Friday, March 30, 2007

Um Declive Desajustado

(Publicado no Artiletra nº 82, de Março/Abril de 2007)

Olá, amigos, é um prazer estar de novo na vossa companhia!

Decerto devem estar curiosos sobre o tema que iremos abordar hoje, quanto mais não seja pela falta de clareza habitual (e propositada, heheh) dos títulos com que encabeço as nossas conversas…

Ora bem, fazendo jus ao nome da coluna, resolvi descer um pouco das divagações fantasiosas do costume e regressar, como aliás faço (ou tento fazer) periodicamente, ao tema do ensino.

Desta feita, gostava de partilhar convosco um diálogo que desenvolvi com um colega meu, cá na universidade. Estava eu a inquiri-lo sobre os seus progressos e eventuais dificuldades, ao que ele me responde que são maiores que no 12º. Eu replico logo que não obstante, o estudo em níveis mais avançados acaba por ser mais agradável, pois supostamente o estreitamento das áreas de estudo condiz com os interesses do estudante, que se sentiria potencialmente mais motivado para aprender.

Mas o meu colega discordou, dizendo que, pelo contrário, a cada ano que se avança a escola se torna menos prazerosa, e exemplifica com as recordações que todos temos dos anos anteriores aos que andamos a estudar, o que (mesmo tendo uma ponta do conhecido desvio cognitivo da psicologia humana de considerar melhor o que ainda (ou já) não se tem, em relação ao que se tem no momento) acaba por ter um fundo de verdade, pois por exemplo na primária recordamos com nostalgia os anos do jardim de infância, e no liceu acontece o mesmo em relação aos anos da primária. A esta altura, já eu começara a desvendar alguma diferença no conceito de “prazer de estudar” a que ambos nos referíamos. Na verdade, acabei por notar que ele se referia à maior quantidade de tempo livre que temos de início, ocupando as actividades extra-curriculares (brincadeiras com os colegas, a interacção social em geral) uma grande parte do nosso tempo na escola, o que de ano para ano diminui, acompanhado do crescimento gradual da dificuldade das matérias leccionadas, e consequentemente do esforço necessário para as adquirir. Por outro lado, eu me referia ao prazer específico do aprendizado, do estudo, do trabalho que se faz com gosto.

Pessoalmente, considerei sim cada ano lectivo mais difícil que o anterior, o que aliás é perfeitamente normal e esperado até, mas achei simultaneamente cada vez mais agradável o dever de me aplicar no estudo das disciplinas, pois a certa altura (a partir do 10º ano, mas significativamente quando se entra no 3º ciclo) se começa a escolher opções, o que nos permite aplicar em áreas do nosso interesse pessoal. Mas — e este é um grande mas — será que o aumento de dificuldade a que tanto eu como o meu colega nos referimos é suposto ser sentido com tal intensidade? É que se levarmos em conta que o nosso cérebro ao longo dos anos também se vai desenvolvendo e solidificando capacidades inatas e adquiridas de raciocínio e aquisição de conhecimentos, não deveria o aumento de dificuldade previsto a cada ano lectivo ser imperceptível, por se anular com este efeito? Ou seja: porque é que se sente com tanta clareza a cada vez maior dificuldade do estudo?

Um dos factores importantes a considerar é o facto de na tenra infância dispormos de um cérebro altamente maleável, que absorve conhecimento do mundo exterior como uma esponja. Apesar das fantásticas capacidades da nossa massa encefálica, não poderíamos por razões práticas continuar com o mesmo ritmo de aquisição de conhecimento pela vida afora. Isso se traduz numa maior dificuldade no aprendizado à medida que envelhecemos (o famoso caso do burro velho [que] não aprende línguas).

Outro factor a levar em consideração é que a tal especialização das áreas de estudo só é possível a partir, aproximadamente, do 10º ano de escolaridade. Ora, isso significa exactamente 10 anos a estudar um programa padrão e não adaptável aos interesses pessoais de cada um, que ainda por cima aumenta de dificuldade de ano para ano. Há, obviamente o argumento da não formação completa da personalidade até certa idade, o que faria com que o início da especialização não pudesse ser feito muito cedo, da mesma forma que se argumenta contra as tatuagens permanetes: podemos nos arrepender depois, e voltar atrás é muito mais trabalhoso.

Mas penso que a principal causa desta crescente dificuldade no aprendizado é na verdade um estudo pouco aprofundado da velocidade de evolução do cérebro humano, traduzindo-se num aumento desproporcional da complexidade das matérias de estudo, que até certo ponto na escala do percurso de ensino são fáceis “demais” (veja-se a facilidade com que se tiram vintes na primária — basta se esforçar minimamente), e depois começam a ganhar dificuldade a um ritmo maior que o da evolução média da inteligência humana. Uma transposição deste sistema para o campo geométrico se traduziria num gráfico com duas linhas inclinadas, mas cada uma com um declive diferente. Daí o título do artigo (e finalmente se desvenda o mistério desta edição). O ideal seria que as rectas tivessem o mesmo declive, ou seja, que fossem paralelas.

A situação real, claro, é mais elaborada. O aumento da complexidade do cérebro humano não é linear — aumenta cada vez mais lentamente, formando uma curva suave. O mesmo acontece provavelmente com o aumento da dificuldade do sistema de ensino, embora eu não disponha de dados que confirmem esta hipótese. De qualquer das formas, esbocei um gráfico que poderá ilustrar o que tento transmitir. Como se pode ver pela imagem, o desenvolvimento das capacidades do cérebro (a linha azul) começam a crescer desde o nascimento, e a partir dos 3 anos, aproximadamente o sistema escolar entra no gráfico (a linha vermelha), de início com um grau de complexidade inferior ao do “estudante”, mas crescendo progressivamente exigindo cada vez mais um esforço intelectual mais intenso.

Esta ilustração obviamente não é uma afirmação factual, mas antes uma interpretação pessoal do percurso académico médio, da forma como vivi o meu e pelo feedback dos meus colegas ao longo desse percurso. Mas penso que o senso comum permitirá que se afirme que a situação é real, e que se exige uma reformulação do sistema académico. Naturalmente, não sugiro um decréscimo na complexidade do ensino em níveis mais avançados — afinal de contas, estamos num mundo competitivo, e ao sair da universidade entra-se na selva do trabalho. Proponho, sim, um maior grau de exigência nos níveis iniciais, de modo a preparar os alunos para os desafios que se seguem adiante.

Mais ainda, proponho que o estudo se torne mais interactivo e personalizado, de forma a que cada aluno possa seguir ao seu próprio ritmo. Na era dos computadores, da internet, da wikipédia, é cada vez mais claro que o auto-didactismo se revela numa alternativa tentadora em relação ao padrão tradicional de aulas compassadas ao ritmo de um programa — somos todos iguais, mas todos diferentes também.

Não pensem que proponho o abandono da escola e a implantação do e-learning à distância exclusivo. Nego-o veementemente, por três razões: a primeira é a mais-valia imprescindível do mestre-professor, que não só serve de guia no caminho de aprendizado, como tem a função de transmitir valores de respeito, civismo, disciplina. A segunda razão, é a importância extrema do espaço físico da escola como catalisador de relações sociais, sem as quais o ser humano não completa a sua formação. Por último, temos que ter em conta a exigência de certos padrões (standards) que são inevitavelmente necessários a todas (ou quase) as profissões — como exemplos flagrantes, a matemática, o português. Portanto, não, não proponho uma anarquia educacional em que cada um aprende por si ao seu ritmo e nas áreas que lhe interessam. Defendo sim, uma fusão, ou melhor, uma evolução, do actual sistema educativo, por forma a abarcar formas mais maleáveis, interactivas e interessantes de aprendizado, resgatando assim o prazer de aprender e a curiosidade natural do ser humano, que infelizmente hoje acabam sendo hibernados, para não dizer mortos, face ao actual sistema educativo/conjuntura cultural.

Aliada essa transformação a um reajuste do acréscimo de dificuldade do percurso académico que torne a passagem dos anos mais natural e suave, é garantido que o êxito se venha a mostrar. E lembrando que uma sociedade instruída é o primeiro passo para a evolução geral da nossa condição, teremos nas mãos uma excelente oportunidade de darmos mais um passo na inexorável marcha do progresso.

Até a próxima, amigos!

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Saturday, December 30, 2006

O Regresso dos que Nunca Foram

(Publicado no Artiletra, nºs 80, de Dezembro de 2006, e 81, de Janeiro de 2007)

Saudações natalícias, caríssimo leitor! Título estranho, não achas? Também eu, mas desconfio que se continuarmos lendo, mais abaixo havemos de compreender o porquê de tão insólita denominação para o presente artigo. Alinhas? Então adiante!

