta total – nem oito nem oitenta; mas a situação actual tende demasiado para o lado sofista; os testes escritos e a respectiva correcção só incentivam a memorização da matéria; o tempo que se perde a passar a matéria para o caderno não permite que os professores a expliquem convenientemente (os currículos são demasiado extensos); há todo um processo cíclico que desencoraja a colocação de dúvidas e certos professores comportam-se como se fossem infalíveis, metem medo aos alunos, pois têm a faca e o queijo na mão…

A consequência de tudo isto é que os alunos simplesmente perdem o gosto por estudar, perdem a curiosidade que tinham na infância, e estudam pela obrigação de apanhar boas notas (isto é, notas que lhes permitam passar), e não pelo prazer de aprender, característico dos seres humanos.

Isto é grave, pois a sociedade vai-se aos poucos deteriorando, cada vez menos pessoas desempenham a sua função com prazer, o desemprego aumenta por as habilitações exigidas excederem o que a maioria atinge… e, pior que tudo, o trabalho torna-se uma obrigação que se tem que cumprir para poder ganhar o pão de cada dia (interesse egoísta), em vez de ser o contributo do indivíduo para a sociedade (interesse altruísta). Isto sem falar no aumento da criminalidade…

Tudo isto é para dizer que mudanças urgentes são necessárias no sistema educativo; nós, aqui no nosso pequeno país, não precisamos esperar que os mais desenvolvidos tomem a iniciativa para depois os seguirmos. Dêmos o exemplo! Tenhamos a coragem de inovar, pois é esse espírito que leva o mundo para a frente… e para cima!

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Wednesday, December 31, 2003

Afinal?!?

(Publicado no Artiletra nº 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Mudando um pouco o assunto dos últimos artigos (ou melhor, das 5 partes do enorme artigo que foi o Non Siamo Soli, regresso agora às “origens”, divagando outra vez sobre o ensino.

O título não diz muito do tema, mas exprime bem a sensação que muitos educadores e educandos sentiram aquando do anúncio das novas medidas tomadas pelo Ministério da Educarão (… e Valorização dos Recursos Humanos, adiante VRH).

Diga-se de passagem, “novo” já é um lugar-comum no léxico do referido Ministério (o que é óptimo. Pois ousar mudar, ousar perfurar a inércia pública para o bem de todos, é a melhor qualidade que um ser humano pode ter). Mas, e apesar de a sua mais recente “bomba” ser, como já é costume, um conjunto de medidas maioritariamente acertadas, há que considerar uma minoria de factores negativos provenientes da mesma. esses factores reflectem uma linha de pensamento que remonta aos primórdios do sistema educativo (a nível da humanidade), factores esses que têm vindo incessantemente a ser combatidos pelos pedagogos (os verdadeiros!), mas no global sem sucesso.

Estou a falar dos métodos de avaliação. Mas antes de começar a falar especificamente das medidas do Ministério que falei, permitam-me uma breve exposição sobre o tema (é só o parágrafo seguinte).

Há, como sabem todos os que estão ligados ao sistema educativo, dois métodos de avaliação: a avaliação contínua e a avaliação formativa. Tal como diz o nome, a avaliação contínua diz respeito à análise que o professor faz do desempenho do aluno durante o ano escolar, incluindo como factores determinantes a participação, o interesse, o empenho, bem como os trabalhos de casa e de grupo (embora estes últimos se enquadrem mais, a meu ver, na segunda categoria de avaliação - ou pelo menos numa categoria intermédia. visto que o professor só dispõe das resultados, não podendo determinar com segurança o processo trabalho, que seria o mais importante), e também o comportamento.

Já a avaliação sumativa diz respeito, nomeadamente, às provas escritas que os alunos realizam ao longo do ano. Ora, com um pouco de raciocínio se chegará à conclusão que o primeiro método é muito mais fiável que o segundo, pois nas provas escritas há diversos factores que podem distorcer a informação real que o professor precisa para atribuir a nota merecida ao aluno.

Em primeiro lugar, há as cábulas, das quais derivam inúmeras situações inadequadas (se o aluno tem sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer fixa a matéria, quanto mais aprendê-la; se a estratégia falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, quando podia tirar mais se confiasse nas suas capacidades e se esforçasse um pouco);

Depois, temos a cópia, um parente próximo da cábula cujas consequências são similares, dispensando assim a sua apresentação; temos ainda o facto de muitos alunos ficarem nervosos com as provas e/ou não serem capazes de se exprimir convenientemente por escrito, o que pode colocar a sua nota abaixo da merecida, só por dificuldades de comunicação – para evitar isso, que tal regressar às boas e velhas provas orais? Em conjunto com as escritas, forneceriam dados muito mais fidedignos sobre as capacidades do aluno, por tornarem impossíveis muitas das “estratégias baixas” acima referidas, e por permitirem uma comunicação muito mais eficiente entre professor e aluno (todos sabemos o quão mais fácil é dizer uma coisa que escrevê-la).

Por último, mas não menos importante (pelo contrário!), há o grande mal das provas: elas exigem apenas uma memorização temporária da matéria, após o que quase tudo é esquecido (mas não influenciando esse esquecimento em nada a nota do aluno). Ou seja. as provas fazem dos alunos meros papagaios. Palram, palram, mas não sabem do que falam. Não entendem nada.

Veja-se: que sentido faz, na disciplina de Filosofia, elogiar a revolução educativa de Sócrates, que quebrou o reinado “papagaial” dos Sofistas, quando até nessa disciplina temos que fazer provas para provar que fixámos toda a matéria?? Não há dúvidas; por mais que não se queira admitir, as provas reprimem o aprendizado, favorecendo a memorização.

Ora, voltando como prometido à medida do Ministério, tem-se que: a avaliação sumativa passa a contar 80% para a nota do trimestre, enquanto que a avaliação formativa só conta com 20%. Com uma conta simples, facilmente obteremos as percentagens dos componentes da avaliação formativa: cada um valeria, em média, 4% para a nota!!! QUATRO POR CENTO!!!!!!

Quem se preocupará com a participação, o interesse, o empenho, o comportamento… 4%?? Que se lixe! Vamos mas é fixar a matéria para a prova, que assim temos a nota garantida. Ou melhor, a matéria é falível: vamos fazer cábula, isso sim! Obrigado, Ministério da Educação! Assim, a nossa vida esta mesmo facilitada!

Será que os responsáveis não vêm que estão fomentando o não-aprendizado? Não vêm que desmotivam os alunos a serem, efectivamente, bons alunos? Não vêm que assim, mesmo os raros professores de boa vontade que tentam fazer uma avaliação justa ficam de mãos amarradas? Não vêm que assim, ACABAM COM AS MÍSERAS PROBABILIDADES DE SE TER ENSINO A SÉRIO EM CABO VERDE??? Ou será uma estratégia para ter menos bons alunos a disputar as bolsas de mérito?…

Caro pessoal do Ministério: vocês acostumaram-nos com medidas acertadas; agora paguem as consequências: nada de retroceder. Não avançar é aceitável (sois humanos). Mas retroceder já não vos é permitido. Bzot sabê manera k’kriol ê…

*   *   *

See you soon, my friends!

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Wednesday, December 10, 2003

Non Siamo Soli - Parte V

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(Publicado no Artiletra nºs 54, de Novembro de 2003,
55, de Dezembro de 2003,
e 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Parte V – Mensagens Interestelares

1. O Início

É, certamente, muito difícil determinar uma data concreta para o início do SETI (área da ciência que trata da busca de inteligência extraterrestre, normalmente feita por rádio). Tal como disse na primeira parte deste artigo, a fascinação por outros mundos remonta à antiguidade. Mesmo a procura por sinais de rádio já era levada a cabo pelos pioneiros da rádio. Mas a procura moderna e científica por inteligência extraterrestre tem uma data clara de início: um pequeno artigo de duas páginas, publicado por Philip Morrison e Giuseppe Cocconi na revista Nature em 19 de Setembro de 1959. Intitulado “Searching for Interstellar Communications” (em busca de comunicações interestelares), é considerado o documento fundador da moderna SETI.

 

Segundo Morrison e Cocconi, as frequências mais racionais para comunicações interestelares situar-se-iam entre 1 e 10.000 MHz. São essas as frequências nas quais a atmosfera planetária interfere menos com os sinais electromagnéticos, e onde o ruído galáctico (ondas de rádio emitidas pelas estrelas) atinge o mínimo. Anos mais tarde foi descoberto que essas são também as frequências nas quais há menor radiação cósmica de fundo (CBR – Cosmic Background Radiation), mas esta não era conhecida na altura.

