Friday, November 30, 2007

RAP

(Publicado no Artiletra nº 85, de Novembro/Dezembro de 2007)

Quando primeiramente me sugeriram escrever sobre poesia, a minha primeira reacção foi de retracção. Fiquei extremamente apreensivo e quase desconsiderei a ideia. Afinal, que sei eu de poesia? Eu que praticamente não leio poesia, e que apesar de ter feito uma ou duas incursões na escrita nesse campo, nada de jeito produzi…

Mas depois de uns dias a pensar esporadicamente no assunto, acabei por decidir tomar em mãos tal desafio, ao dar-me conta que afinal sei mais do que eu próprio pensava sobre poesia.

Ora, RAP porquê?, perguntam vocês. E com razão. Já devem andar fartos de – ou divertidos com – os meus títulos obscuros. Mas desta vez, decidi satisfazer a vossa curiosidade mais cedo. RAP (adiante rap, por questões de legibilidade) é para quem não sabe (poucos, presumo) um estilo musical de origem americana. E essa sigla significa, para quem não sabe (menos poucos, presumo) rythm and poetry. Ou seja, ritmo e poesia (por este prisma, poder-se-ia dizer que a tradução da expressão para português seria r.e.p., o que até estaria mais perto da pronúncia original da palavra inglesa…).

Mas o rap tem uma péssima conotação em termos de qualidade musical, principalmente quando nos movemos para esferas mais eruditas. E o facto é que os críticos do rap têm razão: a maior parte do rap que é produzido é de péssima qualidade, tanto em termos de melodia como em termos de letras. Mas atenção, o género em si não é susceptível dessas críticas. O verdadeiro problema é que o rap é um estilo cantado quase exclusivamente por gangsters (membros de gangs, ou seja bandos de rua) negros americanos (african-americans, como os americanos gostam de dizer). E esses gangs muitas vezes se envolvem em actividades criminosas envolvendo tráfico de drogas, prostituição e até assassínio. Por menor que seja a percentagem de rappers que realmente sigam esse caminho, marcas como essa mancham a inteira imagem do rap. Mas as críticas de qualidade musical também têm razão de ser: muito do rap que se ouve não tem ritmo/melodia apelativos a não-amantes do género (é por isso que prolíficos produtores de bons beats, como o dantes famoso Dr.Dre, que lançou o Eminem entre muitos outros, fazem tanto sucesso), e em relação à poesia limitam-se muitas vezes a encontrar rimas para todas os versos – por vezes de forma exagerada, o que resulta em canções risíveis.

Entretanto, há rappers que se destacam no meio da multidão de MCs (mic controller, ou seja, quem tem o microfone na mão – já que o rap amador muitas vezes é associado a competições de improvisação, como bem ilustra o filme “8 Mile”), e conseguem realmente produzir rap de boa qualidade musical – e poética. Desses, eu gostaria pessoalmente de destacar, no universo lusófono, Gabriel o Pensador, brasileiro, e Boss AC, cabo-verdiano residente em Portugal.

As suas músicas (não todas, obviamente – ninguém é perfeito…) têm letras não só rimadas mas com métrica que faz com que a própria leitura produza um ritmo (conhecedores de poesia estarão conscientes deste efeito), que é por sua vez acompanhado pelo beat e pela melodia que não são apenas uma sequencia de 4, 6 notas que se repetem pela música toda, mas sim acordes bem conseguidos e harmoniosos (não é à toa que o rap comercial e efémero use quase exclusivamente instrumentos electrónicos para produzir a sua melodia, enquanto muitas canções rap de maior qualidade baseiam-se em instrumentos acústicos como a guitarra). Um bom exemplo é o rapper 2 Pac, morto (como quem diz, assassinado) já há uns anos mas ainda respeitado como um dos maiores rappers de sempre, que, não surpreendentemente, estudou numa escola de música, apesar de pouca gente saber disso.

Mas o mais importante de tudo isto é a mensagem que a canção transmite. Enquanto Gabriel o Pensador, Boss AC e outros falam da condição humana, de política, de deus, do amor e fazem críticas sociais, os bubblegum rap (ou seja, o rap comercial, produzido para gerar hits instantâneos que se desvanecem pouco depois do panorama musica, tal como um balão de “chuinga”) têm como tema dominante dinheiro, mulheres (sexo, a bem, dizer) e violência. Isso se nota facilmente ao escutar alguns dos hits (sucessos) do momento, e mais ainda vendo os seus videoclips, nos quais abundam bundas desnudas (passe a redundância – eu sei, a figura de estilo neste caso é outra mas não me lembro do nome, vai esta para desenrascar que não é completamente descabida, hehe) dentes enfeitados a ouro – e mais recentemente a diamantes – enormes anéis de brilhantes, correntes de ouro ou prata (com medalhões tão grandes que admira não tornarem corcundas os seus donos), carros topo-de-gama, e maços de dinheiro a ser atirado como lixo. É uma cultura já tão intrínseca ao ambiente rap que poucos conseguem escapar dessa espiral.

Mas saindo um pouco do rap, o que eu queria transmitir (além de dar uma visão geral sobre o rap, mesmo não sendo um entendido na matéria) é que no fundo a poesia é musica, é ritmo. A rima é uma parte fundamental da poesia e não é por acaso. A métrica, a contagem das sílabas, a estrutura semi-simétrica de um soneto, todos estes elementos se unem para produzir um texto que não só transmite uma mensagem profunda (ou pelo menos é essa a intenção), mas também fazê-lo de forma a que as próprias palavras formem sons harmoniosos. É inegável que os humanos possuem um estranho fascínio pela música, que remonta aos rituais primitivos em que o ritmo cadenciado e as notas encadeadas (e provavelmente substâncias alucinogéneas) produziam um transe que, agradável por si só, era também útil para rituais de adivinhação, cura, reprodução. A poesia torna-se numa extensão natural dessa intrínseca receptividade ao ritmo e à música, e a poesia cantada é simplesmente uma forma ainda mais natural de a exprimir.

Posso assim concluir com a afirmação que, assumindo como universal o gosto pela música, existe em cada ser humano um amante da poesia.

Bom, o título rap também era abreviatura de artigo rápido e por isso revelei cedo o outro significado; mas pelo visto mais uma vez embalei-me nas palavras e acabei por escrever outra das minhas dissertações relativamente longas… diz-se que a perfeição se atinge não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada a retirar. Um dia chego lá. Ou perto…

Até a próxima, amigos!

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Tuesday, July 31, 2007

Abaixo a esmola!

(Publicado no Artiletra nº 84, de Julho/Agosto de 2007)


Sim, título polémico, já sei. Mas como também já sabe quem me é fiel, eu já me explico.

Ora bem, o que quero realmente dizer com essa frase? Sim, sou contra a esmola (apesar de dar quando ma pedem – afinal não tenho um coração de ferro…), mas porquê a abomino?

Já ouviram certamente falar no ditado chinês que diz “Dá a um homem um peixe e alimentá-lo-ás por um dia. Ensina-lhe a pescar e alimentá-lo-ás pelo resto da vida.” Por esta altura presumo que a maioria dos leitores tenha percebido onde quero chegar. De facto, considero (e penso que isso é evidente) que esmolas têm um papel nocivo, já que apenas viciam as pessoas que delas precisam, sem nunca ter o potencial de lhes ajudar a sair do fundo do poço em que se encontram.

Tenho andado a ler (à velocidade lenta que os estudos me permitem) um livro do internacionalmente aclamado economista Jeffrey Sachs, chamado “O fim da pobreza”. No livro, ele desenvolve um conceito interessante sobre a pobreza crónica: a metáfora da escada do desenvolvimento. Segundo Sachs, que já trabalhou com inúmeros governos, dos quais muitos de países pobres, um país consegue escalar por si só a escada do desenvolvimento (considerando uma liderança incorrupta e estabilidade política mínima), a partir do momento em que coloca o “pé” no primeiro degrau da escada. Ora, acontece que para muitos países esse primeiro degrau está demasiado alto acima das suas cabeças para que o consigam alcançar. E muita da ajuda que recebem é remetida para a solução de problemas mais imediatos como guerra, fome ou doenças, pelo que não conseguem reunir capital suficiente para dar o salto e agarrar-se à escada.

Acontece que essa metáfora se aplica também a nível individual. Uma pessoa que pede esmola consegue arranjar uns trocos, mas vai sobrevivendo à base disso, não consegue extrair daí uma mais-valia que lhe permita sair do ciclo vicioso.

Nessa perspectiva, dar esmola é, mesmo sendo disfarçada de caridade e altruísmo, um acto de colaboração (ainda que inconsciente) com esse ciclo odioso. Tal como Cabo Verde tem que se livrar da dependência da ajuda externa para passar eficientemente ao grupo dos países de desenvolvimento médio, e para tal precisa do empurrãozinho que o grupo de transição tem apelado à comunidade internacional, também os pobres crónicos precisam dessa ajuda suplementar, essa mão que lhes ajude a subir para o primeiro degrau.

Mas como fazer isso? Cada um tenta ajudar dando a esmola que pode, afinal nós também precisamos do dinheiro para sobreviver, certo? Então, cabe ao governo dar essa tal ajuda especial aos pobres crónicos para os retirar do ciclo, certo? Bem, sim e não. Cito agora um exemplo de um homem cuja iniciativa lhe rendeu recentemente o Prémio Nobel da Paz: Muhammad Yunus, conhecido como “O banqueiro dos pobres” (cognome que também serve de título ao livro sobre o economista, o qual tenciono adquirir – assim que terminar de ler “O fim da pobreza” e “A pobreza das nações”… dois calhamaços, diga-se de passagem!).

Então o que fez Yunus? O economista, natural de uma zona pobre, decidiu fundar um banco especializado em micro-crédito, financiando iniciativas com empréstimos a uma escala que nenhum banco convencional se disporia a fazer. O sucesso da sua empreitada foi tanto que o banco Gramen lhe proporcionou o galardão que lhe deu reconhecimento internacional. Yunus tem efectivamente ajudado as pessoas pobres a sair do ciclo, dando-lhes o puxão que precisavam para atingir o primeiro degrau da escada. Prova do seu sucesso é o facto da taxa de retorno dos empréstimos ser superior a 98%!

Mas e nós, mortais comuns, que não temos o tempo, dinheiro ou conhecimentos para levar adiante iniciativas dessas? O que podemos fazer? Aqui vai uma ideia simples e eficiente: doem os vossos objectos usados. Roupa que já não serve, brinquedos, livros, mobília, coisas que de outro modo iriam para o lixo… doem-nas a instituições de caridade que tratarão de as distribuir por quem delas mais precisa (e que dessa forma poderá investir os seus ganhos em necessidades menos básicas, e mais a médio prazo). Três benefícios resultam desse tipo de acção: O benefício ambiental, por se reduzir a produção de lixo; O benefício económico, pela ajuda que se fornece às classes desfavorecidas; e, last but not least, o benefício emocional de se fazer o bem (aquele mesmo que nos move a dar esmolas).

Longe vai o tempo em que ter diferentes classes sociais era necessário à sobrevivência da sociedade. Cada vez mais, a tecnologia permite nos desfazermos dos trabalhos menos desejáveis, e assim em breve não haverá trabalhos que as pessoas farão por pura necessidade e falta de opção (varrer ruas, por exemplo, actividade inegavelmente ligada às classes pobres). Mortais comuns preocupados com os outros podem assim fazer a sua parte ao evitar dar esmolas (para não perpetrar o ciclo) e contribuindo de formas mais úteis: não só participando na actividade de instituições de caridade já estabelecidas, mas organizando, caso não as haja, campanhas de recolha de objectos usados – na sua cidade, no seu bairro, ou mesmo na sua casa;

É claro que não proponho uma mudança brusca: tal como a Cabo Verde foi cedida uma fase de transição ao PDM, (as ajudas orçamentais não são simplesmente cortadas sem mais nem menos), também não faria sentido que todos parássemos de dar esmolas de um dia para o outro. Todos nós, se já tentámos fazer uma mudança dos nossos hábitos, sabemos o quanto isso é easier said than done. Seria portanto injusto exigir que as vítimas do ciclo da pobreza dela saíssem de forma repentina. Mas uma mudança consciente dos nossos hábitos seria a longo prazo a maior ajuda que podíamos dar aos com que nos preocupamos. Cada pequeno gesto desses vale muito mais que uma moeda atirada ao chapéu de um mendigo.