— o —

Antes de começar, devo referir que estive em Abril deste ano num encontro de estudantes africanos em Portugal, que se realizou no Porto, graças à iniciativa das associações de estudantes africanos do Porto e da fundação Portugal-África, encontro esse que não só foi excelente em organização, mas que acima de tudo produziu frutos notáveis, graças à divisão dos participantes em grupos de trabalho, que depois das palestras e debates, se reuniram para produzir vários documentos de recomendações, por forma a fornecer uma ponte que permitisse que as conclusões atingidas dentro do encontro possam “transbordar” para diversas entidades, e assim dar um maior sentido de utilidade e de rendimento ao encontro que de outro modo seria quase estanque (como aliás são muitos dos encontros, workshops — ou lá o que queiram chamá-los — que constantemente se realizam).

Dessas conclusões e recomendações daí provenientes, duas me chamaram particularmente a atenção, e com base nelas (v. referências em rodapé) dissertarei um pouco neste artigo acerca da epidémica Fuga de Cérebros que tem atingido o nosso amado arquipélago.

— o —

1. O que temos?

Ora bem, é do conhecimento de todos que a formação superior dos cabo-verdianos tem sido feita em grande parte no estrangeiro, devido à falta de recursos físicos, humanos e financeiros no país.

Impõe-se, obviamente, que a este ponto eu faça um aparte felicitando o fim dessa era e o início de uma nova, com a recente abertura da primeira universidade pública de Cabo Verde (Uni-CV), à qual desejo profundamente os meus mais sinceros votos de sucesso e de um longo futuro servindo à formação dos cabo-verdianos. Bem-haja!

Após a independência, os apoios de vários países amigos permitiram que fossem cedidas vagas aos estudantes cabo-verdianos finalistas do ensino secundário para que possam continuar os estudos e contribuir como indivíduos formados e capacitados, no desenvolvimento das mais diversas áreas da sociedade.

Esse foi um mal necessário, uma espécie de emigração temporária, visto que o desenvolvimento sustentado de qualquer sociedade pressupõe a existência de recursos humanos qualificados e em número suficiente – recursos esses que eram escassos, tanto diminuindo o ritmo potencial de crescimento, como contribuindo para elevados índices de desemprego, o que directa e indirectamente impedia as possibilidades de grande parte dos cidadãos nacionais terem uma vida digna;

No entanto, aconteceu frequentemente – e ainda acontece – que muitos desses casos de “emigração temporária” acabaram por se tornar em emigração permanente, fenómeno usualmente conhecido por fuga de cérebros – indivíduos que depois de formados num país que não o da origem, ao concluir a formação não retornam à terra natal, o que é um facto bastante grave, já que se traduz na perda de um investimento (e dos mais valiosos, que é o investimento em recursos humanos) por parte do país, como no enriquecimento da força de trabalho e do núcleo intelectual do país hospedeiro, que supostamente não tem tanta necessidade tanto como o país de origem, quanto mais não seja por oferecer melhores condições de formação (ou de trabalho, considerando os casos em que depois de concluída a formação o formando desloca-se para um terceiro país).

Tal fenómeno, terrível na sua natureza, pode entretanto ser explicado recorrendo a alguns argumentos, que têm um peso inegável:

  • A insuficiência de condições básicas (desde energia, saneamento, infra-estruturas) – o que tem diminuído, aos poucos, ao longo dos anos, tal como é esperado, aliás, de um país em desenvolvimento;
  • A fraca massificação das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC);
  • A frágil economia devido a um mercado não só pouco populoso como com fraco poder de compra na sua maioria.

Tais condições, entre várias outras, fazem com que se apresente pouco atractiva, dir-se-ia mesmo dissuasora, a perspectiva de regresso dos quadros, que procuram certamente uma boa qualidade de vida e oportunidades de desenvolvimento;

Além dessa situação que infelizmente é recorrente (e de certo modo devido a ela), temos ainda o caso dos profissionais estrangeiros, que são recrutados pelo país no âmbito de programas de cooperação internacionais com os seus parceiros de desenvolvimento, no sentido de se prover de quadros capacitados em áreas diversas, (por exemplo, médicos cubanos ou professores portugueses), por insuficiência de quadros cabo-verdianos nessas áreas em território nacional;

2. O que fazer?

Vamos antes sumariar o que já está a ser feito.

Uma medida que já foi posta em prática pelo Estado foi o desenvolvimento e aplicação de políticas de incentivo à iniciativa privada e o investimento no país pelos cidadãos nacionais residentes no estrangeiro, como a redução/eliminação de impostos aduaneiros no âmbito dessas iniciativas;

Já existentes, e sendo reforçadas com a recém-criada Universidade, temos as politicas de empregabilidade, nomeadamente, formação profissional intensiva.

Várias empresas já apostam na formação contínua dos seus funcionários (embora tal aconteça em casos pontuais e não de forma generalizada).

Há mais medidas já aplicadas neste âmbito, como é óbvio, mas não se pretende aqui elaborar uma lista extensiva. Passemos assim à enumeração do que pode ser feito:

  1. Que seja exercida uma forte acção sensibilizadora de todos os cidadãos e intervenientes no desenvolvimento de cada Estado com vista ao incremento da produção nacional, dos recursos internos e, consequentemente, dos salários;
  2. Que a sociedade civil participe activamente no desenvolvimento político, social e económica do país. Esse conceito foi aliás expresso num artigo recente desta coluna, “Wikificar a Sociedade”, o qual exorta o Estado a facilitar a criação e actividade de associações comunitárias;
  3. Ao Estado e aos empregadores privados que promovam a “reciclagem” e a progressão dos seus funcionários a nível da qualificação, exigindo constantes formações profissionais e académicas complementares, de modo a capacitá-los para melhor responderem às exigências de competitividade e da globalização; que sejam criadas e asseguradas regras de progressão na carreira, valorizando-se o mérito pessoal de cada quadro;
  4. Que sejam incentivados hábitos de rigor e disciplina nos vários sectores de trabalho, sobretudo ao nível dos serviços públicos, designadamente no que toca à supervisão do trabalho, às faltas e ao cumprimento dos horários, de modo a transmitir aos quadros confiança e incentivo à produtividade.
  5. Que seja fortemente incentivada e sensibilizada a comunidade intelectual cabo-verdiana para a necessidade da integração de quadros formados na comunidade docente da Uni-CV, já havendo nela programas de capacitação para ensino – mestrados, doutoramentos, formação pedagógica, entre outros.

Postas firmemente em prática, estas medidas certamente incentivariam a comunidade de quadros no exterior a mais frequentemente regressar – e recordando que o mornamente saudoso cabo-verdiano guarda sempre esse pequeno arquipélago no coração, esse regresso seria, efectivamente, o regresso dos que nunca foram – pelo menos, em mente…

3. Por outro lado…

Por outro lado, temos que olhar para o reverso da moeda. Será que a fuga de cérebros é um fenómeno exclusivamente negativo?

Considerando que precisamente o potencial que podem desenvolver os quadros cabo-verdianos integrados em mercados de trabalho estrangeiros pode lhes permitir desempenhar um papel importante no apoio ao desenvolvimento dos seus países de origem, pode-se começar a olhar com outros olhos para esta questão. Vejamos alguns factos:

É significativo o número de quadros cabo-verdianos integrados em diversos países, muitas vezes vivendo na mesma comunidade, e consequentemente mais unidos; tendo em conta o compromisso moral destes para com o seu país, tanto porque as suas formações foram sustentadas/possibilitadas pelo Estado, como pelo forte laço de união e identidade cabo-verdiana que caracteriza a nossa diáspora, podemos dizer que a assim chamada décima ilha habitada de Cabo Verde é efectivamente uma comunidade de pessoas que emigraram dos seus países, mas que na alma nunca saíram de Cabo Verde.

Devido às facilidades e maior potencial de desenvolvimento já acima mencionados, estas comunidades terão assim férteis bases para se organizarem e executarem as mais variadas iniciativas, congregando apoios tanto de instituições nos países de acolhimento, como de organismos internacionais;

Por outro lado, o cabo-verdiano, frequentemente conhecido no estrangeiro pela sua excelência e espírito trabalhador, poderá ter um importante papel e influência no seio das instituições e empresas onde estão integrados nos países de acolhimento.