Mas uma margem de frequências de 10.000 MHz continua sendo de longe demasiado extensa para ser usada numa busca sistemática. Morrison e Cocconi fizeram então uma proposta que determinou o curso da SETI até hoje: os extraterrestres, argumentaram, usam em princípio a frequência de 1420 MHz (comprimento de onda de 21 cm). Esta é a frequência de emissão do átomo do elemento mais abundante no universo – o hidrogénio. Seria uma frequência aconselhável, pois qualquer observador do universo a conheceria. Qualquer busca sistemática deveria começar aqui, até porque o hidrogénio é um dos componentes da água, composto cujo estado líquido é indispensável a qualquer forma de vida conhecida. Os autores terminam o artigo com um desafio optimista aos cépticos: “A probabilidade de sucesso é difícil de calcular; mas se nunca chegarmos a procurar, a probabilidade é zero.”

Mais tarde, outro pioneiro da SETI, o vice-presidente da Hewlett-Packard Bernard Oliver, adicionou outra frequência “mágica”, 1662 KHz, a frequência de emissão de outra molécula muito comum – OH, ou hidróxido. O hidrogénio e o hidróxido combinam-se para formar H2O – água. Sendo que 1662 KHz partilha as vantagens de 1420MHz, por estar situada numa zona relativamente “calma” do espectro electromagnético, Oliver sugeriu que a banda entre estas duas frequências continha características únicas, promissoras de detecção de um sinal extraterrestre: “Certamente que a banda situada entre as ressonâncias dos produtos da dissociação da água está idealmente situada e é um local inigualavelmente poético para a vida baseada na água procurar o seu género – onde o encontraremos? No water-hole, é claro!” Desde então, o “water-hole” (buraco da água) tem sido usado como referência para as buscas de sinais de inteligência extreterrestre.

Cocconi contactou Sir Bernard Lovell, do rádio-observatório Jodrell Bank, o maior radiotelescópio do mundo, na altura, e sugeriu o uso de algum do tempo de observação do telescópio para procura de um sinal extraterrestre. Sir Bernard era, porém, um céptico, e nada veio a ser feito. A primeira busca científica de sinais rádio extraterrestre foi deixada para outros.

2. O Projecto Ozma

Mais ou menos pela mesma altura que Morrison e Cocconi especulavam acerca de sinais extraterrestres, um jovem astrónomo chamado Frank Drake estava levando a cabo as suas próprias investigações sobre comunicações interestelares. Drake era um membro do pessoal no Observatório Nacional de Radioastronomia, em Green Bank, na Virgínia.

Como membro júnior do pessoal em Green Bank, Drake participava na maioria dos projectos de radioastronomia no NRAO (abreviatura de National Radio Astronomy Observatory). O seu fascínio era, contudo, a busca de civilizações extraterrestres. Ele teve a sorte de se encontrar, num dos almoços do pessoal, com Lloyd Berckner, director de acção do NRAO, que lhe deu a possibilidade de por os seus projectos em prática. Drake nomeou a aventura “Projecto Ozma”, inspirado na Princesa Ozma, do clássico de Frank L. Baum, “O Feiticeiro de Oz”.

Dois eventos combinaram-se para dar impulso ao projecto Ozma. Um foi a eleição de Otto Struve como o primeiro director permanente do NRAO. Struve ficara famoso pelo seu trabalho de análise da rotação estelar, a qual ele defendeu que poderia indicar a presença de planetas orbitando essas estrelas. Na mente de Struve, era só um pequeno passo de planetas extrasolares para inteligência extraterrestre: ele apoiou o projecto Ozma de todo o coração. Enquanto que Drake e os seus colegas, receando pela sua respeitabilidade académica e pela sua paz de espírito, escolheram manter secreto o projecto, Struve imediatamente divulgou o projecto no MIT. A medida que a onda de publicidade avançava, também o faziam o apoio e o suporte públicos, bem como valiosas doações em dinheiro e equipamento.

O outro evento foi a publicarão do artigo de Morrison e Cocconi na Nature em Setembro de 59. Drake ficou felicíssimo por tão proeminentes pesquisadores estarem a trabalhar numa linha próxima da sua. Especificamente, Morrison e Cocconi forneceram o suporte teórico para a busca na mesmíssima frequência que Drake escolhera meramente por razoes económicas — 1420 MHz, a frequência a que a maioria dos telescópios vinha programada da fabrica, pelo que trabalhar nessa frequência não requereria dinheiro em alterações do equipamento.

Para 0 seu tempo, Ozma possuía tecnologia de ponta. Os investigadores usavam um amplificador paramétrico experimental, doado pela Microwave Associates, bem como a nova tecnologia maser. Combinando estes com os 85 pés de diâmetro do radiotelescópio, Drake e a sua equipa atingiam um grau de sensibilidade mil vezes superior que qualquer outro até então conseguida. Os restantes equipamentos eram convencionais: um comum gravador de cassetes e um traçador de gráficos. No último momento, a equipa do Ozma comprou também um altifa1ante, pelo sim, pelo não…

Ozma iniciou as operações a 8 de Abril de 1960, com o objectivo de procurar por sinais vindos das duas mais próximas estrelas do tipo do Sol – Tau Ceti e Epsilon Eridani.

O Projecto Ozma operou por um mes, parou por outro, e por fim retornou para um (último) mes de observações. Ao todo, devotou 200 horas de observação a estes dois alvos, Tau Ceti e Epsilon Eridani. Scanneou 7200 canais divididos igualmente entre as duas estrelas, coda um com uma largura de banda de 100 Hz. Toda a busca foi conduzida a volta da frequência de 1420MHz, com desvios para os dois lados para procurar pelas chamadas variações de Doppler na frequência de transmissão, devido aos movimentos relativos da Terra e do suposto planeta de origem – efeito previsto pelo artigo de Morrison e Cocconi. Apesar de o Ozma não ter encontrado um sinal de uma sociedade extraterrestre, a busca tornou-se no modelo para todos os futuros projectos da SETI.

3. A Ordem dos Golfinhos

Em Novembro de 1960, um grupo altamente seleccionado de físicos e engenheiros encontrou-se na Virgínia para uma pequena conferência informal. O encontro realizou-se em Green Bank sob os auspícios da Academia Nacional de Ciências, para discutir uma questão que estava ainda a ganhar respeitabilidade científica: Quais as perspectivas de estabelecer contacto com outros mundos? Pode ter-se uma ideia do quão arriscado era considerado o tópico, pelo facto de ter sido decidido não anunciar a conferência, e não publicar nada acerca dela, após a mesma.

A conferência foi organizada por J.P.T. Pearman, do Quadro de Ciência da Academia Nacional de Ciência. Os outros dez convidados incluíam Dana Atcheley, presidente da Microwave Associates, (que doara o amplificador paramétrico ao Projecto Ozma); Melvin Calvin, um bioquímico de renome mundial, que estudou as origens da vida; Bernard Oliver, vice- presidente para a Pesquisa e Desenvolvimento da Hewlett-Packard; Carl Sagan, então um jovem astrónomo na conceituada Universidade de Cornell; Phillip Morrison e Giuseppe Cocconi, autores do artigo da Nature que lancou as bases da SETI moderna; Frank Drake, do famoso Projecto Ozma; Su Shu Huang, astrónomo e especialista em planetas extrasolares, e o seu professor de formação, Otto Struve, director do observatório de Green Bank e anfitrião da conferencia; e John Lilly, que publicara recentemente o seu controverso “Man and Dolphin”, argumentando que os golfinhos são uma espécie inteligente. Foi num tributo amigável ao celebrado trabalho de Lilly que os conferencistas autodenominaram-se “A Ordem dos Golfinhos” (The Order of the Dolphins). Para o desenvolvimento da SETI, o encontro foi um evento decisivo. Pela primeira vez, a possibilidade de comunicação com extraterrestres estava sendo seriamente discutida por alguns dos mais proeminentes cientistas do mundo. Tão proeminentes, de facto, que um deles, Melvin Calvin, foi premiado com o Prémio Nobel de Química no decurso da conferência.

4. A Equação de Drake

O encontro de Green Bank foi também notório por ter protagonizado a primeira utilização da famosa fórmula que veio a ser conhecida como a “Equação de Drake”. Quando Drake formulou esta equação, ele não fazia a mínima ideia de como ela seria a base das teorias da SETI décadas depois.
De facto, ele pensou nela como uma ferramenta de organização — um modo de organizar os diferentes assuntos a ser discutidos na conferência de Green Bank, e levá-los a ser a questão central da problemática da vida inteligente no universo.