Deixo-vos com um pensamento final, cuja autoria me é desconhecida, mas que transmite de forma elegantemente sucinta o espírito deste artigo:

“De nada vale tentar ajudar aqueles que não ajudam a si mesmos.”

Pensem nisso.

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Friday, June 15, 2007

O Paradoxo da Perfeição

(Publicado no Artiletra nº 83, de Junho de 2007)

O ser humano é um insatisfeito incorrigível. Só Deus mesmo, com a sua infinita paciência, para tentar nos agradar. Ou talvez, precisamente por nunca estarmos satisfeitos, ele não tente nos agradar de todo. Daí se dissipa o paradoxo da infinita bondade divina em coexistência com os males do mundo. Sem desígnios ocultos. Simplesmente, se não houvesse guerras, nem fome, nem morte, nós simplesmente iríamos reclamar das maçãs serem muito doces, ou de viver eternamente ser tão enfadonho.

A perfeição existe? Segundo a nossa própria natureza, somos forçados a admitir que não. E no entanto, perseguimo-la esperançosamente, como crianças atrás do fim do arco-íris. É como dizem: a felicidade não é um destino, é um caminho. Ao perseguir a felicidade, tornamo-nos infelizes por nunca a obter. Mas se pelo contrário, deixarmos de estar obcecados com essa ideia, ela muito provavelmente virá ter connosco. E não adianta tentar segurar, que ela foge como areia por entre os dedos! Outro ditado famoso diz que se realmente amamos uma pessoa, devemos deixá-la solta. Se ela voltar para nós, é porque nos ama em retorno. Se não, é porque nunca nos amou. Ok, não é bem assim na realidade (deixar solto, mas não muito, toda a gente gosta de se sentir desejada, e ciúmes moderados até são saudáveis nesse sentido), mas a frase ilustra o ponto em que eu queria chegar:

A felicidade não é um estado de êxtase puro, um lago estagnado, um nirvana cheirando a incenso. Na verdade, ser feliz não faz muito sentido: o ser humano tipicamente está feliz. Está-se feliz nalguns momentos, noutros não. Caso contrário, como poderíamos definir esse estado como felicidade? Nunca tendo que parar de respirar, como seria possível sentirmos o prazer do ar a entrar e a sair dos nossos pulmões? Fazemos isso o dia todo, a noite toda – incessantemente. No entanto, como descrever a sensação de sair de um longo mergulho e deixar o ar entrar nos pulmões? É como a saúde: só se sente a sua falta quando se perde. Isso se aplica a tudo, na verdade: Não damos valor ao que temos até o perdermos, e por outro lado, também não sabemos o que andámos a perder até o termos, reza um dizer anónimo.

A felicidade acaba sendo na verdade resultado de transições. Só sentimos frio por o calor ser sugado do nosso corpo (e por isso parece menos fria a toalha que a barra metálica, depois de um banho quente, já que a primeira absorve o nosso calor mais lentamente, embora esteja à mesmíssima temperatura que a barra de ferro ou os azulejos). Da mesma forma, só nos sentimos felizes ao passar de um estado menos agradável para outro mais agradável. Menos, agradável, mais agradável, dá a impressão que podemos subir a escada até chegarmos na perfeição, e aí este artigo é destronado. Desistam. Qualquer pessoa que já desfrutou de um banho de sol sabe que após certo tempo, entrar na água fresca é um prazer insubstituível. Tal como o é sair dela após algum tempo para regressar ao sol.

Nós abandonamos a estabilidade no momento em que saímos do ventre materno. A partir desse primeiro contraste, nos viciamos nessa droga e só conseguimos estar felizes com doses constantes de mudança, de contraste. Revolução. Tentativas já foram feitas de atingir sociedades perfeitas. Pfff, inútil. Além do facto de sermos todos diferentes impedir que se contente toda a gente, basta notar que somos inconformados de primeira para chegar à conclusão que mais tarde ou mais cedo alguém se rebelaria. A estabilidade conduz ao tédio e o tédio à procura de ruptura. De mudança. De contraste.

Paixão. Desejo. Amor. Porque é que há tantos desgostos amorosos? A verdade é que a grande maioria destes são desgostos passionais. A paixão é completamente diferente do amor. Existe amor recíproco, mas paixão recíproca é impossível por definição. Porquê? Porque a paixão nasce do desejo. Apaixonamo-nos pelo que desejamos. E só desejamos o que não temos. Quem nos ama, já é nosso, não podemos desejá-lo. Paixão e amor só coexistem em amores proibidos. Caso contrário, o fogo do desejo esbate-se no lume brando do afecto carinhoso, incondicional, confiante, cego às vezes. Claro, o desejo sexual ainda existe, mas esse não é um desejo no verdadeiro sentido do termo, é um instinto. Não o podemos negar, é a nossa natureza básica, e nos acompanha enquanto formos seres vivos sexualmente activos. Tal como comer. Tal como respirar. Mas somos mais que uma máquina, somos mais que os nossos instintos. Satisfazer os instintos é sobreviver. O que nos faz humanos é desejar mais. E desejar mesmo, só desejamos o que não temos.

Desejo. A palavra-chave. Ao obter o que desejamos, ficamos felizes. Tendo-o, não o desejamos mais. Podemos apreciá-lo, mas não o desejamos. E a placidez da contemplação, da apreciação esbate. Ter essa coisa nos dá prazer, mas não nos faz feliz. Não faz o nosso coração bater mais forte. Rever filmes de terror que nos faziam pular da cadeira há anos atrás, hoje mal nos sobressalta. Fomos nos habituando a doses maiores. Para atingir a felicidade, passamos então a desejar outra coisa. Para que a possamos perseguir sem a ter, e mergulhar em êxtase quando a conseguimos. Mesmo que não saibamos o que desejamos, desejamos a mudança. O anjo caído do paraíso não poderia ser mais humano: a perfeição, paradoxalmente, não era suficiente boa para ele.

O príncipe quer trocar de vida com o pobre, e vice-versa. Não há topo e fundo, não há bem e mal, apenas opostos. Yin e Yang. Talvez seja por isso que os males do mundo existem. Para nos dar a chance de sermos felizes, ao mudar as coisas, ao sermos mudados pelas coisas. Ou talvez, afinal, apenas sejam desígnios divinos ocultos. Quem sabe?…

 

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Thursday, November 30, 2006

O Trabalho Desdignifica o Homem (?)

(Publicado no Artiletra nº 79, de Novembro/Dezembro de 2006)

Uma das perguntas mais difíceis de se responder é o quanto vale o trabalho de uma pessoa. O senso comum diz-nos que alguém que estuda muitos anos para aprender o seu ofício merece ganhar mais que outro que esteve esse tempo a trabalhar, ganhando dinheiro e experiência. No entanto médicos e professores são muitas vezes mal pagos, enquanto empresários autodidactas montam um negócio e fazem sucesso financeiro. Por outro lado também percebemos que um mineiro ou bombeiro têm trabalhos fisicamente esgotantes e perigosos, e que também deveriam ser recompensados pelos riscos que correm. E no entanto, mais uma vez, na escala de salários aparecem abaixo de empregos chamados “de colarinho”, em que pessoas de fato e gravata ganham dinheiro “sentadas” como por vezes se diz. Há ainda o caso dos operadores de fábrica, varredores de rua, etc., cujo trabalho é desgastante por ser repetitivo, e ainda assim recebem salários míseros. Isto tudo não parece fazer muito sentido. Estará o nosso senso comum viciado de alguma forma? Será o sistema de mercado capitalista injusto? De qualquer das formas, haverá sempre trabalhos mais bem pagos que outros, portanto uma análise mais aprofundada é necessária para uma visão mais concreta do sistema.

Assim, tentemos categorizar os trabalhos em dois eixos principais.

Para começar, há o eixo da criatividade. Os trabalhos podem variar de extremamente rotineiros, que exigindo ou não do físico do trabalhador, acabam por causar extremo dano psicológico, causando desmotivação e de certa forma “enferrujando” o cérebro (O cérebro humano é como um músculo, precisa ser constantemente trabalhado para se manter em forma. É assim até certo ponto correcto dizer que trabalhos monótonos e repetitivos como que adormecem o cérebro das pessoas, por falta de uso) a extremamente criativos, como os artísticos: escritores, pintores, realizadores, actores, todos eles conseguem de facto gostar do seu trabalho por aplicarem nele a própria característica que faz de nós humanos: a imaginação e criatividade. Trabalhos desse tipo são frequentemente chamados trabalhos vocacionais, e havendo essa recompensa psicológica de se satisfazer com o próprio acto de trabalhar, torna-se mais aceitável que recebam menos. No entanto, acontece o contrário: músicos, actores, ou mesmo empresários (cujo trabalho de gestão não é tão criativo mas exige inovação e estratégia, pelo que se enquadra nesta categoria) de sucesso ganham milhares e milhões. É certo que apenas uma minoria destes perfaz estas somas. Mas já se ouviu falar de alguém que ficou milionário sendo pedreiro?

Em segundo lugar, temos o eixo da utilidade. Ninguém pode negar que uma enfermeira ou um polícia tem um trabalho muito mais útil à sociedade do que, digamos um perfumista ou um vendedor de carros em segunda mão! No entanto, mais uma vez se verifica uma discrepância nos salários, por vezes alarmante… obviamente, uma padronização deste eixo para uma classificação dos trabalhos segundo a sua utilidade social implicaria a definição prévia de uma tábua de valores, por exemplo vida > saúde > conhecimento > conforto > diversão. Isso no entanto é bastante subjectivo e pode promover discussões acesas. É óbvio que todas as profissões têm a sua utilidade; trata-se apenas de evitar desequilíbrios indubitáveis.

Há outros factores influenciariam o valor das profissões, mas poderíamos associá-los a um dos eixos. Por exemplo, o perigo que alguns trabalhos comporta para o trabalhador é contraposto pela responsabilidade dos trabalhos de colarinho que não têm a sua própria vida/integridade/estabilidade social em mãos, mas a de outros (geralmente, muitos). Também a vantagem das actividades empíricas em relação às académicas referida no primeiro parágrafo poderia ser contraposta no outro sentido, já que através de uma formação académica se pode obter uma visão mais geral das potencialidades da área, permitindo um crescimento além dos horizontes de quem não estudou aprofundadamente a especialidade em questão). Estes semi-eixos apresentados se enquadram no eixo da criatividade, não sendo desnecessário referir quais das respectivas pontas se ajustariam aos terminais “repetitivo” e “criativo” desse eixo.

Devo a este ponto confessar que após alguma investigação, quase desisti de escrever este artigo a meio, tendo-me deparado com tanto material já desenvolvido por economistas a respeito da teoria do valor-trabalho (Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx… que querem, não estudei economia no liceu!). Inteirar-me de todos no mínimo não me deixaria terminar o artigo… mas prometo que volto a pegar no tema com mais background (E além disso uma visão leiga muitas vezes pode vislumbrar detalhes que escapam a entendidos).

Continuando: a minha convicção é que, no entanto, o constante desenvolvimento da tecnologia e a resultante diminuição dos seus custos de produção, no futuro robots tomariam conta dos trabalhos repetitivos, que podem ser facilmente programados sem a necessidade de inteligência artificial elaborada. A esse ponto, todos os trabalhos restantes para humanos acabariam por ser criativos, e assim o homem poderia realmente trabalhar no que lhe faz usar o que lhe faz ser homem: a inteligência, a criatividade, as emoções. Quem disse que o trabalho dignifica o homem? Realizar rotinas “cérebro-degradantes” como apertar parafusos ou varrer o chão é negar a sua natureza humana. Trabalhos repetitivos desdignificam o homem, sim.