Tendo ainda em conta a responsabilidade do governo cabo-verdiano de não desperdiçar esse potencial dos quadros integrados no estrangeiro para o apoio ao desenvolvimento do seu país, é mais que oportuno ressaltar a importância de iniciativas que vêm sendo tomadas (ou devem ser tomadas) de modo a prover os quadros no exterior de meios de saldar a sua dívida emocional com a pátria:

  1. A disseminação e massificação da criação de associações (estruturas legais organizadas, apartidárias e sem fins lucrativos) pelas comunidades emigradas, com o objectivo de:
    1. Reflectir sobre os problemas dos seus países de origem e estratégias de resoluções destes em cooperação com o governo, e obviamente, aplicá-las (por exemplo parcerias com entidades locais ou a execução de campanhas sazonais na respectiva comunidade, para apoio de associações comunitárias, escolas, fundações e instituições sociais em Cabo Verde).
    2. Orientar e integrar os emigrantes promovendo o seu sucesso e assim possibilitando o seu contributo para o desenvolvimento do país, em forma de investimento pessoal ou colectivo nas suas áreas de formação em Cabo Verde; apoiar a criação de projectos de investimento.
    3. Promover a mentalidade de, individualmente, os quadros incentivarem as suas empresas ou instituições de trabalho, de forma a investirem em Cabo Verde, empenhando-se na demonstração das potencialidades do país, e/ou sensibilizarem das suas instituições de trabalho a estabelecer parcerias com as instituições congéneres cabo-verdianas.
    4. Realizar encontros ou jornadas de alteração de consciência nos seus países sobre varias matérias, como a democracia, saúde, educação, e outras, através de ciclos de palestras e debates, programas de rádio e televisão, etc.
  2. O estabelecimento, pelo Estado cabo-verdiano, de políticas claras de cooperação com a diáspora, através de:
    1. Criação de um gabinete próprio para a questão dos quadros integrados na diáspora, promovendo levantamentos estatísticos, destacando as suas localizações, situações sócio-económica e profissional, para melhor entendimento e sensibilização e aproveitamento das suas potencialidades.
    2. Estímulo a participação dos quadros integrados na busca de soluções para os vários problemas que afligem o país, através de estreitamento de relações entre as suas entidades representativas nos países de emigração (embaixadas, consulados) e todo o tipo de associações, e estas com os quadros integrados. Isso poderia ser feito, por exemplo, com a promoção de reuniões periódicas de concertação. E em caso de não existirem essas organizações formadas, apoiar a criação das mesmas.
    3. Estabelecimento de parcerias ou diálogos com os governos e instituições dos países de acolhimento, no sentido destes facilitarem tanto o surgimento/crescimento de iniciativas locais, como a mobilidade dos quadros integrados para execução/extensão das mais diversas iniciativas em Cabo Verde.
  3. A receptividade dos governos e empresas dos países acolhedores de quadros cabo-verdianos às iniciativas dos mesmos, para o apoio ao desenvolvimento de Cabo Verde, tendo em conta eventuais laços históricos e de proximidade sócio-cultural.

Tal como afirmei acima, é certo que muitas ou se calhar todas estas iniciativas já estão a ser levadas a cabo; mas a meu ver a conjuntura actual carece de uma estratégia global mais sólida que una as pontas todas do novelo (isto é, englobe todas as entidades e individualidades envolvidas, para não unilateralizar demasiado as iniciativas) e forme um feixe que, esse sim, será mais forte que a soma dos seus elementos. Em tempos festivos, de espírito de união e fraternidade, nada mais oportuno que a sugestão de congregação e cooperação, quanto mais não seja para condizer com o ambiente da época!

Feliz Natal e Bom Ano Novo a todos!

Referências:

1) Formas de incentivo ao regresso dos quadros
2) Contributo dos Quadros Africanos Integrados nos Países de Acolhimento Para o Desenvolvimento de África

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Wednesday, February 15, 2006

Dividir Para Avaliar

(Publicado no Artiletra nº 76, de Fevereiro de 2006)

Bem-vindo, caros leitores, a mais um trecho da nossa jornada reflexiva, a qual aqui partilho convosco de bom grado, sempre aberto a novas ideias*. Resolvi regressar mais uma vez ao troço do caminho que passa pelas grandes questões do ensino, que, como estudante que sou, desperta um interesse especial em mim.

Desta feita gostava de aqui exprimir uma opinião que tenho vindo a defender, no tocante à avaliação. Vários métodos têm sido implementados, nenhum com eficiência perfeita, certamente, mas alguns têm prevalecido, nomeadamente os testes escritos. Ora, devido a vários factores que adiante exporei, penso que existe alguma inexactidão potencial numa avaliação em que esses testes tenham um grande peso na nota final. Na verdade, direi mesmo que qualquer avaliação em que um método tenha um peso substancialmente superior aos outros tem uma maior probabilidade de ser injusta (errónea).

Isto deriva do facto de todos os métodos de avaliação terem as suas fraquezas. Para começar, qualquer processo de avaliação tem a desvantagem de induzir algum nervosismo (e possível mau desempenho daí derivado) nos avaliados; há também que levar em conta possíveis erros de comunicação (interpretação errónea das questões ou respostas).

Dividir em Qualidade

Mas falando de métodos específicos, podemos listar desvantagens inerentes a cada um, devido à sua própria natureza:

  • testes escritos: as conhecidíssimas cábulas e cópias são métodos especialmente eficientes em testes escritos, pois o avaliador não tem como saber a fonte do que está escrito no texto, caso a fraude não seja detectada. Isso traz alguma injustiça, pois se o aluno em sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer memoriza a matéria (a não ser se for involuntariamente, pois, como é sabido, escrever algo ajuda a memorizá-lo), quanto mais aprendê-la; se, por outro lado, a “estratégia” falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, o que também não corresponde à sua nota real.
  • testes orais: poderão induzir um nervosismo acrescentado por se estar perante o avaliador, mas seriam vantajosos em avaliações em que, caso fossem por escrito, seria necessário escrever muito. Note-se que um dos motivos que fizeram dos testes orais uma minoria foi o facto de não serem facilmente arquiváveis; pois agora o são.
  • testes práticos: requerem mais tempo se acompanhados; se não acompanhados podem ser forjados/plagiados, embora uma apresentação permita detectar isso, apesar de aumentar o nervosismo pelo mesmo motivo que os testes orais. Testes práticos incluiriam trabalhos individuais e de grupo, abrangendo a componente prática da disciplina leccionada, o que tem um enorme impacto na assimilação do conhecimento, favorecendo até as outras avaliações com uma diminuição das tentativas de fraude. Tendo em conta a importância do saber fazer, é aconselhável ter em conta essa componente quando se avalia o aprendizado (coisa que já é conhecida há vários séculos, como demonstra o este famoso ditado chinês: “Diz-me, mostra-me, deixa-me fazer e aprenderei”)

Dividir em Quantidade

Tendo em vista os factores acima listados, torna-se evidente que é vantajoso aplicar vários tipos de avaliação, de modo a minimizar eventuais falhas. Mas outro factor a ter em conta é a periodicidade das avaliações. Testes periódicos (formativos) são preferíveis a testes finais (sumativos), por várias razões:

  • Induzem menos à fraude pois, tendo o aluno mais chances de realmente ter sucesso por conhecer a matéria, ele ganha confiança e é mais provável que decida estudar em vez de se arriscar em cábulas e afins;
  • Exigem menos tempo de preparação e correcção da parte dos professores, por serem menos abrangentes;
  • Permitem ao professor avaliar melhor um determinado tópico da matéria, pois aprofundam-se mais;
  • Em disciplinas com vários módulos paralelos (não sequenciais), o aluno tem que, no fim do período de estudo, relembrar e reter na mente conhecimentos de áreas diferentes e mantê-los todos na memória de trabalho ao mesmo tempo, o que é contraproducente;
  • Várias avaliações (práticas ou teóricas) dão mais fiabilidade na avaliação pois a probabilidade de o avaliado ter azar é inversamente proporcional ao numero de avaliações.

Por último, devo salientar que por mais que sejam avaliações feitas, o facto de serem pontuais sempre faz com que seja concentrado algum stress e ansiedade no seu decorrer. Por isso torna-se importante também não esquecer a avaliação contínua, que apesar de ser algo subjectiva, é o melhor método para o professor avaliar o aluno num ambiente realista, sem preparação prévia.

Unindo as Divisões

Posto isto, podemos resumir o exposto acima no conceito de que devem ser feitos tantos tipos de avaliação (escrita, oral e prática) quanto os permitidos pela natureza da disciplina, de preferência os três; e por outro lado, essas avaliações devem ser divididas por cada módulo autónomo de matéria da disciplina. A tabela seguinte faz uma tentativa de apanhado geral do tipo de avaliações possíveis de cada método, de acordo com o tipo de disciplina:

Disciplina

Exemplos

Teste Escrito

Teste Oral

Teste Prático

Línguas

Português, Inglês, Francês, Latim

Composições (fluência escrita)

Diálogo com o avaliador (Fluência oral)

Encenações (aplicação em situações reais)

Ciências

Humanas

Filosofia, História, Psicologia, Direito

Dissertações sobre os temas estudados

Diálogo sobre os temas abordados

Debates, pesquisa e compilação de um assunto específico

Aplicadas

Informática, Biologia, Geografia, Economia

Análise verbal de conceitos e procedimentos

Execução de uma actividade típica de aplicação da ciência

Exactas

Física, Química, Matemática

Problemas realistas resolvidos com cálculos

Resolução lógica de problemas propostos (raciocínio)

Problemas práticos, resolvidos por escrito após medições em laboratório

Artes

Desenho, Música

Dissertações sobre os temas abordados

Explicar conceitos e procedimentos

Composição de uma obra aplicando os métodos e conceitos estudados

Em jeito de conclusão, afirmo aqui a importância de incentivos, associados a essas avaliações, que tornam mais interessante e divertida a aprendizagem, o que se traduz em um maior aproveitamento, tanto quantitativo como qualitativo. Actividades como entregas de prémios, distinções, dispensas de testes sumativos (finais), concursos (melhor trabalho, pergunta-resposta individuais e em grupo), apresentações dos trabalhos à escola, exposições dos melhores trabalhos, quadro de honra, debates de turma e da escola, enfim, actividades diferentes do habitual, associadas aos métodos de avaliação permitem que o esforço a eles dedicado seja valorizado, e ainda acrescentam excitação e quebram a monotonia, a rotina da sala de aula.

