Este artigo pode parecer ser um daqueles que falam de assuntos chatos e complicados, para pessoas “cultas” e sérias, mas, na verdade, interessa também (também, é como quem diz, principalmente, para não dizer exclusivamente) aos jovens estudantes. Fala o título de “meios estudantis”. Ora bem, o que isso quer dizer? Vou tentar responder. Quando digo meio, quero dizer precisamente o ambiente existente entre os estudantes, os comportamentos, as atitudes e reacções, enfim, o modo de estar uns com os outros; mas não só, também incluo as condições existentes em cada escola, que indubitavelmente contribuem para a variação dos comportamentos dos alunos.
Mas afinal, existe ou não diferença entre os meios estudantis de cada ilha? Se existem, quais são? Quais são os aspectos positivos e negativos de cada um? Bom, usarei os exemplos da Ilha do Sal e de S. Vicente, porque eu, que actualmente estudo o 10º ano em S. Vicente, até o nono estudei no Sal, e por isso julgo que posso fazer um balanço aproximado da realidade.
No Sal, as condições são um pouco menos favoráveis que aqui em S. Vicente, nomeadamente a quantidade e a qualidade dos professores (aliás, foi por isso que eu vim estudar aqui). Por exemplo, já por duas vezes tive que fazer a prova global por não ter tido professor de uma das disciplinas durante todo o 1º semestre. Ora, essa situação origina mais furos (“pancas”, na linguagem dos estudntes), e, consequentemente, estamos (nós no Sal) mais acostumados a arranjar que fazer nessas horas. Aqui, só os intervalos já são um tédio, quanto mais os furos. E, para piorar, no Mindelo as distâncias são maiores, e não se pode dar ao luxo de ir a algum lugar fazer algo para passar o tempo, sem perder um bom bocado do mesmo na deslocação.
Costuma-se dizer que em S. Vicente há mais para fazer, a vida é mais “sabe”, etc., mas na verdade, a única diferença é que os filmes chegam geralmente mais tarde ao cinema do Sal…o que serviria mesmo para quebrar a rotina era um concurso bem organizado, como o que foi realizado no Sal por ocasião do 18º aniversário da ASA e do 11º aniversário do Artiletra, ou algo parecido… talvez uma sala de convívio na escola, enfim, as possibilidades são imensas.
E depois, no Sal há menos pessoas, e praticamente todos se conhecem, pelo que se pode ser relativamente “franco” uns com os outros. Aqui, raramente se troca palvras com alunos que não sejam da nossa turma (às vezes nem isso) ou antigos colegas de sala. Isto origina uma enorme pressão da sociedade, fazendo com que haja pouca expressão ondividual, quero dizer, às tantas comporta-se do modo que os outros querem - esperam - de nós, e certas coisas que gostaríamos de fazer ou dizer, ficam reprimidas, se vão contra o conceito de “cool” dno meio adolescente. É claro que no Sal isso também existe, aliás, isso é um fenómeno generalizado não só a todas as sociedades do mundo, como também a todas as faixas etárias.
Mas nem tudo são espinhos, como pode parcer depois de ler este texto até este ponto. Não quero, de maneira nenhuma, dizer que o Sal é melhor que S. Vicente. quanto às condições de estudo, admito que, pelo menos até agora, S. Vicente tem ultrapassado a ilha do Sal, mas isso não quer dizer que nesta ilha o meio estudantil é melhor ou pior que nas outras. Há quem diga que, por haver mais essoas, tem-se a oportunidade de conhecer mais amigos, e a convivência torna-se melhor e mais diversificada.
O que quero concluir de tudo isto é que, ao contrário do que nos diz o título deste artigo, não há diferença entre os meios estudantis das ilhas, e se houver algum desiquilíbrio, este é causado pela falta de melhores condições de estudo. O resto é boato. Não há meios mais civilizados ou modernos, nem antiquados ou qualquer outra coisa. Somos todos jovens cabo-verdianos, tentando tirar o melhor proveito da nossa adolescência, estudando e convivndo uns com os outros. E para isso devemos, sim, exigir melhores condições, e igualdade de oportunidades de ilha para ilha, sem discriminação ou favoritismo.