À laia de conclusão: quem sabe, com as pessoas tendo prazer no que fazem, tendo trabalhos e não apenas empregos, possamos deixar de cobrar à sociedade o trabalho que lhes prestamos? Afinal, estamos a ser indemnizados por quê, se gostamos do que fazemos? Se ninguém cobrasse o seu trabalho, nem sequer precisávamos de dinheiro para nada, já que os serviços nos seriam oferecidos de graça; e os produtos, os recursos, a matéria-prima, esses existem na Terra mais que suficientes para satisfazer toda a nossa espécie… não havendo a pressão de um mercado em que temos que fazer dinheiro para sobreviver, a exploração desenfreada (e consequentes desperdício e má distribuição, causa da pobreza) cessaria… e viveríamos felizes para sempre!!!

Ok, ok, eu estava a brincar… fui um pouco utópico neste ultimo parágrafo, mas sonhar um pouco de vez em quando não faz mal… pensem nisso. Até à próxima, meus caros!

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Monday, October 30, 2006

Wikificar a Sociedade

(Publicado no Artiletra nº 78, de Outubro/Novembro de 2006)

Caríssimo leitor:

1. Introdução à Wikificação

É com imenso prazer que retorno à tua companhia, para conversarmos mais um pouco vagueando pelas nuances reflexivas nas quais a mente humana se debruça…

O título deste artigo pode parecer estranho, para os que nunca ouviram falar em wikis (coisa que aos poucos se vai tornando raro acontecer…). Farei um pequeno resumo dessa filosofia.

“Wiki” deriva de uma palavra havaiana que significa “rápido”. Foi usada pelo programador Ward Cunningham para cunhar um software que desenvolveu que permite aos visitantes de um site na internet o alterarem em tempo real, criando assim uma intensa interactividade antes desconhecida na internet.

Essa forma de geração de conteúdos em breve viria a tornar-se extremamente popular, ultrapassando vários sites tradicionais de conteúdo gerido por webmasters e editores.

O exemplo mais famoso, o Wikipédia, é nada mais nada menos que uma enciclopédia online cujos artigos são criados, editados, corrigidos e aumentados pelos seus próprios leitores. Qualquer visitante do site pode, a qualquer momento, acrescentar informação que disponha e que não esteja já na página, ou refrasear/reestruturar a informação já existente para a tornar mais legível e compreensível.

Tal parece ser uma forma muito estranha de se trabalhar. E o vandalismo? E se alguém maliciosamente apagar texto que foi laboriosamente elaborado e introduzido por outros leitores bem-intencionados? Ou pior, e se alguém deturpar essa informação para fornecer dados incorrectos?

O sucesso do Wikipédia seria o suficiente para dissipar qualquer dúvida sobre a eficiência do modelo wiki. Mas uma explicação simples é que a existência de um histórico de cada página permite a fácil reversão de vandalismos por qualquer leitor que detecte a anomalia. Centenas de administradores, todos voluntários, monitoram as inúmeras edições feitas constantemente, e em caso de vandalismo repetido, o artigo em questão é bloqueado para edições por anónimos ou utilizadores recém-criados durante algum tempo. O facto é que para a grande maioria dos temas, o gozo do vandalismo facilmente desiste contra a persistência dos editores bem-intencionados.

(Eu sugeria que tu, leitor, visitasses a Wikipédia e procurasses artigos referentes a Cabo Verde - estará aí alguma informação sobre a tua cidade, a tua vila, a tua povoação? o artigo respectivo não diz quase nada? experimenta acrescentar alguma informação…)

O Wikipédia ganhou terreno às outras enciclopédias online (muitas de grande prestígio, como a Brittannica), e análises aprofundadas de várias entidades (como a revista científica Nature) provaram que o seu grau de precisão científica e factual pouco deixa a desejar em relação a estas enciclopédias tradicionais.

A filosofia wiki - que representa a transição de um modelo conteúdo editorial (de um editor/especialista para o público) para um conteúdo auto-construído (dos utilizadores para os utilizadores) tem-se alastrado a várias áreas da sociedade moderna, e não só no mundo virtual da internet e dos computadores (onde, aliás, proliferam exemplos bem-sucedidos como o YouTube, o RottenTomatoes, o del.icio.us, o freeware/open-source, etc.).

Também no mundo “real”, onde temos, por exemplo, a expansão do jornalismo amador através da blogosfera, sendo que os próprios jornais tradicionais têm vindo a integrar colunas ou mesmo páginas inteiras dedicadas a blogs (espécie de diário online) populares ou onde publicam textos que os seus leitores escrevem no blog do próprio jornal.

Temos ainda o florescente wikimanagement, um sistema de gestão de empresas que usa o formato wiki para comunicação entre os seus elementos, evitando a distribuição de emails, relatórios para trás e para a frente, reduzindo assim drasticamente o tempo de comunicação na empresa, aumentando a performance e democratizando a estrutura, motivando os subordinados ao realçar a relevância da participação de todos e cada um dos funcionários.

2. Como wikificar a sociedade

Os olhares mais atentos notarão que se está a dar uma verdadeira revolução no domínio da informação: estamos a passar de um modelo elitista, em que um pequeno grupo de produtores de informação cria conteúdo para ser absorvido por um grande número de consumidores de informação, para um modelo verdadeiramente democrático, no qual todos podem produzir informação, sendo simultaneamente produtores e consumidores.

Mas e o lixo? A informação incorrecta, incompleta ou deturpada?, perguntará o mais céptico. Mas se repararmos, da mesma maneira que, com o boom da internet e da facilidade de criação de páginas, surgiram ferramentas que permitissem seleccionar o trigo do joio e encontrar exactamente o que procuramos - e estou a falar dos motores de busca, como o Google - , também para cada ambiente em que seja aplicada a criação de conteúdo pelos próprios utilizadores, ferramentas apropriadas irão surgir (e, na maior parte dos casos, já surgiram) que permitam o uso eficiente desse universo de criações - não fosse cada ser humano um mundo em si, com capacidades criativas potencialmente imensuráveis.

Seria o tempo agora de os mais visionários começarem a pensar em estender esse modelo de participação colectiva a outras áreas - áreas mais directamente relacionadas com o dia-a-dia das nossas sociedades. Falo da implementação de uma sociedade colaborativa.

Ora bem, o que significaria isso? Seguindo o modelo wiki conforme descrito acima, diríamos que se trata de estabelecer uma forma de gestão das nossas comunidades que fosse menos elitista e mais participativa. Uma análise afiada diria que estou a sugerir a abolição do governo e a implementação da anarquia. No entanto, penso que com uma estratégia de empower the people (dar poderes ao povo) o Governo só teria a ganhar.

Nota-se (e já o referi várias vezes) uma extrema dificuldade e excessiva burocracia na criação e reconhecimento legal de Organizações Não Governamentais (ONG’s) e Associações de fins não lucrativos. Só os mais persistentes chegam com sucesso ao fim desse processo moroso e desgastante fisica, psicológica e financeiramente. E o que resta das melhores intenções iniciais, acaba por ser quase sempre cortado pela extrema dificuldade de angariação de fundos para a realização das obras propostas. Um enorme potencial colaborativo fica assim reduzido a meia dúzia de associações comunitárias que, andando na corda bamba, lá vão ajudando a melhorar a sua comunidade local, enriquecendo-a material e intelectualmente.

Vi recentemente na televisão uma notícia referente a um projecto do governo português chamado Empresa na Hora, que promete permitir a criação imediata de uma empresa num período tão curto como duas horas, sem passar pelo longo e burocrático processo de obtenção e envio de vários documentos entre as repartições oficiais.

E eu digo: porque não um programa semelhante para as ONGs? É que, havendo interesse por parte das pessoas em colaborar no desenvolvimento da sua comunidade, porque não haveria o Estado de facilitar-lhes a tarefa? Mais não estariam a fazer que facilitar-lhe o próprio trabalho! E agir em pequena escala tem várias vantagens: não são necessários orçamentos exorbitantes (já que uma organização local não seria criticada por se dedicar mais a uma zona que a outras, quando essa zona é a sua própria!); os casos individuais poderiam ser tratados com mais diferenciamento, dependendo da gravidade da situação; uma hierarquia menos imponente favoreceria o contacto e a proximidade com a população, permitindo ter um feedback das acções levadas a cabo e receber sugestões; uma organização mais pequena seria mais fácil de gerir e portanto muito mais ágil.

Com medidas incentivadoras do associativismo e da participação comunitária e do civismo, certamente se massificaria essa prática, o que quiçá poderia levar à criação de uma nova classe, também autónoma (Governo Central > Municípios > Associações Comunitárias) na hierarquia de poder, tornando-a mais democrática e mais próxima do povo.

Uma federação nacional de ONG’s locais, tal como a Associação Nacional de Municípios, poderia agregar essas associações e efectuar a homogenização e o intercâmbio de projectos bem-sucedidos para os multiplicar, bem como a disseminação de conhecimentos empíricos adquiridos por algumas dessas associações de forma a que se evite a comissão dos mesmos erros, o que não seria possível se trabalhassem isoladamente.

Estaríamos assim, sem dúvida, um passo mais à frente no caminho da total e efectiva democratização da sociedade. One small step, one giant leap, on the route of democracy!

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Tuesday, May 30, 2006

Teoria da Popularidade

(Publicado no Artiletra nº 77, de Maio/Junho de 2006)

Tenho reparado ao longo da minha vida que a sociedade tende a reprimir diferenças entre os seus indivíduos. Reflectindo a insegurança e egoísmo naturalmente humanos, é esperado que as pessoas sejam todas do mesmo nível. Ok, isto foi um eufemismo: na verdade o que as pessoas querem é que todos os outros sejam iguais ou inferiores a elas próprias. De preferência inferiores.

Ora como isto não é obviamente possível, pois cada desigualdade tem dois lados, o de cima e o de baixo, a solução de compromisso para uma convivência pacífica entre os elementos de uma comunidade é serem todos iguais. Daí o sucesso dos fenómenos das massas, das modas, etc.

Estes fenómenos são interessantes, pois é precisamente o desejo de se destacar que faz com que as pessoas adiram à iniciativa de um indivíduo ou grupo que ousou quebrar a rotina. E é precisamente essa aderência em massa que faz com que as modas se espalhem, fazendo com que a iniciativa em questão se torne tão comum que quem se destaca muitas vezes são os que não aderem à moda, em vez do contrário.

Posto isto, e entrando no tema específico deste artigo, podemos dar um exemplo simples de como essa inércia social para a igualdade funciona: é inegável que a inteligência e a cultura geral são características consideradas positivas pela sociedade. No entanto, verifica-se que as pessoas que se destacam nesses campos acabam sempre por ser um pouco postas de lado, discriminadas, na prática. Portanto, uma reacção negativa.

Paradoxo?

Claro que não: basta notar que as outras modas são de aquisição mais ou menos fácil. Ou requerem dinheiro (o que cria as classes sociais, sendo no entanto algo homogéneas internamente), ou então, prática, treino. Coisa que muitas vezes é executada de forma divertida ou prazerosa. Vejamos alguns exemplos de características consideradas positivas e com adesão em massa:
- Desporto: um desportista exímio é sempre admirado (nem que seja pela sua forma física…)
- Música e Dança: a música exerce uma influência por vezes quase hipnótica no espírito humano, e regra geral agrada a todos.
- Moda: vestir-se bem (ou pouco…) reflecte bom gosto, e faz uso da atracção (inconsciente ou não) dos humanos por acessórios e enfeites.
- Sexo: mais instintos: é visível que as pessoas que emanam sexualidade atraem as outras (mesmo que isso implique serem playboys – ou “playgirls”)
- Dinheiro: o sucesso do capitalismo baseia-se na premissa que qualquer pobre diabo se pode tornar multi-milionário.