O que se pode extrair disto tudo, em resumo, é que uma boa avaliação se caracteriza tanto por métodos adequados à especificidade de cada disciplina, como pela aposta na multiplicidade de avaliações permitindo ter uma média, resultando numa avaliação mais fiável. Aliando isso a um ensino pedagógico e interessante, poderemos vir a ter um melhor sistema de ensino, mais eficiente, mas principalmente, que preserve e incentive a curiosidade natural dos alunos e a sua ânsia de aprender.

Até a próxima, amigos!

Posted by Waldir Pimenta at 15:54:07 | Permalink | No Comments »

Tuesday, November 15, 2005

A Legalização

(Publicado no Artiletra nº 72, de Novembro de 2005)

Saudações, caríssimo leitor! Volto a encontrar-me contigo desta feita para retomarmos um assunto que prometi dar continuidade. Se tens seguido regularmente as nossas conversas deverás porventura lembrar que num artigo intitulado “O Grande Problema das Associações de Estudantes“, referi algumas das dificuldades que assolam os activistas do associativismo juvenil/estudantil, prometendo mais tarde debruçar-me sobre o assunto em mais pormenor.
E aqui estou eu a cumprir a promessa! E a análise mais detalhada decairá sobre uma das partes fulcrais da criação/funcionamento de associações: a aquisição de personalidade jurídica – vulgo legalização.

I
Fazendo uma pequena introdução ao tema, devo referir antes de mais nada que me encontro desde o ano lectivo passado a estudar em Viana do Castelo, Portugal, e que a Associação de Estudantes Cabo-Verdianos local se constituiu precisamente no ano passado pelo que possuo alguns dados referentes a esse processo de legalização em Portugal que seria interessante comparar com o homólogo cabo-verdiano.

Ora, tenho em minha posse um documento que é distribuído pelo IPJ (Instituto Português da Juventude) a todos os que aí vão solicitar orientação na criação de uma associação juvenil, para tal dirigindo-se ao gabinete criado expressamente para o efeito.
Tal documento além de explicar claramente todos os passos necessários para se criar uma associação com personalidade jurídica (portanto, existência legal), fornece modelos para os estatutos e as actas, de forma a que o burocrático processo se torne simples e fácil.

Por outro lado, o IPJ oferece meios que facilitam esse processo, evitando passos que muitas vezes são os responsáveis pelo abandono a meio dessa legalização. Falo, obviamente, dos passos que requerem mais tempo e dinheiro: a Escritura Pública de Constituição e Publicação/Registos Definitivos.
Usualmente caros e demorados, o IPJ entra como mediador através do Ministério Público facilitando esses dois passos que ficam assim resumidos à entrega na delegação do IPJ mais próxima dos documentos da associação (estatutos aprovados, acta, etc), evitando a marcação de uma escritura em cartório notarial (que seria paga pela associação) e a publicação do extracto dos estatutos no Diário da República (homólogo do Boletim Oficial), também a expensas da associação.

Assim, o IPJ, através da Lei 6/2002 de 23 de Janeiro edo RNAJ (Registo Nacional de Associações Juvenis, subdivisão do RNPC, Registo Nacional de Pessoas Colectivas) torna esses passos totalmente gratuitos e automáticos, fazendo com que o processo de legalização se encurte tanto em tempo como em etapas. Após a aquisição de personalidade jurídica, a angariação de apoios torna-se consideravelmente mais frutuosa, sendo que o próprio IPJ disponibiliza apoios nesse sentido para as associações que por seu meio tenham sido criadas no âmbito do RNAJ.

II
Voltando à nossa (triste) realidade cabo-verdiana, o que é que verificamos? Um total desinteresse na criação de associações juvenis por parte das autoridades; com tanta burocracia poder-se-ia até dizer que existe, mais que uma inércia, um atrito, uma força qualquer que teima em dificultar o já de si difícil, longo e burocrático sistema de legalização das associações. Aliados a uma exasperante falta de informações tanto impressas como dos próprios funcionários públicos da área a respeito, é legítimo afirmar que é extremamente difícil que alguma associação (principalmente de estudantes) consiga levar a bom termo essa jornada.

Como ex-líder estudantil e participante em actividades associativas a nível nacional, posso sem erro afirmar que a grande maioria das associações de estudantes de Cabo Verde não possuem qualquer existência legal, sendo que grande parte destas nem sequer deu início a esse processo de aquisição de personalidade jurídica, quase sempre por falta de informações.

O nível do associativismo estudantil em Cabo Verde é portanto extremamente baixo, e as associações acabam como consequência disto tudo tendo enormes dificuldades na realização das actividades a que se propõem e na defesa dos interesses dos estudantes.

III
Ora bem, que ilações se podem tirar então desta comparação?
Primeiramente, tendo em vista a enorme quantidade de centros de juventude (que, diga-se de passagem, pouco ou nada fazem em prol das reais necessidades dos jovens), CIAJ, CAAJ, etc. etc., verifica-se que existe em potencial um suporte óptimo para um sistema semelhante em Cabo Verde. Trata-se basicamente de criar as bases legais que permitam que as associações possam, por meio desses centros, adquirir a personalidade jurídica que tanta falta faz na (sobre)vivência dessas associações juvenis.

Falando das associações estudantis em particular, seria óptimo que as próprias delegações do Ministério da Educação (e VRH) permitissem que as associações se legalizassem por seu meio. Aliás, provavelmente uma ideia ainda melhor seria que o ministério levasse a cabo uma operação a nível nacional, oficializando de uma assentada as associações de estudantes do país que ainda não estão legalizadas (ou seja, todas – ou quase). Pois que os liceus não florescem a uma velocidade que exija a existência de um sistema permanente de apoio à legalização das respectivas associações, da parte do Ministério e respectivas delegações.

Mas esse sistema é necessário na abrangência da totalidade das associações juvenis; porquanto a cidadania se cria na assumpção de responsabilidades pelos cidadãos, e sendo que “de pequenino é que se torce o pepino”, como diz o outro, seria do maior interesse, não só do Ministério da Juventude mas do próprio Governo, que se facilitasse o processo de surgimento de novas associações juvenis de carácter social, desportivo, recreativo, educativo, etc.

Por último, tratando-se inclusivamente de uma medida que pode ser tomada rapidamente sem custos de maior, seria de desejar que existisse um folheto informativo, contendo todas as informações necessárias aos que desejam criar uma associação juvenil, de forma simples e clara, e que esse folheto estivesse disponível em todos os centros de juventude, em sites da Internet, nas repartições públicas tais como cartórios e registos, etc.

Tratando-se do nosso pachorrento Cabo-Verde em que as coisas mudam a passo de tartaruga, respeitando o tradicional atraso da hora d’kriol, esperemos que o também tradicional hábito de copy-paste de Portugal seja mais forte e abra uma das suas raras excepções em que se copiam as coisas boas, pois de tal iniciativa beneficiaria acima de tudo o nosso povo, vendo aumentada a sua autonomia e capacidade de acção, cidadania e participação na gestão da “coisa pública” – que, como diz o nome devia ser de todos…

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Wednesday, June 15, 2005

O Poder da Educação

(Publicado no Artiletra nº 68, de Junho de 2005)

Caros leitores, cá estou eu de volta a sugerir uma pequena viagem reflexiva acerca de um tema que, como já devem ter reparado, muito me atrai, que é o ensino.

Ora, muitos de vós hão de se recordar ter ouvido algures que a educação é a melhor arma para mudar o mundo. Ou coisa parecida. Bem, isso é provavelmente verdade. Conturdo, isso é em teoria; na prática a história é outra…

E porquê isso não é verdade? porque é que o mundo não anda melhor nos dias de hoje, com o analfabetismo a diminuir a cada dia?
A resposta a essas perguntas reside sob uma fina camada de reflexão que seguiremos neste texto.

O leitor lembrar-se-à, certamente, de um ou outro professor que marcou o seu percurso académico pela sua excepcional capacidade de transmitir os intrincados aspectos da matéria em conceitos simples, pela sua afabilidade e simpatia e compreensão, enfim, pela sua pedagogia.
Esse (ou esses) professores marcam a diferença na vida das pessoas porque, ao contrário dos outros, que (infelizmente) são a maioria, conseguem fazer com que o aluno tenha prazer em aprender, e que compreenda a matéria, em vez de a memorizar.

Esse factor é fulcral no ensino como factor de mudança de mentalidades; cada vez mais, a vida de uma pessoa se torna mais e mais embebida em tarefas a executar, responsabilidades a cumprir, e isso aumenta quanto mais complexa se for tornando a sociedade. Ou seja, quanto mais “evoluída”, mais “civilizada” ela for. Isso na prática traduz-se em cada vez menos tempo para apreciar os pequenos e grandes prazeres da vida, nos quais se inclui o prazer de aprender coisas novas.