A grande questão do número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia podia, na visão de Drake, ser reduzida a sete tópicos menores:

  • A taxa de formação de estrelas na nossa galáxia na altura em que o nosso Sistema Solar se formou (R*);
  • A fracção de estrelas que tem planetas orbitando a sua volta (fp);
  • O número de planetas por estrela capazes de sustentar vida (ne);
  • A fracção desses planetas na qual a vida efectivamente se desenvolve (fl),
  • A fracção dos planetas com vida na qual a inteligência se desenvolve (fi);
  • A fracção de fi cuja(s) espécie(s) inteligentes têm meios para estabelecer comunicação interestelar (fc);
  • O tempo de vida dessas civilizações (L);

Representando o número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia por N, e multiplicando os diferentes factores, obtemos a famosa Equação de Drake:

N=R*.fp.ne.fl.fi.fe.L

A equação serviu bem o seu propósito na conferência de Green Bank. Forneceu um método de trabalho que possibilitou a todos os investigadores presentes, que tinham diferentes especialidades, a oportunidade de contribuir com o seu conhecimento específico para o equacionamento do problema, e ao mesmo tempo ajudar na questão geral do encontro.

Em breve, porém, para a surpresa de Drake, a equação tornou-se muito mais do que isso. A curta fórmula matemática mostrou-se irresistível para os promotores da SETI: reduzia uma enorme e quase inimaginável questão especulativa a uma série de questões específicas. Enquanto que a questão geral parecia demasiado ampla e especulativa, os sete componentes da fórmula pareciam emprestar-se a análise científica. Posta como uma fórmula, a questão adquiria um aspecto matemático e quantitativo. Que melhor maneira de ganhar respeitabilidade científica que formular uma equação matemática?

Os conferencistas de Green Bank completaram a equação com os conhecimentos das diversas áreas dos participantes. Apenas sobre a taxa de formação de estrelas havia informações existentes, pelo que a conferência acordou em fixá-la em cerca de uma estrela por ano. Otto Struve, o especialista em planetas extrasolares, deu uma opinião optimista sobre o número de planetas orbitando outras estrelas. Su-Shu Huang assentiu positivamente sobre o número de planetas com capacidade de desenvolver vida ser bastante comum, e Calvin e Sagan sugeriram que nos planetas onde as condições estivessem reunidas, a vida surgiria mais tarde ou mais cedo. Lilly opinou optimisticamente sobre o desenvolvimento de inteligência em planetas que alberguem vida, baseado no seu trabalho com os golfinhos. Os dois últimos elementos da equação estavam nos domínios das ciências sociais: que civilizações estão desenvolvendo esforços de comunicação com outras civilizações, e quanto tempo duram as civilizações sem se autodestruírem. Morrison lamentou a ausência de sociólogos na conferência, mas lembrou que mesmo estes teriam dificuldade em responder a tão grandes questões, e sugeriu que, baseada na experiencia da Terra, as civilizações tem tendência a desenvolver tecnologia, e que a curiosidade e a necessidade de comunicar pareciam ser universais. E, partindo do princípio que uma civilização conseguisse superar a sua autodestruição nuclear, a sua duração seria “infinita”.

Em suma, elaborando e resolvendo a equação, chegaram a conclusão que o número de planetas comunicáveis poderia ir de l000 a mil milhões, só na nessa galáxia. Com essa base, recomendaram a busca por sinais rádio extraterrestres, usando um radio-telescópio de 300 pés, potentes computadores, e paciência para procurar por pele menos 30 anos.

5. Buscas Recentes

É um dos estranhes factos da história da SETI, que, apesar do crescente literatura e interesse público no assunto, uma década inteira passou antes que a recomendação de acção de Green Bank fosse respondida. Enquanto que algumas buscas foram lançadas na União Soviética sob a liderança do radioastrónomo Iosif S. Shklovskii, nenhum sucessor imediato do projecto Ozma emergiu no Ocidente. Foi apenas em 1971 que uma busca foi finalmente lançada. Tratava-se do que veio a ser conhecido como o projecto Ozpa, pelas suas semelhanças com o Ozma. No entanto, e apesar dos meios serem de longe melhores, o tempo de escuta foi substancialmente menor. O próprio promotor da pesquisa, G. L. Verschuur, era um céptico na matéria – por estranho que pareça!

Foi depois lançado outro projecto, denominado Ozma II, que, de 1972 a 1976, pesquisou 674 estrelas por mais de 500 horas.

Nas três décadas seguintes, foram lançados outros projectos de menor envergadura, que duraram pouco. Mas, nesse tempo, importantes acontecimentos se deram.

6. “Wow!”

A mais longa e também uma das mais famosas buscas foi levada a cabo com o uso do gigantesco radiotelescópio “Big Ear”, no Ohio State University. O “Big Ear” não era um telescópio comum: em vez do familiar “prato”, ele era composto por uma superfície plana de alumínio do tamanho de três campos de futebol, com um reflector gigante de cada lado – um plano e um parabólico. A sua sensibilidade era equivalente ao de um disco de 172 pés. De 1973 até a sua demolição em 1998 (para dar lugar a um campo de golfe), a sua função mais importante foi uma contínua e dedicada busca SETI na linha de hidrogénio.

O mais famoso momento na história do Big Ear, o qual ganhou um lugar de honra nos anais da SETI, aconteceu na noite de 15 de Agosto de 1977. Tal como nas outras noites, enquanto o Big Ear ia pesquisando os céus em busca de um sinal extraterrestre, as suas observações iam sendo imprimidas: uma longa lista de letras e numeres estava continuamente imprimida, uma lista para cada um dos cinquenta canais pesquisados pele telescópio. Uma lista de caracteres apareceu, gravando uma transmissão incomum, na frequência de canal 2: “6EQUJ5″. Isto chamou a atenção de Jerry Ehman, um voluntário do Big Ear e professor na Franklin University, em Columbus, que estava monitorizando as leituras nessa noite.

Ele circulou e código para referência posterior, e juntou um simples comentário nas margens: “Wow!” A série “6EQUJ5″ descrevia a intensidade do sinal recebido por um curto lapso de tempo. No sistema usado na altura no Big Ear, cada número de l a 9 representava a intensidade do sinal em relação ao ruído de fundo. Para estender a escala, o pessoal adicionara letras, representando cada uma, de A a Z, um incremento no nível do sinal. 6EQUJ5 representava um sinal que crescera em intensidade até o nível U, e depois gradualmente decrescera. Ou seja, o sinal subira de o a 30 “sigmas” sobre o ruído de fundo, decrescendo outra vez ate zero, tudo num intervalo de 37 segundos.

Dois aspectos desse sinal imediatamente chamaram a atenção de Ehman e do director do projecto, John Kraus, que viu os resultados na manhã seguinte. Em primeiro lugar, 37 segundos era precisamente o tempo quo o Big Ear levava a pesquisar um ponto determinado no céu, devido à rotação da Terra. Por isso, qualquer sinal do espaço deveria seguir o padrão do sinal Wow: aumentando e decrescendo em 37 segundos. Isto praticamente eliminou a possibilidade de o sinal se tratar de interferência rádio de origem terrena. Em segundo lugar, o sinal não era contínuo, mas intermitente. Kraus e Ehman sabiam que, por o Big Ear ter dois reflectores cm ângulos diferentes, um sinal do céu deveria aparecer num, depois desaparecer, e depois aparecer no outro, quando tivesse atingido o seu raio de acção. Mas o sinal apenas apareceu num dos reflectores e não no outro, como se tivesse sido “desligado” durante o intervalo entre as duas observações.

Um sinal forte, focado e intermitente vindo do espaço: poderia o Big Ear ter detectado um sinal extraterrestre? Desde 1977 varias tentativas foram feitas para voltar a descobrir o sinal Wow. Mas até hoje, ninguém sabe a origem do mais forte e claro sinal alguma vez detectado numa pesquisa SETI. Sendo indubitavelmente artificial, e quase de certeza de origem celestial, Jerry Kraus especula sobre a possibilidade de o sinal ser de uma nave espacial humana, da qual o pessoal do Big Ear não tenha tido conhecimento, isso certamente o tornaria num sinal espacial inteligente, mas não um extraterrestre. E, claro, resta a possibilidade de se tratar de um verdadeiro sinal alienígena.