Todas estas áreas são algo acessíveis. Com pouco esforço e de forma geralmente agradável, pode-se aderir a uma ou mais delas. E é o que acontece, muitas vezes: inconscientemente admiramos pessoas que dominem esses campos. Melhor dizendo: invejamos. Queremos ser como elas, e ser também admirados (invejados?) pelos outros. É a natureza humana. E, com base nisso, imitamo-las, pura e simplesmente.

Mas então, se a inteligência/cultura é uma qualidade também admirada nas pessoas, porque é que pessoas que as possuam não se tornam populares e a moda não se espalha? A resposta é simples: Não há pessoas que possuam estas características, tal como a frase acima possa erradamente induzir. Elas não são inatas. São adquiridas, tal como todas as outras. Sim, há o factor genético, os talentos, os dons. Mas, tal como um músculo, uma potencialidade latente não se manifesta (pelo menos, não na sua totalidade) se não for estimulada.

Mas a ideia que vigora é que a capacidade cerebral de uma pessoa é determinada à nascença e pronto, não há mais nada a fazer. Ou se é esperto ou não.
Dois mitos têm, portanto, que ser desfeitos:

  1. Cultura geral não é inteligência
    Uma coisa tem que ficar clara: só porque uma pessoa lê muitos livros, sabe de que país Kuala Lumpur é capital, ou quem é Siddharta Gautama, ou que foi Miguel Ângelo que pintou o tecto da Capela Sistina… ISSO NÃO FAZ DELA UMA PESSOA INTELIGENTE!!! Quando muito, prova que ela tem boa memória… isto não quer dizer, obviamente, que a inteligência, nomeadamente a inteligência verbal, não se desenvolva a ler livros - e um ciclo se forma, já que a inteligencia verbal favorece por seu lado a facilidade absorção de cultura geral - que quase sempre é transmitida de forma escrita. A leitura, em específico, contribui para a criação desse ciclo que se auto-alimenta, especialmente se iniciada na tenra idade da curiosidade infantil. Essa actividade pode ser tão (mais, na verdade) emocionante como ver um filme, e no entanto a cultura popular diz o contrário… e sendo algo supostamente “difícil”, ou “chato”, as pessoas que não adquiriram esse hábito por gosto não estão dispostas a esse esforço para obter essa característica.
  2. A inteligência não é inata e imutável
    O treino do raciocínio, ao contrário do que se pensa, é muito fácil e divertido, com jogos diversos, e nem estou a falar de xadrez e damas. Cartas, o jogo do galo (fitch-fatch), palavras cruzadas e sudoku, ou mesmo jogos electrónicos, desde os solitários aos jogos de consola, todos (ou quase) desenvolvem algum tipo de capacidade mental. Só que as pessoas não concebem isso. Está tão entranhada a ideia que há pessoas burras e pessoas espertas, que a maior parte contenta-se em passar por médio e investir noutras áreas como mais-valia para a sua cotação social.

Como consequência destes mitos, o que acontece é que as pessoas tendem a olhar para quem demonstra ter desenvolvido capacidades mentais superiores à média como se fossem seres estranhos, diferentes; e automaticamente atribuem-lhes deficiências nas outras áreas: CDF’s, nerds, o professor/cientista maluco (mad scientist), todos esses são estereótipos algo depreciativos criados pela sociedade. Basicamente, considera-se que pessoas notavelmente inteligentes não têm jeito em desporto, dança, sexo, moda, etc., que vivem num mundo paralelo, o chamado “mundo da lua”, tendo poucas capacidades sociais.

Essa imagem é permanentemente reforçada pelos media, o que torna ainda mais difícil a sua reversão. A pressão social é constante, e desencoraja mais pessoas a seguirem essa moda, apesar da sua apelatividade, precisamente por alegar inapetência nas outras áreas apelativas. Eu próprio já presenciei o efeito desse desencorajamento: no liceu tive vários colegas que eram bastante inteligentes, mas que, para meu espanto, continuamente fingiam ser burros só para manter a sua imagem social! Lembro-me especialmente de um colega meu que chegou ao ponto de simular erros de leitura em voz alta, para parecer convenientemente iletrado e manter a sua reputação de yo (iou)!!!

O espantoso é que estudos estatísticos demonstram precisamente o contrário. Que pessoas consideradas “mais inteligentes” têm um sucesso superior à média na vida social, no desporto. Mas isso não se tornará do conhecimento público generalizado antes que o mito da dificuldade da aquisição da inteligência como elemento apelativo seja abandonado. Enquanto isso não acontece, as pessoas continuarão a subvalorizar esses indivíduos, como mecanismo inconsciente de manutenção do equilíbrio e da igualdade/homogeneidade social.

Uma excepção curiosa a essa teoria das capacidades mentais tem a ver com a arte. Antigamente os artistas eram uma classe da sociedade, não era qualquer um que criava uma obra de arte.
Acontece que a arte se “democratizou”. Hoje os meios estão disponíveis para quem quiser, e os diversos estilos se multiplicam a cada ano. É por isso que hoje qualquer um pode ser “artista” e compor musica, fazer graffiti, escrever um blog ou página web. Sendo possível uma aquisição dessa característica apelativa (o epíteto de artista, músico, etc) sem muito esforço, é natural que a arte tenha também entrado para o círculo das modas…

Resta esperar que uma revolução semelhante se possa dar no campo da inteligência, e ela possa entrar no mercado de atractivos sociais sem sofrer discriminações. E que o homem que não sabe que sabe evolua finalmente para o homem que sabe que sabe (homo sapiens sapiens).

ACTUALIZAÇÃO: encontrei ontem um texto excelente (em inglês) da autoria de Paul Graham sobre a psicologia da exclusão dos “nerds” nas high schools americanas, quem se interessar por uma análise mais profunda do tema pode lê-lo aqui.

ACTUALIZAÇÃO II: O artigo Como não falar com seu filho publicado na revista Época, aponta estudos que mostram que o elogio do esforço das crianças produz melhores resultados que o elogio da inteligência, já que este, principalmente quando não sincero, tende a dar a impressão de que a pessoa que elogia considera que o elogiado atingiu o limite das suas capacidades inatas, e faz o elogio apenas para aumentar a sua auto-estima, enquanto que quem elogia o esforço e faz críticas, internamente demonstra acreditar nas capacidades da criança de fazer melhor.

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Sunday, July 31, 2005

O Quarto Poder

(Publicado no Artiletra nº 69/70, de Julho/Agosto de 2005)

Saudações, caríssimo leitor!

Gostaria de sugerir que continuássemos a nossa jornada, desta vez abordando um tema bastante pertinente: a liberdade de acesso à informação…

Há uns dias atrás, vim-me com esta frase, que achei interessante:

“metade dos problemas do mundo deve-se à falta de informação (pelos que dela precisariam para os resolver), e a outra metade deve-se ao excesso de informação (pelos que dela se servem para os causar)”

Realmente, isso descreve bastante bem o problema da informação: é uma coisa muito importante e está ligada a todos os momentos da nossa vida. nós só somos uma sociedade, porque o nosso cérebro computa tanto dados internos como os que recebe do exterior, como input através dos sentidos.

Diz-se que o verdadeiro poder está na informação: quem controla a informação que chega às massas, controla as massas. É por isso que existe tanta manipulação e censura nos média, como a televisão, a imprensa, a rádio.

O Boom das telecomunicações, trouxe muito à causa da liberdade de acesso à informação. Com a informação a atingir cada vez mais pessoas, o povo se torna mais esclarecido e mais dificilmente se deixa enganar por tiranos. Com pessoas mais bem informadas, melhor poderão se desenvolver na sua vida, fazendo coisas que realmente gostam. Com a facilidade das comunicações, há mais contacto entre as pessoas; as distâncias encurtaram.

Mas a informação continuou a ser bastante controlada pelos mais poderosos; os que detinham menos poder só sabiam o que se queria que soubessem. Houve outro Boom. A Internet. Antes, era praticamente impossível que um mortal comum tornasse um texto público; A edição de um livro, ou a publicação num jornal, televisão ou rádio eram processos morosos e que raramente se cediam a qualquer um. Com a net, toda e qualquer pessoa com acesso à rede ganhou a chance de tornar as suas ideias públicas, sem qualquer esforço, acabando com barreiras sociais, culturais, raciais, geográficas. Houve uma verdadeira democratização da informação.

Mas a informação continua cara. As melhores enciclopédias continuam sendo disponíveis apenas sob pagamento. Felizmente há a regra de ouro da internet: oferecer SEMPRE algo de graça. FREE é a palavra mágica da internet. Mas por outro lado o que se dá de graça raramente é de boa qualidade. Todo o conhecimento humano, tudo o que elementos da nossa espécie já descobriram ao longo da História, devia estar disponível para todos, gratuitamente. Mas não: temos que pagar para obter livros; temos que pagar para ter a televisão; temos que pagar para ter rádio, jornal, internet! No fundo a informação (poder) continua sempre nãs mãos dos que já detêm algum poder social (dinheiro); isso impede que os mais desfavorecidos não tenham a chance de se desenvolver plenamente como seres humanos, desperdiçando a sua vida e o potencial intelecto em trabalhos maquinais, que lhes empurra cada vez mais para uma existência vegetal, apesar de nada deixar transparecer isso.

Mas há excepções! um exemplo é o Google, que gratuitamnente oferece o seu serviço de pesquisa na internet, tendo assumido a missão de organizar o caos da internet, tornando acessível a informação verdadeiramente relevante. Outro exemplo são as aplicações P2P (peer-to-peer), como Kazaa, o Emule, o BitTorrent, entre tantos outros, que são programas que permitem a troca de ficheiros entre utilizadores da rede, tornando possível obter qualquer informação, quer em texto, som, vídeo ou outro formato qualquer. Mas o melhor de todos os exemplos é o Wikipédia (www.wikipedia.org). Um projecto que começou já há alguns anos, consiste numa enciclopédia online completamente gratuita, e que pode ser editada por qualquer pessoa! Esse conceito é muito importante: significa que, qualquer internauta que visite o site pode acrescentar informação que disponha a um determinado artigo que esteja incompleto, sem precisar de se inscrever em nada, e muito menos pagar, podendo inclusivamente iniciar um novo artigo sobre um assunto que ainda não esteja abrangido pela enciclopédia.

Esse exemplo mostra claramente o que devia ser feito com o Conhecimento Humano: o ideal era que houvesse uma base de dados universal, com todo o conhecimento produzido por humanos, disponível gratuitamente para todos, e passível de ser incrementado livremente com novas informações. Uma ideia similar foi desenvolvida por Theodore Nelson, o inventor do hipertexto, e chamou a essa biblioteca universal Xanadu. William Gibsons imaginou algo parecido no seu romance Neuromancer, que descrevia o Ciberespaço, um emaranhado de ligações que conectavam cada simples pedaço de informação, formando uma gigantesca rede que englobava todo o conhecimento…

(preparem-se que agora começam as ideias loucas)

Se a telepatia fosse uma realidade (e quem garante que não seja?), quem sabe seria possível criar uma consciência comum a toda a humanidade, uma espécie de internet mental, à qual todos os humanos (ou atá abrangendo todos os seres pensantes, se considerarmos que os pensamentos têm a mesma essência para todos os seres - digamos que se os pensamentos se transmitem por ondas, então se pode fazer uma analogia com o electromagnetismo e abranger todos os seres cujas “ondas mentais” se encontrem na mesma faixa do espectro, ou seja, tenham a mesma frequencia que as ondas mentais humanas - isto é pura especulação), como eu ia dizendo, à qual todos os humanos teriam acesso. Tal coisa foi descrita no conto A Última Pergunta, de Isaac Asimov, no qual num futuro longínquo toda a humanidade estaria conectada com uma única consciência comum, tendo-se libertado até dos corpos físicos dos elementos da espécie.