Mas hoje em dia o próprio aprendizado é encarado como um trabalho, como uma obrigação; as pessoas já não aprendem mais por amor ao conhecimento, mas por necessidade. Necessidade de ter o diploma para conseguir trabalho. Necessidade de trabalhar para ganhar o pão de cada dia. Necessidade de ganhar a vida para vivê-la, acabando por passar toda a vida a vivê-la para os outros e só descobrindo que afinal foi tempo perdido quando chega a reforma e já não há tempo nem vitalidade para viver a vida. No fundo, tudo isso podia mudar se as pessoas encarassem o estudo e o trabalho como fontes de prazer; como fins, não como meios.

Mas isso, claro, só será conseguido se os professores incutirem esse espítito nos alundo. Melhor dizendo, se não cortarem pela raiz a curiosidade natural das crianças… O facto é que esses professores excepcionais que ficam na nossa memória, deviam ser precisamente a regra, e não a excepção. Costumo dizer que o bom professor mais que aquele que sabe o que ensina, é o que sabe ensinar. E saber ensinar é saber transmitir o maravilhoso que reside no pormenor mais ínfimo da cultura e ciência humanas, produtos de milhares de anos de evolução e de contribuições dos mais brilhantes cérebros da nossa espécie… é saber transmitir a mesma emoção da descoberta que os que primeiro chegaram a esses conceitos sentiram…

Mas isso não acontece, e a grande maioria dos alunos ao sair do ensino básico já perderam toda a vontade de aprender, pela acção “curiosicida” dos “professores” por cujas mãos passaram… Essas pessoas ao longo do restante percurso académico, vão cimentando a sua aversão ao aprendizado, apenas aprendendo (?) o estritamente necesário para passar de ano ou para conseguir o trabalho que pretendem; e assim continuam a sua vida, cumprindo as suas obrigações e ganhando o dinheiro que usam para o entretenimento, que não passa te tempo ocupado em actividades para esquecer o stress da vida…

Mas quando se diz que o ensino pode mudar o mundo, era disto que se falava? hum, provavelmente não. O que acontece é que quando alguém chega a um certo nível de instrução, sem perder o gosto pelo ensino, acaba por se tornar autodidacta e começa a procurar informações por si só e a desenvolver ideias próprias; Essa auto-reflexão acaba por ajudá-las a tomar consciencia da importância de certas regras sociais que de outro modo se tenderia mais facilmente a infringir; ao compreender o porquê das coisas, respeita-se as regras porque se concorda com elas, e não simplismente proque se é obrigado a tal.

Por si só isto já resultaria num mundo melhor: imaginem como seria um mundo em que as pessoas não roubassem, não deitassem o lixo na rua (nem produzissem tanto lixo), onde os condutores tivessem mais cuidado, onde os contribuintes reclamassem menos dos impostos (e onde os governantes fossem menos corruptos e portanto o dinheiro do estado rendesse mais, sendo necessário menos impostos consequentemente), etc etc etc…

Mas as coisas podem até ser melhores que isto! “Como assim?!”, vocês perguntam, “ainda melhor que isto??”. Sim, meus caros, e não é utopia: todo o sistema organizacional da nossa sociedade actual foi concebido gradualmente, ao longo de vários séculos, com contribuições de vários pensadores; a democracia, o pluralismo partidário, o dinheiro, as regras da “moral e bons costumes”, não foram inventadas de uma só vez como se fossem os dez mandamentos a cair do céu! Foram produto de mentes humanas que analisaram o estado da socidedade no seu tempo e depois de muito reflectir chegaram à conclusão que as coisas podiam estar melhor; e lutaram pelos seus ideais, alguns acabando por ter sucesso (Jesus, Ghandi, Péricles, Mandela, entre milhares), outros não, quer por as suas ideias não serem na verdade melhores que o sistema existente, quer por as terem idealizado “antes do tempo”, quer por falta de determinação, enfim.

Então, como nenhuma ideia é perfeita, no fundo o sistema social acaba por ter sempre margem para melhorias; todos nós, inclusivamente, temos uma palavra a dizer sobre o que achamos que está mal na sociedade e no mudo, apesar de muito poucos realmente terem determinação e força de vontade para ir com as suas ideias avante; a maior parte sequer se digna a analisar mais profundamente esses problemas, em busca de uma solução, precisamente por ter perdido na noite dos tempos (sempre quis dizer isso!) da sua infância, essa excepcional capacidade de nos marvilharmos com coisas novas e de querermos saber sempre mais…

É por isso que o mundo pouco ou nada anda a mudar; apesar de ser uma bola, ele não roda, porque a educação ainda não atingiu o nível ideal; ainda não há professores bons em número suficiente; ainda os fundos governamentais da maioria dos países são desviados para actividade militar e bélica, em vez de canalizados para aumentar o nível de vida e instrução da população; os media, que são o maior motor social já inventado (até chamados de O Quarto Poder), de centros de informação, cultura e instrução tornaram-se a paródia das gaffes ortográficas e repositórios de conteúdos de entretenimento puro; as universidades, de lar do conhecimento, tornaram-se antros de diversão, paródia e anarquia, onde se vivem supostamente os “melhores anos da vida”; a ciência segue interesses económicos e militares…

Isto continuará assim, enquanto não se mudar radicalmente o modo de pensar a educação e o ensino; pois sendo verdade que cresce o número de escolas, livros e professores, também aumenta a população do planeta, pelo que dificilmente a taxa de redução do analfabetismo será significativa;
Mas o que precisa realmente de uma reforma a fundo, é esse velho conceito de aprendizado como obrigação (tanto para os alunos como para os professores!).

Enquanto não se ensinar e aprender por prazer, o nosso mundo continuará o mesmo… até quando?

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Saturday, January 1, 2005

Cuidado! A Evolução Passa Ao Lado…

(Publicado no Artiletra nº 65, de Dezembro de 2004/Janeiro de 2005)

Caros leitores: volto a escrever-vos, desta feita para falar um pouco sobre um aspecto de um tema que várias vezes venho abordando de diversos lados, que é a Educação, nomeadamente a educação em Cabo Verde. O aspecto a que me refiro, o qual obviamente ainda não tinha sido abordado nesta coluna, é a importância do uso dos recursos postos à nossa disposição para um melhor desempenho das funções a que nos propomos. Passo a explicar:

O que se entende por evolução, e falo a nível de civilização e sociedade, é a aquisição de mais e melhores formas de fazer o que decidimos ser melhor para nós. Falando especificamente da educação, e traduzindo em miúdos, isso significa que com o desenvolvimento ao longo dos tempos de técnicas e materiais de ensino, evolução seria o uso maximizado desses instrumentos de forma a melhorar os resultados. No fundo é tirar o maior partido possível dos desenvolvimentos da ciência da educação (a pedagogia) e das tecnologias auxiliares do ensino, por exemplo os computadores.

Além disso, vários trabalhos têm sido desenvolvidos e poderiam se aplicar, além de outras, na área da educação. E quando trabalhos refiro-me por exemplo a pesquisas, estudos diversos que são subaproveitados devido principalmente à inexistência de um órgão de uniformização e desenvolvimento da pedagogia a nível mundial. Ou seja, o que se faz nalguns pontos do planeta pode só chegar a outros pontos muito mais tarde, ou pode até não chegar. Isso faz com que importantes desenvolvimentos a nível teórico e material não sejam devidamente partilhados e utilizados por todos os que deles poderiam tirar proveito, ou até contribuir para a sua melhoria.

Eis um exemplo de um trabalho cujos resultados, bem analisados, poderiam trazer enormes benefícios à educação:

Os dados retidos por um ser humano em função da forma como o conteúdo é apresentado se comportam da seguinte maneira:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Leitura

10%

Narração

20%

Vídeo sem som

30%

Vídeo com som

50%

Debate

70%

Debate e prática

90%

Em função do tempo, a capacidade de retenção foi a seguinte:

Dados retidos após três horas:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

70%

Somente visual

72%

Oral e Visual

85%

Dados retidos após três dias:

Forma de apresentação Capacidade de retenção

Somente oral

10%

Somente visual

22%

Oral e Visual

65%

Ora, com uma análise superficial já se pode tirar algumas conclusões básicas:

1. O melhor meio de assimilar bem uma informação é a prática/debate. Neste sentido, dever-se-ia trabalhar meios de adicionar a componente prática no ensino, de modo a este ocupar a maior parte do tempo de ensino.

2. O uso da imagem animada (vídeos com som), por exemplo modelos tridimensionais gerados em computador, também deveria ser levado em conta, ocupando uma boa parte do tempo de ensino.

3. Obviamente que o tempo dedicado à explanação verbal da matéria teria que diminuir, e para tal várias estratégias podem ser usados: pode ser eliminado o ditado da matéria com a introdução de sebentas; a explicação oral pode (e deve) acompanhar a parte visual (vídeos/animações), pelo que esse tempo não seria perdido e podia até ser maximizado, rendendo mais tal como revelam os resultados apresentados nos segundo e terceiro quadros.