Mas enquanto o sinal não for novamente detectado, poderemos nunca vir a saber.

7. NASA

Enquanto que a maioria das buscas SETI era modesta, este não era sempre o caso. Os mais ambiciosos projectos SETI foram levados a cabo pela NASA, que tinha acesso a fundos e recursos numa escala completamente diferente de quaisquer outras buscas. Apesar de a NASA ter levado a SETI a escalas totalmente inimagináveis pelos pioneiros do Ozma, ao mesmo tempo, mostrou os riscos da dependência em fundos do governo: durante os tempos de cortes de orçamento em Washington, o projecto SETI mostrou-se extremamente vulnerável à mudança de ventos políticos. Os dois maiores projectos da NASA na área foram cancelados passado menos de um ano após o seu implemento, em movimentos liderados pelo senador Richard Bryan, que encabeçou a carga contra os gastos do governo em pesquisas SETI. Apesar dos enormes esforços de Carl Sagan (já um importante cientista de renome mundial, c um dos maiores defensores da SETI) para manter o apoio governamental à SETI, que como frutos obtiveram uma década a mais para esse suporte, a esta altura os cépticos levaram a melhor.

Após um investimento da ordem de 60 milhões de dólares em 23 anos, e menus de um ano de operações concretas, o projecto SETI da NASA estava inesperadamente morto. No entanto, apesar do enorme desapontamento dos pesquisadores e entusiastas, pode-se dizer que todo esse investimento não foi em vão: a maioria dos recursos adquiridos durante esses 23 anos, e que de outro modo seria impossível obter, não foram desperdiçados: passariam para o privado SETI Institute. Este usou-os então para lançar a sua própria busca, o bem nomeado projecto Phoenix.

8. Organizações SETI

Quando o financiamento governamental foi cancelado, os grupos financiadores minoritários do projecto SETI avançaram para salvar o que pudessem e preservar a pesquisa SETI. Duas destas organizações destacaram-se em particular pela sua liderança nas acções de preservação da SETI nesses tempos difíceis: o SETI Institute, sediado em Silicon Valley, na Califórnia, e a Planetary Society, com sede em Pasadena.

O SETI Institute, fundado em 1984 para financiar projectos SETI, e de entre cujos fundadores se encontram Frank Drake, Bernard Oliver, etc., tornou-se no principal financiador da busca localizada de sinais alienígenas.

Os esquisadores do SETI Institute baseiam as suas buscas no método localizado, ou seja, procuram em estrelas específicas previamente seleccionadas, podendo assim cobrir grandes intervalos de frequência, que não apenas a do hidrogénio. Para a sua pesquisa, os cientistas do projecto Phoenix compilaram uma lista de 1000 estrelas que reúnem as melhores condições de abarcar civilizações extraterrestres, a uma distância de até 200 anos-luz, e mais velhas que 3 bilhões de anos. São também adicionadas à lista as estrelas que se descobre possuirem planetas. Cada estrela monitorada pode ser observada em comprimentos de onda entre 1000 e 3000 MHz. Os computadores da Phoenix podem reconhecer um sinal com apenas 0,7 Hz. Isto é muito importante, pois nenhuma radiação natural conhecida tem menos de 300 Hz. Desde 1998, o Projecto Phoenix tem utilizado o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico – o maior do mundo, com 305 metros (1000 pés).

Mas enquanto que o SETI Institute mantém uma política de busca localizada, a Planetary Society apostou na busca de céu inteiro, utilizando apenas frequências próximas de 1420MHz. Desde 1996 a Planetary Society tem suportado o Projecto SERENDIP, uma pesquisa radio de céu inteiro liderada por Dan Werthimer, da Universidade de Berkeley. O SERENDIP também usa o radiotelescópio de Arecibo, mas por mais tempo que o projecto Phoenix, pois enquanto este tem que aguardar seis meses até que o telescópio esteja apontado na direcção das estrelas listadas, o SERENDIP pode aproveitar qualquer direcção em que o Arecibo esteja voltado.

9. Hoje

Novos projectos estão sendo desenvolvidos hoje em dia, criando inovações na pesquisa SETI.

Um deles é o famoso Seti@home, um projecto financiado pela Planetary Society que utiliza dados recolhidos no âmbito do SERENDIP de modo a serem tratados por computadores pessoais de pessoas de todo o mundo. O projecto originou-se pela falta de computadores potentes o suficiente para permitir a análise de todos os dados recolhidos pelo SERENDIP. Assim, os que viriam a ser os fundadores da Seti@home, apareceram com esta ideia fantástica: dividir a quantidade monstruosa de dados em pequenos “pacotes”, que, via internet, seriam distribuídos a pessoas – pessoas comuns, como nós – cujos computadores pessoais analisariam-nos e enviariam de volta o resultado por internet. Assim nasceu o Seti@home, um projecto a todos os títulos bem sucedido com mais de 4,5 milhões de utilizadores em todo o mundo, possibilitando a análise de dados a uma escala jamais conseguida mesmo pelos mais potentes computadores do mundo (só para ter uma ideia, todo o trabalho já realizado representa mais de 1,6 MILHÕES DE ANOS de trabalho, se fosse um único computador). Trata-se de um simples programa (grátis) cujo download pode ser feito a partir do site http://setiathome.berkeley.edu, e que funciona como screensaver, ou seja, só trabalha quando o utilizador estiver ausente. [Foi com surpresa que descobri que há mais de 200 utilizadores de Cabo Verde – aos quais apressei-me a juntar (afinal, é a única maneira de o “mortal comum” fazer algo para ajudar na SETI) e com os quais eu gostaria de contactar – quase todos os países têm um net group, menos o nosso. Se algum de vocês, leitores, for ou pretende vir a ser utilizador do programa, contacte-me no email acima escrito]

Outro desses projectos inovadores é o SETI League, composto por cerca de 1300 estusiastas, cada um com o seu próprio radiotelescópio amador, formando uma rede que equivale a um grande radiotelescópio. O Objectivo da League é chegar a 5000 utilizadores por todo o mundo.

Por último, falarei de um inovador projecto da Planetary Society. Esta pretende alargar a busca a outras frequências que não só as do rádio, pelo que criou a Optical SETI, um projecto que desde 1998 procura por possíveis sinais de luz concentrada (laser) vindos do espaço. Desde 2002 que é utilizado um observatório em Harvard, Massachusetts, que começou a ser construído em 2000, especialmente dedicado a esse tipo de pesquisa.

10. Conclusão

A pesquisa SETI sofreu uma severa queda com o cancelamento do programa da NASA em 1993, mas graças à liderança da Planetary Society e do SETI Institute, a empresa recuperou rapidamente. Já livre da dependência política e financeira, a SETI pós-NASA é um empreendimento mais modesto, certamente, mas muito mais diverso, mais aceite pela sociedade e por instituições académicas de todo o mundo, e – como o sucesso fenomenal do seti@home já demonstrou – remarcadamente popular perante o grande público. A SETI é hoje uma empresa mais viável que alguma vez fora. E, apesar de não ter sido detectado nenhum sinal alienígena até agora, a esperança não morre, e a busca continua…

Com informações tiradas e extractos adaptados de:

- Amir Alexander, The Search for Extraterrestrial Intelligence: A Short History
- Brian Jones, Exploração do Espaço, Editorial Estampa/Círculo de Leitores, colecção Biblioteca de Informação Juvenil
- Harry Harrison, Universo Cativo, Editora Caminho, colecção Policial/Ficção Científica (ficção)
- Isaac Asimov, “Ir até Onde Quisermos”, in Ao encontro dos Extraterrestres, Biblioteca do Ano 2000
- Jim Wilson, “Alien World”, in revista Popular Mechanics, vol. 176, nº 7, Julho 1999
- Mariette DiChristina, “Star Travelers”, in revista Popular Science, vol. 254, nº 6, Junho 1999
- Michael Carroll, “Worlds Away”, in revista Popular Science, vol.255, nº 1, Julho 1999
- Paul Davies, Como Construir uma Máquina do Tempo, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Robert Forward, “Não Digas Que é Um Sonho”, in revista Quo, nº 7, Abril 1996
- Roberto Capuzo Dolceta e Barbara Galavoti, O Universo – Origens, Teorias, Perspectivas, Caminho, colecção Bravo
- Carl Sagan, As Ligações Cósmicas, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Poul Anderson, A Hora da Inteligência, Edição Livros do Brasil, colecção Argonauta (ficção)
- Susan Yoder e Major Benton, A Sabedoria dos Golfinhos, editora Sinais de Fogo

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Tuesday, September 30, 2003

Non Siamo Soli - Parte IV

< Parte I, II e III | Parte V>

(Publicado no Artiletra nº 53, de Setembro/Outubro de 2003)

Parte IV – Uma Longa Viagem

Um problema que tem vindo a afectar as explorações espaciais é o da propulsão. É que é preciso muita energia para obter a velocidade de escape da gravidade da Terra (cerca de 40.000 km/h, ou 11 m/s). Além disso, os métodos que hoje utilizamos (combustão de hidrogénio) são, além de caros, lentos – pois, considerando as enormes distâncias interestelares, levaríamos 100 mil anos para atingir a estrela mais próxima.