Veja-se que existindo tal coisa, finalmente se explicaria a injustiça da morte (melhor dizendo, a morte deixaria de ser injusta), pois todo o conhecimento e sabedoria que uma pessoa acumulou durante toda a sua vida não ficaria perdido, sendo absorvido pela consciência global. Assim justificaria-se também a existência da matéria: se a alma fosse independente do corpo, e ela sobrevivesse à morte física, então para quê existir o corpo físico? qual a sua finalidade? nesta visão, a alma não seria realmente independente do corpo; tal como o software dos computadores não se executa sozinho, no ar - é o resultado da passagem da corrente eléctrica pelos milhões de circuitos e interruptores dos chips (hardware), também a alma, a consciência, a memória seria o resultado das interacções entre os neurónios do cérebro. Assim, tal como computadores em rede que em conjunto parecem formar uma única entidade (como é óptimo exemplo a internet), também seria o mesmo connosco (obviamente de um modo muito mais elaborado e complexo).

Assim, cada ser pensante seria individual enquanto existisse o seu corpo físico, sendo absorvido em comunhão com o conjunto aquando da sua morte física; o seu “software” ficaria armazenado distribuidamente em outros “computadores” da rede. Toda essa estrutura seria continuamente reciclada com a morte de algumas almas e o nascimento de outras cada uma com o seu potencial derivado da unicidade dos seus “circuitos” físicos. Com algo do tipo, a evolução mental da espécie se daria de modo muito mais contínuo, homogéneo, e, principalmente, rápido. Com essa comunhão com o todo, os instintos egocentristas (que falei alguns artigos atrás) deixariam de fazer efeito, pois cada ser teria o seu ego pessoal, e o ego comum - sentir-se-ia realmente parte da sociedade, e poderia realmente amar o próximo como a si mesmo…

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Tuesday, November 30, 2004

A Propósito

Publicado no Artiletra nº 61/62, de Novembro/Dezembro de 2004)

Certos acontecimentos recentes, do conhecimento de nós todos, deram azo a uma série de divagações que pretendo neste artigo partilhar convosco.

Falo do triste evento que foi a morte do nosso grande poeta, cantor, homem de cultura e tantas outras coisas que se torna impossível listá-las todas aqui.

E é pena, realmente, que se extingam tão grandes representantes da grandiosidade que o ser humano pode atingir, e apesar de não terem verdadeiro sentido lógico, o enterro e o luto têm o seu sentido emocional, pois nós por natureza não compreendemos nem aceitamos facilmente a perda de um querido, de pessoas que amamos e admiramos. Não nos parece natural que a complexa personalidade de mesmo quem não se tenha destacado  na sociedade, personalidade que foi criada por um processo longo e intrincado de interacções e influências diversas, se esfume de um momento para o outro no nada, qual névoa vaporizando-se.

I

Mas e se tal não for o que na verdade acontece? E se realmente existir vida após a morte?

É de notar que este tema não é nem esotérico nem paranormal, pois é abordado das mais diversas frentes, desde a religiosa à científica, passando pela filosófica.

O desejo de vencer a morte e o fascínio por essa possibilidade sempre fez parte do espírito humano, e esse sentimento encontra-se espllendidamente retratado no seguinte poema de Patrick Overton:

“When we walk to the edge of all light we have,
and take a step into the darkness of the unknown,
we must believe one of two things will happen,
there will be something solid for us to stand on
or we will be taught to fly.”

(Quando caminhamos para a margem de toda a luz que temos,
E damos um passo na direcção da escuridão do desconhecido,
Devemos acreditar que uma de duas coisas acontecerá,
Ou haverá algo sólido para nos sustentar
Ou seremos ensinados a voar.)

Os egípcios com o seu culto da vida pós-morte (que originou a construção das fabulosas Pirâmides, por exemplo)A alquimia, com a sua procura pelo elixir da vida eterna; o cristianismo com a sua promessa de ascensão aos céus das almas puras; a filosofia com o questionamento da verdadeira natureza da nossa essência; a ciência com a constante busca para passar factos do campo do “sobrenatural” para o natural; tudo isso são reflexos de diversos modos de encontrar consolo ao inconformismo com que encaramos o tema.

II

Mas será que temos razão? Será que devemos confiar no nosso inconformismo e deduzir com base nele que deve existir vida após a morte, ou aquela não teria sentido?
Penso que não. Se virmos as coisas por outro prisma, veremos que na verdade é só uma questão de relatividade. Da mesma maneira que um minuto nos parece  uma hora se estivermos enfadados, e uma hora nos parece um minuto se estivermos a divertir-nos, também nos parecerá curta a existência de certas pessoas, se não tivermos apreciado ao máximo os momentos que passámos (ou poderíamos ter passado) com essa pessoa.

Hoje em dia é frequente as pessoas se aproximarem ou até ultrapassarem um século de vida; mas o que muitos não reparam é que meio século já é muito, muito mais do que se imagina! Apesar de um terço desse tempo ter sido passado a dormir [], os dois terços restantes incluem bilhões de segundos nos quais nos é permitido dar azo às nossas aspirações, sonhos, fazer o que gostamos e apreciarmo-nos uns aos outros. Tudo o que uma pessoa vive (ou pode viver) em 50 anos dificilmente caberia em todos os livros do mundo. Mas nós, na nossa rotina do dia-a-dia, muitas vezes não paramos para apreciar que outras pessoas estão a fazer em vez de cumprir a rotina que poderiam ter. Por exemplo, ouvir de vez em quando um CD do saudoso Ildo*.

A este respeito, acho pertinente enfatizar a ideia de valorizar mais os jovens, pois geralmente só se reconhecem os artistas (e outros talentos) quando já estão a meio da carreira (muitas vezes, até, quando já estão no fim), pelo que não admira que essas pessoas pareçam “morrer antes do tempo”. As pessoas de facto geralmente vivem o tempo necessário para exercer as suas talentos e deixar a sua marca no mundo, mas muitas simplismente só são reconhecidas numa fracçao desse tempo de criaçao, de vida que têm, enquanto que outras nem seque se dão ao “trabalho” de viver intensamente a sua própria visa.

Isto agora me lembrou um email que alguém me enviou, um forward que dizia mais ou menos assim:

“Convencemo-nos que a vida será melhor depois… Depois de acabar os estudos, depois de arranjar trabalho, depois de casarmos, depois de termos um filho, depois de termos outro filho.

Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixem de ser crianças, depois desesperamo-nos porque são adolescentes, insuportáveis. Pensamos: «Seremos mais felizes quando passar esta fase!»

Então decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso companheiro ou companheira estiver realizado, quando tivermos um carro melhor, quando pudermos ir de férias, quando conseguirmos uma promoção, quando nos reformarmos.

A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA MESMO!

Se não for agora, então quando?
A vida está cheia de depois, de reptos. É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!

Deixa de esperar até que acabes os estudos, até que te apaixones, até que encontres trabalho, até que te cases, até que tenhas filhos, até que eles saiam de casa, até que te divorcies, até que percas esses 10kg, até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã, até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras, para decidires então que não há melhor momento que justamente ESTE para seres feliz!

A felicidade é um trajecto, não um destino. Trabalha como se precisasses de dinheiro, ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse a ver!”.

*Ildo Lobo, famoso cantor cabo-verdiano, faleceu em 20 de Outubro de 2004

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Wednesday, December 10, 2003

Non Siamo Soli - Parte V

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(Publicado no Artiletra nºs 54, de Novembro de 2003,
55, de Dezembro de 2003,
e 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Parte V – Mensagens Interestelares

1. O Início

É, certamente, muito difícil determinar uma data concreta para o início do SETI (área da ciência que trata da busca de inteligência extraterrestre, normalmente feita por rádio). Tal como disse na primeira parte deste artigo, a fascinação por outros mundos remonta à antiguidade. Mesmo a procura por sinais de rádio já era levada a cabo pelos pioneiros da rádio. Mas a procura moderna e científica por inteligência extraterrestre tem uma data clara de início: um pequeno artigo de duas páginas, publicado por Philip Morrison e Giuseppe Cocconi na revista Nature em 19 de Setembro de 1959. Intitulado “Searching for Interstellar Communications” (em busca de comunicações interestelares), é considerado o documento fundador da moderna SETI.

 

Segundo Morrison e Cocconi, as frequências mais racionais para comunicações interestelares situar-se-iam entre 1 e 10.000 MHz. São essas as frequências nas quais a atmosfera planetária interfere menos com os sinais electromagnéticos, e onde o ruído galáctico (ondas de rádio emitidas pelas estrelas) atinge o mínimo. Anos mais tarde foi descoberto que essas são também as frequências nas quais há menor radiação cósmica de fundo (CBR – Cosmic Background Radiation), mas esta não era conhecida na altura.

Mas uma margem de frequências de 10.000 MHz continua sendo de longe demasiado extensa para ser usada numa busca sistemática. Morrison e Cocconi fizeram então uma proposta que determinou o curso da SETI até hoje: os extraterrestres, argumentaram, usam em princípio a frequência de 1420 MHz (comprimento de onda de 21 cm). Esta é a frequência de emissão do átomo do elemento mais abundante no universo – o hidrogénio. Seria uma frequência aconselhável, pois qualquer observador do universo a conheceria. Qualquer busca sistemática deveria começar aqui, até porque o hidrogénio é um dos componentes da água, composto cujo estado líquido é indispensável a qualquer forma de vida conhecida. Os autores terminam o artigo com um desafio optimista aos cépticos: “A probabilidade de sucesso é difícil de calcular; mas se nunca chegarmos a procurar, a probabilidade é zero.”

Mais tarde, outro pioneiro da SETI, o vice-presidente da Hewlett-Packard Bernard Oliver, adicionou outra frequência “mágica”, 1662 KHz, a frequência de emissão de outra molécula muito comum – OH, ou hidróxido. O hidrogénio e o hidróxido combinam-se para formar H2O – água. Sendo que 1662 KHz partilha as vantagens de 1420MHz, por estar situada numa zona relativamente “calma” do espectro electromagnético, Oliver sugeriu que a banda entre estas duas frequências continha características únicas, promissoras de detecção de um sinal extraterrestre: “Certamente que a banda situada entre as ressonâncias dos produtos da dissociação da água está idealmente situada e é um local inigualavelmente poético para a vida baseada na água procurar o seu género – onde o encontraremos? No water-hole, é claro!” Desde então, o “water-hole” (buraco da água) tem sido usado como referência para as buscas de sinais de inteligência extreterrestre.

Cocconi contactou Sir Bernard Lovell, do rádio-observatório Jodrell Bank, o maior radiotelescópio do mundo, na altura, e sugeriu o uso de algum do tempo de observação do telescópio para procura de um sinal extraterrestre. Sir Bernard era, porém, um céptico, e nada veio a ser feito. A primeira busca científica de sinais rádio extraterrestre foi deixada para outros.

2. O Projecto Ozma

Mais ou menos pela mesma altura que Morrison e Cocconi especulavam acerca de sinais extraterrestres, um jovem astrónomo chamado Frank Drake estava levando a cabo as suas próprias investigações sobre comunicações interestelares. Drake era um membro do pessoal no Observatório Nacional de Radioastronomia, em Green Bank, na Virgínia.

Como membro júnior do pessoal em Green Bank, Drake participava na maioria dos projectos de radioastronomia no NRAO (abreviatura de National Radio Astronomy Observatory). O seu fascínio era, contudo, a busca de civilizações extraterrestres. Ele teve a sorte de se encontrar, num dos almoços do pessoal, com Lloyd Berckner, director de acção do NRAO, que lhe deu a possibilidade de por os seus projectos em prática. Drake nomeou a aventura “Projecto Ozma”, inspirado na Princesa Ozma, do clássico de Frank L. Baum, “O Feiticeiro de Oz”.

Dois eventos combinaram-se para dar impulso ao projecto Ozma. Um foi a eleição de Otto Struve como o primeiro director permanente do NRAO. Struve ficara famoso pelo seu trabalho de análise da rotação estelar, a qual ele defendeu que poderia indicar a presença de planetas orbitando essas estrelas. Na mente de Struve, era só um pequeno passo de planetas extrasolares para inteligência extraterrestre: ele apoiou o projecto Ozma de todo o coração. Enquanto que Drake e os seus colegas, receando pela sua respeitabilidade académica e pela sua paz de espírito, escolheram manter secreto o projecto, Struve imediatamente divulgou o projecto no MIT. A medida que a onda de publicidade avançava, também o faziam o apoio e o suporte públicos, bem como valiosas doações em dinheiro e equipamento.