Com estas simples modificações, já o sucesso escolar aumentaria em boa percentagem, pois além de a forma da matéria ser apresentada ir de encontro às capacidades inatas de assimilação do ser humano, por outro lado aquela tornar-se-ia mais interessante e desafiadora aos alunos, que se mostrariam mais interessados e participativos.

Outro método bastante eficiente é a colocação à prova das habilidades adquiridas. Isto porque, segundo se sabe, o ser humano por natureza atinge as suas melhores performances quando em situações de competição. Nesse sentido, seria também boa ideia implementar concursos a nível escolar, insular e até nacional, que premeiem os melhores classificados.

Obviamente, dados mais pormenorizados e análises mais precisas trariam muito mais medidas recomendáveis; mas é preciso que os responsáveis tenham a iniciativa de procurar e aplicar essas ferramentas que existem e não são aproveitadas.
Por este lado, seria óptimo a fundação de espaços de discussão a nível no mínimo nacional (mesmo que esses espaços sejam temporários, como fóruns e afins), bem como a troca de experiências com escolas e sistemas educacionais de outros países para comparar os resultados e analisar possíveis melhorias.

Mas enquanto os responsáveis se preocuparem mais com o mantimento e estabilização das condições actuais que com a inovação e meios de melhorar o sistema educativo em Cabo Verde tendo em conta os objectivos básicos do ensino, a evolução continuará a passar ao lado da nossa civilização, e nós continuaremos a ter pessoas que não se interessam pela qualidade do que sabem e fazem, por nunca terem sido ensinadas a gostar de aprender; e consequentemente o nosso mercado de trabalho nunca será competitivo o suficiente para aguentar o nosso frágil país pelos seus próprios pés.
Let’s hope I’m wrong.

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Friday, October 15, 2004

FPS e Cidadania

(Publicado no Artiletra nº 59/60, de Outubro de 2004)

A Disciplina de FPS, não obstante ter-se originado por uma certamente bem-intencionada iniciativa, não chegou a passar de uma mera tentativa de, de acordo com um dos objectivos básicos da Educação Escolar (objectivo esse que, diga-se de passagem, não vinha sendo cumprido), fornecer aos alunos uma formação sólida a nível pessoal, e ao mesmo tempo prepará-los para integrar uma sociedade complexa de relacionamentos e interacções totalmente interligadas e regida por uma infinidade de regras e normas, como é a nossa.
Isto devido a diversos factores que estão a seguir expostos:

1. A matéria dada é demasiado teórica, não indo de acordo com os problemas e as dificuldades reais que caracterizam a fase da adolescência em que se encontram a maioria dos alunos que recebem essa formação. Verifica-se, apesar da aparente relação dos assuntos tratados no programa da disciplina com o (pressuposto) objectivo da mesma, uma aguda tendência a afastar-se da realidade dos mesmos, tratando-os com teorias e abstractas terminologias, acompanhadas de descrições minuciosas das suas características, ou das das suas variantes, se as houver (um exemplo: o estudo das “relações interpessoais horizontais e verticais”, cujas definições têm que ser necessariamente memorizadas, sem no entanto se saber mais sobre as mesmas do que uns simples exemplos dados, como o da relação professor/aluno, ou entre colegas ou amigos), que os alunos terão de diligentemente memorizar para “colar” nos testes e ter a resposta certa! Além disso, a maioria dos assuntos abordados pelo programa da disciplina de modo algum servem à formação, pessoal ou social dos estudantes. Senão, vejamos: para que servirá na formação pessoal e social de um adolescente as noções de resumo (que, curiosamente, deviam estar no programa da Disciplina de Português) ensinadas no 7º ano, a psicologia pura da janela de Johary, matéria vista no 10º ano, isto sem mencionar outros exemplos?

2. A exigência de uma avaliação escrita faz com que os alunos tenham que memorizar a matéria dada, não por ser necessária à sua vida futura, mas pura e simplesmente para obter uma boa nota nos testes e na pauta, tomando o lugar dos critérios de avaliação a capacidade de expressão escrita dos alunos, e, principalmente, a sua capacidade de memorização, as quais, evidentemente, não são as “capacidades” mais apropriadas para serem avaliadas numa disciplina deste calibre. Sem falar que a avaliação dita “qualitativa” (M. Bom, Bom, etc.), prejudica gravemente a análise do aproveitamento do aluno, pelas mesmas razões que o sistema 2 a 5, que foi recentemente alterado, devido às suas profundas deficiências, para 0 a 20, a chamada “avaliação quantitativa”: na verdade só muda o nome entre a avaliação “qualitativa” e a de 2 a 5, pois os escalões são os mesmos, advindo os mesmos problemas de ter divisões tão vastas: torna-se demasiado subjectivo e alvo de fácil falha a distinção entre os alunos nos extremos dos escalões. E tudo isto sem mencionar a dificuldade da sua integração no seio das notas das outras disciplinas, que usam a escala de 0 a 20, integração essa que é de toda a importância, como se pode verificar pela parte destacada do parágrafo seguinte;

3. Por ultimo, há o facto indecente de a maioria ou pelo menos grande parte dos professores da disciplina não terem formação a nível de pedagogia e principalmente de psicologia e serem permissivos e , e tanto o sistema como (por inerência) os alunos e respectivos professores dão pouca importância à disciplina, que acaba por adquirir a definição de “disciplina fácil”, na qual toda a gente passa, etc., o que é inacreditável, pois a FPS pelo seu objectivo devia ser a disciplina mais importante de todas: afinal, a escola tem como objectivo geral preparar os alunos para a sua inserção na sociedade, tanto a nível de conhecimentos (saber fazer), como a nível de comportamento e interacção social (saber ser), o que é de facto o objectivo específico da disciplina de FPS!

Ora, a uma Disciplina com essa importância deve ser evidentemente dispensada toda a atenção, pois trata-se de uma área sobremaneira sensível, atenção essa que não tem vindo a ser concedida, tendo em conta a proliferação de mudanças necessárias no seu seio, das quais passo a enumerar algumas:

- É necessária, antes de mais, uma profunda revisão do currículo da disciplina, revisão que há muito vem sendo aclamada e reivindicada por diversas entidades e personalidades, bastas vezes publicamente e nos media nacionais. Deixo o adiantamento do conteúdo dessa reforma para os entendidos na matéria, até porque seria demasiado maçador referi-los todos aqui;

•- Sente-se agudamente a falta de professores com formação específica para esse tipo de ensino. E não só: para os objectivos dessa disciplina, são necessários professores jovens de espírito, inovadores e criativos, capazes de captar a atenção dos alunos e influenciá-los positivamente, nos âmbitos da disciplina.

• - A avaliação do comportamento do aluno (assiduidade, pontualidade, respeito pelos colegas, professores e edifício da escola, etc.) deveria fazer parte integrante da nota da disciplina (por motivos óbvios), em vez de ser simplesmente anexada à pauta das notas; Nem é preciso dizer que estas não contam na avaliação das outras disciplinas, que deve depender não do comportamento do aluno mas sim da sua assimilação da matéria. Por outro lado, Não seria necessário haver faltas de disciplina, se fossem dadas punições (trabalhos úteis à escola), que certamente se revelariam mais eficientes, visto terem repercussões mais “palpáveis” para os alunos (pois um aluno indisciplinado, violento ou rebelde, não daria muita importância por ter no livro de ponto e na pauta uma falta de disciplina, ou por ver a sua nota diminuída pela indisciplina que cometeu, e muito menos por um ou mais “dias de casa” (o que, pelo contrário, até o agradaria, não ter que suportar por um(ns) dia(s) a “chatice” da escola), desde que consiga passar no fim do ano; enquanto que com certeza pensaria duas vezes antes de riscar a parede da escola, por exemplo, se tiver que limpar ou até pintar o que riscou, mesmo que não seja a suas expensas), e seria nesse sentido útil aos objectivos da disciplina ser o professor da mesma a gerir tais “punições”. Seria, portanto, uma questão de penalizar a violência física ou moral, perturbação das aulas, desrespeito aos colegas ou professores, danificação da escola, etc., como parte activa da formação ministrada pela disciplina de FPS.

•- Os métodos de ensino deveriam incluir promoção da discussão e debate de assuntos diversos de importância social ou emocional (homossexualidade, aborto, problemas pessoais, problemas políticos e internacionais, etc.), conversas com pessoas relacionadas com a matéria que vai sendo dada, entre outros, de modo a desenvolver a capacidade argumentativa dos alunos e a formação da sua opinião pessoal, bem como tornar a disciplina mais desafiante e interessante

•- Deveria ser reservada uma boa parte do tempo lectivo para orientação vocacional/profissional, se não como parte integrante da sua formação pessoal, pelo menos como preparação para a posterior escolha das áreas, no 3º ciclo.