Assim, a primeira medida a ser tomada de modo a possibilitar viagens mais longas no espaço (e consequentemente o contacto com outras civilizações mais afastadas – a não ser que estas possuam os meios necessários para virem elas ter connosco) é o tratamento da questão do tempo, pois não é prático que uma viagem dure mais que o tempo de uma vida humana, a despeito das inúmeras histórias de ficção científica que idealizam uma nave cuja viagem dure várias gerações, ao longo das quais a tripulação vai se regenerando, como se fosse uma comunidade isolada na Terra, ou então viagens com os tripulantes em hibernação (congelados, num processo chamado criogenação, que significa, literalmente, “conservação pelo frio”). No entanto, correr-se-ia o risco de a tripulação perder o interesse inicial da missão e, por exemplo, querer voltar para a Terra, que, já para a segunda geração, não passaria de lembranças nostálgicas que lhes foram contadas pelos progenitores – isso no primeiro exemplo –, ou então, de não haver nenhum cérebro humano para tomar decisões se ocorresse alguma situação crítica, considerando que a nave estaria sendo comandada por um computador durante a hibernação da tripulação – na segunda hipótese. Por outro lado, seria a própria população na Terra que possivelmente perderia o interesse pela missão, ou porque o objectivo da mesma já perdera a actualidade, ou porque os mentores da missão já estariam mortos, ou simplesmente por terem esquecido – sem contar que a língua teria evoluído, quiçá até impossibilitando a troca de informações. Portanto, parece-me claro que se deveriam descartar em primeira hipótese as viagens cuja duração ultrapasse o tempo de vida humano.

Posto isto, podemos enumerar 2 vias de realizar essas viagens.

A primeira é aumentar o tempo da vida humana. Essa ideia não é nova – embora tenha surgido por outras razões –, remontando à antiguidade, ou até, quem sabe, à Pré-História (quem sabe quais foram as aspirações dos nossos antepassados?), tendo nós um elucidativo e relativamente bem conhecido exemplo à mão: a alquimia, da qual um dos três objectivos principais era encontrar o elixir da vida eterna. Visto que uma viagem espacial mais ou menos longa e dentro dos limites de aceleração suportados pelo corpo humano demoraria mais que o tempo de vida de um ser humano, essa seria uma questão a ponderar – até porque teremos em breve essa possibilidade, com a rápida evolução da ciência genética. É claro que se deverão considerar bem os prós e os contras, mas isso caberá a quem decidir, pelo que, e devido também a não ser esse um tema fundamental para o presente artigo, não vou me alongar mais sobre o assunto.

A segunda via (repare-se que estas vias não são mutuamente exclusivas, podendo ser combinadas para obter melhores resultados) diria respeito ao aumento da velocidade, mas dentro dos limites acima referidos – embora na prática se pudesse acelerar um humano até velocidades próximas da da luz, desde que a aceleração não fosse acentuada – naturalmente, isso implicaria uma longa distância, suficiente para que a velocidade, em “lento” acréscimo, atinja o píncaro pretendido, na primeira metade da viagem, passando a outra metade a desacelerar à mesma razão.

Antes de me alongar mais sobre este assunto de aumentar a velocidade, gostaria de chamar a atenção para um aspecto importante desta questão: trata-se da relatividade do tempo a altas velocidades. É que, segundo a teoria da relatividade geral de Einstein, quanto mais se se aproximar da velocidade da luz, mais se distorce o tempo, que passaria de modo acentuadamente diferente para o viajante e para o espectador na Terra. Por exemplo, se a velocidade aumentar para metade da velocidade da luz, o tempo será 13% mais lento. Se a velocidade for de 99% da velocidade da luz, o tempo passaria 7 vezes mais devagar – um minuto ficaria reduzido a 8,5 segundos; a 99,9% o factor de distorção do tempo é de 22, e, a 99,999%, o tempo seria 700 vezes mais lento. Mas o tripulante de uma nave a essa velocidade não sentiria que o tempo estaria a passar mais lentamente, como se a vida estivesse a decorrer em câmara lenta – de facto, o seu próprio pensamento seria mais lento, ao mesmo ritmo: tudo estaria a decorrer normalmente para ele. No entanto, se o hipotético viajante pudesse ver um relógio na Terra, veria os ponteiros a andar num ritmo estranhamente rápido. Um famoso exemplo desse efeito é o conhecido Paradoxo dos Gémeos: dois gémeos, João e Pedro, resolveriam fazer uma experiência, indo o Pedro para o espaço numa viagem a uma estrela a 10 anos-luz de distância, ficando o João na Terra. Como a viagem se realizaria a 99% da velocidade da luz, para o Pedro a viagem só duraria 3 anos, devido ao tempo que para ele passaria mais lentamente, enquanto que para o João e para todo o resto do universo que estivesse a mover-se a velocidades muito mais baixas, passariam 20 anos – 10 para a ida e 10 para o regresso. Assim, quando o Pedro regressasse, teria envelhecido apenas 3 anos, estando por outro lado o João 20 anos mais velho. Já não seriam, portanto, gémeos, com uma diferença de 17 anos entre ambos. E se a viagem tivesse decorrido a 99,999% da velocidade da luz, o Pedro poderia chegar ao centro da galáxia em 28 anos… enquanto que na Terra teriam passado já 20.000 anos. Este exemplo é elucidativo o suficiente para servir de alerta a possíveis situações resultantes de viagens a velocidades próximas da luz.

Outro grande problema também relacionado com Einstein é que, além de alterar o tempo, velocidades próximas da da luz aumentam a massa da nave. Isto acontece por, tal como demonstra a mais conhecida fórmula de Einstein, a equação E=mc2, a energia poder ser transformada em massa e vice-versa, sendo o factor de câmbio o descrito na referida equação. De facto, um corpo em movimento em movimento possui, além da energia que a sua massa representa, a energia cinética que o seu movimento lhe confere. Assim, quanto mais se acelera um corpo, maior será a sua energia total, e, portanto, a massa correspondente, sendo por isso necessário cada vez mais combustível (energia) para o mover. Este fenómeno acontece com todos os corpos em movimento, mas como as velocidades usuais são muito baixas, não se produz energia cinética suficiente para alterar significativamente a massa do corpo. Na verdade, mesmo uma pequena quantidade de massa representa uma quantidade enorme de energia (o que se pode confirmar pelo poder devastador das bombas atómicas, que utilizam este princípio), enquanto que, por outro lado, apenas muita energia acumulada pode ser convertida em quantidades significantes de massa, o que acontece por o factor de conversão na equação de Einstein, c2 (c é a velocidade da luz, quase 300.000 km/s) ser tão grande (300.00 já o é, quanto mais 300.000 ao quadrado!). Mas, por outro lado, há que considerar a outra face da questão, pois no vácuo espacial praticamente não há atrito, pelo que uma nave a uma velocidade determinada continuaria em frente quase em movimento uniforme (se não colidir com nenhum asteróide ou coisa parecida) devido à inércia. E, não havendo influências gravíticas significativas, a aceleração exigiria muito menos energia que a que, pelo senso comum, poderíamos deduzir que fosse necessária para uma nave do tamanho das actuais.

Esclarecido este ponto, analisemos agora mais de perto as diferentes formas de aumentar a velocidade.

Absorção magnética de combustível (hidrogénio) do espaço – este método consiste em construir naves que possuam uma espécie de funil na parte frontal, com 3000 km de raio, que por efeito magnético absorveria combustível (hidrogénio) do espaço, à razão de um átomo por metro cúbico. Esse hidrogénio seria depositado nos tanques (inicialmente cheios para a descolagem e a primeira parte da viagem) durante o decorrer da viagem. O método de produção de energia seria ainda o químico (combustão), mas, teoricamente, a nave poderia atingir 99,999% de c.