O outro evento foi a publicarão do artigo de Morrison e Cocconi na Nature em Setembro de 59. Drake ficou felicíssimo por tão proeminentes pesquisadores estarem a trabalhar numa linha próxima da sua. Especificamente, Morrison e Cocconi forneceram o suporte teórico para a busca na mesmíssima frequência que Drake escolhera meramente por razoes económicas — 1420 MHz, a frequência a que a maioria dos telescópios vinha programada da fabrica, pelo que trabalhar nessa frequência não requereria dinheiro em alterações do equipamento.

Para 0 seu tempo, Ozma possuía tecnologia de ponta. Os investigadores usavam um amplificador paramétrico experimental, doado pela Microwave Associates, bem como a nova tecnologia maser. Combinando estes com os 85 pés de diâmetro do radiotelescópio, Drake e a sua equipa atingiam um grau de sensibilidade mil vezes superior que qualquer outro até então conseguida. Os restantes equipamentos eram convencionais: um comum gravador de cassetes e um traçador de gráficos. No último momento, a equipa do Ozma comprou também um altifa1ante, pelo sim, pelo não…

Ozma iniciou as operações a 8 de Abril de 1960, com o objectivo de procurar por sinais vindos das duas mais próximas estrelas do tipo do Sol – Tau Ceti e Epsilon Eridani.

O Projecto Ozma operou por um mes, parou por outro, e por fim retornou para um (último) mes de observações. Ao todo, devotou 200 horas de observação a estes dois alvos, Tau Ceti e Epsilon Eridani. Scanneou 7200 canais divididos igualmente entre as duas estrelas, coda um com uma largura de banda de 100 Hz. Toda a busca foi conduzida a volta da frequência de 1420MHz, com desvios para os dois lados para procurar pelas chamadas variações de Doppler na frequência de transmissão, devido aos movimentos relativos da Terra e do suposto planeta de origem – efeito previsto pelo artigo de Morrison e Cocconi. Apesar de o Ozma não ter encontrado um sinal de uma sociedade extraterrestre, a busca tornou-se no modelo para todos os futuros projectos da SETI.

3. A Ordem dos Golfinhos

Em Novembro de 1960, um grupo altamente seleccionado de físicos e engenheiros encontrou-se na Virgínia para uma pequena conferência informal. O encontro realizou-se em Green Bank sob os auspícios da Academia Nacional de Ciências, para discutir uma questão que estava ainda a ganhar respeitabilidade científica: Quais as perspectivas de estabelecer contacto com outros mundos? Pode ter-se uma ideia do quão arriscado era considerado o tópico, pelo facto de ter sido decidido não anunciar a conferência, e não publicar nada acerca dela, após a mesma.

A conferência foi organizada por J.P.T. Pearman, do Quadro de Ciência da Academia Nacional de Ciência. Os outros dez convidados incluíam Dana Atcheley, presidente da Microwave Associates, (que doara o amplificador paramétrico ao Projecto Ozma); Melvin Calvin, um bioquímico de renome mundial, que estudou as origens da vida; Bernard Oliver, vice- presidente para a Pesquisa e Desenvolvimento da Hewlett-Packard; Carl Sagan, então um jovem astrónomo na conceituada Universidade de Cornell; Phillip Morrison e Giuseppe Cocconi, autores do artigo da Nature que lancou as bases da SETI moderna; Frank Drake, do famoso Projecto Ozma; Su Shu Huang, astrónomo e especialista em planetas extrasolares, e o seu professor de formação, Otto Struve, director do observatório de Green Bank e anfitrião da conferencia; e John Lilly, que publicara recentemente o seu controverso “Man and Dolphin”, argumentando que os golfinhos são uma espécie inteligente. Foi num tributo amigável ao celebrado trabalho de Lilly que os conferencistas autodenominaram-se “A Ordem dos Golfinhos” (The Order of the Dolphins). Para o desenvolvimento da SETI, o encontro foi um evento decisivo. Pela primeira vez, a possibilidade de comunicação com extraterrestres estava sendo seriamente discutida por alguns dos mais proeminentes cientistas do mundo. Tão proeminentes, de facto, que um deles, Melvin Calvin, foi premiado com o Prémio Nobel de Química no decurso da conferência.

4. A Equação de Drake

O encontro de Green Bank foi também notório por ter protagonizado a primeira utilização da famosa fórmula que veio a ser conhecida como a “Equação de Drake”. Quando Drake formulou esta equação, ele não fazia a mínima ideia de como ela seria a base das teorias da SETI décadas depois.
De facto, ele pensou nela como uma ferramenta de organização — um modo de organizar os diferentes assuntos a ser discutidos na conferência de Green Bank, e levá-los a ser a questão central da problemática da vida inteligente no universo.

A grande questão do número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia podia, na visão de Drake, ser reduzida a sete tópicos menores:

  • A taxa de formação de estrelas na nossa galáxia na altura em que o nosso Sistema Solar se formou (R*);
  • A fracção de estrelas que tem planetas orbitando a sua volta (fp);
  • O número de planetas por estrela capazes de sustentar vida (ne);
  • A fracção desses planetas na qual a vida efectivamente se desenvolve (fl),
  • A fracção dos planetas com vida na qual a inteligência se desenvolve (fi);
  • A fracção de fi cuja(s) espécie(s) inteligentes têm meios para estabelecer comunicação interestelar (fc);
  • O tempo de vida dessas civilizações (L);

Representando o número de civilizações comunicáveis na nossa galáxia por N, e multiplicando os diferentes factores, obtemos a famosa Equação de Drake:

N=R*.fp.ne.fl.fi.fe.L

A equação serviu bem o seu propósito na conferência de Green Bank. Forneceu um método de trabalho que possibilitou a todos os investigadores presentes, que tinham diferentes especialidades, a oportunidade de contribuir com o seu conhecimento específico para o equacionamento do problema, e ao mesmo tempo ajudar na questão geral do encontro.

Em breve, porém, para a surpresa de Drake, a equação tornou-se muito mais do que isso. A curta fórmula matemática mostrou-se irresistível para os promotores da SETI: reduzia uma enorme e quase inimaginável questão especulativa a uma série de questões específicas. Enquanto que a questão geral parecia demasiado ampla e especulativa, os sete componentes da fórmula pareciam emprestar-se a análise científica. Posta como uma fórmula, a questão adquiria um aspecto matemático e quantitativo. Que melhor maneira de ganhar respeitabilidade científica que formular uma equação matemática?

Os conferencistas de Green Bank completaram a equação com os conhecimentos das diversas áreas dos participantes. Apenas sobre a taxa de formação de estrelas havia informações existentes, pelo que a conferência acordou em fixá-la em cerca de uma estrela por ano. Otto Struve, o especialista em planetas extrasolares, deu uma opinião optimista sobre o número de planetas orbitando outras estrelas. Su-Shu Huang assentiu positivamente sobre o número de planetas com capacidade de desenvolver vida ser bastante comum, e Calvin e Sagan sugeriram que nos planetas onde as condições estivessem reunidas, a vida surgiria mais tarde ou mais cedo. Lilly opinou optimisticamente sobre o desenvolvimento de inteligência em planetas que alberguem vida, baseado no seu trabalho com os golfinhos. Os dois últimos elementos da equação estavam nos domínios das ciências sociais: que civilizações estão desenvolvendo esforços de comunicação com outras civilizações, e quanto tempo duram as civilizações sem se autodestruírem. Morrison lamentou a ausência de sociólogos na conferência, mas lembrou que mesmo estes teriam dificuldade em responder a tão grandes questões, e sugeriu que, baseada na experiencia da Terra, as civilizações tem tendência a desenvolver tecnologia, e que a curiosidade e a necessidade de comunicar pareciam ser universais. E, partindo do princípio que uma civilização conseguisse superar a sua autodestruição nuclear, a sua duração seria “infinita”.

Em suma, elaborando e resolvendo a equação, chegaram a conclusão que o número de planetas comunicáveis poderia ir de l000 a mil milhões, só na nessa galáxia. Com essa base, recomendaram a busca por sinais rádio extraterrestres, usando um radio-telescópio de 300 pés, potentes computadores, e paciência para procurar por pele menos 30 anos.

5. Buscas Recentes

É um dos estranhes factos da história da SETI, que, apesar do crescente literatura e interesse público no assunto, uma década inteira passou antes que a recomendação de acção de Green Bank fosse respondida. Enquanto que algumas buscas foram lançadas na União Soviética sob a liderança do radioastrónomo Iosif S. Shklovskii, nenhum sucessor imediato do projecto Ozma emergiu no Ocidente. Foi apenas em 1971 que uma busca foi finalmente lançada. Tratava-se do que veio a ser conhecido como o projecto Ozpa, pelas suas semelhanças com o Ozma. No entanto, e apesar dos meios serem de longe melhores, o tempo de escuta foi substancialmente menor. O próprio promotor da pesquisa, G. L. Verschuur, era um céptico na matéria – por estranho que pareça!

Foi depois lançado outro projecto, denominado Ozma II, que, de 1972 a 1976, pesquisou 674 estrelas por mais de 500 horas.

Nas três décadas seguintes, foram lançados outros projectos de menor envergadura, que duraram pouco. Mas, nesse tempo, importantes acontecimentos se deram.

6. “Wow!”

A mais longa e também uma das mais famosas buscas foi levada a cabo com o uso do gigantesco radiotelescópio “Big Ear”, no Ohio State University. O “Big Ear” não era um telescópio comum: em vez do familiar “prato”, ele era composto por uma superfície plana de alumínio do tamanho de três campos de futebol, com um reflector gigante de cada lado – um plano e um parabólico. A sua sensibilidade era equivalente ao de um disco de 172 pés. De 1973 até a sua demolição em 1998 (para dar lugar a um campo de golfe), a sua função mais importante foi uma contínua e dedicada busca SETI na linha de hidrogénio.

O mais famoso momento na história do Big Ear, o qual ganhou um lugar de honra nos anais da SETI, aconteceu na noite de 15 de Agosto de 1977. Tal como nas outras noites, enquanto o Big Ear ia pesquisando os céus em busca de um sinal extraterrestre, as suas observações iam sendo imprimidas: uma longa lista de letras e numeres estava continuamente imprimida, uma lista para cada um dos cinquenta canais pesquisados pele telescópio. Uma lista de caracteres apareceu, gravando uma transmissão incomum, na frequência de canal 2: “6EQUJ5″. Isto chamou a atenção de Jerry Ehman, um voluntário do Big Ear e professor na Franklin University, em Columbus, que estava monitorizando as leituras nessa noite.

Ele circulou e código para referência posterior, e juntou um simples comentário nas margens: “Wow!” A série “6EQUJ5″ descrevia a intensidade do sinal recebido por um curto lapso de tempo. No sistema usado na altura no Big Ear, cada número de l a 9 representava a intensidade do sinal em relação ao ruído de fundo. Para estender a escala, o pessoal adicionara letras, representando cada uma, de A a Z, um incremento no nível do sinal. 6EQUJ5 representava um sinal que crescera em intensidade até o nível U, e depois gradualmente decrescera. Ou seja, o sinal subira de o a 30 “sigmas” sobre o ruído de fundo, decrescendo outra vez ate zero, tudo num intervalo de 37 segundos.