•- É incontornável que a cidadania, a criação de consciência social, através do incentivo dos alunos a ser activos na escola, na sociedade, e consequente formação da responsabilidade social dos alunos, seja um dos elementos centrais da disciplina, sendo para isso um método bastante eficiente e simbiótico, a colaboração com a Associação de Estudantes da escola, nas suas diversas actividades.

Muito mais, sem dúvida, há que dizer acerca deste tão vasto assunto; mas certamente que se estas pequenas premissas fossem postas em prática, teríamos uma FPS realmente eficiente, formando jovens que no futuro tomariam as rédeas das famílias, da economia, do governo, em suma, do país em si, gerindo-o com competência e responsabilidade, lançando a nossa nação numa fase de desenvolvimento humano sem precedentes.

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Friday, April 30, 2004

Sofistas Modernos

(Publicado no Artiletra nº 57, de Abril/Maio de 2004)

Saudações, caro leitor! Volto a escrever-te para desta vez falarmos um pouco da contradição que reina no actual sistema educativo, a nível praticamente global.

Penso que o leitor facilmente concordará que o actual sistema de educação, não só podia melhorar (como tudo nesta vida, o que é perfeitamente natural, visto que nada é perfeito), como também poderia estar em muito melhor estado pelas condições que temos hoje reunidas (o que já não é tão desculpável assim, visto basear-se na teimosa resistência humana em mudar.

Como refere Paulo Coelho em Brida, foi um erro que pôs o mundo em andamento: quando, nos primórdios da história planetária, depois de surgir a vida, os mares rapidamente ficaram “infestados” de células a reproduzir-se continuamente. E foi um erro de funcionamento numa das células que fez com que algo a diferenciasse das outras. Foi o início do que chamamos “evolução”. Desde então, após incontáveis “erros”, a vida chegou ao que é hoje. No entanto, nós na nossa típica presunção humana, insistimos na ideia que os mutantes são aberrações, apesar de tentativas de mudar essa ideia, por exemplo da saga X-Men.

É claro que nem todas as mudanças são positivas, mas é tropeçando que se aprende a andar. Se ficarmos parados, morreremos de inanição!

É por isso que defendo que o homem actual não deve ter medo de errar, de mudar. Até porque as mudanças que possamos operar na nossa espécie (estou a falar a nível organizacional, não genético) serão mudanças pensadas, racionais, enquanto que as mutações evolutivas são aleatórias, portanto, com muito mais chances de resultar erradamente. E no entanto veja-se aonde a Natureza nos trouxe com esse processo: temos uma biosfera variadíssima, e um eco-equilíbrio espantoso!

Assim, e entrando especificamente no tema acima intitulado, eu diria que umas mudanças na própria essência do processo educativo poderia ter resultados bastante bons. Falo concretamente do que se aprende quando se começa a aprender filosofia: a oposição que Sócrates fez ao regime de ensino dos Sofistas, que faziam os seus discípulos recitar de cor as obras dos mestres anteriores.

Mas, apesar de se enaltecer a posição de Sócrates, a verdade é que continua-se a ensinar exactamente (bem, quase) do mesmo modo: em português, em vez de se ensinar a ler, a interpretar e a escrever, fazem com que os alunos fixem nomes de classes de palavras, recitem regras gramaticais, etc. (não é à toa que se aprende muito melhor e mais rapidamente o francês se passarmos umas férias na França do que se passarmos cinco anos a estudá-lo na escola); em física, faz-se com que os alunos memorizem as várias fórmulas (nem um físico profissional tem-nas todas na ponta da língua, afinal os livros servem é para isso mesmo), em vez de favorecer o raciocínio lógico; em filosofia, passamos dois anos a fixar o que pensavam os filósofos ocidentais dos últimos milénios, e no fim, quantos dos alunos realmente se interessam por filosofar? Um, dois por turma, quando muito. O que se quer ensinar, afinal? Parece que querem formar professores dessas disciplinas, e não executantes dessas técnicas. E FPS, então? O que é feito da cidadania, do altruísmo, dos valores sociais que em princípio deviam ser desenvolvidos por essa disciplina?

De facto, não defendo uma reviravolta total – nem oito nem oitenta; mas a situação actual tende demasiado para o lado sofista; os testes escritos e a respectiva correcção só incentivam a memorização da matéria; o tempo que se perde a passar a matéria para o caderno não permite que os professores a expliquem convenientemente (os currículos são demasiado extensos); há todo um processo cíclico que desencoraja a colocação de dúvidas e certos professores comportam-se como se fossem infalíveis, metem medo aos alunos, pois têm a faca e o queijo na mão…

A consequência de tudo isto é que os alunos simplesmente perdem o gosto por estudar, perdem a curiosidade que tinham na infância, e estudam pela obrigação de apanhar boas notas (isto é, notas que lhes permitam passar), e não pelo prazer de aprender, característico dos seres humanos.

Isto é grave, pois a sociedade vai-se aos poucos deteriorando, cada vez menos pessoas desempenham a sua função com prazer, o desemprego aumenta por as habilitações exigidas excederem o que a maioria atinge… e, pior que tudo, o trabalho torna-se uma obrigação que se tem que cumprir para poder ganhar o pão de cada dia (interesse egoísta), em vez de ser o contributo do indivíduo para a sociedade (interesse altruísta). Isto sem falar no aumento da criminalidade…

Tudo isto é para dizer que mudanças urgentes são necessárias no sistema educativo; nós, aqui no nosso pequeno país, não precisamos esperar que os mais desenvolvidos tomem a iniciativa para depois os seguirmos. Dêmos o exemplo! Tenhamos a coragem de inovar, pois é esse espírito que leva o mundo para a frente… e para cima!

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Wednesday, December 31, 2003

Afinal?!?

(Publicado no Artiletra nº 56, de Dezembro de 2003/Janeiro de 2004)

Mudando um pouco o assunto dos últimos artigos (ou melhor, das 5 partes do enorme artigo que foi o Non Siamo Soli, regresso agora às “origens”, divagando outra vez sobre o ensino.

O título não diz muito do tema, mas exprime bem a sensação que muitos educadores e educandos sentiram aquando do anúncio das novas medidas tomadas pelo Ministério da Educarão (… e Valorização dos Recursos Humanos, adiante VRH).

Diga-se de passagem, “novo” já é um lugar-comum no léxico do referido Ministério (o que é óptimo. Pois ousar mudar, ousar perfurar a inércia pública para o bem de todos, é a melhor qualidade que um ser humano pode ter). Mas, e apesar de a sua mais recente “bomba” ser, como já é costume, um conjunto de medidas maioritariamente acertadas, há que considerar uma minoria de factores negativos provenientes da mesma. esses factores reflectem uma linha de pensamento que remonta aos primórdios do sistema educativo (a nível da humanidade), factores esses que têm vindo incessantemente a ser combatidos pelos pedagogos (os verdadeiros!), mas no global sem sucesso.

Estou a falar dos métodos de avaliação. Mas antes de começar a falar especificamente das medidas do Ministério que falei, permitam-me uma breve exposição sobre o tema (é só o parágrafo seguinte).

Há, como sabem todos os que estão ligados ao sistema educativo, dois métodos de avaliação: a avaliação contínua e a avaliação formativa. Tal como diz o nome, a avaliação contínua diz respeito à análise que o professor faz do desempenho do aluno durante o ano escolar, incluindo como factores determinantes a participação, o interesse, o empenho, bem como os trabalhos de casa e de grupo (embora estes últimos se enquadrem mais, a meu ver, na segunda categoria de avaliação - ou pelo menos numa categoria intermédia. visto que o professor só dispõe das resultados, não podendo determinar com segurança o processo trabalho, que seria o mais importante), e também o comportamento.

Já a avaliação sumativa diz respeito, nomeadamente, às provas escritas que os alunos realizam ao longo do ano. Ora, com um pouco de raciocínio se chegará à conclusão que o primeiro método é muito mais fiável que o segundo, pois nas provas escritas há diversos factores que podem distorcer a informação real que o professor precisa para atribuir a nota merecida ao aluno.

Em primeiro lugar, há as cábulas, das quais derivam inúmeras situações inadequadas (se o aluno tem sucesso, o professor atribui-lhe uma nota que ele não merecia, e além disso ele nem sequer fixa a matéria, quanto mais aprendê-la; se a estratégia falhar, ele vê a sua prova anulada, tendo zero, quando podia tirar mais se confiasse nas suas capacidades e se esforçasse um pouco);

Depois, temos a cópia, um parente próximo da cábula cujas consequências são similares, dispensando assim a sua apresentação; temos ainda o facto de muitos alunos ficarem nervosos com as provas e/ou não serem capazes de se exprimir convenientemente por escrito, o que pode colocar a sua nota abaixo da merecida, só por dificuldades de comunicação – para evitar isso, que tal regressar às boas e velhas provas orais? Em conjunto com as escritas, forneceriam dados muito mais fidedignos sobre as capacidades do aluno, por tornarem impossíveis muitas das “estratégias baixas” acima referidas, e por permitirem uma comunicação muito mais eficiente entre professor e aluno (todos sabemos o quão mais fácil é dizer uma coisa que escrevê-la).