Energia Nuclear – A nave Daedalus, concebida pela Sociedade Interplanetária Britânica, mover-se-ia por explosões nucleares em vez de combustão química. Pequenas esferas congeladas de deutério e hélio libertar-se-iam à razão de 250 por segundo numa câmara de combustão. Um laser provocaria a explosão de cada bola. A nave alcançaria 12% de c e chegaria a Alfa Centauro A, a estrela mais próxima do Sistema Solar, a 4,3 anos-luz, em 50 anos. Um mecanismo semelhante seria usado pela Orion, uma nave de 400.000 toneladas, que, atingindo 3% de c, chegaria a Alfa Centauro em 140 anos.

Vela solar – Esta hipótese considera o uso de um laser superpotente à órbita da Terra, que, com energia solar, propulsionaria uma nave dotada de uma vela gigantesca (cerca de 1000 km de diâmetro). A ideia, concebida já há algumas décadas, por Robert Forward, um físico da Nasa, permitiria a uma nave realizar uma viagem de 4,5 anos-luz em 20 anos. O Starswip, veículo de transporte interestelar, seria acelerado pelos fotões do laser até 50% da velocidade da luz em 1,6 anos. Uma viagem à estrela Epsilon Eridani, a 10,8 anos-luz de distância, duraria 21,6 anos. Considerando as vantagens de tecnologia, economia, entre outras, este será possivelmente o primeiro modelo de nave interestelar a ser utilizado – o tempo o dirá.

Antimatéria – A reacção matéria-antimatéria contém a mais alta densidade de libertação de energia conhecida. Assim, o método é um dos favoritos quando se fala em viagens interestelares. Uma nave movida a antimatéria teria 700 m de comprimento e 15.000 toneladas de peso. O anti-hidrogénio (que se aniquila imediatamente em contacto com a matéria) seria guardado em reservatórios, da parede interna dos quais estaria separado por um potente campo magnético. Pequenas porções seriam desviadas magneticamente por estreitos túneis e conduzidos à câmara de combustão, onde seriam postas em contacto com hidrogénio, libertando energia pelo escape com 21 metros. A nave atingiria 21% da velocidade da luz, e alcançaria Alfa Centauro em 43 anos. A antimatéria é, no entanto, muito difícil de produzir, tanto mais não é que, actualmente, são produzidos apenas meros nanogramas, em laboratórios especiais, como o Fermilab ou o CERN, custando bilhões. Mas outros métodos de produção de antimatéria estão a ser estudados: há teorias que prevêem a existência de antimatéria no espaço, o que produziria os espaços em branco (ou melhor, em negro) verificados a grande escala no cosmo, estando os corpos concentrados em faixas, em vez de uniformemente distribuídos pelo espaço - antimatéria essa que poderia ser recolhida usando o mesmo processo referido anteriormente para captar hidrogénio do espaço; por outro lado, uma experiência de Thomas Cowan no Laboratório Lawrence Livermore, na Califórnia mostrou ser possível produzir antimatéria passando um laser com um bilhão de watts de potência através de uma exótica sanduíche de ouro e urânio, diminuindo assim consideravelmente os custos de produção de antimatéria; e outros desenvolvimentos futuros poderão vir a determinar a viabilidade ou não desta hipótese.

Teleportação – experiências recentes provaram ser possível a teleportação (à velocidade da luz) de um raio laser. Espera-se que, mais tarde, possa ser possível a teleportação de matéria, e, quiçá, de seres vivos (logo, nós humanos também). Mas este é um campo anda em gestação, pelo que muito não se pode dizer.

Buracos de Verme – verdadeiros atalhos no espaço, os buracos de verme são entidades cujo centro é uma singularidade do tipo das que se encontram no “fundo” dos buracos negros. Essa singularidade é um ponto infinitamente pequeno que contém uma densidade infinitamente grande – extremos que levam ao nome que lhes foi dado.
Crê-se que, se um copo de água colapsar em rotação, a singularidade resultante seria, não um ponto, mas um anel, que permitiria – se fosse suficientemente grande e estável – a passagem de humanos para o outro lado. Sendo estruturas bastante efémeras e instáveis, seria necessário a descoberta de um material especial que gerasse antigravidade, impedindo as paredes do “buraco” de colapsar.
Os buracos de verme têm uma forma parecida com dois funis unidos pelo gargalo, estando cada extremidade num ponto distinto do espaço, mas sendo necessário muito menos tempo para o atravessar do que percorrer normalmente toda a distância de uma ponta à outra. É como se se dobrasse uma folha de papel, se furasse um buraco em cada uma das metades e se colasse as extremidades de um tudo a esses buracos. Ir da extremidade A à B do tubo seria muito mais rápido do que ir de A a B dando a volta ao papel dobrado. Esse engenhoso esquema permitir-nos-ia, paradoxalmente, viajar mais depressa que a luz – pois esta percorreria o espaço normal, ou seja, “daria a volta ao papel”.

Taquiões – outro método de ultrapassar a luz. Taquiões são partículas, previstas por recentes teorias, que viajariam sempre a velocidades superiores à da luz. Supõe-se, para isso, que a “barreira da luz” tenha dois lados (como, aliás, têm todas as barreiras). Assim, tal como para nós “do lado de cá”, que precisamos de cada vez mais energia para atingir velocidades próximas das da luz, também os taquiões se retardariam cada vez mais com o incremento da sua energia, mas sem descer mais que a velocidade da luz.
Se fosse possível realizar teleportações com taquiões, poderíamos atingir a estrela mais próxima em 5 segundos – esse período de tempo seria o mesmo para os viajantes e para os homens que ficassem na Terra. Poder-se-ia percorrer a galáxia num minuto; as galáxias mais longínquas estariam a uma semana de distância. Com raios de taquiões, todo o universo seria apenas o que o mundo hoje é para nós.

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Thursday, July 31, 2003

Non Siamo Soli - Partes I, II e II

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(Publicado no Artiletra nº 52, de Julho/Agosto de 2003)

Parte I – Considerações Gerais

O fascínio por outros mundos e pelos seus habitantes remonta à Pré-História. A astronomia desde muito cedo interessou a espécie humana, sendo uma das mais antigas ciências desenvolvidas pela humanidade. Isto sem esquecer as incontáveis pinturas rupestres já descobertas (muitas mais ainda por descobrir, e ainda mais perdidas para sempre no tempo, devido à erosão natural e humana), cujas figuras estranhas (humanóides “deformados”, formas esquisitas às quais não se pôde atribuir nenhuma formação natural ou humana, seres e objectos voadores, etc.) continuam a intrigar os especialistas e investigadores, mantendo-se inexplicáveis até hoje.

Antes apenas mitos acerca de criaturas além do mundo a que temos acesso, com a descoberta, já mais tarde, dos planetas como corpos celestes semelhantes à Terra, os seres alienígenas ganharam subitamente uma base física. Mas apenas a partir do século XIX se começou a debruçar com mais seriedade no assunto.

Apesar das numerosas descrições de visitas de OVNI (Objectos Voadores Não Identificados – em inglês UFO, Unidentifyed Flying Objects, que originou a palavra ufologia — A ufologia surgiu em 1947, quando o piloto civil Kenneth Arnold, durante a busca de um avião desaparecido, foi ultrapassado por nove “pires voadores” que voavam juntos. Muitos jornais da época divulgaram o facto. Os objectos passaram a ser chamados de flying saucers (pires voadores), que em português são conhecidos como discos voadores), não há provas claras da existência de vida extraterrestre. No entanto, os cientistas consideram essa hipótese, avançando meios para a procura de inteligência alienígena, até porque a seria improvável que de dezenas de milhares de casos relatados, nem um fosse verdadeiro ou pelo menos fundamentado. A história da busca moderna de outros seres inteligentes começa em meados do séc. XIX.

Em 1877, o astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli desenhou a superfície de Marte em mapa. A existência de longos e característicos veios que se podiam ver nos mapas convenceu-o que estavam cheios de água, e chamou-os canali, que quer dizer leito de rio. Mas quando a palavra foi traduzida para o inglês, chamaram-lhes canals, em vez de chanels - confundindo a primeira expressão, que se refere a obras artificiais, com a segunda, que se refere a estruturas naturais – pelo que as pessoas começaram a pensar que eram construídos pelos marcianos.