Dois aspectos desse sinal imediatamente chamaram a atenção de Ehman e do director do projecto, John Kraus, que viu os resultados na manhã seguinte. Em primeiro lugar, 37 segundos era precisamente o tempo quo o Big Ear levava a pesquisar um ponto determinado no céu, devido à rotação da Terra. Por isso, qualquer sinal do espaço deveria seguir o padrão do sinal Wow: aumentando e decrescendo em 37 segundos. Isto praticamente eliminou a possibilidade de o sinal se tratar de interferência rádio de origem terrena. Em segundo lugar, o sinal não era contínuo, mas intermitente. Kraus e Ehman sabiam que, por o Big Ear ter dois reflectores cm ângulos diferentes, um sinal do céu deveria aparecer num, depois desaparecer, e depois aparecer no outro, quando tivesse atingido o seu raio de acção. Mas o sinal apenas apareceu num dos reflectores e não no outro, como se tivesse sido “desligado” durante o intervalo entre as duas observações.

Um sinal forte, focado e intermitente vindo do espaço: poderia o Big Ear ter detectado um sinal extraterrestre? Desde 1977 varias tentativas foram feitas para voltar a descobrir o sinal Wow. Mas até hoje, ninguém sabe a origem do mais forte e claro sinal alguma vez detectado numa pesquisa SETI. Sendo indubitavelmente artificial, e quase de certeza de origem celestial, Jerry Kraus especula sobre a possibilidade de o sinal ser de uma nave espacial humana, da qual o pessoal do Big Ear não tenha tido conhecimento, isso certamente o tornaria num sinal espacial inteligente, mas não um extraterrestre. E, claro, resta a possibilidade de se tratar de um verdadeiro sinal alienígena.

Mas enquanto o sinal não for novamente detectado, poderemos nunca vir a saber.

7. NASA

Enquanto que a maioria das buscas SETI era modesta, este não era sempre o caso. Os mais ambiciosos projectos SETI foram levados a cabo pela NASA, que tinha acesso a fundos e recursos numa escala completamente diferente de quaisquer outras buscas. Apesar de a NASA ter levado a SETI a escalas totalmente inimagináveis pelos pioneiros do Ozma, ao mesmo tempo, mostrou os riscos da dependência em fundos do governo: durante os tempos de cortes de orçamento em Washington, o projecto SETI mostrou-se extremamente vulnerável à mudança de ventos políticos. Os dois maiores projectos da NASA na área foram cancelados passado menos de um ano após o seu implemento, em movimentos liderados pelo senador Richard Bryan, que encabeçou a carga contra os gastos do governo em pesquisas SETI. Apesar dos enormes esforços de Carl Sagan (já um importante cientista de renome mundial, c um dos maiores defensores da SETI) para manter o apoio governamental à SETI, que como frutos obtiveram uma década a mais para esse suporte, a esta altura os cépticos levaram a melhor.

Após um investimento da ordem de 60 milhões de dólares em 23 anos, e menus de um ano de operações concretas, o projecto SETI da NASA estava inesperadamente morto. No entanto, apesar do enorme desapontamento dos pesquisadores e entusiastas, pode-se dizer que todo esse investimento não foi em vão: a maioria dos recursos adquiridos durante esses 23 anos, e que de outro modo seria impossível obter, não foram desperdiçados: passariam para o privado SETI Institute. Este usou-os então para lançar a sua própria busca, o bem nomeado projecto Phoenix.

8. Organizações SETI

Quando o financiamento governamental foi cancelado, os grupos financiadores minoritários do projecto SETI avançaram para salvar o que pudessem e preservar a pesquisa SETI. Duas destas organizações destacaram-se em particular pela sua liderança nas acções de preservação da SETI nesses tempos difíceis: o SETI Institute, sediado em Silicon Valley, na Califórnia, e a Planetary Society, com sede em Pasadena.

O SETI Institute, fundado em 1984 para financiar projectos SETI, e de entre cujos fundadores se encontram Frank Drake, Bernard Oliver, etc., tornou-se no principal financiador da busca localizada de sinais alienígenas.

Os esquisadores do SETI Institute baseiam as suas buscas no método localizado, ou seja, procuram em estrelas específicas previamente seleccionadas, podendo assim cobrir grandes intervalos de frequência, que não apenas a do hidrogénio. Para a sua pesquisa, os cientistas do projecto Phoenix compilaram uma lista de 1000 estrelas que reúnem as melhores condições de abarcar civilizações extraterrestres, a uma distância de até 200 anos-luz, e mais velhas que 3 bilhões de anos. São também adicionadas à lista as estrelas que se descobre possuirem planetas. Cada estrela monitorada pode ser observada em comprimentos de onda entre 1000 e 3000 MHz. Os computadores da Phoenix podem reconhecer um sinal com apenas 0,7 Hz. Isto é muito importante, pois nenhuma radiação natural conhecida tem menos de 300 Hz. Desde 1998, o Projecto Phoenix tem utilizado o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico – o maior do mundo, com 305 metros (1000 pés).

Mas enquanto que o SETI Institute mantém uma política de busca localizada, a Planetary Society apostou na busca de céu inteiro, utilizando apenas frequências próximas de 1420MHz. Desde 1996 a Planetary Society tem suportado o Projecto SERENDIP, uma pesquisa radio de céu inteiro liderada por Dan Werthimer, da Universidade de Berkeley. O SERENDIP também usa o radiotelescópio de Arecibo, mas por mais tempo que o projecto Phoenix, pois enquanto este tem que aguardar seis meses até que o telescópio esteja apontado na direcção das estrelas listadas, o SERENDIP pode aproveitar qualquer direcção em que o Arecibo esteja voltado.

9. Hoje

Novos projectos estão sendo desenvolvidos hoje em dia, criando inovações na pesquisa SETI.

Um deles é o famoso Seti@home, um projecto financiado pela Planetary Society que utiliza dados recolhidos no âmbito do SERENDIP de modo a serem tratados por computadores pessoais de pessoas de todo o mundo. O projecto originou-se pela falta de computadores potentes o suficiente para permitir a análise de todos os dados recolhidos pelo SERENDIP. Assim, os que viriam a ser os fundadores da Seti@home, apareceram com esta ideia fantástica: dividir a quantidade monstruosa de dados em pequenos “pacotes”, que, via internet, seriam distribuídos a pessoas – pessoas comuns, como nós – cujos computadores pessoais analisariam-nos e enviariam de volta o resultado por internet. Assim nasceu o Seti@home, um projecto a todos os títulos bem sucedido com mais de 4,5 milhões de utilizadores em todo o mundo, possibilitando a análise de dados a uma escala jamais conseguida mesmo pelos mais potentes computadores do mundo (só para ter uma ideia, todo o trabalho já realizado representa mais de 1,6 MILHÕES DE ANOS de trabalho, se fosse um único computador). Trata-se de um simples programa (grátis) cujo download pode ser feito a partir do site http://setiathome.berkeley.edu, e que funciona como screensaver, ou seja, só trabalha quando o utilizador estiver ausente. [Foi com surpresa que descobri que há mais de 200 utilizadores de Cabo Verde – aos quais apressei-me a juntar (afinal, é a única maneira de o “mortal comum” fazer algo para ajudar na SETI) e com os quais eu gostaria de contactar – quase todos os países têm um net group, menos o nosso. Se algum de vocês, leitores, for ou pretende vir a ser utilizador do programa, contacte-me no email acima escrito]

Outro desses projectos inovadores é o SETI League, composto por cerca de 1300 estusiastas, cada um com o seu próprio radiotelescópio amador, formando uma rede que equivale a um grande radiotelescópio. O Objectivo da League é chegar a 5000 utilizadores por todo o mundo.

Por último, falarei de um inovador projecto da Planetary Society. Esta pretende alargar a busca a outras frequências que não só as do rádio, pelo que criou a Optical SETI, um projecto que desde 1998 procura por possíveis sinais de luz concentrada (laser) vindos do espaço. Desde 2002 que é utilizado um observatório em Harvard, Massachusetts, que começou a ser construído em 2000, especialmente dedicado a esse tipo de pesquisa.

10. Conclusão

A pesquisa SETI sofreu uma severa queda com o cancelamento do programa da NASA em 1993, mas graças à liderança da Planetary Society e do SETI Institute, a empresa recuperou rapidamente. Já livre da dependência política e financeira, a SETI pós-NASA é um empreendimento mais modesto, certamente, mas muito mais diverso, mais aceite pela sociedade e por instituições académicas de todo o mundo, e – como o sucesso fenomenal do seti@home já demonstrou – remarcadamente popular perante o grande público. A SETI é hoje uma empresa mais viável que alguma vez fora. E, apesar de não ter sido detectado nenhum sinal alienígena até agora, a esperança não morre, e a busca continua…

Com informações tiradas e extractos adaptados de:

- Amir Alexander, The Search for Extraterrestrial Intelligence: A Short History
- Brian Jones, Exploração do Espaço, Editorial Estampa/Círculo de Leitores, colecção Biblioteca de Informação Juvenil
- Harry Harrison, Universo Cativo, Editora Caminho, colecção Policial/Ficção Científica (ficção)
- Isaac Asimov, “Ir até Onde Quisermos”, in Ao encontro dos Extraterrestres, Biblioteca do Ano 2000
- Jim Wilson, “Alien World”, in revista Popular Mechanics, vol. 176, nº 7, Julho 1999
- Mariette DiChristina, “Star Travelers”, in revista Popular Science, vol. 254, nº 6, Junho 1999
- Michael Carroll, “Worlds Away”, in revista Popular Science, vol.255, nº 1, Julho 1999
- Paul Davies, Como Construir uma Máquina do Tempo, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Robert Forward, “Não Digas Que é Um Sonho”, in revista Quo, nº 7, Abril 1996
- Roberto Capuzo Dolceta e Barbara Galavoti, O Universo – Origens, Teorias, Perspectivas, Caminho, colecção Bravo
- Carl Sagan, As Ligações Cósmicas, Gradiva, colecção Ciência Aberta
- Poul Anderson, A Hora da Inteligência, Edição Livros do Brasil, colecção Argonauta (ficção)
- Susan Yoder e Major Benton, A Sabedoria dos Golfinhos, editora Sinais de Fogo

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Tuesday, September 30, 2003

Non Siamo Soli - Parte IV

< Parte I, II e III | Parte V>

(Publicado no Artiletra nº 53, de Setembro/Outubro de 2003)

Parte IV – Uma Longa Viagem

Um problema que tem vindo a afectar as explorações espaciais é o da propulsão. É que é preciso muita energia para obter a velocidade de escape da gravidade da Terra (cerca de 40.000 km/h, ou 11 m/s). Além disso, os métodos que hoje utilizamos (combustão de hidrogénio) são, além de caros, lentos – pois, considerando as enormes distâncias interestelares, levaríamos 100 mil anos para atingir a estrela mais próxima.

Assim, a primeira medida a ser tomada de modo a possibilitar viagens mais longas no espaço (e consequentemente o contacto com outras civilizações mais afastadas – a não ser que estas possuam os meios necessários para virem elas ter connosco) é o tratamento da questão do tempo, pois não é prático que uma viagem dure mais que o tempo de uma vida humana, a despeito das inúmeras histórias de ficção científica que idealizam uma nave cuja viagem dure várias gerações, ao longo das quais a tripulação vai se regenerando, como se fosse uma comunidade isolada na Terra, ou então viagens com os tripulantes em hibernação (congelados, num processo chamado criogenação, que significa, literalmente, “conservação pelo frio”). No entanto, correr-se-ia o risco de a tripulação perder o interesse inicial da missão e, por exemplo, querer voltar para a Terra, que, já para a segunda geração, não passaria de lembranças nostálgicas que lhes foram contadas pelos progenitores – isso no primeiro exemplo –, ou então, de não haver nenhum cérebro humano para tomar decisões se ocorresse alguma situação crítica, considerando que a nave estaria sendo comandada por um computador durante a hibernação da tripulação – na segunda hipótese. Por outro lado, seria a própria população na Terra que possivelmente perderia o interesse pela missão, ou porque o objectivo da mesma já perdera a actualidade, ou porque os mentores da missão já estariam mortos, ou simplesmente por terem esquecido – sem contar que a língua teria evoluído, quiçá até impossibilitando a troca de informações. Portanto, parece-me claro que se deveriam descartar em primeira hipótese as viagens cuja duração ultrapasse o tempo de vida humano.