Por último, mas não menos importante (pelo contrário!), há o grande mal das provas: elas exigem apenas uma memorização temporária da matéria, após o que quase tudo é esquecido (mas não influenciando esse esquecimento em nada a nota do aluno). Ou seja. as provas fazem dos alunos meros papagaios. Palram, palram, mas não sabem do que falam. Não entendem nada.

Veja-se: que sentido faz, na disciplina de Filosofia, elogiar a revolução educativa de Sócrates, que quebrou o reinado “papagaial” dos Sofistas, quando até nessa disciplina temos que fazer provas para provar que fixámos toda a matéria?? Não há dúvidas; por mais que não se queira admitir, as provas reprimem o aprendizado, favorecendo a memorização.

Ora, voltando como prometido à medida do Ministério, tem-se que: a avaliação sumativa passa a contar 80% para a nota do trimestre, enquanto que a avaliação formativa só conta com 20%. Com uma conta simples, facilmente obteremos as percentagens dos componentes da avaliação formativa: cada um valeria, em média, 4% para a nota!!! QUATRO POR CENTO!!!!!!

Quem se preocupará com a participação, o interesse, o empenho, o comportamento… 4%?? Que se lixe! Vamos mas é fixar a matéria para a prova, que assim temos a nota garantida. Ou melhor, a matéria é falível: vamos fazer cábula, isso sim! Obrigado, Ministério da Educação! Assim, a nossa vida esta mesmo facilitada!

Será que os responsáveis não vêm que estão fomentando o não-aprendizado? Não vêm que desmotivam os alunos a serem, efectivamente, bons alunos? Não vêm que assim, mesmo os raros professores de boa vontade que tentam fazer uma avaliação justa ficam de mãos amarradas? Não vêm que assim, ACABAM COM AS MÍSERAS PROBABILIDADES DE SE TER ENSINO A SÉRIO EM CABO VERDE??? Ou será uma estratégia para ter menos bons alunos a disputar as bolsas de mérito?…

Caro pessoal do Ministério: vocês acostumaram-nos com medidas acertadas; agora paguem as consequências: nada de retroceder. Não avançar é aceitável (sois humanos). Mas retroceder já não vos é permitido. Bzot sabê manera k’kriol ê…

*   *   *

See you soon, my friends!

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Friday, May 30, 2003

O Grande Problema das Associações de Estudantes

(Publicado no Artiletra nº 51, de Maio/Junho de 2003)

Neste artigo discorrerei algumas linhas acerca da formação, legalização e funcionamento das Associações Juvenis.

I. Criação

Se há uma coisa que é fortemente reprimida (embora inconscientemente) nas sociedades humanas, é a inovação. Ao longo da História temos variadíssimos exemplos de povos que se recusaram a aceitar mudanças nas suas rotinas de vida: um dos piores incentivadores disso foi a famosa “Santa” Inquisição. Quantos não foram queimados, torturados, assassinados, simplesmente por quererem dar o seu contributo ao desenvolvimento da humanidade? Copérnico, Galileu, Giordano Bruno… pergunto-me o quanto a ciência, a filosofia, a raça humana em geral, não poderiam hoje estar já desenvolvidas, se não fossem esses “travões” sociais. Tanto as sociedades mais “primitivas” como as mais “civilizadas” mantêm essa tendência natural, esse “instinto de conservação”, pelo que isso é, infelizmente, um dos muitos defeitos da raça humana que só poderão ser erradicados com alguns milhões de anos de evolução – ou com algumas décadas de terapia genética globalizada…

Portanto, criar uma coisa do zero é tão difícil que desencoraja quem não tenha uma forte personalidade, determinação e força de vontade.

O primeiro grande problema é: quem? Ou seja, como encontrar as pessoas cujos interesses englobem as actividades associativas? Isso já limita um bocado o raio de acção, visto que só se conhecem os verdadeiros interesses dos amigos e conhecidos mais ou menos próximos (pois num primeiro contacto ou em contactos superficiais e em situações não específicas, geralmente só se transmite da nossa personalidade ao nosso interlocutor o que coincidir com o modelo da sociedade para as pessoas da nossa idade, sexo, classe social, etc.).

[Quanto a essa questão, o ideal seria haver uma base de dados pública , no mínimo regional (por ilha), com os dados básicos (nome, idade, sexo, ano escolar, morada, foto, contacto (email) e interesses, hobbies, etc) – havendo tópicos que possam ser seleccionados, para facilitar tanto a “inscrição” como a pesquisa), uma espécie de lista telefónica, mas mais pormenorizada, digamos assim. A Internet , por exemplo, seria um meio mais que satisfatório para por em prática esse projecto. Quanto à privacidade: o que acho que poderia suscitar mais divergências seriam talvez os contactos e a morada, mas estes poderiam restringir-se, sem prejuízo aos objectivos iniciais, a, respectivamente, o email/telefone (que já é, inclusive, público) e a zona/localidade. Dados mais pormenorizados poderiam ser cedidos pela própria pessoa procurada, após um primeiro contacto.]

Segundo grande problema: como? Neste aspecto, refiro-me às bases estruturais para a criação de uma associação de estudantes: que estrutura deverá ter a futura associação, como elaborar os estatutos e regulamentos, enfim, uma perspectiva geral da organização e funcionamento da associação.

[A esse respeito, presumo que seria desejável um modelo, disponível a todos os estudantes, de uma associação de estudantes típica. Os Órgãos, os membros de cada Órgão, os tipos de membros, o regulamento eleitoral, etc.]

São esses os principais problemas que afectam a criação de uma associação de estudantes.

II. Legalização

Criada a associação, resta legalizá-la, oficializá-la, para obter personalidade jurídica e reconhecimento oficial, o que ajuda em muitos campos, principalmente na área de angariação de apoios. Quanto a isso há diversos handicaps:

O grande problema: onde?, ou seja, a quem recorrer, a que instituições pedir instruções para a realização do processo de oficialização? Bom, a verdade é que há uma tremenda falta de informação no tocante a esse processo. A maior parte dos casos de associações legalizadas são casos em que um dos membros da associação conhece pessoalmente algum jurista ou advogado, a quem pede ajuda, e que é quem geralmente redige os estatutos e dá as instruções básicas para a realização desse processo. Ora, por causa disso há uma grande taxa de associações não legalizadas, o que deve ser rapidamente invertido.

[Para tal, devia haver:

  1. uma maior divulgação das leis que se enquadram nesse contexto no ambiente escolar:
  2. um modelo dos estatutos típicos, também divulgado e disponível aos alunos;
  3. mais informações sobre o processo de legalização.

Essas informações deveriam ser distribuídas a todas as escolas, que por sua vez as faziam chegar aos alunos.]

III. Funcionamento

Eis o big problem. Tem-se reparado que:

  1. As associações tendem a ter um período de grande dinamismo com um grupo que está na Direcção, diminuindo ou, por vezes, parando essa actividade assim que esse grupo (quase sempre formado por alunos do mesmo ano ou de anos próximos) termina o ensino secundário, “saindo” da escola;
  2. O Presidente é geralmente o membro mais activo e dinamizador, e o grupo restante tende a “perder o ânimo” quando este, que é na maior parte das vezes estudante do 3 ciclo, termina o 12º;
  3. Há alguns membros do grupo central (a direcção) que trabalham mais, enquanto que outros elementos ficam, por assim dizer, à “sombra da bananeira”, colhendo os louros de ser membro da associação sem no entanto contribuir para a realização das actividades (excepto festas, convívios, para quais estão sempre prontos), e por vezes mesmo atrasando ou dificultando o trabalho dos outros, mas que, por dificuldades estatuárias e funcionais (a necessidade da realização de uma Assembleia Geral cada vez que se quiser demitir um membro da Direcção), ficam ate o fim do mandato, que é muitas vezes de dois anos.

[Esse é um problema interno que deve ser resolvido pelos membros da associação. Há factores que podiam facilitar (por exemplo, a base de dados de interesses que referi acima) o agrupamento de pessoas verdadeiramente competentes e responsáveis. Mas a gestão interna do pessoal conta também, e muito: por exemplo, nós da Associação dos Estudantes do Liceu José Augusto Pinto, criámos comissões de trabalho, de modo a descentralizar a actividade da Direcção, delegar responsabilidades, aumentar o número de alunos que participam activamente na associação, e isso tem-nos ajudado imenso no funcionamento, até porque, como estudantes, temos que conciliar o horário escolar com o das actividades da associação. Mas, agora que foi criada a Federação Nacional de Estudantes, este problema já poderá ser mais facilmente ultrapassado pelas associações de estudantes, pois uma das principais metas da Federação é ajudar as associações de estudantes a levantar-se e andar com os próprios pés. Mas prometo dar mais tarde informações mais específicas acerca, principalmente, da criação e legalização de associações de estudantes. Aguardem…]

Nota: O artigo que dá sequencia a este é o “A Legalização“, publicado em Novembro de 2005.

Posted by Waldir Pimenta at 18:21:58 | Permalink | Comments (1) »