Baseando-se na descoberta de Schaparelli, o astrónomo americano Percival Lowell desenhou um mapa detalhado de Marte onde se vêm o entrecruzamento das linhas de água. Esse trabalho convenceu muita gente, inclusive ele próprio, de que Marte era habitado.

Com a ajuda de alguns romances de ficção científica, como “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, generalizou-se a crença na existência dos marcianos, imaginados como homenzinhos verdes (em inglês, Little Green Men, origem da sigla LGM, que designou o primeiro pulsar, por pensarem que os sinais fortemente regulares de rádio emitidos por esse astro – e todos os do seu tipo - se tratavam de uma tentativa de comunicação extraterrestre). Marte tornou-se assim o primeiro foco de atenção da comunidade científica na área da exobiologia (ou astrobiologia, ou ainda xenobiologia - uma das ciências mais recentes, que estuda a vida no espaço). No entanto, as sondas espaciais que passaram por Marte desde os anos 60 não detectaram nenhum sinal de vida. Mas a esperança não morreu, e investigações recentes levantaram outras hipóteses que, a posteriori, poderão vir – ou não – ser confirmadas. Veremos.

Parte II – Vida no Sistema Solar

Estudos recentes mostram que no Sistema Solar é extremamente improvável a existência de vida inteligente (e isto inclui a Terra, hem!) embora se considerem alguns planetas que podem conter formas ainda primitivas de vida:

A Lua já foi objecto de especulações acerca da existência de extraterrestres, mas a hipótese foi descartada após as primeiras explorações nos inícios da Era Espacial. No entanto, a recente descoberta de água no satélite levantou de novo a polémica. Isso é no entanto um assunto que merece ser investigado com mais pormenor.

Marte, por seu lado, pode conter depósitos de água a grande profundidade, o que favoreceria a possibilidade de existirem formas vivas. No entanto, os dados parecem mostrar que outrora Marte fora um planeta muito parecido com o nosso, com água e uma atmosfera consistente, muito provavelmente contendo formas de vida, mas que com o tempo os gases da atmosfera escassearam, devido à fraca gravidade do planeta (O diâmetro de Marte é cerca de duas vezes menor que o da Terra, o que lhe confere um volume de pouco mais de um quarto do nosso, e uma massa de um décimo da da Terra), e permitiram aos raios solares nocivos tornar árida e desértica a superfície. Possíveis seres vivos de então, ou migraram para outro planeta (o que sustenta a hipótese levantada por alguns cientistas de que a vida na Terra – ou pelo menos a vida humana – foi trazida de Marte, hipótese magnificamente exposta no filme relativamente recente “Missão a Marte”), ou se extinguiram, ou então tiveram de se adaptar, possivelmente passando a viver no subsolo, onda a água pode ter persistido – é também algo que merece ser estudado mais a fundo.

Os outros planetas parecem ser demasiado inóspitos para conter qualquer forma de vida, mesmo as mais primitivas: desde o calor abrasador de Mercúrio e Vénus, às baixíssimas temperaturas dos planetas exteriores. Há, no entanto, certos satélites (luas) que parecem reunir boas condições para o aparecimento de vida: Europa e Calisto, as duas maiores luas de Júpiter – e Titã, a maior lua de Saturno.

Europa é coberta por uma espessa camada de gelo, mas é provável que sob ela exista uma enorme extensão de água líquida, talvez só superada em quantidade no sistema Solar pela que se encontra na Terra. A água no estado líquido, não comum no nosso Sistema, é um elemento que favorece muito o desenvolvimento da vida, e no nosso planeta em todos os lugares em que ela está presente, prospera pelo menos algum microorganismo. Além disso, algumas características do gelo superficial que reveste Europa fazem pensar que os fundos dos seus mares possam ser polvilhados por vulcões, os quais aqueceriam a água circundante: condições talvez muito semelhantes permitiram o aparecimento na Terra dos primeiros organismos vivos. Em 2008 a sonda Europa Orbiter deverá aproximar-se do satélite e enviar-nos valiosas informações que nos permitirão ter uma ideia mais concreta do que podemos esperar da lua jupiteriana.

Também Calisto tem suscitado a curiosidade dos investigadores, porque poderia conter um oceano subterrâneo de água líquida. A sua estrutura interna seria algo como um núcleo rochoso, um “manto” de água salgada e uma crusta de gelo, coberta superficialmente por uma fina camada de detritos resultantes do impacto de meteoritos. Tem a superfície mais antiga do Sistema Solar 4.000.000.000 anos – não houve mais mudanças que as colisões ocasionais de meteoritos. Calisto formou-se logo nos primórdios da história do nosso Sistema. Ser tão antigo é mais um dado que reforça a hipótese da lua ter sido – ou estar sendo - palco de possíveis acontecimentos biológicos. Além disso, o astro é aquecido por actividade radioactiva, e possui uma atmosfera muito ténue de dióxido de carbono. O dióxido de carbono é constituído por carbono e oxigénio, dois elementos básicos para a formação da vida, o primeiro a nível estrutural das moléculas orgânicas, e o segundo pela sua indispensabilidade na formação de água, o mais relevante dos factores condicionantes da existência ou não de vida. A descoberta recente (em 1996) de um lago subterrâneo na Antárctida reforçou ainda mais a hipótese de vida alienígena baseada em depósitos de água desse tipo.
Titã, por sua vez, é um caso extremamente interessante, porque está envolvido por uma espessíssima atmosfera de atmosfera de hidrocarbonetos, e não é claro o que existe à sua superfície. Os hidrocarbonetos são compostos importantíssimos para a vida, e a maior parte dos seres vivos usam esses compostos no seu metabolismo. Se no satélite se encontrassem também extensões de água, como se faz crer, as probabilidades de aí existirem pelo menos organismos simples seriam deveras altas.

Parte III – Outros Mundos

Na Terra todos os seres vivos partilham algumas características de base; em particular, a unidade básica da vida na Terra é a célula. Não é absolutamente certo que eventuais organismos extraterrestres sejam estruturados deste mesmo modo; por exemplo, estruturas moleculares diferentes podiam desempenhar o papel do ADN. De facto, as possibilidades são tão diversas que seria impensável enumerá-las todas. Apesar de as primeiras formas extraterrestres imaginadas pelo homem fossem antropoformes, hoje em dia tem-se em conta que as formas podem na verdade diversificar de tal modo que talvez existam seres que a nossa mente nem se quer nos permite conceber.

Mesmo aqui na Terra, a vida é uma coisa tão difícil de definir, devido às múltiplas formas que pode assumir, que se convencionou definir a vida pelo conjunto de características que todos os seres vivos possuem. E ainda assim, muitos casos têm dado origem a polémicas: os vírus, e, mais recentemente descobertos, os prions, certas proteínas que têm comportamentos que confundem os investigadores sobre a sua natureza – viva ou não. Mas, considerando a quase infinidade de condições que outros planetas podem apresentar, teremos que admitir que talvez nunca possamos vir a definir vida como conceito universal – podem até existir seres que vivam noutras dimensões, e com os quais possamos nunca vir a contactar, ou até a tomar conhecimento, ou seres de antimatéria, (que se aniquilariam ao interagir com o nosso mundo de matéria) – não sabemos! Ainda há muito para descobrir.

Mas no fundo o que procuramos são seres similares a nós, com os quais possamos contactar e trocar conhecimentos. Assim, podemos restringir muito mais a busca, que fica assim bastante facilitada. Ora, falando de seres inteligentes, no Sistema Solar é extremamente improvável a existência de vida inteligente, como já tinha sido acima referido - até porque nunca os vimos, apesar das numerosas missões espaciais…

No entanto, podemos procurar noutros sistemas estelares, nos quais existam planetas similares ao nosso – nos quais possamos encontrar vida inteligente semelhante à nossa (ou seja, compatível com a nossa natureza, isto é, com características básicas similares às nossas)

Assim, no âmbito do projecto SETI (um ramo da astronomia que estuda e procura vida inteligente extraterrena – do inglês Search for Extra-Terrestrial Intelligence), os astrónomos têm vindo a procurar planetas desse tipo, já tendo encontrado mais de uma dúzia de planetas orbitando outras estrelas. Esse numero pode parecer pouco, tendo em conta os milhares de estrelas já catalogadas, mas pode-se ter uma ideia da dificuldade da tarefa se considerarmos que descobrir um planeta orbitando uma estrela longínqua é qualquer coisa como tentar distinguir uma partícula de poeira perto de uma lâmpada de 100W a 1 km de distância, à vista desarmada. Mesmo com os mais poderosos telescópios ópticos isso seria possível. Por isso os cientistas procuram por interferências na órbita da estrela, que seriam causadas pelo efeito de um corpo massivo nas suas proximidades – um planeta. Até agora, descobriram vários planetas (Ursae Maoris, Pegasi, Tau Bootis, 70 Virginis, HD 114762, Cygni B, 55 Cancer, etc.), mas apenas um sistema estelar – ou seja, uma estrela orbitada por mais que um planeta –, correspondente à estrela Upsilon Andromedae, e constituído por três planetas. A estrela é bastante similar ao nosso Sol.
O primeiro tem três quartos da massa de Júpiter, orbitando a estrela a uma distância 8 vezes mais próxima que a que separa Mercúrio do Sol (!). Só para se ter uma ideia, um ano nesse planeta (o tempo que leva a dar uma volta em torno da sua estrela) dura menos de 5 dias!