Posto isto, podemos enumerar 2 vias de realizar essas viagens.

A primeira é aumentar o tempo da vida humana. Essa ideia não é nova – embora tenha surgido por outras razões –, remontando à antiguidade, ou até, quem sabe, à Pré-História (quem sabe quais foram as aspirações dos nossos antepassados?), tendo nós um elucidativo e relativamente bem conhecido exemplo à mão: a alquimia, da qual um dos três objectivos principais era encontrar o elixir da vida eterna. Visto que uma viagem espacial mais ou menos longa e dentro dos limites de aceleração suportados pelo corpo humano demoraria mais que o tempo de vida de um ser humano, essa seria uma questão a ponderar – até porque teremos em breve essa possibilidade, com a rápida evolução da ciência genética. É claro que se deverão considerar bem os prós e os contras, mas isso caberá a quem decidir, pelo que, e devido também a não ser esse um tema fundamental para o presente artigo, não vou me alongar mais sobre o assunto.

A segunda via (repare-se que estas vias não são mutuamente exclusivas, podendo ser combinadas para obter melhores resultados) diria respeito ao aumento da velocidade, mas dentro dos limites acima referidos – embora na prática se pudesse acelerar um humano até velocidades próximas da da luz, desde que a aceleração não fosse acentuada – naturalmente, isso implicaria uma longa distância, suficiente para que a velocidade, em “lento” acréscimo, atinja o píncaro pretendido, na primeira metade da viagem, passando a outra metade a desacelerar à mesma razão.

Antes de me alongar mais sobre este assunto de aumentar a velocidade, gostaria de chamar a atenção para um aspecto importante desta questão: trata-se da relatividade do tempo a altas velocidades. É que, segundo a teoria da relatividade geral de Einstein, quanto mais se se aproximar da velocidade da luz, mais se distorce o tempo, que passaria de modo acentuadamente diferente para o viajante e para o espectador na Terra. Por exemplo, se a velocidade aumentar para metade da velocidade da luz, o tempo será 13% mais lento. Se a velocidade for de 99% da velocidade da luz, o tempo passaria 7 vezes mais devagar – um minuto ficaria reduzido a 8,5 segundos; a 99,9% o factor de distorção do tempo é de 22, e, a 99,999%, o tempo seria 700 vezes mais lento. Mas o tripulante de uma nave a essa velocidade não sentiria que o tempo estaria a passar mais lentamente, como se a vida estivesse a decorrer em câmara lenta – de facto, o seu próprio pensamento seria mais lento, ao mesmo ritmo: tudo estaria a decorrer normalmente para ele. No entanto, se o hipotético viajante pudesse ver um relógio na Terra, veria os ponteiros a andar num ritmo estranhamente rápido. Um famoso exemplo desse efeito é o conhecido Paradoxo dos Gémeos: dois gémeos, João e Pedro, resolveriam fazer uma experiência, indo o Pedro para o espaço numa viagem a uma estrela a 10 anos-luz de distância, ficando o João na Terra. Como a viagem se realizaria a 99% da velocidade da luz, para o Pedro a viagem só duraria 3 anos, devido ao tempo que para ele passaria mais lentamente, enquanto que para o João e para todo o resto do universo que estivesse a mover-se a velocidades muito mais baixas, passariam 20 anos – 10 para a ida e 10 para o regresso. Assim, quando o Pedro regressasse, teria envelhecido apenas 3 anos, estando por outro lado o João 20 anos mais velho. Já não seriam, portanto, gémeos, com uma diferença de 17 anos entre ambos. E se a viagem tivesse decorrido a 99,999% da velocidade da luz, o Pedro poderia chegar ao centro da galáxia em 28 anos… enquanto que na Terra teriam passado já 20.000 anos. Este exemplo é elucidativo o suficiente para servir de alerta a possíveis situações resultantes de viagens a velocidades próximas da luz.

Outro grande problema também relacionado com Einstein é que, além de alterar o tempo, velocidades próximas da da luz aumentam a massa da nave. Isto acontece por, tal como demonstra a mais conhecida fórmula de Einstein, a equação E=mc2, a energia poder ser transformada em massa e vice-versa, sendo o factor de câmbio o descrito na referida equação. De facto, um corpo em movimento em movimento possui, além da energia que a sua massa representa, a energia cinética que o seu movimento lhe confere. Assim, quanto mais se acelera um corpo, maior será a sua energia total, e, portanto, a massa correspondente, sendo por isso necessário cada vez mais combustível (energia) para o mover. Este fenómeno acontece com todos os corpos em movimento, mas como as velocidades usuais são muito baixas, não se produz energia cinética suficiente para alterar significativamente a massa do corpo. Na verdade, mesmo uma pequena quantidade de massa representa uma quantidade enorme de energia (o que se pode confirmar pelo poder devastador das bombas atómicas, que utilizam este princípio), enquanto que, por outro lado, apenas muita energia acumulada pode ser convertida em quantidades significantes de massa, o que acontece por o factor de conversão na equação de Einstein, c2 (c é a velocidade da luz, quase 300.000 km/s) ser tão grande (300.00 já o é, quanto mais 300.000 ao quadrado!). Mas, por outro lado, há que considerar a outra face da questão, pois no vácuo espacial praticamente não há atrito, pelo que uma nave a uma velocidade determinada continuaria em frente quase em movimento uniforme (se não colidir com nenhum asteróide ou coisa parecida) devido à inércia. E, não havendo influências gravíticas significativas, a aceleração exigiria muito menos energia que a que, pelo senso comum, poderíamos deduzir que fosse necessária para uma nave do tamanho das actuais.

Esclarecido este ponto, analisemos agora mais de perto as diferentes formas de aumentar a velocidade.

Absorção magnética de combustível (hidrogénio) do espaço – este método consiste em construir naves que possuam uma espécie de funil na parte frontal, com 3000 km de raio, que por efeito magnético absorveria combustível (hidrogénio) do espaço, à razão de um átomo por metro cúbico. Esse hidrogénio seria depositado nos tanques (inicialmente cheios para a descolagem e a primeira parte da viagem) durante o decorrer da viagem. O método de produção de energia seria ainda o químico (combustão), mas, teoricamente, a nave poderia atingir 99,999% de c.

Energia Nuclear – A nave Daedalus, concebida pela Sociedade Interplanetária Britânica, mover-se-ia por explosões nucleares em vez de combustão química. Pequenas esferas congeladas de deutério e hélio libertar-se-iam à razão de 250 por segundo numa câmara de combustão. Um laser provocaria a explosão de cada bola. A nave alcançaria 12% de c e chegaria a Alfa Centauro A, a estrela mais próxima do Sistema Solar, a 4,3 anos-luz, em 50 anos. Um mecanismo semelhante seria usado pela Orion, uma nave de 400.000 toneladas, que, atingindo 3% de c, chegaria a Alfa Centauro em 140 anos.

Vela solar – Esta hipótese considera o uso de um laser superpotente à órbita da Terra, que, com energia solar, propulsionaria uma nave dotada de uma vela gigantesca (cerca de 1000 km de diâmetro). A ideia, concebida já há algumas décadas, por Robert Forward, um físico da Nasa, permitiria a uma nave realizar uma viagem de 4,5 anos-luz em 20 anos. O Starswip, veículo de transporte interestelar, seria acelerado pelos fotões do laser até 50% da velocidade da luz em 1,6 anos. Uma viagem à estrela Epsilon Eridani, a 10,8 anos-luz de distância, duraria 21,6 anos. Considerando as vantagens de tecnologia, economia, entre outras, este será possivelmente o primeiro modelo de nave interestelar a ser utilizado – o tempo o dirá.

Antimatéria – A reacção matéria-antimatéria contém a mais alta densidade de libertação de energia conhecida. Assim, o método é um dos favoritos quando se fala em viagens interestelares. Uma nave movida a antimatéria teria 700 m de comprimento e 15.000 toneladas de peso. O anti-hidrogénio (que se aniquila imediatamente em contacto com a matéria) seria guardado em reservatórios, da parede interna dos quais estaria separado por um potente campo magnético. Pequenas porções seriam desviadas magneticamente por estreitos túneis e conduzidos à câmara de combustão, onde seriam postas em contacto com hidrogénio, libertando energia pelo escape com 21 metros. A nave atingiria 21% da velocidade da luz, e alcançaria Alfa Centauro em 43 anos. A antimatéria é, no entanto, muito difícil de produzir, tanto mais não é que, actualmente, são produzidos apenas meros nanogramas, em laboratórios especiais, como o Fermilab ou o CERN, custando bilhões. Mas outros métodos de produção de antimatéria estão a ser estudados: há teorias que prevêem a existência de antimatéria no espaço, o que produziria os espaços em branco (ou melhor, em negro) verificados a grande escala no cosmo, estando os corpos concentrados em faixas, em vez de uniformemente distribuídos pelo espaço - antimatéria essa que poderia ser recolhida usando o mesmo processo referido anteriormente para captar hidrogénio do espaço; por outro lado, uma experiência de Thomas Cowan no Laboratório Lawrence Livermore, na Califórnia mostrou ser possível produzir antimatéria passando um laser com um bilhão de watts de potência através de uma exótica sanduíche de ouro e urânio, diminuindo assim consideravelmente os custos de produção de antimatéria; e outros desenvolvimentos futuros poderão vir a determinar a viabilidade ou não desta hipótese.

Teleportação – experiências recentes provaram ser possível a teleportação (à velocidade da luz) de um raio laser. Espera-se que, mais tarde, possa ser possível a teleportação de matéria, e, quiçá, de seres vivos (logo, nós humanos também). Mas este é um campo anda em gestação, pelo que muito não se pode dizer.

Buracos de Verme – verdadeiros atalhos no espaço, os buracos de verme são entidades cujo centro é uma singularidade do tipo das que se encontram no “fundo” dos buracos negros. Essa singularidade é um ponto infinitamente pequeno que contém uma densidade infinitamente grande – extremos que levam ao nome que lhes foi dado.
Crê-se que, se um copo de água colapsar em rotação, a singularidade resultante seria, não um ponto, mas um anel, que permitiria – se fosse suficientemente grande e estável – a passagem de humanos para o outro lado. Sendo estruturas bastante efémeras e instáveis, seria necessário a descoberta de um material especial que gerasse antigravidade, impedindo as paredes do “buraco” de colapsar.
Os buracos de verme têm uma forma parecida com dois funis unidos pelo gargalo, estando cada extremidade num ponto distinto do espaço, mas sendo necessário muito menos tempo para o atravessar do que percorrer normalmente toda a distância de uma ponta à outra. É como se se dobrasse uma folha de papel, se furasse um buraco em cada uma das metades e se colasse as extremidades de um tudo a esses buracos. Ir da extremidade A à B do tubo seria muito mais rápido do que ir de A a B dando a volta ao papel dobrado. Esse engenhoso esquema permitir-nos-ia, paradoxalmente, viajar mais depressa que a luz – pois esta percorreria o espaço normal, ou seja, “daria a volta ao papel”.

Taquiões – outro método de ultrapassar a luz. Taquiões são partículas, previstas por recentes teorias, que viajariam sempre a velocidades superiores à da luz. Supõe-se, para isso, que a “barreira da luz” tenha dois lados (como, aliás, têm todas as barreiras). Assim, tal como para nós “do lado de cá”, que precisamos de cada vez mais energia para atingir velocidades próximas das da luz, também os taquiões se retardariam cada vez mais com o incremento da sua energia, mas sem descer mais que a velocidade da luz.
Se fosse possível realizar teleportações com taquiões, poderíamos atingir a estrela mais próxima em 5 segundos – esse período de tempo seria o mesmo para os viajantes e para os homens que ficassem na Terra. Poder-se-ia percorrer a galáxia num minuto; as galáxias mais longínquas estariam a uma semana de distância. Com raios de taquiões, todo o universo seria apenas o que o mundo hoje é para nós.

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