O segundo planeta é pelo menos duas vezes mais massivo que Júpiter, com um diâmetro 11 vezes superior ao da Terra. E, surpresa das surpresas, com uma órbita de 250 dias, o planeta B orbita a estrela a uma distância quase coincidente com a da Terra! Esse facto deu novo alento às investigações, além de fornecer novos dados sobre a formação de sistemas estelares, visto a sua órbita – bem como as dos seus “irmãos” – não serem circulares, mas elípticas – um pouco como as dos cometas (mas muito menos acentuadas, claro!).

Por fim, há o terceiro planeta, um supergigante com mais do quádruplo da massa de Júpiter. Assim é o primeiro sistema estelar além do Solar descoberto. Mas há certamente muito mais por descobrir – a busca continua.

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Friday, May 30, 2003

O Grande Problema das Associações de Estudantes

(Publicado no Artiletra nº 51, de Maio/Junho de 2003)

Neste artigo discorrerei algumas linhas acerca da formação, legalização e funcionamento das Associações Juvenis.

I. Criação

Se há uma coisa que é fortemente reprimida (embora inconscientemente) nas sociedades humanas, é a inovação. Ao longo da História temos variadíssimos exemplos de povos que se recusaram a aceitar mudanças nas suas rotinas de vida: um dos piores incentivadores disso foi a famosa “Santa” Inquisição. Quantos não foram queimados, torturados, assassinados, simplesmente por quererem dar o seu contributo ao desenvolvimento da humanidade? Copérnico, Galileu, Giordano Bruno… pergunto-me o quanto a ciência, a filosofia, a raça humana em geral, não poderiam hoje estar já desenvolvidas, se não fossem esses “travões” sociais. Tanto as sociedades mais “primitivas” como as mais “civilizadas” mantêm essa tendência natural, esse “instinto de conservação”, pelo que isso é, infelizmente, um dos muitos defeitos da raça humana que só poderão ser erradicados com alguns milhões de anos de evolução – ou com algumas décadas de terapia genética globalizada…

Portanto, criar uma coisa do zero é tão difícil que desencoraja quem não tenha uma forte personalidade, determinação e força de vontade.

O primeiro grande problema é: quem? Ou seja, como encontrar as pessoas cujos interesses englobem as actividades associativas? Isso já limita um bocado o raio de acção, visto que só se conhecem os verdadeiros interesses dos amigos e conhecidos mais ou menos próximos (pois num primeiro contacto ou em contactos superficiais e em situações não específicas, geralmente só se transmite da nossa personalidade ao nosso interlocutor o que coincidir com o modelo da sociedade para as pessoas da nossa idade, sexo, classe social, etc.).

[Quanto a essa questão, o ideal seria haver uma base de dados pública , no mínimo regional (por ilha), com os dados básicos (nome, idade, sexo, ano escolar, morada, foto, contacto (email) e interesses, hobbies, etc) – havendo tópicos que possam ser seleccionados, para facilitar tanto a “inscrição” como a pesquisa), uma espécie de lista telefónica, mas mais pormenorizada, digamos assim. A Internet , por exemplo, seria um meio mais que satisfatório para por em prática esse projecto. Quanto à privacidade: o que acho que poderia suscitar mais divergências seriam talvez os contactos e a morada, mas estes poderiam restringir-se, sem prejuízo aos objectivos iniciais, a, respectivamente, o email/telefone (que já é, inclusive, público) e a zona/localidade. Dados mais pormenorizados poderiam ser cedidos pela própria pessoa procurada, após um primeiro contacto.]

Segundo grande problema: como? Neste aspecto, refiro-me às bases estruturais para a criação de uma associação de estudantes: que estrutura deverá ter a futura associação, como elaborar os estatutos e regulamentos, enfim, uma perspectiva geral da organização e funcionamento da associação.

[A esse respeito, presumo que seria desejável um modelo, disponível a todos os estudantes, de uma associação de estudantes típica. Os Órgãos, os membros de cada Órgão, os tipos de membros, o regulamento eleitoral, etc.]

São esses os principais problemas que afectam a criação de uma associação de estudantes.

II. Legalização

Criada a associação, resta legalizá-la, oficializá-la, para obter personalidade jurídica e reconhecimento oficial, o que ajuda em muitos campos, principalmente na área de angariação de apoios. Quanto a isso há diversos handicaps:

O grande problema: onde?, ou seja, a quem recorrer, a que instituições pedir instruções para a realização do processo de oficialização? Bom, a verdade é que há uma tremenda falta de informação no tocante a esse processo. A maior parte dos casos de associações legalizadas são casos em que um dos membros da associação conhece pessoalmente algum jurista ou advogado, a quem pede ajuda, e que é quem geralmente redige os estatutos e dá as instruções básicas para a realização desse processo. Ora, por causa disso há uma grande taxa de associações não legalizadas, o que deve ser rapidamente invertido.

[Para tal, devia haver:

  1. uma maior divulgação das leis que se enquadram nesse contexto no ambiente escolar:
  2. um modelo dos estatutos típicos, também divulgado e disponível aos alunos;
  3. mais informações sobre o processo de legalização.

Essas informações deveriam ser distribuídas a todas as escolas, que por sua vez as faziam chegar aos alunos.]

III. Funcionamento

Eis o big problem. Tem-se reparado que:

  1. As associações tendem a ter um período de grande dinamismo com um grupo que está na Direcção, diminuindo ou, por vezes, parando essa actividade assim que esse grupo (quase sempre formado por alunos do mesmo ano ou de anos próximos) termina o ensino secundário, “saindo” da escola;
  2. O Presidente é geralmente o membro mais activo e dinamizador, e o grupo restante tende a “perder o ânimo” quando este, que é na maior parte das vezes estudante do 3 ciclo, termina o 12º;
  3. Há alguns membros do grupo central (a direcção) que trabalham mais, enquanto que outros elementos ficam, por assim dizer, à “sombra da bananeira”, colhendo os louros de ser membro da associação sem no entanto contribuir para a realização das actividades (excepto festas, convívios, para quais estão sempre prontos), e por vezes mesmo atrasando ou dificultando o trabalho dos outros, mas que, por dificuldades estatuárias e funcionais (a necessidade da realização de uma Assembleia Geral cada vez que se quiser demitir um membro da Direcção), ficam ate o fim do mandato, que é muitas vezes de dois anos.

[Esse é um problema interno que deve ser resolvido pelos membros da associação. Há factores que podiam facilitar (por exemplo, a base de dados de interesses que referi acima) o agrupamento de pessoas verdadeiramente competentes e responsáveis. Mas a gestão interna do pessoal conta também, e muito: por exemplo, nós da Associação dos Estudantes do Liceu José Augusto Pinto, criámos comissões de trabalho, de modo a descentralizar a actividade da Direcção, delegar responsabilidades, aumentar o número de alunos que participam activamente na associação, e isso tem-nos ajudado imenso no funcionamento, até porque, como estudantes, temos que conciliar o horário escolar com o das actividades da associação. Mas, agora que foi criada a Federação Nacional de Estudantes, este problema já poderá ser mais facilmente ultrapassado pelas associações de estudantes, pois uma das principais metas da Federação é ajudar as associações de estudantes a levantar-se e andar com os próprios pés. Mas prometo dar mais tarde informações mais específicas acerca, principalmente, da criação e legalização de associações de estudantes. Aguardem…]

Nota: O artigo que dá sequencia a este é o “A Legalização“, publicado em Novembro de 2005.

Posted by Waldir Pimenta in 18:21:58 | Permalink | Comments (1) »